Dékes
8 Uma Fagulha de Esperança
HUNTER POV
‘Eu definitivamente preciso de uma forma mais rápida de me mover.’ Penso, ao ver Daemon levitar ao redor da praça em alta velocidade. Um alvo em movimento era complexo demais de se atingir, mas um alvo voando? Pior ainda, o que sinceramente, era bem irritante.
Correndo até a rua, eu expando meu campo gravitacional, elevando um carro e o lançando usando minha Segunda Lei. Em resposta, Daemon puxa um pano vermelho debaixo de seu terno, o sacudindo, o fazendo se expandir até ter pelo menos três metros de comprimento. Pouco antes do carro o atingir, ele gira como um toureiro, cobrindo o carro completamente com o pano, o fazendo desaparecer em um passe de mágica. Obviamente.
“Exibido.” Digo, não conseguindo evitar um sorriso.
“Apenas porque meu verdadeiro truque ainda não foi demonstrado.” Ele responde, sacudindo o pano novamente, fazendo múltiplas flores coloridas caírem dele. “Tornar caos em beleza é sempre algo divertido de se fazer, porém, suponho que nossa batalha terá que ser levada mais longe do que isso.” Daemon adiciona, dobrando o pano novamente em um tamanho normal, o guardando novamente em seu bolso. “Para um show realmente digno de nosso encontro, suponho que será necessário convidar um de meus assistentes.”
O mágico junta suas mãos, as torcendo antes de as dividir novamente, uma longe bengala preta aparecendo em suas mãos. Logo após, ele segura ambas as pontas da bengala entre suas palmas, antes de as juntar, a fazendo desaparecer entre suas mãos antes de as afastar novamente, agora segurando uma varinha de mágico. Então, com a varinha em uma mão, Daemon puxa sua cartola, a sacudindo sobre a abertura. Escuridão se formou, antes de transbordar com líquido de dentro.
“Pelo meu Ás que vive em mares de escuridão. Das trevas, clamo por seu auxílio.” Daemon pronúncia em voz alta, a escuridão líquida se agitando em sua cartola, antes que dentro uma forma salta. Aquilo era...
“Um tubarão de pelúcia?” Pergunto, uma mistura de confusão e incredulidade.
Realmente, de dentro da escuridão transbordando de sua cartola, havia saltado um pequeno tubarão de pelúcia. A cor de um verde menta, forte e chamativo, olhos grandes, negros, a boca era larga, com dentes afiados. Entretanto, ele definitivamente não era só uma pelúcia normal.
“Mestre chamou! Onde? Como? Batalha? Posso lutar? Quem? Agora?” Ele tinha uma voz até que fofa, que puxava as palavras. A cabeça dele se moveu ao redor, antes de finalmente me olhar. “Batalha! Posso batalhar? Agora? E agora? E agora?”
Daemon apenas sorri, provavelmente acostumado com aquilo.
“Entendo a confusão, porém, meus pequenos amigos não são tão inofensivos quanto você esperaria. Isso eu garanto.” Ele anuncia, antes de encarar o tubarão de pelúcia com calma. “Sim, Spades. É hora de fazermos um novo show, e Hunter é nosso convidado no palco. Então sim... É hora de lutar.”
“Batalha! Show, sim! Hunter e Spades vão batalhar!” O tubarão, Spades, salta, dando um mortal, antes de aterrissar novamente na cartola. Então, ele se vira e salta para fora, a escuridão líquida o seguindo enquanto ele ia diretamente contra o chão. Porém, ao invés de apenas atingir o concreto, sua escuridão forma uma poça, em que Spades aterrissa perfeitamente, desaparecendo por alguns momentos antes de voltar a superfície. “Batalha! Batalha!”
“Com todo o respeito, mas... Como exatamente? Lutar contra um tubarão de pelúcia é algo no mínimo estranho.” Sinceramente, eu não sabia se ficava confuso, ria, ou talvez me preocupasse. Apesar de tudo, sua fama o precedia, seja como um Anjo de Lúcifer, ou como um Grigori. Se aquele era seu plano, provavelmente tomar cuidado seria o melhor. “Certo... Que seja, melhor lidar com isso de uma vez.”
Porém, para minha surpresa, Spades não estava no mesmo local de antes. Olhando ao redor, finalmente vi uma barbatana verde acima do chão, nadando pela rua e praça, aparentemente aleatoriamente? Definitivamente não estava mais perto de mim. Aquela poça de sombras o seguia, praticamente um aquário particular pelo jeito.
“Uh...” Olhei para o tubarão de pelúcia nadando pela praça, antes de encarar Daemon com uma expressão neutra, olhos semicerrados, mãos nos bolsos. “Era pra ele estar fazendo isso mesmo, ou... Tipo, sei lá, alguma preparação? Quer que eu espere ou algo assim?”
“Sinto muito por isso, ele é do tipo distraído. Entretanto, você não está errado em sua suposição. Ele está realmente se preparando, às vezes é só algo que toma algum tempo. Talvez eu devesse ter feito melhores preparos antes do show começar, e por isso, sinto muito pela espera.” Daemon se desculpa, se curvando levemente. “Porém, eu acredito que a essa espera já tenha acabado.” Ele adiciona, gesticulando em direção à praça.
