DEVIL MAY CRY 5-Devil Never give Up
13 Aliança-parte 02
Notas iniciais
O grupo comeu e conversou por um tempo, sempre com Dante contando as situações mais absurdas e divertidas pelas quais passou na Agência Devil May Cry. Maud também contou de suas viagens ao continente antes de estabelecer definitivamente em Enuma. Foi então que ela mencionou o dia que conheceu o Cavaleiro Negro Sparda.
Todas as atenções se voltaram para a anciã. Até mesmo Vergil, à distância, ergueu os olhos para o jardim e esperou. Maud tomou outro gole do vinho e falou:
—Foi uma viagem longa após um tempo de luto pelo que passei. Precisava entender aquela nova fase de minha vida. Eu visitei uma cidade que fazia fronteira com a região desértica, no Oriente eu acho. Ali passava toda sorte de viajantes e também era ponto de comércio de mercadorias de todo o continente. Eu estava aprendendo sobre curas e terapias, assim poderia encontrar o que precisava nesse lugar diversificado. Foi então que uma caravana passou pelo centro. No carro principal viajava um homem elegante. Parecia pertencer a alguma família nobre e muitos se curvavam durante seu trajeto.
Perguntei a um vendedor quem era o cavalheiro e o homem mencionou que o nobre era um guerreiro valoroso que lutou contra hordas de demônios. Seu nome era Sparda e uma lenda dizia que ele viera do submundo e passou a defender a raça humana.
Maud suspira. Dante e V tinham os olhos pousados na mesa, pensativos. A Anciã sorriu de leve:
—Eu permaneci na cidade enquanto a caravana de Sparda esteve lá. Eu o segui em todos os lugares e descobri o que comprava, onde comia ou dormia, com quem falava. Por um tempo fiquei fascinada por sua figura enigmática, até que uma noite, enquanto eu caminhava de volta à estalagem onde me hospedei, fui abordada por ele. Devem imaginar o susto que levei, mas também fiquei exultante por ter chamado a atenção daquela importante pessoa.
Caminhamos por um tempo, conversando sobre uma porção de coisas relacionadas à política dos continentes, ciências ocultas e sobre o mundo inferior. Ele perguntou se eu o temia e disse que não. Estava aliviada por saber que ele estava do nosso lado. Então ele mencionou uma mulher, Eva, que ele conheceu e a quem admirava. Pela primeira vez eu o vi sorrir. A caravana partiu ao amanhecer e eu segui meu caminho. Agora vejam só! Hoje eu estou jantando com seus filhos e neto, que foi cuidado em nossa querida ilha. A vida é algo fascinante!
Dante ergueu o copo:
—Um brinde à Maud. Sua história ganhou...
Todos ergueram os copos e o céu tremeu com um trovão. Maud suspirou:
—Ela chegou! Mas generosa, nos permitiu jantar em paz por um tempo precioso.
Inanna se levantou e foi até a mãe:
—Vá descansar. Eu cuido da mesa e arrumo tudo na cozinha...
Maud sorriu e beijou o rosto da filha:
—Meu tesouro mais precioso... Esta velha teve muita sorte de te conhecer.
Todos saíram da mesa e Nico cutucou Nero:
—Acho que o vinho está fazendo efeito na Maud...
Um sorriso bobo no rosto corado de Nero fez Nico cair na gargalhada:
—Minha nossa!
O rapaz balançou a cabeça e foi até Kyrie. A moça riu ao ver o namorado um pouco alterado:
—Acho que é hora de você se deitar também!
—Estou muito bem, senhorita! Sou um Sparda! Acha que esse vinho fraquinho pode...
Ele para de falar e boceja. Kyrie o abraça e o puxa na direção do farol:
—Fim de conversa!
Dante apanha o caldeirão e leva de volta para a cozinha. Nico recolheu as tigelas e talheres e Inanna permaneceu, recolhendo os copos. V aproximou-se:
—Deixe-me ajudar você.
Ela ergueu o olhar para ele:
—Oh! Por favor, não se incomode, Senhor V.
Ele tomou a jarra de água e a garrafa de vinho da mesa e seguiu para a cozinha. Inanna limpou a mesa e foi em seguida. Dante estava parado junto à porta e bocejou:
—Acho que aquela cama está me chamando. Inanna! Você e sua mãe estão no topo da minha lista. Obrigado pelo jantar divino!
Inanna sorriu e voltou sua atenção para o vasilhame a ser lavado. Dante olhou para V, ali parado em silêncio:
—Irmão... Que tal dar uma mão à nossa anfitriã? Afinal estamos bem alimentados e aquecidos por causa dela e sua mãe!
