D.E.T - Demônio em Treinamento

1 Atticus - O diabo tem olhos claros e gosta de maçã


Notas iniciais
Espero que gostem xD

Morar em uma cidade pequena é algo maravilhoso, certo?

Errado.

Isso significa que todo mundo se conhece, o que consequentemente vai significar que todo mundo vai saber todas as besteiras que você faz. É como uma bola de neve, que cresce e cresce cada vez mais enquanto vai rolando. As fofocas sempre são espalhadas pelos vizinhos, mas isso não foi necessário no meu caso: a minha vergonha foi pública.

Imagine o seguinte cenário: um dia de sol, pássaros cantando e flores desabrochando. Lindo. A maior parte dos habitantes da pequena Sea Ville se reunindo na praça para a Vigésima Quinta Feira de Ciências da Einstein High.

Incrível, não é?

Talvez um pouquinho.

Agora, imagine um garoto — vamos chamá-lo de Winston -, correndo com seu projeto perfeito em mãos: uma representação magnífica de Saturno.

Winston ficou mais de duas semanas fazendo e refazendo o projeto. Só achei importante que soubessem.

Pois bem, Winston vê a garota por quem ele é apaixonado desde a sétima série no centro da praça, um ótimo ponto para que veja todos os estandes.

E adivinhem?

Magicamente, ela sorri para ele. E, ao invés de sorrir de volta, algo acontece e Winston cai no chão.

Puff.

Lá se vão semanas de sangue, suor e lágrimas, caindo no chão sujo da praça numa confusão de bolinhas brancas de isopor.

Lamentável.

Agora, vamos lá. Substitua Winston por Atticus Acet.

Fez isso? Okay.

Prazer. Eu sou Atticus Acet, mais conhecido como o "coitado da Einstein High".

Francamente, eu sou patético.



Ir para a Einstein High, mesmo que tenham se passado quase dois meses desse acontecimento, ainda é algo que realizo com um esforço hercúleo. Eu ando pelos corredores de cabeça baixa, porque algo sempre acontece para que eu passe vergonha.

Myca diz que há um lado bom nisso: Sage Markley agora sabe que pode arrumar algo melhor. É por essas e outras que me pergunto o motivo de ainda ser amigo dele.

Nesse exato momento, estou terminando de abotoar o último botão da minha camisa azul marinho. Eu observo meu reflexo no espelho e ajeito meu cabelo escuro de novo.

Suspiro. Estou começando a considerar a hipótese de me mudar para a Turquia.

— Atticus? — o chamado vem acompanhado de uma batidinha na porta de madeira escura.

É a minha irmã mais nova, Faye.

— Estou pronto. Pode entrar — digo, juntando umas poucas folhas da minha escrivaninha de vidro. São meu trabalho de Francês.

— A mamãe está chamando. Vamos nos atrasar.

Olho por cima do ombro. Faye está com os cabelos loiros soltos. Algo raro, se eu considerar todos os seus catorze anos de vida. Ela usa um vestido roxo e sandálias, tudo perfeitamente arrumado.

Sorrio.

— Bom dia, monkey. Eu já estou indo.

Ela revira os olhos para o alto e entra no quarto completamente, fechando a porta com cuidado. Caminha até mim.

— Você está agindo de forma estranha desde... desde o "evento" — diz, cruzando os braços após fazer aspas com os dedos. As unhas estão pintadas de azul.

O "evento" é como chamamos o fiasco da feira de ciências.

Dou de ombros e abro a bolsa, dando as costas à ela. Guardo as folhas numa pasta de plástico e passo a alça pelo meu peito, finalmente olhando-a de forma correta.

— Eu não estou fazendo nada. Só acho que tudo no universo acontece por algum motivo, então com certeza existe um bom motivo para que eu me atrase hoje.

Faye revira os olhos para o alto de novo. É algo que ela faz muito. Então, ergue suas mãos e as pousa na minha gola, ajeitando-a do seu próprio jeito.

— Você sempre usa essa mesma desculpa, Attie. Está na hora de parar de achar que perder seus primeiros horários é algo bom.

Os olhos de Faye são claros como os do nosso pai, estão num tom entre o verde e o cinza. Eu gosto deles; ela prefere os meus.

Nossa vida é um impasse contínuo.

Um sorrisinho nasce no canto dos meus lábios e ela bufa, me puxando para fora do quarto.