Levantei uma sobrancelha, antes de olha na direção onde Spades estava momentos antes, mas não conseguia vê-lo em lugar nenhum. Porém, poucos segundos depois eu percebi. As sombras. Sombras de árvores, bancos e até a sombra da grande estátua no centro da fonte, elas haviam desaparecido. Ilógico, sem sentido.
Imediatamente entrei em estado de alerta, olhando ao redor, a praça vazia, a rua era um caos, muitos carros abandonados ao redor, porém, de canto de olho finalmente percebi. Vi a sombra de um prédio alguns metros a minha direita se movendo, desconectada e desaparecendo completamente. Logo após, as sombras dos carros próximos, então, finalmente a vi, a barbatana verde de Spades, porém não pequena mais, agora ela estava do tamanho de um tubarão adulto.
“Essa é a habilidade especial de meu animado assistente. Mar de Sombras. Talvez possa tomar seu tempo, mas ele é capaz de absorver sombras ao seu redor para aumentar a profundidade e tamanho de seu aquário, e obviamente... Seu próprio tamanho.” Daemon explica, sorrindo. “Um erro o qual jamais deve ser cometido, é subestimar o seu oponente, até mesmo aqueles que parecem inofensivos. Saber esconder a verdade e manter as aparências é uma das principais habilidades que um mágico necessita, e garanto, que meus assistentes o sabem fazer tão bem quanto.”
Reagi imediatamente, correndo para a direção oposta, pulando sobre um carro, então uma caminhonete, então usando meus anéis orbitando ao meu redor como suporte para subir para o teto de um ônibus, me mantendo o mais distante possível do chão.
‘Que merda. Ele sequer tem um limite? Se ele conseguiu tomar esse tamanho tão rápido, se continuar assim nem aqui deve ser seguro. Sem mencionar que Daemon continua flutuando, alto demais pra alcançar tão fácil assim.’ Meus olhos analisavam os arredores rapidamente, buscando por uma forma de lidar com essa situação. Se ele precisava de sombras, então eu deveria acabar com elas, porém eu estava no pior momento para isso. As nuvens escuras de tempestade cobriam a cidade e arredores por quilômetros, impedindo a maior parte da luz do sol de aparecer, os dando uma vantagem absurda. ‘Espera. E se...’ Uma forte colisão atingiu o ônibus, o fazendo balançar e a mim quase perder o equilíbrio. Consegui me manter, felizmente, ficando de joelhos no ônibus, fazendo dois dos anéis em minhas mãos recuperarem parte do peso para me manter firme no local.
Olhando para a rua abaixo, Spades estava definitivamente maior ainda, sua barbatana mostrava que ele provavelmente estava próximo do tamanho de um tubarão branco. Ele nadava ao redor do ônibus, o atingindo às vezes em tentativa de me derrubar. Sombras próximas eram absorvidas, se unindo para formar sombras o suficiente para o tamanho de uma piscina comum. Um carro foi virado quando ele nadou por perto, se preparando para atingir o ônibus mais uma vez.
Um trovão ecoou, relâmpagos iluminaram a região por um momento, com aquilo, vi parte das sombras do mar de Spades serem desintegradas. Seu tamanho diminuindo por um momento, o fazendo dar outra volta para absorver mais sombras ao redor.
‘É isso, eu tava certo. Eu só preciso dar um jeito de causar uma luz forte o suficiente pra destruir as sombras de uma vez só.’ Era um plano, o problema seria como torná-lo realidade, e infelizmente, foi aquele o momento em que minha sorte decidiu piorar. Chuva começou a cair, deixando o teto do ônibus escorregadio. ‘Merda.’ Decidi expandir meu campo gravitacional levemente, um domo perfeito ao meu redor feito de matéria escura. A única forma de ver a energia invisível ao meu redor era pelo fato de a chuva atingir aquele domo, sendo repelida pela minha Terceira Lei. ‘Pelo menos assim vai ser mais difícil de escorregar, mas eu não posso manter pra sempre. Pensa, caralho, o que eu faço?’
“Interessante. Ser possível de observar seu campo gravitacional definitivamente é algo único. Porém, suponho que terei que acelerar nosso show para o gran finale.” Daemon anuncia, puxando sua cartola e varinha novamente. Ótimo. “Pelo Ás que carrega a luz cegante. Dê-me sua assistência, com o brilho de suas brilhantes joias.” Um brilho forte saiu de sua cartola, e então... Nada? “Receio que precisarei de sua ajuda, querida amiga.” Ele diz, olhando para seu próprio ombro.
“Tsk. Interrompendo meu cochilo dessa forma? E onde estão os modos, essa não é a forma de me anunciar.” Era uma voz feminina, um pouco irritante, vinda do absoluto nada, até que finalmente, em um piscar de luzes, uma forma apareceu no ombro de Daemon. “Especialmente se for para me trazer para uma situação tão deplorável.” Ela adiciona, irritada com a chuva ao redor, mesmo que ela parecesse evitar o próprio Daemon — e consequentemente ela — de alguma forma.
Era uma gata de pelúcia. Pelos na cor lilás, olhos violetas, pupilas em formato de losango que brilhavam na cor dourada. Ela possuía um colar dourado com cristais que brilhavam como um caleidoscópio ao redor do pescoço, anéis de ouro e prata ao longo de sua cauda, além de braceletes com gemas encravadas em suas patas.
