Dékes
9 Um Dia Na D.E.L.T.A.
Me sentei em minha cama, respirando profundamente.
Faziam alguns dias desde os eventos em Daisy. Após lidarmos com a situação, a SINK havia tomado a dianteira. Notícias sobre o caos na cidade estavam em todo o lugar. O massacre e a destruição eram notícia nacional, mesmo que o motivo seja um segredo por enquanto.
Eu não fazia ideia em como as coisas seriam daqui para frente, não só para a cidade que definitivamente demoraria um bom tempo para se recuperar, mas também para mim.
Daisy era minha cidade natal, porém eu sequer possuía algo lá mais. Minha casa destruída, minha irmã desaparecida, e provavelmente morta. Apesar de ter recuperado parte das minhas memórias, várias ainda estavam confusas. Se eu tinha mais alguém, eu não lembrava.
No momento a D.E.L.T.A. era minha única opção. Ao menos ali eu tinha uma casa e pessoas que eu podia confiar. Provavelmente uma das vantagens da minha visão de almas, entender e diferenciar as pessoas. Algo que a maioria não tinha a sorte de ter, mas o qual eu carregava.
Meu quarto não tinha mudado muito ainda. O guarda roupas agora tinha algumas das poucas roupas que consegui salvar, junto de novas que recebi de Hunter. Na minha mesa de cabeceira, a foto da minha família, em um porta retrato novo. Uma das HQs que consegui salvar ao lado dela.
Enquanto isso, na estante que eu tinha, apenas duas coisas estavam. Uma era a action figure do dragãozinho felpudo que eu tinha conseguido salvar, e a outra um pequeno vazo com uma planta estranha que encontrei no quarto da minha irmã. Uma flor de goivo roxa, que transmitia uma energia bela o qual jamais havia visto antes.
Tocar aquela flor me trazia paz, mas não só isso. Toda vez que a tocava, minhas chamas reagiam, fios de fogo que a tocavam gentilmente sem queimar. Irmã... Aquela voz sussurrava em minha mente. Cada vez mais diferente de minha própria. Será que...?
Sacudi minha cabeça. Não era a hora para isso. Das poucas outras coisas que consegui salvar dos destroços, a que mais me importava no momento era minha guitarra. Felizmente ela estava dentro de sua capa no momento, porém o peso dos escombros fora o suficiente para causar danos. Eu sabia que os danos eram muitos, porém eu ainda queria tentar.
De acordo com Hunter, a equipe de reparos estava sempre disponível para coisas do tipo, então eu esperava ter um pouco de sorte.
Peguei a bolsa da guitarra, a colocando ao redor de meu ombro com cuidado antes de seguir meu caminho.
O dormitório estava vazio no momento, todos ocupados eu supunha. Era levemente estranho andar sozinho por aí, o local ainda era novo e estava me acostumando. Não ter alguém me guiando era reconfortante pela confiança, mas solitário.
Finalmente saindo do edifício, o calor do sol e a brisa leve eram um alívio. Um belo dia. Conseguia ver as múltiplas pessoas se movendo pela D.E.L.T.A., cada uma com seus próprios deveres, dúvidas e ansiedades. Não era novo para mim ler as almas das pessoas, o que elas sentiam, porém recentemente eu sentia como se algo tivesse mudado.
Era pela Hel? Minha conexão com esse poder talvez estivesse se expandindo. Mesmo que ela continuasse não me respondendo. Eu realmente gostaria de entender quem era esse ser em minha alma.
Pensei em usar o metrô, mas decidi andar ao invés disso. Aproveitar um pouco do dia para relaxar era algo recomendado na D.E.L.T.A., apesar da Zero nunca parecer fazê-lo. Ver Hunter a puxando para descansar era normal, as vezes a dinâmica entre eles era uma dúvida.
Zero era obviamente a líder no comando absoluto da D.E.L.T.A., com Hunter sendo o segundo em Comando, porém a quantidade de vezes que ele a puxava para a Cafeteria para comer algo, ou até os Dormitórios para força-la a dormir era constante. Eles aparentemente eram amigos de infância, o que fazia bastante sentido.
Isso sempre me dava uma sensação de nostalgia. Talvez alguma outra memória enterrada em minha mente? Eu esperava descobrir em breve.
Após alguns minutos de caminhada, finalmente havia chego na Oficina. Era um prédio de pelo menos três andares, nas cores rosa e amarelo. Um grande letreiro dizia “Oficina SoyPink”, brilhante como glitter.
