Dúbia

18 Capítulo 18


Passaram-se horas enquanto eu estava trancada no banheiro. Abri a porta suavemente, pronta para pegar minhas malas no armário de casacos da sala e subir no primeiro avião. Frank continuava na sala, imóvel. Os olhos pareciam ter chorado infinitamente, sem cessar. Atravessei a porta do quarto em um silêncio mortal. Tudo estava escuro, ninguém se dera o trabalho de acender qualquer coisa que fosse.

O quarto tinha cheiro de tabaco e fumaça aos montes. A estátua de alguém estava na sacada: Thomas. Eu o vi de relance e tomei o cuidado de caminhar até o armário do quarto para trocar as roupas que eu vestia. Quando toquei a maçaneta, ele se virou para mim. Tinha os olhos tristes, mas quietos e calmos. A boca estava em um traço, como sempre ficava quando estava pensativo. Atirou o cigarro fora.

– Acho que ninguém é capaz de me amar, não é?

Eu sentei na cama e meu corpo fez todas as molas rangerem. Atirei meus cabelos para trás, sentindo-os sedosos e macios enquanto eu olhava fixamente para Thomas. Subiu até a minha garganta um bocado de palavras duras e ásperas, mas, assim como o vômito, as engoli. Eu estava disposta a ceder minha carne para o açoite, estava pronta para ouvi-lo me culpar. Surpreendentemente, ele não o fez.

– Eu só não consigo entender – suspirou ele, parecendo cansado. – Eu tinha certeza de que você me amava. Você sempre foi tão... ah. Eu só não esperava.

– Perdoe-me – eu sussurrei, minha voz rasgando minha própria garganta. – Eu te amo.

Ele não levou os olhos até o meu, mas os deixou cair quando pela primeira vez água se acumularam em seus olhos verdes. Ele as limpou tão rápido quanto elas surgiram e me deu um sorriso fraco.

– Não, não precisa ser gentil.

– Não tenho sido – eu disse, subindo a voz. – Eu te amo, amo mesmo. Eu sei que é complicado, que tudo parece estranho...

Thomas me beijou. Levou suavemente a boca até a minha, passou suavemente as mãos pela minha nunca, e eu senti como se ele se despedisse de mim. Tocou-me as omoplatas e depois meu pescoço, e logo meus seios e meus cabelos. Deixei meus braços caírem pendidos de meu tronco como se estivessem mortos. Ele tocou as dobras de meus dedos e as beijou. Então me soltou.

– Eu não entendo. Por quê?

Eu também não sabia. Eu amo os dois, eu quis dizer, eu amo ambos. Mas quão complicado seria explicar? Só me calei. As pessoas certamente não entenderiam. Os sentimentos são complicados de se explicar, quando eles se unem, então, se tornam impossíveis. Pensei nas milhares de certezas que a vida tinha me dado até ali. Pensei em como agarrei meu irmão pelo pulso e gritei com ele quando vi que ele se preparava para mais uma tentativa de se matar. Eu agarrei-o com tamanha força e o apertei com tamanha vontade que meus dedos o marcaram por dias. “Se quer sofrer, sofra sozinho”, berrei. Atirei seu corpo franzino contra a parede e puxei a lâmina do chão. “Vamos, seja forte”. As lágrimas fluíram do rosto dele com tamanha violência que estremeci. “Estou cansada de sofrer por você. Até quando vai ser a vítima?”.

Se eu ao menos tivesse a coragem que tinha, Deus, eu poderia seguir em frente. Quando não há amor, tudo se torna mais simples. Eu dizia para mim mil vezes que o amor era mentira e eu conseguia sufocar qualquer sentimento que eu pudesse vir a ter. Eu rugia como quimera louca e mostrava meus dentes quando me culpavam por algo. Eu enlouquecia quando a ironia subia pela garganta me fazendo cócegas. Eu temia o amor e seus efeitos e agora fazia todo o sentido. “O amor quebra meus ossos e eu rio”, disse Bukowski. Eu tinha uma expressão sádica e doentia. Sorri como uma estátua de cera.

– O amor quebra meus ossos e eu rio – eu parafraseei. Thomas me fitou com um olhar duvidoso no rosto e encarou meus olhos mestiços.

– Sua inteligência te enlouquece – ele sussurrou e me atou as mãos com as dele. – E eu acho que não consigo te odiar. Eu não consigo odiar ninguém. Você ainda menos.

– Eu não queria te machucar, mas sou vadia.

As minhas palavras pareceram socar o estômago dele assim como pareceram socar a minha cara. Quase pude sentir o gosto do sangue acumulando na minha língua e eu quis cuspir. Meu estômago embrulhou. Eu não dizia aquelas palavras em voz alta há bastante tempo e quase me esquecia de como era pronunciá-las. Tive pena de mim. Levantei da cama e puxei o primeiro jeans do armário e logo eu estava com um casaco pesado e uma mala nas mãos.

Eu abaixei minha mala ao chão e sorri fraco para Frank que jazia caído como defunto no tapete da sala. Eu não conseguia ver seu rosto no escuro do apartamento.