“Sinto muito. Essa é Diamond, minha belíssima assistente, a luz do meu show, que só não brilha mais que suas jóias.” Daemon anuncia, sorrindo calmamente.
“Bem melhor! Suponho que esse show necessitava de algo mais brilhante, que realmente merecia atenção, ao invés...” Ela gesticula com uma pata para Spades, uma expressão de indiferença no rosto. “Do que esse ser. Um show tão caótico é uma perda de tempo, especialmente comigo presente.”
“Ele tá puxando o saco de uma gata de pelúcia... Uma gata de pelúcia exibida e muito arrogante.” Sussurro, apertando a ponte do nariz. ‘Talvez eu esteja velho demais pra isso.’ Suspiro, sacudindo a cabeça e focando no que importa. Luz? Talvez eu pudesse usar aquilo em minha vantagem.
“Agora, é hora de demonstrar um pouco das habilidades de ilusionismo que um mágico como eu carrega. Com ajuda de minha bela assistente, é claro.” Daemon anuncia, acenando com a cabeça para Diamond, que simplesmente rola os olhos, se esticando preguiçosamente, antes de desaparecer em um piscar de olhos.
Daemon levantou ambas as mãos a sua frente, como um maestro em frente a uma orquestra. Ele as gira, então cruza, antes de abrir os braços. No mesmo instante a chuva havia parado. As gotas presas no tempo, flutuando ao nosso redor por toda a área da praça. Então, Daemon cerra seus punhos, todas aquelas gotas de chuva imediatamente congelando em gotas de gelo, antes de se moverem, se unindo em múltiplos locais por toda a área, em forma de espelhos de gelo.
“Que merda...?” Murmuro, confuso. Foi então que eu entendi, mas já era tarde demais. Múltiplos raios de luz apareceram, definitivamente trabalho de Diamond, sendo refletidos pelos espelhos de gelo, até serem concentrados em quatro deles ao redor do ônibus, funcionando quase como holofotes. Lancei quatro dos meus anéis para destruir aqueles espelhos, porém, não fui rápido o bastante. “Filho da-” Aqueles holofotes estavam nas posições perfeitas, não só caindo sobre mim, mas formando quatro sombras, a posição as fazendo serem longas o suficiente para que elas atingissem o chão da rua abaixo de mim, e isso era tudo que Spades precisava.
Esperava que ele a absorveria, mas não. Ao invés disso, Spades saltou de seu mar de sombras, boca aberta, abocanhando minha própria sombra com seus dentes afiados. Não sabia como aquilo funcionava, mas o que importa é que ele nadou para longe do ônibus, minha sombra entre seus dentes, e de alguma forma, eu fui junto.
‘Ele não absorveu, por quê? Porra!’ Mesmo que não tivesse absorvido minha sombra, o fato de que ele conseguia a segurar de alguma forma também me afetava, como se a conexão entre sombra e corpo fosse algo físico, me arrastando pela rua ao redor da praça.
Spades nadava rápido, me arrastando com ele e me fazendo atingir cada veículo que houvesse no caminho com força. A minha sorte era que eu conseguia manter minha concentração suficiente para manter o campo gravitacional ao meu redor, mesmo que levemente, quase como uma capa de chuva. O impacto contra cada veículo era absorvido pela minha Terceira Lei, impedindo que eu sofresse danos, mas definitivamente não era algo que manteria para sempre.
“Puta que pariu, isso que a Seraphina sentiu? Porque é humilhante e irritante, sinceramente.” Grunhi, acertando outro carro, enquanto eu era arrastado ao redor da praça como um brinquedo de cachorro. ‘Pensa, Hunter. Você tem que dar um jeito.’ Outro impacto, minha barreira diminuindo levemente de tamanho, enfraquecendo aos poucos. Um trovão ribombou novamente, relâmpagos se movendo pelos céus, porém o mar de sombras era tão grande que mal parecia ser afetado de alguma forma impactante, especialmente com Daemon e Diamond criando sombras novas para Spades absorver no caminho.
A Praça New Dawn era uma enorme área circular, com a rua ao seu redor sendo basicamente uma grande rotatória. Spades me arrastava por essa rua, usando os carros no caminho para me atingir. Em pouco tempo nós iriamos estar novamente no ônibus, o que havia me dado uma ideia.
Me segurei na barbatana de Spades, o que não era muito fácil, mesmo que ele fosse uma pelúcia, as sombras ao redor a deixavam escorregadias, mas fiz o melhor que pude. Levantando uma mão, focado em um prédio alto próximo. Calcular a trajetória para lançamento dos meus anéis era algo necessário para mim, especialmente se eu fosse o fazer em longas distâncias, pois minha gravidade não os afetaria com a mesma força se muito longe. Eu precisava calcular uma trajetória que o faria voltar o perto o suficiente de mim para ser puxado em órbita novamente. Era quase como um elástico que os conectava a mim, se mantivesse perto o suficiente, eles seriam puxados para minha órbita novamente, mas se a distância fosse muito maior que meu alcance, esse elástico arrebentaria e eles perderiam o efeito de minha gravidade completamente.
Sinceramente, tanto tempo estudando física e matemática era um saco, mas definitivamente havia valido a pena no meu caso. Meu poder era complexo, técnico em vários sentidos, e apesar da situação difícil, eu tinha que tentar.