Entrei cautelosamente. A recepção era ainda mais extravagante. Paredes em rosa e creme, decorações coloridas, uma das paredes estava coberta de fotos de veículos aparentemente antigos e algumas pessoas. Na parede oposta entretanto, exibida pela vitrine e obviamente fora dos limites, havia uma moto, definitivamente antiga, porém extremamente bem cuidada. Obviamente eu não conhecia nada sobre veículos, mas claramente era o orgulho de alguém para estar ali.
“Posso ajudar?” Um cara pergunta do outro lado do balcão. Ele estava mexendo no celular, parecendo entediado.
“Ah, sim...” Eu me aproximo, colocando a bolsa de guitarra sobre o balcão, a abrindo com cuidado. “Sei que não tenho muita chance, mas queria saber se vocês conseguem consertar ela?”
A guitarra não estava em um bom estado. O corpo havia se partido em dois, sendo segurado apenas pelo escudo, enquanto a mão estava completamente solta, apenas conectada as cordas – pelo menos as cordas que não haviam se partido. Podia ser pior, mas definitivamente não era bom.
“Sério? Né por nada não, mas provavelmente é mais fácil comprar uma nova. Essa aí já era.” Ele dá de ombros. “Perda de tempo.”
Suspiro, desapontado.
“Era o que eu esperava, mas valia a pena tentar.” Concordo com a cabeça, porém antes que fechasse a bolsa, uma nova voz chama a atenção.
“Ei, ei, ei! Calma aí, nada é perda de tempo aqui!” O som de saltos ecoa, quando uma mulher aparece por uma porta atrás do balcão. “O que é pra consertar?”
Era uma mulher na casa dos vinte. 1,58 de altura, pele morena, cabelos lisos escuros com as pontas rosas, olhos castanhos escuros. Ela usava um top rosa, uma jaqueta jeans curta com uma caveira mexicana nas costas com direito a glitter, shorts jeans curtos e saltos.
“Queria tentar consertar minha guitarra, ela é...”
“Não precisa falar mais nada! Pode considerar trabalho feito.” Ela diz, parando a minha frente.
“Não sei pra quê.” O homem diz.
A mulher se vira para ele, irritada.
“Eu já falei pra você parar com essa frescura! A gente conserta o que for, não importa o que!” Ela briga, antes de rolar os olhos. “Bom, nem tudo. Nem eu consigo consertar essa atitude e cara de poucos amigos. Vai lá atrás, vai. Xô, xô!” Ela adiciona, empurrando ele pela porta.
“Tá tudo bem se n-“
“Shiu.” Ela manda, pondo um dedo nos meus lábios. “Nome é Shelby, Shelby Ferrera! A melhor e única, se preocupa não, fofo, eu vou arrumar sua guitarra rapidinho.” Shelby sorri, puxando a capa para mais perto.
“Eu volto mais tarde?”
“Se quiser, mas eu não vou demorar não, é trabalho facinho pra mim.” Shelby diz, gentilmente pegando as peças da guitarra e as colocando sobre o balcão.
“Certeza? Por que a substituiç-“ Tento falar, mas ela simplesmente me encara. Imediatamente calo a boca.
“Eu sei, seria complicado pra qualquer outro, mas pra sua sorte...” Ela levanta um único dedo, unhas longas e pintadas de rosa, uma aura de cor rosada e brilhante o cobrindo, como se fosse um maçarico. “Eu não sou qualquer outra.” Shelby pisca para mim, antes de focar na guitarra.
Uma energia rosada e amarelada emanava da alma dela. Poder Divino. E realmente brilhava igual glitter.
“Semideusa...”
“Yep! Divertido, né?” Shelby concorda, juntando as partes quebradas do corpo da guitarra antes de lentamente passar o dedo sobre a rachadura, a fechando como se nunca houvesse existido. “Mix & Match! Eu consigo soldar, combinar e quebrar todo tipo de coisa com ela, independente do que for. Bom, a não ser coisas vivas, isso não consigo... Ainda. Mesmo que alguns me façam e muito querer usar ela pra fechar certas boquinhas idiotas.” Ela explica, gesticulando para a porta atrás dela com a mão livre.
“EI, EU TÔ OUVINDO!” Uma voz grita dos fundos.