V se aproximou da pia:
—Por onde começamos?
Inanna viu Dante saindo rapidamente e bufou, mas a voz de V a trouxe de volta aquela situação. O homem ao seu lado arregaçou as mangas da blusa e começou a retirar o resto de comida das tigelas, jogando tudo no que parecia ser uma lixeira da cozinha. Inanna suspirou, derrotada, e começou a ensaboar os vasilhames, enxaguando e depois passando para V, que os enxugava. Era uma atividade rotineira para a jovem, mas a presença do homem ali a tornava algo incomum.
Vergil sentiu os primeiros pingos da chuva e voltou seu olhar para o farol. Seguiu pela trilha abaixo rumo à casa do pescador e foi recebido pelo homem, convidando a se recolher. No quarto agora ocupado apenas por Dante, o guerreiro se acomodou na cama e fechou os olhos.
Dante falou com a voz pesada por causa do vinho:
—Se eu não o conhecesse o suficiente, diria que está provocando a moça...
Vergil abriu os olhos:
—Não vejo nenhuma utilidade nisso.
—Você não... Sua metade humana. Ele está muito à vontade com isso, não acha?
Dante se virou de lado e pouco depois, Vergil ouviu um leve ronco do caçador. Lá fora, a tempestade caiu com toda a força, onde trovões e relâmpagos faziam tremer a pequena ilha.
Inanna guardou o último copo e voltou sua atenção para o homem parado à janela, observando a chuva torrencial. Ela aproximou-se e olhou para fora também. Então falou:
—Agradeço a ajuda.
—Foi um prazer.
A jovem foi até a porta e ergueu a mão, deixando a água da chuva encharcá-la. O vento frio fustigava seu vestido e tranças, mas ela não se incomodou. Olhou o jardim logo abaixo e as árvores do pequeno pomar desaparecendo por trás da cortina espessa da chuva. V aproximou-se dela a poucos passos e falou:
— Acho que estou preso aqui até que essa tempestade passe... Isso incomoda você?
—Não. Fique à vontade. Talvez encontre algo que te distraia na biblioteca...
O rosto de V se iluminou com um sorriso quase infantil. Ele curvou-se num comprimento:
—Então me despeço, senhorita. Obrigado pelo delicioso jantar. Boa noite...
E subiu para o próximo andar rumo à pequena e preciosa biblioteca de Maud. Inanna permaneceu ali, olhando a noite escura que avançava e a tempestade que parecia ainda mais forte. Algo se agitava em seu interior.
Passava da meia noite quando a chuva reduziu seu volume, caindo suavemente. Inanna abriu os olhos e percebeu que estava sentada no chão, encostada ao batente da porta. Ela olhou o jardim e percebeu uma leve luminosidade entre as plantas. Levantou-se e caminhou devagar, a chuva fina umedecendo sua túnica.
Na biblioteca, V estava deitado no chão, um livro aberto sobre o rosto e sua respiração profunda e contínua indicando que dormia. Ele moveu-se em pequenos espasmos. Um sonho tomando forma em sua mente.
Inanna chegou até onde havia moldado as esferas de terra e percebeu que estavam destruídas. Uma estranha gosma luminescente escorria delas e a jovem tocou aquilo:
—O que...
Então ela escutou o som de guinchos e trinados suaves vindo das folhagens mergulhadas na escuridão. Inanna recuou devagar e percebeu pontos brilhantes entre as plantas, mirando-a intensamente.
No farol, sonhando, V se viu sentado no jardim estendendo a mão para algo que se escondia. Ele viu pontos brilhantes e chamou:
—Venham!
Ao mesmo tempo, Inanna percebeu pequenas formas se movendo para fora do escuro e encheu-se de medo. Virou-se para correr, mas algo segurou um dos seus pés e ela caiu sobre as folhagens. Ouviu o bater de asas como se algo tentasse levantar voo e virou a cabeça para trás. Seus pensamentos trouxeram a lembrança do parasita invasor que atacou Nero e ela invocou as raízes ao redor, mas nada aconteceu. Uma nova atividade surgiu na vegetação ao lado dela e Inanna abriu muito os olhos. Um único ponto lilás brilhante piscou para ela.
V sorriu em meio ao sonho quando três formas familiares se aproximaram dele. Uma lembrava um pássaro, as outras um gato e um homúnculo.
Na casa do pescador, Vergil abriu os olhos e sentou-se de uma vez na cama. Olhou ao redor e saiu do quarto para fora, para a chuva fina que caía. Seus olhos focaram no farol e ele murmurou:
—Porque está sonhando com eles? O que está acontecendo aqui?