Com minha Segunda Lei, o Impulso em dois anéis os lançou em arco, os fazendo voar até o topo do prédio e... BINGO! O primeiro atingiu uma antena de um para raio, a entortando, e o segundo adicionou no peso, atingindo com precisão, arrancando o para raio do prédio. Lancei outros dois anéis, que acertarem outras antenas do para raio, o levando com eles. Era só questão desse elástico imaginário não arrebentar, conforme os anéis mantinham sua rota em arco, mais perto, mais perto. Foi por pouco, mas consegui, o para raio atingindo minha mão estendida, que o segura firme.
“Toma essa, sushi desgraçado.” Enfiei o para raio em Spades, que não pareceu se afetar com isso. Suponho que pelúcias não sintam dor, mas não era isso que importava agora. A primeira parte do meu plano tinha funcionado, agora a segunda.
Minha barreira estava mais fraca ainda, não tinha tempo a perder. Controlei todos meus anéis para se conectarem ao para raio, então me concentrei. Eles começaram a girar rapidamente. Fricção aumentando, trovões ecoando, então percebi a estática começando a cercar o metal. O ônibus estava próximo, trovões ecoando. Eu precisava de um timing muito bom, se não quisesse fritar com ele.
Um detalhe especial sobre minha Terceira Lei, Reação, era o fato de que ela conseguia fazer duas coisas diferentes. Uma delas e a principal, era obviamente, a reação, devolvendo a força que atingia minha barreira com uma força equivalente. Porém, havia algo mais que ela era capaz de fazer. Absorção. Ao usar minha Terceira Lei, eu era capaz de, ao invés de simplesmente responder uma ação da mesma forma, de absorvê-la. Isso causava a força contra minha barreira a ser diminuída, ao invés de repelida, porém isso era algo complicado, afinal, eu possuía um limite de quanta energia conseguia armazenar dessa forma. Só que nesse caso, era exatamente o que eu havia feito enquanto era arrastado. Eu não estava repelindo os impactos contra os carros, mas sim absorvendo a energia cinética, apenas o suficiente para não causar muitos danos contra mim. E isso era o que ia me salvar.
Eu estava a poucos metros do ônibus, suas portas claramente abertas, provavelmente era para evacuar os sobreviventes, algo que claramente não tinham conseguido fazer. A estática no para raio aumentava ainda mais, um trovão ecoou novamente. Naquele momento, usei toda a energia armazenada pela minha Terceira Lei, a jogando completamente entre mim e Spades, a força mais que o suficiente, me jogando diretamente pelas portas do ônibus para dentro dele. Outro trovão ecoou logo em seguida, segundos de diferença, o som ensurdecedor, com um raio atingindo o para raio e Spades diretamente com toda força.
Senti o puxo de antes parar, silêncio absoluto, um zumbido no ouvido, até que o som de chuva sobre metal retornou. O ônibus de metal havia sido perfeito como uma proteção contra o raio que havia caído, me deixando intacto, pelo menos nesse quesito. A humilhação de ser arrastado e jogado contra carros não ia desaparecer tão cedo.
Me levantei com dificuldade, todo dolorido. Usar toda a energia guardada tinha quebrado meu campo gravitacional, então eu havia aterrissado com tudo sem nada para amortecer o impacto.
“Eu definitivamente tô muito velho pra isso, puta que pariu.” Gemi de dor, massageando a região dolorida, antes de descer do ônibus.
Daemon estava no chão, ajoelhado, segurando Spades. Ele havia voltado para sua forma pequena inicial. Os olhos em espiral, língua para fora, um pouco cômico, tive que me segurar para não rir da situação.
“Uh... Foi mal.” Digo. Claro, a gente estava tentando se matar, mas ele parecia se importar com eles, o que me fez me sentir um pouco mal.
“Está tudo bem, ele vai bem, só descansar. Vai estar causando caos novamente em breve, como sempre.” Daemon garante, abraçando o tubarão de pelúcia. “Descanse, meu amigo.” Ele sussurra, antes de o colocar dentro de sua cartola, o fazendo desaparecer instantaneamente. Até tentei espiar por cima de seu ombro para ver o que tinha ali, mas ele a colocou novamente em sua cabeça antes que conseguisse. “O show tem que continuar.”
O mágico se vira, andando em direção ao centro da praça novamente, puxando aquele mesmo pano vermelho de antes, o sacudindo até que se expandisse para seu tamanho grande. Ele se virou, expressão séria no rosto.
“Diamond, acredito que somos apenas nós dois agora. O mágico e sua bela assistente, clássico, não acha?” Ele questiona, forçando seu sorriso novamente.
“Para de se fazer de forte...” Diamond diz, reaparecendo, deitada sobre um banco ao lado da fonte. Ela mantinha sua expressão de indiferença, porém sua cauda estava agitada, mostrando seus verdadeiros sentimentos. A gata se esticou, antes de pular do banco, parando em frente a Daemon, virada para mim. “Realmente é hora do gran finale, não? Que seja. Os holofotes são sempre melhores quando direcionado a mim.”
Daemon sacode o grande pano, cobrindo Diamond completamente, antes de puxar sua varinha novamente, a sacudindo sobre o pano.