“É PRA OUVIR MESMO!” Shelby exclama de volta, focada no trabalho. “Babaca estúpido.”
Curvei minha cabeça levemente para o lado com a última frase. Aquilo era... Espanhol. Eu não sei espanhol. Por que eu entendi ela?
Shelby olha para mim, levantando uma sobrancelha, antes de sorrir.
“Eu sei que eu sou linda, mas ficar me encarando desse jeito não é muito educado.”
“Desculpa, não- quer dizer, eu sou cego. Tava distraído.” Explico, envergonhado.
A mulher cora de vergonha, cobrindo a boca.
“Ai, desculpa! Eu não sabia, é que você, sabe, não parece. Tipo... Vê muito bem- Não! É, tipo, uh...” Ela estava muito mais envergonhada que eu.
Começo a rir, sacudindo a cabeça.
“Tá tudo bem. É meio complicado, mas tecnicamente consigo ver, só não normalmente.” Digo, tentando consertar a situação. “Basicamente vejo almas e energia. Poder de Hel e tal.”
Shelby arregala os olhos.
“Então é você! Nossa, sou tão desligada! Tinha ouvido do novo semideus por aqui, mas não tinha parado pra ver o que você era direito.” Ela ri, ainda um pouco envergonhada. “Nem tinha me apresentado antes! Como eu disse, meu nome é Shelby Ferrera. Eu sou a líder da equipe de manutenção e tudo mais, melhor daqui.”
“Shelby...” Chamo, olhando para a guitarra.
“Quê?” Ela olha para mim, então para a guitarra. Shelby havia consertado o corpo da guitarra, mas com a distração, ela também havia a soldado no balcão. “Oh, merda! Desculpa, calma que eu conserto isso, sem problemas.” Dessa vez seu dedo foi coberto por uma energia amarela, que ela usa para separar a guitarra do balcão.
Rio levemente, Shelby fazendo o mesmo.
“Então, o Sigma disse que esses poderes normalmente são despertados baseados na própria pessoa.” Eu lembro, curioso. “Como foi com você?”
“Como descobri meu Mix & Match? É meio engraçado pra falar a verdade.” Ela pensa, focada agora em consertar a mão da guitarra. “Nasci nos States, sabe? Meu pai me criou e tudo, e ele adorava consertar coisas, principalmente carros e motos.”
Nostalgia. Parece uma memória bem feliz.
“Desde pequenininha ele me levava pra oficina dele. Ele era mecânico, né? Então desde sempre eu via ele mexendo nos carros e tudo mais. E as vezes em uns carros ou motos velhas que ele gostava de restaurar e revender também.” Shelby sorri, terminando a mão da guitarra e a virando com cuidado. “Quando eu cresci um pouco mais ele começou a me ensinar! Todo tipo de coisa, marcas, modelos, peças, sabe, o básico.”
Isso parece bem além do básico, se ela começar a falar de algo muito específico vou ficar boiando.
“Independente, eu cresci aprendendo e ajudando ele. Principalmente com os que ele restaurava, minha atividade favorita de pai e filha pra falar a verdade.” Ela ri, se focando em detalhes menores da guitarra. “Uma galera achava meio estranho pra falar a verdade. Eu toda rosa, estilosa e linda, não é o que as pessoas costumam pensar de uma garota que trabalha com esse tipo de coisa.”
“Faz sentido. Pessoas provavelmente esperam uma tomboy da vida ou algo assim.” Concordo, sorrindo.
“Deus me livre, isso não combina comigo! Sou delicada demais pra isso.” Ela recusa, colocando uma mão no peito. “Bom, talvez um pouco menos que o esperado, mas ainda assim.”
“E seus poderes? Como você despertou eles?” Pergunto novamente.
“Ai, é verdade! Me desviei do assunto, né?” Shelby ri, antes de continuar. “Eu tinha uns 15 anos na verdade quando eu descobri meu Mix & Match, foi meio aleatório pra falar a verdade. O que importa é que uma das primeiras coisas que eu fiz quando descobri foi trabalhar numa moto antiga que meu pai tinha conseguido recentemente. Ela era uma das que ele sempre quis, sabe? Literalmente fiquei acordada a noite tooooda trabalhando nela, só pra fazer uma surpresa pra ele.”
Orgulho e nostalgia. Pelo jeito sim.
“Ele deve ter ficado bem feliz, né?”
“Eeeeeeh, mais ou menos...”
