Dúbia

1 Capítulo 1


Eu sou uma cadela, eu sou uma vadia. É o que eles dizem, é o que eu acredito. Mas agora estou me casando. De véu e grinalda, com uma longa cauda e uma pequena perspectiva. Estou me casando, na igreja, lugar que eu sempre detestei. Cheio de pessoas, algumas que eu nunca vi na vida, que foram convidadas porque são da minha família. Família. Acredito tão pouco nessa palavra que mal consigo pronunciá-la. Na verdade, acredito tão pouco nas possibilidades e na sociabilidade que nos foi imposta que sinto preguiça. Preguiça de pensar, preguiça de agir, preguiça de mudar. E aqui estou eu, mais uma vez, em uma bifurcação: vou me casar.

Thomas é um homem bom. Quero dizer, não tão bom quanto deveria, mas é. Os conceitos de ser e estar e existir são bem fiéis para ele e isso é um bom começo. Além disso, acho que ele me ama. Eu não o amo, mas não é como se isso fosse importante. Um casamento não é nada mais que uma convenção social. É necessário que se coloque em um papel, assinado por alguém importante, que se está unido a um outro alguém por algum motivo. Normalmente, motivos românticos, como amor e cumplicidade, que eu pouco acredito existirem.

Eu não acredito no amor, nem em suas variações, nem no estado crítico de ser humano. Eu não acredito nos poemas escritos, nem nas estrelas contadas em vão, nem nos corações humanos. Se eu quiser escrever que amo Thomas, eu escreverei. Amo Thomas. Mas a intensidade desse sentimento mentiroso, criado por poetas sonhadores, não pode ser medida porque não está aqui, está no papel. E a existência de algo tão complexo no papel só prova a inexistência desse mesmo algo na vida: o amor não existe.

Mas o que está em questão não é a existência do amor e sim sua veemência estatal. Ele é responsável pelos cônjuges que se formam todos os dias – e que se desfazem também – porque a base da sociedade são os sentimentos frustrados criados pelo tempo. Eu vou me casar não porque quero, mas porque preciso. Sou uma mulher em seus vinte e seis anos, formada, com nenhuma qualidade social e, consequentemente, com nenhuma qualidade. E Thomas é o único homem verdadeiramente vertiginoso o suficiente para não ver isso, o que é um ponto importante para mim. Ainda assim, nesses calçados brancos de salto, sinto uma vontade imensa de me despir e fugir para bem longe, para bem distante, com outro nome, outra identidade, outra caricatura. Novos problemas e novas pessoas, novas convenções. Para que eu possa me ajeitar de novo porque não me foi dito como eu deveria agir minha vida inteira.

Eu desloco meus pés sobre o carpete vinho e sigo puxando a cauda do meu vestido com cuidado. Ele foi caro e totalmente pago pelo tão importante Thomas, a convenção mais engraçada da minha vida. Eu passo meu batom roxo na boca, quase como se eu pudesse entrar com ele na igreja, e coloco a grinalda. Deveria ter alguém me ajudando, mas pedi para que me deixassem só. A verdade é que esse é o dia mais triste de toda minha vida e só falta uma chuva para realizá-lo. Para minha surpresa, acontece.

Do lado de fora da limusine branca uma chuva torrencial cai. As grandes portas da igreja estão abertas e algumas tapeçarias penduradas nelas balançam com furor. Parece que o mundo vai cair, mas ele não o faz. Embora os ventos estejam fortes, as gotas de chuva estão fracas, e eu me preparo para descer do carro da mesma maneira.

– Você não pode, Estela – diz minha mãe, com os olhos cheios de água. Claramente esse é um dia importante para ela.

– Por que não? – pergunto. Sei o porquê, mas ir contra sempre foi uma grande mania minha.

– Porque você vai se molhar, Estela. Não é elegante nem inteligente estragar seu vestido e seu dia. A gente só se casa uma vez.

– Muitas pessoas se casam várias vezes – eu digo, em voz baixa, como sussurro, para que ela não ouvisse, mas desejando que ela o tivesse feito.

– Você não será uma delas.

– Obrigada, mãe.

Depois de treze minutos sentadas, olhando através das janelas e tentando entender porque os céus estavam tão zangados conosco, a chuva finalmente cessou. Não como se fosse parar eternamente, mas como se estivesse me esperando descer para retornar ainda mais violenta.

– Vamos, vamos – minha mãe diz. Obedeço. Abro a porta do carro, duas moças seguraram minha cauda e, antes que eu possa ver, meu pai já está com seus braços ao redor dos meus e meu sapato branco já dá seu primeiro passo para dentro da enorme igreja monumental.

“Calma, garota. Ajeita o passo, ajeita a respiração”, me digo tentando me acalmar. A marcha matrimonial toca alta em um órgão ali dentro e eu percebo que todos os olhares estão voltados para mim. Algumas pessoas choram; nunca as vi. Algumas mulheres com olhos invejosos sobre a formalidade. Estranhas. Nunca desejei tudo isso, mas muitas delas desejam. Realmente, estranhas.

Na minha frente, em seu fraque preto de golas de seda, Thomas me aguarda. Sinto pena. Seus olhos estão brilhantes e lubrificados de lágrimas discretas, ele me olha com anseio. Parece que posso salvá-lo da vida, mas eu não posso. É uma mentira, tudo uma grande mentira. Sinto pena.

Alcanço-o. Meu pai me entrega a ele. “A vida é uma droga”. Ele toca minha mão, com cuidado, e eu sinto um desconforto. Minha cabeça gira. “A vida é uma droga”. Onde vou me esconder depois que isso tudo passar? Não sei, mas espero que haja algum lugar real.

O padre fala. Fala muito, fala demais. Diz-me coisas que eu já sei, diz-me coisas que não concordo e diz-me coisas que devo fazer. Eu aceno que sim, mas quero dizer não.

– Thomas, aceita Estela como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?

– Sim.

– Estela, aceita Thomas como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?

Alguns milésimos de segundos que parecem eternidades na minha cabeça. “Não, não, não, não, não”.

– Sim.

As alianças estão firmadas em nossos dedos, na sua forma imortal, no seu símbolo infinito. Elas devem representar a eternidade que viveremos juntos, mas eu só acredito no presente, e o presente não é eterno. Sinto muito. “Sinto muito”.

Acontece o comum. Nos beijamos, caminhamos juntos até a limusine, o céu desaba, mas corremos pela chuva ainda assim, ele gargalhando e eu imitando, como se estivesse feliz, sentamos ali, nos entreolhamos e eu vejo que lacrei a minha vida de inúmeras formas que sequer consigo calcular. Estou triste, profundamente triste, intensamente triste. Calculei os meus passos até o precipício e acabei escorregando, droga.

O carro segue até o aeroporto. Não sei para onde iremos, mas suponho que seja algum lugar caro. Tenho preguiça de toda essa coisa definida e esse padrão medonho que os casais fazem. De qualquer maneira, ele é carinhoso o tempo todo. Parece ter sido criado por alguma mulher futurística que almejasse um homem complacente e submisso, mas eu não sou essa mulher. Toda a calmaria desse homem e a paciência exacerbada, misturada com a falta de personalidade estridente me faz ficar com sono. Mas poderia ser pior. Tiro a grinalda com força e meus cabelos se desfazem em grandes cachos, até alcançarem meus ombros. Ele me olha com aquele mesmo olhar que me olhava na igreja e eu encosto minha cabeça na janela do carro, sentindo a janela fria clarear minha cabeça. “Está feito”.

Notas finais
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