“Pelas luzes que cobrem essa terra, e as joias escondidas em seu interior. Que essa luz seja aquilo que traga a vida, e essa luz seja aquilo que brilhe acima de qualquer outra!” Daemon pronúncia, o pano se levantando, a forma por baixo se tornando cada vez maior, até que ele finalmente o puxa.
Diamond, antes a pequena gata de pelúcia, agora havia tomado uma forma gigantesca, muito mais parecida com a de um felino adulto. Pelo menos três metros de altura, as joias em seu corpo brilhavam com a energia contida dentro delas. Seus olhos estavam dilatados, suas pupilas douradas brilhando como faróis na escuridão. Ela rosna, mostrando presas afiadas, de suas patas antes fofas, garras saem, cortando o caminho de tijolos sob ela com facilidade.
“Ótimo... Vou ter que enfrentar outra pelúcia gigante.” Suspiro, mais cansado do que gostaria a esse ponto. Olhando para os restos do para raio, a maioria dos meus anéis não haviam sobrevivido ao impacto do raio. Apenas dois deles, feitos dos materiais mais resistentes, estavam inteiros. O resto derretido, partido ou muito danificado. Não conseguiria controlar eles tão bem nessa forma. “Foda-se, vamo acabar com isso de uma vez.”
Ando em direção a eles, os dois anéis sobreviventes entrando em órbita ao meu redor. Não possuía nenhuma energia sobrando para usar minha Terceira Lei da mesma forma, teria que desviar ao invés de defletir ataques. Infelizmente, essa era a mesma energia que eu utilizava para minha Segunda Lei, Impulso, então lançar meus anéis seria mais difícil, e bem menos eficiente.
Daemon voltou a flutuar, se afastando. Enquanto isso, Diamond desapareceu com um piscar das joias em seu corpo.
‘Ilusionismo. Ela manipula luz para se tornar invisível. Considerando como aquelas joias brilham mais forte toda vez que ela desaparece, elas devem ser a fonte disso.’ Fechei meus olhos, respirando profundamente, antes de os abrir novamente. A chuva caía, diminuindo de velocidade ao atingir meu campo gravitacional, mas me molhando da mesma forma. ‘Ela é um gato, de pelúcia ou não, ela claramente tem as mesmas habilidades. Consegue se mover em silêncio, com cautela, porém...’ De canto de olho, consegui ver a grama sendo esmagada, então folhas se movendo de forma suspeita em uma árvore. Conseguia imaginar sua presença. Uma pata perto demais do caminho de tijolos, cortando, um barulho alto o suficiente para ser distinguido mesmo com o som da tempestade ao redor. Sua cauda agitada, se movendo pelas folhas da árvore.
Percebi a grama sendo esmagada perto de mim, me abaixando. Consegui sentir o vento me tocar, as garras passando bem perto, felizmente sendo desaceleradas o suficiente para me dar uma chance de evasão. Pulei para longe, para mais perto da fonte. Isso limitava um pouco minha habilidade de evasão, sim, porém também limitava de onde ela poderia atacar. O caminho de tijolos e alguns bancos no caminho. Um pouco mais fácil de identificar sua aproximação.
As garras cortaram os tijolos, revelando sua aproximação. Esperei um pouco mais, antes de pular para trás, desviando por pouco novamente, as garras cortando minha jaqueta, por pouco não tocando minha pele. Agora eu estava dentro da fonte, andando de costas até atingir o pedestal da estátua. Água pouco abaixo dos joelhos.
Mantive o foco atento ao redor, porém nenhuma agitação na água além das gotas de chuva. Dando a volta? Esperando? Olhei para cima, encarando a estátua. Antiga, e mesmo assim, bem cuidada. Orgulho da cidade, sempre mantida em bom estado mesmo após milênios.
“Por que você continua trabalhando pra Lúcifer?” Pergunto, sério. Daemon se mantinha longe, perto da borda do parque, costas para a prefeitura. “Você não é o mesmo que os outros... Definitivamente não. Não é um covarde pra vir como uma cópia. Educado. E mesmo tendo a chance, você nunca me atacou pelas costas. Sinceramente, eu sei que ser um mágico é sua vida, mas anunciar seus números só... Não fazem muito sentido pra um babaca servindo uma tirana.”
Ele se manteve em silêncio por longos minutos, expressão séria, olhar distante.
“Ela... Não é uma tirana.” Daemon responde, punhos cerrados. “Pelo menos, não era...” Ele suspira. Mágicos são bons em esconder a verdade, não é? Sim. Inclusive o que ele sentia. Ele estava cansado também, igual eu.
“Você que criou eles? Essas pelúcias? Deixa eu adivinhar, marionetes? Não... Eles parecem ter vontade própria. Só que... A magia delas é magia demoníaca. Você deu vida a eles, e eles usam sua magia pra poderem usar as próprias.” Adivinho, encostando no pedestal. “Você deve tá acabado também. Pode até manter as aparências, mas manter a barreira, lutar, alimentar a magia das pelúcias... Sem falar da magia de teletransporte.” Olho para ele, seu corpo tremia levemente, além de claramente ter parado por um segundo de surpresa. “Sabia... Os relatórios diziam que eles tavam alucinando pelo que aconteceu. Mágico, coelho, cartolas... Não fazia muito sentido, mas era verdade. Magia de teletransporte e confusão. Foi você que salvou todo mundo da cidade, e fez eles ficarem confusos pra não falarem demais.