“Como assim?”
“Bom, na verdade meu pai queria consertar ela comigo.” Shelby explica. “Tipo, ele ficou feliz e orgulhoso, mas o que ele realmente gostava era de trabalhar nelas comigo.”
“Entendi...”
“Mesmo assim, ele adorou. Tem ela até hoje, é a favorita dele. Mas não era o que ele planejava realmente.” Ela sorri, olhando para a moto perto da vitrine. “Na verdade, ele queria consertar ela comigo e me dar de aniversário. 16 anos, sabe? Idade pra dirigir lá.”
“Você não disse que ele tá com ela? O que é essa outra então?”
“Bom, ele acabou encontrando uma outra moto antiga. Exatamente essa aí. Essa sempre foi minha favorita, e ele lembrou disso, comprou imediatamente.” Shelby ri. “E dessa vez a gente consertou ela juntos. Meu poder definitivamente é bem útil nisso, e a gente aprendeu como usar ele melhor juntos.”
“No fim deu tudo certo então, né? Você deu um presente pro seu pai, e ele fez o mesmo.”
“É, mas a lição por si só é muito mais importante...” Ela analisa a guitarra com cuidado, antes de a oferecer para mim. “Por mais importante que o item seja, as memórias por trás são ainda mais.” Shelby sorri para mim. “E ela é importante por isso, não é?”
Olho surpreso para ela, pegando a guitarra e a testando. Como nova.
“Como você sabia?” Pergunto, sorrindo, limpando algumas lágrimas antes que queimassem algo. “É, é um presente da minha irmã. Uma das poucas coisas que ainda tenho.”
“Bom, nem todo mundo precisa de olhos especiais pra entender alguém.” Shelby diz, tocando a ponta do meu nariz. “As vezes você só precisa sentir o mesmo.” Ela pisca para mim, rindo levemente.
Concordo com a cabeça, colocando a guitarra novamente em sua capa, antes de a por sobre meu ombro.
“Valeu, de verdade. Já tava perdendo as esperanças sobre.”
“Que nada, fofo! Pode manter sua esperança forte, porque eu tô sempre aqui pra arrumar o que for.” Ela acena para mim, inclinada no balcão.
“Vou lembrar disso. Tchau, Shelby!” Aceno de volta, antes de sair.
Parei por um instante, logo fora da porta. A ficha caiu naquele momento. Ela me olhou nos olhos. Sem hesitação, sem recuar. Isso é algo tão raro, alguém realmente vivendo sua vida sem arrependimentos. Interessante. Ela é legal.
“Com licença?” Uma pessoa chama minha atenção, tentando entrar na Oficina, mas eu estava no caminho.
“Desculpa.” Sai do caminho, deixando a pessoa entrar.
“Oi, desculpa. Será que dá pra consertar o meu notebook? Eu preciso dele.” A pessoa pergunta para Shelby, colocando o item no balcão.
“É claro! Deixa eu-“ Shelby tenta abrir o notebook, antes de o fechar imediatamente, olhos levemente arregalados. “Josh! Esse aqui é pra você!”
O cara de antes aparece novamente, bufando.
“Tá, o que aconteceu?” Josh pergunta.
“Bom, foi um pequeno acidente...”
Josh abre o notebook, apenas para ver o desastre. A tela solta e caída, teclas faltando, além de parecer estar molhado. Isso é cheiro de café?
“PEQUENO ACIDENTE? QUE ACIDENTE? DERRUBOU NUMA MÁQUINA DE LAVAR?” Josh pergunta, indignado.
“Bom, eu...”
“Foi de propósito, né? Você quebrou ele por causa de um jogo? Juro que se você fez isso por causa de um jogo...” Josh suspira, tentando se acalmar. Enquanto isso, Shelby tenta sair de fininho. “PARADA AÍ! Você vai me ajudar, não ouse sair agora!” Ele diz, apontando para ela, que apenas suspira.
“Foi só... Sabe... Olha, pra minha defesa, o cara definitivamente tava de hack! Não tem como ele ter vencido um clutch daqueles.”
“Eu juro que se você não calar a boca, você que vai ter que vencer um clutch contra mim e essa bagunça contra a sua cabeça!” Josh ameaça. “Eu juro, a Zero não me paga o suficiente pra lidar com idiotas quebrando equipamento por causa de um jogo idiota.”
“Era ranqueada, até cai de rank-“ Ele se cala, quando Josh o encara furioso.