V acordou após sentir o alerta de sua outra metade. Ele pestanejou e levantou-se. O único som ao redor era o da chuva. Desceu à cozinha e não havia sinal de Inanna. Então ele viu um estranho movimento no jardim e ficou apreensivo:
—O que ela está fazendo?
Ele correu e viu a jovem deitada, imóvel e encolhida em meio à terra encharcada. V aproximou-se, preocupado:
—Ei! Inanna?
De repente, encolhidos entre os braços dela, totalmente aninhados a seu corpo, estavam três seres semelhantes à Griffon, Shadow e Nightmare, mas pequenos e pálidos, como filhotes. V caiu sentado no chão, assustado. Então Inanna virou seu rosto na direção do homem, os olhos dourados. A voz dela era como o som da chuva:
—Mi proponas sonĝojn anstataŭ tio, kio iam estis la kaŭzo de doloro. Ili proponis sin por via elaĉeto. Mi ne malŝparis tiun oferon.
*Eu ofereço os sonhos no lugar do que um dia foi causa de dor. Eles se ofereceram para sua redenção. Eu não desperdicei esse sacrifício.
Lágrimas tomaram a face pálida De V e ele segurou o peito com força. À porta da cabana do pescador, Vergil cobriu a boca, surpreso, sentindo o rosto e os olhos ardentes. Ele ouviu e compreendeu cada palavra naquela língua estranha, talvez esquecida no tempo e cujas origens se estendiam do firmamento às profundezas da terra.
A claridade da manhã obrigou Inanna a abrir os olhos e ela sentiu o corpo aquecido. Piscou algumas vezes para melhorar o foco e notou braços ao seu redor. Deitado ao seu lado, abraçando-a por trás, V dormia. Ela moveu-se devagar, então notou que mais coisas se aninhavam junto a si.
Um pequeno pássaro branco leitoso, com penas finas que cobriam o corpo, ressonava na curva do seu pescoço. Junto ao peito, o que seria um filhote de gato robusto dormia com as patinhas para cima, totalmente aconchegado a ela. Um pouco abaixo, na altura do umbigo da jovem, encolhida estava uma criatura que não se parecia com nenhum animal. Parecia uma escultura grosseira de um homem corcunda, com membros inferiores e superiores desproporcionais.
Atônita e presa àquela situação, Inanna tentou se levantar, mas V não se moveu. Ela virou a cabeça em sua direção. Os olhos dele pareciam levemente inchados e a moça franziu o cenho:
—Senhor Sparda?
Ele gemeu baixo e afundou o rosto na nuca dela, entre suas tranças e ela sentiu o coração disparar:
—Quê? Oh, não! S-Senhor Sparda! V!
O homem abriu os olhos devagar e suspirou. A primeira coisa que percebeu é que estava deitado no chão úmido. Que sentia um calor reconfortante em seu peito e estava envolvendo a cintura de um corpo pequeno e esguio com seus braços tão intimamente, que podia sentir os batimentos do coração da pessoa.
V arregalou os olhos e abriu os braços, erguendo-se de uma vez e recuando para trás, ainda sentado no chão enlameado. Ele olhou ao redor e exclamou:
—O quê? O que estou... Oh!
Inanna ainda permaneceu deitada de costas para ele, as mãos cobrindo o rosto. V aproximou-se devagar:
—Você está bem? O que aconteceu?
Ela ergueu meio corpo e as figuras aninhadas a ela gemeram baixinho, reclamando. V exclamou:
—Não foi um sonho!?
A jovem moveu-se devagar para não importunar as criaturas que continuaram dormindo. Ela voltou seu rosto na direção de V e seus olhos estavam castanhos, visivelmente cansados e ela falou com voz embargada:
—Vá embora...Por favor.
Ele se levantou. As roupas sujas de terra e os cabelos grudados na testa e rosto davam a V a aparência de um náufrago. Inanna ajoelhou-se e afastou as criaturas amontoadas entre si buscando calor enquanto ainda permaneciam dormindo:
—Isso não foi um sonho meu... São... Lembranças suas! Estão se manifestando através de Enuma... Através de mim!
Vergil surgiu na entrada. Seus olhos estavam mais brilhantes que o normal e ele encarou V:
—Hora de voltar.
V cerrou os punhos e seus olhos se estreitaram, furiosos:
—Estou numa situação aqui... Eu decido quando voltar.
Inanna ergueu o olhar, assustada ao presenciar o conflito entre eles. Ela levantou-se e avançou contra V, tentando empurrá-lo:
—Eu já disse! Vá embora! Volte de onde veio! Volte para sua...
Sua voz morreu no meio da frase. Ela cambaleou, mas V a segurou pelos ombros:
—O que...
Continua...
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