“Quase todos... Não consegui salvar todos.” Daemon corrige, punhos se abrindo, expressão cansada, olhar de vergonha. “Muitos morreram da mesma forma. Não consegui impedir. Você diz que não sou um covarde, mas sou sim. Eles morreram e não fiz nada para impedir.”
“Magia desse nível não é fácil até onde sei. E mesmo assim você fez vários portais pra mandar as pessoas por quilômetros até outras cidades. Só pra salvar elas. Isso definitivamente é coragem, ir contra a Lúcifer desse jeito.” Reafirmo, cruzando os braços.
“Eu não estou contra ela, só... Ela não faria isso. Nunca. Ela não é assim.” Daemon nega. “Ela só... Mudou. Não é mais a mesma. Ela sempre foi gentil, dedicada, tomando conta do Submundo, dando o melhor de si... Ela... Desde que a conheci, ela era uma das pessoas mais incríveis de todas. Uma amiga maravilhosa, uma rainha gentil. Sempre que uma alma perdida e assustada chegava, ela estava lá, um sorriso gentil no rosto, pronta pra guiá-la para a pós vida.” Ele respira profundamente, punhos cerrados novamente, segurando lágrimas. “Ela dizia... ‘Eu sei que eles têm medo de mim, e é por isso que estou aqui! Não importa o que aconteça. Eu vou abrir um sorriso, oferecer minha mão, e dizer que vai ficar tudo bem!’ Ela sempre quis que essas almas percebessem que tudo ficaria bem, que não precisavam ter medo, e que até mesmo a Morte era sua amiga. A Lúcifer sempre soube o quão difícil era para mortais, quão assustador, e por isso ela sempre fez o possível para que eles pudessem chegar do outro lado e se sentirem bem-vindos e seguros...”
“Ouvi lendas sobre ela... Bom, vários fatos que são vistos como lendas pelo menos. Como Lúcifer liderou um exército de demônios durante a Guerra das Flores, ajudando Élyth Whirl e seu exército na batalha de Edelweiss, protegendo a New... Tecnicamente, a única razão pelo qual New Kingdom existe, ou eu existo, é por causa dela.” Respiro profundamente, dando a volta ao redor do pedestal. “E agora, ela é uma tirana. Um monstro. Por quê?”
“O Abismo... Ela foi corrompida pelo Abismo.” Daemon revela, meus olhos se arregalaram.
“O Abismo? Por que ela faria isso?” Pergunto, dando um passo à frente.
O Abismo... Os Filhos do Abismo tinham esse nome por uma razão. Porque eles eram diretamente envolvidos com o Abismo. O Abismo era uma região profunda, abaixo do próprio Submundo. Um local de trevas, medo, caos, governado pelo deus do abismo, A Legião. Um ser que não deseja nada além de consumir absolutamente tudo, corromper, destruir. A própria escuridão do Abismo era algo único, perigoso, que corrompe quem é afetado, consome seu corpo, mente e alma. Nem mesmo deuses podem fugir dessa corrupção se decidirem se envolver com o Abismo.
“Eu não sei, só... É a razão dela ter mudado. A Lúcifer que eu conheço se foi, minha amiga se foi.” Daemon aterrissa no chão, cambaleando e caindo de joelhos. Diamond reaparece, novamente em sua forma pequena, parecendo preocupada, surpreendentemente. “Eu... Eu queria fazer algo, mas... O Submundo e a própria Terra precisam dela. Você sabe muito bem, sem seu deus, certos domínios se desequilibram. Sem a Lúcifer, as coisas seriam ainda piores. Submundo sem um líder, ficaria em caos. Sem a deusa da morte, as almas não conseguiriam ir para a pós vida e se perderiam na Terra.” Ele estava chorando, o mágico que sempre mantinha sua compostura, estava em desespero. “Eu não aguento mais... Ver minha amiga naquele estado. Tantas pessoas em risco. Todas essas pessoas mortas constantemente pelos outros Anjos de Lúcifer. Eu queria fazer algo, mas o quê?”
“A gente tá com o Adão.” Revelo, saindo da fonte e me aproximando. Os dois últimos anéis voltando aos meus dedos. “E se a gente realmente estiver certo, o que a esse ponto, nós definitivamente estamos, com a Hel.”
Daemon levanta a cabeça, olhando para mim.
“O Senhor Adão? É verdade? Depois que ele foi capturado pelos Filhos do Abismo, nós não sabíamos o que fazer... E então a Lúcifer começou a mudar, e então a Lady Hel...”
“HUNTER!” Era a voz de Angelyne. Me virando, a vi correndo em nossa direção, carregando Dékes em suas costas. Ela estava seu casaco, revelando as cicatrizes que carregava, e o Dékes...
“Por que os braços deles tão congelados, Angie?” Pergunto, confuso. “Melhor ainda, o que aconteceu com vocês? Vocês tão acabados.”