Tive que segurar a risada, pelo jeito eles lidam com pior. Zero. Zero? Meus olhos se arregalaram, olhando para o céu. Já era o quê? Meio dia? Não, menos, mas ainda assim. Eu devia estar na Oficina da Zero para as lições particulares dela. Fazê-la perder tempo é literalmente uma das piores coisas para se fazer na D.E.L.T.A.
Correr até lá? Ou... STS! O Sistema de Transporte Subterrâneo. Existe uma estação entre cada edifício ao redor da D.E.L.T.A. Uma forma de se mover rapidamente por toda a região. Imediatamente desci as escadas para a estação.
STS era como qualquer Metrô normal, porém um pouco menor. Fazia sentido considerando a quantidade menor de pessoas que o usavam, fazer uma estação desnecessariamente grande seria desperdício. A estação possuía uma plataforma mais larga onde o Metrô que circundava a D.E.L.T.A. passava. A única outra plataforma era menor, sendo uma linha direta para o centro.
Passar meu cartão de identidade na catraca era tudo que eu precisava para entrar na estação, indo para a plataforma menor, onde poucas pessoas estavam esperando.
“Será que vai demorar? A última coisa que eu preciso é acabar perdendo tempo...” A resposta veio rápido, quando o metrô chega em menos de um minuto. “Isso foi rápido.”
O STS usava trilhos magnéticos, que permitiam com que o metrô viajasse em alta velocidade por toda D.E.L.T.A. Porém eu não esperava que fosse tão rápido. Assim que todos se sentaram e as portas se fecharam, o vagão se móvel pelo túnel rapidamente em direção a estação principal no Domo Central.
A sensação era engraçada, a energia abaixo de mim forte. O que for que energizasse os trilhos, era definitivamente poderoso o suficiente para ser difícil de olhar de tão perto.
Fechei meus olhos, respirando profundamente. Fisicamente inútil, calmante mesmo assim. Minhas mãos seguravam a bolsa com minha guitarra. O fato de ter conseguido recuperar um pouco do meu passado era um alívio, algo que me ajudava a manter o foco.
Não demorou mais que alguns minutos para o metrô chegar na Estação Central. Uma área circular larga, com uma plataforma para cada metrô, de onde pessoas vinham de várias partes da D.E.L.T.A.
Me movi rapidamente através da multidão, subindo as escadas para o domo. Felizmente, a área onde a Oficina de Zero ficava era menos movimentada, me permitindo percorrer os corredores com facilidade até estar a frente das largas portas de aço. Antes mesmo que pudesse bater na porta, elas se abriram lentamente para mim. Respirei profundamente, entrando devagar.
A Oficina de Zero era incrivelmente larga e alta. Na parede oposta, havia uma enorme máquina. Era uma espécie de reator, a fonte de energia que Zero usava para suas criações, algo parecido com a energia dos trilhos. Uma fonte similar eu supunha.
Outra coisa que chamava atenção era o que estava conectado aquela máquina. Em uma espécie de plataforma, havia o que parecia um robô em construção, fios expostos, peças de metal e ferramentas ao redor. Era um pouco mais alto que uma pessoa, metálico, com uma energia fraca o percorrendo. Eu não tinha coragem de perguntar o que exatamente ela planejava para aquilo.
Haviam várias mesas, prateleiras e armários pela Oficina, com múltiplas espécies de máquinas e aparelhos, em vários estados de construção. Sequer entendia o que a maioria era, Hunter havia dito que ela sempre estava trabalhando em algo novo, e vendo a bagunça do local, isso era ainda mais aparente.
“Ei, Dékes!” A voz de Angie chama. Me virando, a vejo sentada em frente a uma mesa perto do centro da sala. A única sem invenções, ao invés disso tendo múltiplos livros e dois notebooks.
Rapidamente me aproximo, olhando ao redor. Zero não parecia estar por perto, o que era um alívio. Me sentei na cadeira ao lado de Angie, colocando minha bolsa da guitarra de lado.
“Oi, Angie... Cadê a Zero? Ela não chegou ainda?” Pergunto.
“Então...” Ela aponta para cima, nervosa.
Senti um calafrio, antes de olhar para cima. Zero estava perto do topo da sala, sentada em uma viga, olhando para mim com uma frieza assustadora. Voltei a olhar para baixo, olhos arregalados.
“Tô ferrado...”