– Ei – eu falei. Ele não se moveu. Cheguei mais próximo, tirei meus pés do mocassim azul e cutuquei suas costelas nuas com o pé. – Ei.

– Por favor, não faça isso.

Eu me virei, ignorando-o de vez. Peguei a mala do chão e caminhei para fora confiante de que havia muita coisa para se fazer. Eu poderia ligar para Pedro e tentar contato. Talvez eu pegasse um avião para a Austrália e refizesse os nós que se soltaram com a nossa distância.

Desci até a garagem, entrei no meu presente-carro que Thomas havia me dado, ronquei o motor e dirigi porta afora. Coloquei uma música alta e abri o teto preto dobradiço do carro afim de por meus cabelos ao vento. O sopro da noite frio desajeitava meu cabelo e eu deixava o vento engolir as palavras do som e a minha voz. Eu gritava. Gritava e gritava enquanto o carro corria em alta velocidade para fora da cidade, sem rumo, o vento entrando na minha garganta e me engasgando e eu rindo e gargalhando. Mas não era de felicidade. A sensação de liberdade era arrebatadora, mesmo assim era a sensação de dissimulada que ficava. Como se de repente a quimera calasse os rugidos e a consciência pesasse por saber que dois irmãos caíam por causa de mim. Meus olhos lacrimejaram.

Apertei os dedos no volante, o pé no acelerador, fechei minha boca e meus olhos começaram a vazar. As lágrimas saltavam rápidas e faziam um movimento horizontal até meus cabelos e depois desapareciam na escuridão da noite. Meus cabelos reluziam nas poucas luzes que passavam rápidas como a paisagem. Quando eu parei, no meio do nada, com a noite calada e nenhuma luz em nenhum lugar, eu não tinha a menor ideia de onde eu estava. Era uma estrada que eu não sabia se dava a lugar algum. Foi quando meu telefone tocou.

– Estela? – disse a voz sufocada. – Estela?

Fiz um silêncio de cerca de três minutos enquanto ele continuava chamando meu nome. Eu fechei os olhos e prestei atenção na voz. Ela ia ficando mais baixa.

– Onde você está, Estela? Eu... ah, Deus, eu sou idiota. Eu só... sinto muito, sinto muito. Você não é vadia. Estela?

Eu chorava calada e minhas lágrimas saíam tão quietas quanto o próprio ar da noite, que esvoaçava meus cabelos.

– Eu não sei, eu não vou dizer que não me importo... foi doído, sim, eu quis socar Frank. Eu quero socá-lo. Mas... eu só amo vocês dois tanto que não consigo... eu não consigo... – eu pude ouvir lágrimas baixas e quase inaudíveis. – Só não consigo odiá-los. Eu não consigo odiar você. Eu quero, mas eu não consigo.

– Você precisa de mais um motivo? – falei quando pensei que minha voz ia falhar. Minha garganta doía, meu peito ardia e eu estava assustada. – Eu me casei com você porque queria conforto. Eu queria ser sociável. Não amei você. Não amei ninguém.

– Mas você disse...

– Que te amo? Do que isso importa agora? – eu tinha medo que minha voz falhasse e que, repentinamente, minhas lágrimas começassem a fazer barulho. – Está feito, Thomas. Não tem volta. Não-tem-volta – eu disse entre pausas. O ruído do silêncio se instaurou no telefone.

– Para onde você vai? – ele perguntou depois de longos minutos.

– Embora. Para qualquer lugar. Qualquer espaço. Eu sempre soube que isso não daria certo. Eu não queria mais alguém sofrendo, mas parece que é da minha personalidade maldita e crua. Até meus cabelos se negam à normalidade – eu batia queixo e o frio começava a entrar pela minha roupa e alojar nos meus músculos. Percebi que aquela conversa não chegaria a lugar nenhum. Desliguei o telefone.

Em menos de vinte minutos outra ligação chegou no aparelho celular. Eu observei no visor o número e não era de Thomas. Quando atendi, a surpresa foi clara. Era Frank, tinha um tom amistoso, mas um pouco inquieto.

– Ei, Estela. Eu sei que foi errado, eu nunca quis que nada disso acontecesse, foi um erro, eu não devia... A culpa foi minha, tudo bem? Vou conversar com Thomas. Posso ouvi-lo daqui, ele não está bem. Acho que ele precisa de você. Acho que precisamos de você. É péssimo, eu sei, eu sinto muito. Posso ouvir o vento, sei que está ouvindo. Está em campo aberto, não está? Você vai sentir frio. Volte.

Ele desligou o telefone. A palavra volte ecoava na minha cabeça. Volte. Como se eu pudesse salvá-los de mim. Quão irônico aquilo soava?

Apertei as costas contra o estofado, arranquei e subi o teto do carro. Limpei minhas lágrimas apertando os dedos ao redor dos olhos, atirei o celular com força pela janela e liguei o som a ponto de não ouvir minha própria voz. Cocei a garganta com força, arranhando-a com um estranho som. Deslizei o carro velozmente pelo asfalto. Meu ouvido tinia.

Notas finais
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