“Não me chama assim, tapado! E a gente teve que enfrentar aquele babaca do Septem, foi difícil pra caralho, ele tinha um exército inteiro de almas, mas o Dékes acabou com todo mundo. E com o Septem também, de uma forma bem estúpida pra falar a verdade. Seria bom se a barreira não tivesse sido levantada tão rápido, a chuva ferrou ele no fim, mas deu tudo certo. Só que ele tá cansado.” Angie explica rapidamente, o Dékes claramente dormindo, vapor subindo de onde a chuva acertava. “E acabada? Já se olhou no espelho? Você tá pior que eu!” Ela adiciona, rolando os olhos.
Me olhando, ela tinha razão. Minha roupa toda suja, jaqueta em fiapos, oito dos dez anéis destruídos. Sinceramente, preferia não saber o estado do meu rosto ou cabelo.
“Okay, justo...” Concordo, dando de ombros.
“A barreira? Sinto muito por isso, não esperava que causaria tantos problemas.” Daemon diz, cambaleando um pouco antes de se levantar. Diamond em seu ombro, mantendo sua expressão de indiferença.
“Fofinha...” Dékes murmura, olhos semiabertos, focados nela.
“O-O QUÊ? Como ousa me tratar com um animal qualquer? Eu sou realeza, muito obrigada. Nada como ‘fofa’ ou algo parecido.” Diamond retruca, indignada, mesmo que sua cauda entregasse a verdade. Definitivamente havia gostado do elogio. “Tanta ousadia, eu só não te arranho porque minhas garras são sagradas demais para tal feito.”
“Gatinha tsundere...” Dékes murmura, se aconchegando melhor nas costas de Angie, o que sinceramente não mudava muito, mas ele parecia cansado demais para pensar direito. “Você... É o mestre do coelho fofinho? Você é legal, valeu por salvar todo mundo. E me ajudar também.” Ele continua, seu olhar focado em Daemon.
Daemon pareceu surpreso, mas abriu um sorriso leve, se curvando levemente.
“Só fiz o que deveria. Fico feliz em vê-lo seguro.” Ele diz, aliviado. “Lady Perséfone havia contado sobre você e sua irmã, e me implorou para protegê-lo se necessário.”
“Perséfone?” Dékes pareceu confuso por um segundo, o mesmo olhar de confusão que tinha em seu rosto pouco antes de... “Vida? É a deusa da vida?” Como Sigma havia dito, como sempre, alguém parecia dar os fatos a Dékes nessas situações.
“Exatamente. Uma das três lordes demônio. A Mãe-Natureza e Deusa da Vida e Renascimento. Junto de Lady Lúcifer e Lady Hel. As deusas da morte e do julgamento. São as três irmãs, que sempre cuidaram do Submundo e do ciclo das almas. Ou cuidavam...” Daemon explica, concordando com a cabeça.
“Hel...” Dékes levantou um braço com dificuldade, olhando para a própria mão. Uma corrente de fogo se formando, fraca, antes de se apagar. “Hel... Foi o que a Lira disse. É o meu poder.”
Os olhos de Daemon se arregalaram ao ver as chamas. Ele se aproxima rapidamente, segurando a mão de Dékes entre as suas.
“S-sim! Essa é a benção de Lady Hel! As Chamas do Purgatório, o poder que julga almas. Pureza em forma viva. O poder que queima os pecadores, purifica os pecados dos arrependidos, e protege os inocentes.” Daemon diz, realmente animado, até mesmo esperançoso. “É a razão pela qual Lúcifer assassinou Lady Hel... Ela desejava eliminar o único poder que consegue combater as Sombras do Abismo. E agora, com alguém mais fraco com esse poder, ela quer tê-lo para si.”
“Isso é o que a gente estava torcendo. Se o Dékes realmente tem o poder de Hel, então as nossas chances contra os Filhos do Abismo se tornam maiores.” Sorrio, aliviado. Essa era a maior dúvida e medo, mas com a confirmação de termos esse poder do nosso lado, as coisas finalmente poderiam mudar. “Os Filhos do Abismo temem esse poder. Sem a Hel, eles eram quase completamente imparáveis, mas com isso... A gente finalmente tem como lutar de verdade.”
“Abismo... Era o poder do Septem. Excluindo a benção da Lúcifer. O Dékes conseguiu matar ele queimando o abismo completamente! Espera... Se é assim, será que...” Os olhos de Angelyne se arregalam. “Talvez dê pra salvar o Damian!”
“Talvez, mas a gente não tem nenhuma garantia disso... Primeiro nós temos que garantir que o Dékes aprenda a usar mais do seu poder, antes de tentarmos. Independentemente do que seja, ele ainda não é forte o suficiente pra purificar algo como o Abismo sem danos.” Argumento, sacudindo a cabeça. “Além disso, se o Sigma está certo, a Hel tá adormecida na alma do Dékes. Se a gente conseguir trazer ela de volta, vai ser um avanço enorme.”
“Com a Lady Hel retornando, o Purgatório voltaria a funcionar... Atualmente o julgamento de almas é feito manualmente. O Purgatório e o Lago das Almas estão petrificados desde que ela se foi. Se não fosse pelos Sete Pecados tomando conta de tudo, as coisas estariam ainda mais difíceis. Graças a Administração de Lady Freyja e o Senhor Alexander, essa situação tem se mantido em controle, mas não é uma situação desejável.” Daemon comenta, sério, andando de um lado para o outro, pensativo. “A única razão pela qual Lady Lúcifer não tomou ainda mais conta de tudo é pela Lady Nêmesis. Até mesmo Lúcifer não ousaria entrar em um confronto direto com ela, ao menos por enquanto.”