— Seus olhos estão azuis hoje — comenta, abraçando minha cintura enquanto descemos as escadas.

— É, mas não é como se eles já não estivessem assim a maior parte do tempo.

Minha cintura arde de leve com seu tapa e eu finjo uma careta de dor, arrancando dela a risada mais adorável do mundo.

— Você é um estraga prazeres.

Encolho os ombros, soltando-me de seu abraço para abrir a porta da frente.

— Fazer o quê? Eu ao menos sou amado.

— Meu amor não conta! — ela grita, correndo até o carro.

Uma gargalhada escapa pelos meus lábios sem que eu possa conter. Enfio as mãos nos bolsos do jeans, caminhando até a Picape prateada.

Minha mãe está ao telefone, mas desliga assim que vê Faye entrando e se sentando no lugar do passageiro. Aproximo-me e lhe dou um beijo no rosto.

— Bom dia.

— Bom dia — ela sorri e passa a mão nos cabelos loiros. São muito claros. — Faye roubou seu lugar?

— Sim. Mas tudo bem, não me importo — abro a porta e me sento, vendo-a rir e andar até o outro lado do carro.

Meu celular anuncia uma nova mensagem no mesmo instante em que minha mãe liga o carro, saindo de perto do acostamento e indo em direção à Einstein High.

— Quem é? — Faye pergunta, olhando para trás.

— Ainda não sei. Espere.

Não o desbloqueio, simplesmente leio. A mensagem vem de Myca.

Myca [06:57]: Estamos esperando você, seu medroso :)

Reviro os olhos e Faye ri alto.

— É do Myca.

Arqueio a sobrancelha.

— Ah, é? E como sabe, espertinha?

— Você só revira os olhos quando a mensagem vem dele — faz uma careta pensativa extremamente falsa. — A Sage não te manda mensagens ainda, e você geralmente ri quando as mensagens são da Erin.

— Erin? — a minha mãe pergunta, olhando para mim pelo pequeno espelho. — A filha do Simons?

Assinto, ignorando rapidamente o que Faye disse sobre Sage, que por acaso é a tal garota que o Winston ama desde a sétima série.

Sage Markley é uma garota ruiva não muito alta e adorável. Ela vive usando moletons largos e tem uma queda enorme por Star Wars. Sei disso porque ela quase teve um surto ao abrir o presente de aniversário que lhe dei: um moletom do Darth Vader. Depois disso, desatou a falar sobre. Sua empolgação é bonitinha.

De todo modo, nosso relacionamento se resumia a umas poucas saídas em grupo e cumprimentos no corredor. É algo ínfimo.

Faye estala os dedos ao lado do meu ouvido e eu pisco com o som repentino.

— O quê?

Ela está achando graça. É dessa forma que eu sei que tinha desligado em algum ponto da conversa.

— Nós chegamos na escola, Attie. Está na hora de sair da caverna.

Em seguida, saio do carro, respirando fundo e rezando para que nada dê errado.



A Einstein High é um enorme edifício branco, com vários andares e corredores, sendo um verdadeiro labirinto para quem não está acostumado. Por sorte, eu estou. Mas, por puro azar, encontro Myca e Erin logo na entrada.

Myca é um cara alto e negro, com um sorriso bastante claro e zombeteiro. Ele trabalha na cafeteria próxima ao colégio — às vezes, me dá donuts de graça.

Erin é uma garota baixinha e muito, muito branca. Os cabelos estão tingidos de azul e roxo, mas eram escuros antes de toda a química. Ela tem uma aparência frágil, o que realmente não condiz com seu jeito meio grosso.

Eu os adoro e sou realmente muito grato a eles.

— Bom dia — abafo um bocejo com a mão. — Vocês não deveriam ter me esperado.

— Eu também achei isso, mas Myca insistiu — Erin dá de ombros, ajeitando o óculos no rosto. Sua blusa roxa e larga tem uma frase que diz algo sobre odiar segundas-feiras.

Volto o olhar para ele.

— Eu achei uma boa ideia entrar depois de todo mundo.

Suspiro. Sei muito bem o que está acontecendo.

— Você tem prova de História no primeiro tempo, não é?

— Tenho — ele me abraça. — Viu só, Erin? O Attie me entende.

— Só a minha irmã me chama desse jeito.

Myca me solta.

— Tanto faz, seu careta. Venha, eu preciso do seu cérebro abençoado.

