Ela esfregou os olhos tentando conter as lágrimas de frustração enquanto os raios de Sol, já fracos, entravam pelas janelas laterais da sala. Sentada em frente à mesa que possuía uma pilha de seus livros recém-publicados, uma caneta esferográfica e um pacote de biscoito recheados pela metade, a escritora Ana Kepler não tinha muito a fazer além de suspirar.

O suspense policial chamado Operação Estrela Alfa: Um Tiro no Escuro era o primeiro da trilogia dos agentes secretos que trabalhavam aniquilando terroristas perigosos. A história gira em torno da dupla Gaspar Albuquerque e Karina Blanco, que trabalhavam juntos e competiam o cargo de chefe da equipe, que no momento pertencia à Gaspar, sendo Karen a sub-chefe. O cargo mudava de acordo com o mérito que cada um deles recebia em cada missão, e a operação tratada no livro era uma suspeita de ataque durante um casamento gay. Cada personagem fora cuidadosamente elaborado pela mente singular de Ana, fazendo-os quase exatamente como pessoas comuns, exceto pelo fato de que não existiam.

O protagonista Gaspar era um galã que dormia com as estagiárias que trabalhavam com ele, um verdadeiro mulherengo, mas que no fundo só tinha olhos para a inatingível Karina. A mulher, por sua vez, era uma agente brilhante que levava o trabalho muito a sério e não tinha tempo nem talento para nenhum tipo de interação social. Sentia uma forte e inexplicável atração por Gaspar, mas não sabia interpretar seus sentimentos e, por isso, os dois viviam provocando um ao outro. Os outros agentes da equipe eram Dionísio, fã e seguidor de Gaspar, viciado em videogames e o palhaço do grupo; Caetano, completamente irritante, o tipo de pessoa que costuma usar ironia em quase todas as suas sentenças; e Alan, que só é um detetive para seguir os caminhos de seu pai, mas que sonha em ser artista de cinema e não tem a menor aptidão como agente secreto. A estagiária escalada para a operação é Elvira, selecionada por Gaspar, que passa a história toda flertando com o homem, enquanto ele a usa apenas para despertar ciúmes em Karina.

Enquanto a escritora se perguntava o que poderia ter saído errado naquela trama que ela considerava ser tão bem elaborada, sua atenção logo se desviou para o par de pessoas que adentravam o local.

― Olha só, a minha pequena artista ― disse Alex, o namorado de Ana.

― Pequena não, ― ela corrigiu ― média!

A melhor amiga de Ana, Laura, que caminhava ao lado de Alex, disse:

― Um e sessenta é baixinha, sim, Ana…

Ela fez uma careta, como se houvesse se arrependido do que havia acabado de falar. Virou o rosto para observar o ambiente e percebeu que, além deles, só havia mais quatro pessoas no local, e nenhuma delas parecia interessada no livro que Ana divulgava.

Era uma tarde de autógrafos proporcionada pela editora, mas que não atraiu muita gente além dos amigos mais próximos de Ana, que iam visitá-la para mostrar sua consideração. Infortunadamente, Ana não possuía muitos amigos ou qualquer tipo de familiares.

― Você vai demorar muito aqui? ― Indagou Alex, após beijar os lábios da namorada.

Alex era um ótimo garoto. Ana o considerava o carinha mais sexy do mundo, certamente seus braços musculosos e o corpo muito bem definido fazia com que outras garotas concordassem com ela. Alex era moreno e tinha um par de olhos acinzentados, com cabelos negros bem aparados e sorriso impecável.

A escritora deu de ombros.

― Não faço ideia.

Quando parava para pensar, Ana não conseguia compreender o que um garoto fantástico como ele fazia perdendo seu tempo com uma mais-ou-menos como ela. A moça possuía certo problema de autoestima, e nunca percebeu qualquer beleza em seus cabelos e olhos amendoados e o rosto delicado de mulher de 26-com-cara-de-18.

― Você pode me deixar na faculdade, Alex? ― Pediu Laura, segurando com a ponta dos dedos a manga da camisa do rapaz. ― ‘Tô atrasada pra minha aula de Cardiologia…

Lara, sim, era uma moça de beleza admirável. O cabelo loiro e levemente ondulado atingia a altura da cintura, os lábios estavam sempre pintados de vermelho e seu corpo fino e curvo chamava a atenção onde quer que estivesse. Além disso, Lara era dez centímetros mais alta que Ana.

― Levo ― respondeu Alex ― depois eu volto aqui pra te buscar, Ana.

― Tudo bem ― concordou a escritora, em meio a um suspiro cansado.

― Está combinado então ― o rapaz novamente beijou a namorada ― até mais tarde, minha linda.

E então Ana se despediu do que muito provavelmente seria a última visita que ela receberia naquela tarde.

Vinte e seis, contou. Vinte e seis autógrafos em quatro horas. A tarde de autógrafos com menos leitores que houvera naquele lugar até então era a de um romance meia-boca que misturava misticismo com mitologia hebraica e que atingiu o número de 157 autógrafos, Ana lembrava-se muito bem do representante da editora lhe dando essa informação.

― Eu sou um fracasso ― sussurrou para si, deixando-se tombar e batendo a testa na mesa.

Decidiu, então, ir embora. Pra que serviria ela continuar parada ali? Pegou a bolsa que havia deixado jogada no chão e abandonou o estande, completamente frustrada. Não lembrou nem mesmo de levar seu pacote de biscoito recheado.

Notas finais
Aviso: o prólogo ainda não está finalizado!! Então por que eu postei? Bem, porque eu tenho TOC. E não podia, em hipótese alguma, deixar de começar a história no dia 15/01/15! Os próximos capítulos tratarão diretamente dos sonos descritos na sinopse, esta parte que você acabou de ler é a explicação do contexto geral. Não demorarei a concluir essa parte! Se quiserem eu aviso por mensagem privada quando estiver completo. Por favor, deem sinal de vida! Obrigada!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.