Zero salta da viga, pousando no chão a frente da mesa. Em seus pés, ela usava botas mecânicas, que faziam um som de vibração, absorvendo todo o impacto com facilidade. Sempre algo novo.
“Atrasado. Razão?” Ela questiona, cruzando os braços.
No momento, Zero vestia roupas diferentes do terno de antes. Ela usava um macacão de corpo inteiro, prateado com detalhes azuis, incluindo um largo zero nas costas e no lado esquerdo do peito. Parecia com o macacão usado por pilotos.
“Eu fui consertar minha guitarra com a Shelby... Acabei esquecendo da aula. Sinto muito.” Explico, nervoso.
Zero suspira, antes de se virar.
“Peça permissão na próxima vez, ou o faça após minhas aulas.” Ela diz, se movendo em direção robô e trabalhando dele com o mesmo tipo de foco que a fazia se esquecer de tudo ao redor. Definitivamente a razão de Hunter estar sempre no pé dela.
“Ei... Quem é Shelby?” Angie sussurra, se inclinando para mais perto. Ela parecia incomodada por algum motivo.
“A mulher da Oficina? Não conhece ela? Você não tá aqui faz anos?” Respondo, confuso.
“Quê? Tem um monte de gente aqui, não conheço qualquer pir- todo mundo.” Ela dá de ombros, se focando no próprio computador. Irritada. Mas por quê?
“Bom... Ela é bem legal. Consertou minha guitarra perfeitamente! É um presente da minha irmã, tava com medo de ser caso perdido, mas ela conseguiu.” Explico, sorrindo, abrindo a capa da guitarra e a mostrando para Angelyne. “Posso tocar pra você depois! Bom, só sei algumas músicas de cor, mas é algo.”
“Oh... Que bom. Ainda bem que a gente conseguiu salvar algumas coisas de lá.” Ela diz, a tensão de seus ombros diminuindo levemente. Vergonha. O que tá acontecendo?
“É, graças a você.” Concordo, guardando a guitarra novamente, antes de olhar para ela.
Angelyne usava as mesmas roupas pesadas de sempre, escondendo seu porte físico e cicatrizes. Para falar a verdade, ela parecia estar um pouco mais consciente de si mesma desde aquele dia. Segurando o tecido com força, como se tentasse se cobrir ainda mais.
“Você tá-“
“Foco.” Zero ordena, sem olhar para longe do robô. Suas mãos trabalhando em algo em seu interior. “Pelo seu atraso, você terá que fazer uma redação sobre as três lordes demônio, principalmente Hel. Agora foque na lição.”
Grunhi, antes de suspirar. O notebook estava a minha frente, aberto em um documento longo e detalhado sobre a história e mitologia de New Kingdom. Uma das múltiplas coisas que Zero forçava Angie e eu a aprendermos. Especialmente porque o que ela ensinava era muito mais profundo e específico, o que fazia sentido considerando que a maioria das pessoas achavam que várias dessas histórias eram mitos. Ela ensinava a realidade.
“Oh, essa eu sei! As três Lordes Demônio são as deusas responsáveis por cuidar do submundo!” Angie responde, excitada. “Perséfone, a Deusa da Vida, Renascimento e a Mãe-Natureza! Lúcifer, a Deusa da Morte e Rainha do Submundo, que lidera os demônios. E Hel, a Deusa do Julgamento e Justiça, com o poder das Chamas do Purgatório!”
Zero se vira, encarando Angie, arqueando uma sobrancelha. Angelyne cora, envergonhada.
“Você tem sua própria lição para se focar. Dékes tem a dele. Foco antes que te dê uma punição também.” Zero diz, antes de voltar a se focar em seu robô.
“Desculpa...” Angie sussurra, antes de se focar no próprio computador. “Mas você tá sempre mexendo nessa coisa também, podia focar em ensinar a gente ao invés disso.” Ela adiciona baixinho, fazendo bico.
Imediatamente Zero para, fazendo Angie arregalar os olhos, escondendo o rosto atrás da tela do notebook. Zero se vira, movendo o dedo levemente, fazendo o computador se fechar, assustando Angie. A mulher se aproxima, encarando ela, séria.
“Primeiramente, diferente de vocês. Eu tenho a capacidade de focar em ambos.” A mulher diz. Nem tanto de acordo com Hunter. Shiu. “E o que estou fazendo é importante. Não é uma ‘coisa’, é um androide. Eu estou trabalhando em uma IA para ajudar na D.E.L.T.A. e um corpo para ela.”