Sigo-o pelos corredores, ouvindo Erin tagarelar sobre um cara que estava dando em cima dela nos comentários de seu vídeo. Algo meio humilhante, na minha opinião.

Eu realmente estou prestando mais atenção em olhar por onde estou andando, não quero mais cair no chão.

Às vezes tento encontrar um motivo para que o universo me jogue tanto lá.

Talvez seja para eu aprender que sou um perdedor.

Meu estômago se contrai, e eu mando o pensamento para longe. Não preciso ficar na fossa agora.



Chegar em casa nunca foi tão satisfatório. Na volta, Faye e eu fomos a pé. Só aproveitamos a carona da nossa mãe na ida.

Nós vimos um caminhão de mudanças, mas não estranhamos: nosso antigo vizinho mudava de emprego constantemente. Ele já havia dito que algo assim poderia acontecer.

Quando abro a porta, ela corre e sobe os degraus. Seguro seu pulso com delicadeza.

— Vai querer café?

— Vou tomar um banho antes. Pode me ajudar com a lição depois?

— Sem problemas.

Olho ao redor e vou para a cozinha, colocando a louça suja do café na pia. Lavo tudo e seco. Faye guardaria depois — um velho acordo nosso.

Quando vejo que não há mais nada a se fazer, subo as escadas e vou até meu quarto.

Pouso a mão na maçaneta e percebo que a porta só está encostada. Franzo o cenho.

Então, ouço uma gargalhada. É rouca, não muito alta e levemente escandalosa, não pertence à Faye.

Entro. Um cara de blusa branca e jeans largos mexe na minha estante de livros, cutucando a cara do meu velho astronauta de pelúcia. Ele ri. Vejo que está descalço.

— Quem diabos é você?

Com certeza não é a abordagem mais segura, mas parece funcionar: ele solta um grito e vira-se para mim, com a mão no peito.

— Você poderia ter me matado! Você não bate na porta, não?! — arfa e o cabelo escuro cai entre seus olhos esverdeados. Abaixa a cabeça e vejo dois pequenos e vermelhos... chifres?

— Desculpa — pisco, observando sua cabeleira. Balanço a cabeça. — Espera. Não, não me desculpe. O que você está fazendo no meu quarto? Como entrou aqui?

O estranho tomba a cabeça para o lado. Há um crachá no seu peito com as siglas D.E.T.

— Eu sou o Fred. Você é o Atticus, e eu entrei aqui pela janela.

— Eu vou ligar para a polícia — resmungo, tirando o celular do bolso. Disco o número e espero chamar.

Fred não parece muito assustado. Ainda me olha com curiosidade.

— Alô?

Gelo. Não é a voz de um oficial velho e geralmente mau-humorado. É a voz da Sage. Tiro o celular do ouvido e vejo que o número que está na tela é o dela.

Faço o que qualquer garoto assustado faria: desligo.

— Eles estão vindo? — o garoto se senta na minha cama e morde uma maçã tirada de sabe-se lá onde. Posso ver a falsa inocência em seu olhar.

— O que você fez? Eu disquei o número da polícia.

— Eu redirecionei a chamada para a ruivinha.

— O que você é? Algum tipo de mágico ou um hacker muito bom? — recuo alguns passos para trás e fecho a porta.

Ainda ouço o chuveiro. Faye não faz ideia de que esse delinquente está na nossa casa.

— Eu sou um D.E.T — aponta para o crachá. — Demônio em treinamento.

— Você é um demônio?

— Sou — morde a maçã de novo e mastiga, engolindo rapidamente. Prepara-se para morder de novo. — Eu estou responsável por atazanar sua vida.

— Se você é um demônio, onde está meu anjo da guarda?

— No Líbano — coça a cabeça. — Você sabe, mandaram-no para lá de forma totalmente acidental.

Só pelo tom de sua voz, eu consigo perceber que não há nada de acidental nisso. Não digo nada sobre isso e tento parecer calmo. Eu estou surtando por dentro, mas eu paro um instante e repasso a conversa na minha cabeça, achando um ponto extremamente importante.

— Você disse que tem que atazanar minha vida. É você quem está me fazendo passar vergonha? Fazendo com que tudo dê errado?

Fred salta da cama e vai até a janela. Joga a maçã que não foi totalmente comida lá.

— Isso — limpa a mão na camisa e sorri, a estendendo em seguida. — Muito prazer, Atticus.

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.