“Nêmesis? Tipo Hell & Heaven?” Dékes pergunta, atordoado. “Ela é legal... Espadona... Porradeira...”
“Tenho quase certeza de que Lady Nêmesis odeia esse jogo.” Daemon responde. “Algo sobre fanservice e história sem sentido?”
“Hmm... O que é fanservice?” Dékes pergunta, inclinando a cabeça.
“Como assim você não sabe o que...” Olho para ele, lembrando de seus olhos. “É verdade. Cego. Duvido que seria algo com a qual você se importaria. Independente, um monte de besteira. Coisa de gente estranha.”
Dékes franziu o cenho, confuso.
“Okay... Angie...”
“O quê?”
“Dá pra gente sair da chuva?”
“É verdade! Que merda, essa chuva não passa.” Angie diz, correndo até a prefeitura, até estar sob a cobertura no topo das escadas. Ela continuava carregando Dékes com cuidado nas costas. “Sacanagem. Tomara que a ajuda chegue logo. Não consigo abrir um portal agora...”
“Eu tô aqui...” Dékes sussurra, sorrindo fracamente. “Não se preocupa.”
Angie tremia levemente. Apesar de se mostrar forte, dava para ver que algo havia acontecido. ‘Talvez não tenha sido uma boa ideia deixar ela lidar com aquele cara...’ Mesmo assim, a forma como ela carregava Dékes. Esses dois realmente estavam se dando bem, especialmente após a batalha.
“Com licença, Hunter...” Daemon chama, acenando para que eu o siga em direção às portas da prefeitura. “Eu... Disse como não havia salvado todos. Septem desejava fazer toda a cidade de refém, e torná-los em seu exército. Felizmente consegui salvar a grande maioria, mas... Infelizmente muitos faleceram, especialmente os que vieram até aqui ao invés de tentarem fugir. Eu falhei com eles, mas...” Ele abre as portas do edifício. Dentro, no largo hall de entrada havia dezenas, talvez centenas de corpos. Eles estavam cuidadosamente organizados, deitados no chão, cobertos com panos de múltiplas cores. “Eles merecem ao menos serem entregues as famílias, ou receberem um enterro digno. Por isso eu trouxe todos até aqui...”
Meus punhos se cerraram, antes de respirar profundamente para me acalmar. Tantas vidas inocentes tiradas por aqueles monstros sem piedade, tudo por um motivo egoísta e cruel.
“Obrigado, Daemon. Realmente.” Digo, o encarando. “Eu sei que não deve ser fácil. Ter que viver em conflito entre dever, lealdade e proteger os outros. Eu prometo que nós vamos dar um jeito em tudo isso, de um jeito ou de outro.”
Daemon concorda com a cabeça, antes de se virar.
“Se o Senhor Adão puder retornar, ao menos há esperança para o Submundo. E se... Se Dékes tiver a capacidade te controlar as Chamas do Purgatório, talvez até mesmo trazer Lady Hel de volta. Talvez até haja esperança para Lady Lúcifer... Talvez sua alma possa ser salva, ou ao menos... Seu sofrimento acabe.” Com isso, Daemon se retira, pronto para voltar ao Submundo.
“Ei, Daemon... Você disse que Perséfone te contou sobre a gente.” Dékes chama, olhando para ele por cima do ombro de Angie. “Minha irmã disse que uma amiga tava ajudando a gente. Era... Ela?”
Daemon sorri, concordando com a cabeça.
“De fato. Lady Perséfone procurou pela alma de Lady Hel desde o momento que ela se foi. E quando te encontrou, fez o possível para te esconder com seus poderes. Infelizmente, entretanto, eu não tenho conseguido entrar contato com ela recentemente...” Ele explica, seriamente.
“Lira disse o mesmo...” Dékes suspira, se segurando mais forte em Angie. “Valeu. Agradece o coelhinho por mim? Ele me ajudou também. É bem fofinho.”
Daemon ri levemente.
“É claro. Cuide-se, por favor. Nos encontraremos novamente, espero. Não vejo a hora de finalmente podermos lutar ao mesmo lado.” Com isso, Daemon se afasta, pegando sua cartola e a jogando para o alto. Ele curva-se levemente em saudação, sorrindo. Assim que sua cartola cai novamente sobre ele, ele desaparece embaixo dela, antes que a própria cartola também desapareça logo em seguida.
“Como um passe de mágica... Ele é legal.” Dékes murmura, antes de cair no sono novamente. Angie sorrindo, o segurando com firmeza.
Sorrio levemente, antes de olhar sobre meu ombro, para o interior da prefeitura e todos os corpos em seu interior. Não era possível ignorar a tristeza, vidas perdidas, famílias quebradas. Ao menos esperava que eles poderiam ter alguma paz do outro lado agora que estavam livres.
Fechei as portas da prefeitura. Sons de sirenes ecoavam pela cidade vazia, se aproximando do local.
“Pelo jeito a cavalaria finalmente chegou...” Estava cansado, e sinceramente, não sabia o que considerar da situação. Fracasso? Vitória? Mais um trabalho concluído? Isso importa?
Só conseguia pensar em quantos morreram. E fazer o possível para que isso não acontecesse novamente.
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