Aquelas palavras foram brutais. Era óbvio que, mesmo nossas idades sendo vizinhas, Ângelo tinha muito mais andejo pela vida afora — literalmente ou não. Sabia reconhecer quando algo estava gerando um incômodo de terceiro grau e saía antes de vê-lo estourar.

Tomei fôlego, me aproximei e então fiz a súplica.

— Pois conheço alguém que não vai se assustar com a tua música. Pelo contrário…

Ele sorriu.

— Tu acha mesmo? — seus olhos brilharam feito os de uma criança.

— Não tenha dúvidas… — retribui.

Naquela tarde, então, caminhamos até meu apartamento e ouvimos dona Odete berrando feliz por ouvir a voz. Rimos juntos.