“Tipo essas IA que essas empresas tão-“ Sou cortado imediatamente, com a mão de Zero batendo na mesa com força.
“Não ouse comparar meu trabalho com essas coisas patéticas. Essas ‘IA’ deles não passam de um algoritmo de adivinhação que aprende roubando informação e criando lixo em troca.” Zero aponta para o r- androide em construção. “Aquilo é um trabalho de verdade, um corpo e uma mente real. Com esforço verdadeiro, não atalhos patéticos. Nunca compare o que eu faço com esse lixo.”
Angie e eu concordamos com a cabeça. Zero realmente era extremamente séria sobre o trabalho. Isso definitivamente. E assustadora... QUE PAPO É ESSE? VOCÊ NÃO É UMA DEUSA? Okay, eu preciso mesmo parar de gritar com as vozes na minha cabeça... Hel ou não.
“Sinceramente, podem ir. Façam a lição no computador e me mostrem amanhã. Dékes, eu quero que você foque principalmente na Hel, aprender sobre ela e seus poderes é o que mais importa no momento. Dispensados.” Zero ordena, antes de voltar a se focar em seu trabalho.
Angelyne e eu rapidamente pegamos nossas coisas, antes de sairmos rapidamente da oficina dela juntos. Demorou um pouco até estarmos fora do domo, nos entreolharmos e rirmos.
“Você realmente irritou a Zero, em Angie?” Rio alto, sacudindo a cabeça.
“Olha quem fala! Ela tava tão brava com você atrasado. Literalmente suspirando, murmurando sobre pensar que tinha alguém menos irritante e irresponsável como estud- Ei, pera um pouco!” Angelyne pensa sobre, parando de rir e ficando indignada.
Isso só me fez rir ainda mais, Angie fazendo bico e cruzando os braços.
“Quer ir na clareira de novo?” Sugiro, os olhos dela brilhando com a ideia.
“Óbvio! Preciso relaxar um pouco de qualquer forma.” Ela concorda, me seguindo. Nós dois indo ao mesmo local recluso em um dos parques ao redor da D.E.L.T.A.
Para minha surpresa, alguém já estava lá. Um homem, agachado perto do pequeno lago, alimentando os peixes com um sorriso no rosto. Angelyne sorri, me puxando até ele, acenando.
“Ei, Oceano!” Ela chama, animada. “Que legal, finalmente você pode conhecer o Dékes, olha!” Ela diz, apontando para mim.
Oceano se virou, olhando para nós, principalmente para mim. Ele tinha 1,74 de altura, pele clara, o cabelo curto e bagunçado, rosa com um degradê para roxo perto das pontas, olhos com heterocromia, um roxo e outro dourado. Vestia apenas uma calça cargo preta, tênis brancos e uma blusa azul de mangas longas brancas.
A alma dele era diferente. Com o poder óbvio de um deus adormecido, porém... Instável? Sequer sabia se essa era a palavra certa, sua alma simplesmente fluía de uma forma única, se recusando a manter uma forma estável. O pior entretanto era a energia obviamente... Marítima. Dei um passo para trás instintivamente.
“Quê? Tá com medo? Eu não vou te jogar na água não... Talvez.” Ele diz, abrindo um sorriso brincalhão, dedos claramente cruzados. Uma das minhas correntes aparecendo, apontada para ele. “Haha! Eu tô só zoando.” Oceano coloca um braço ao redor de meus ombros, sorrindo. “Sigma falou que você odeia água e tal. Faz sentido, minha tia preferia nadar em lava antes de tocar qualquer água também. Não faria isso contigo... E ia assustar os peixes também.” Ele dá de ombros.
Vou cozinhar esses peixes na próxima... Vai o quê? Não me bota no meio disso! Sacudo minha cabeça.
“É bem desconfortável mesmo, então né... E provavelmente mataria os peixes. Água ferveria e tudo.” Adiciono, só para ter certeza de que a ideia seria a pior possível. “Mas... Você disse tia?”
“É, a tia Hel! Ela era maneira, cara, saudade pra caramba dela. Saber que ela tem a chance de voltar é demais.” Oceano ri, dando um tapinha nas minhas costas. “Espero que ela não esteja te enchendo o saco demais.”
“Ela... Não fala muito. Acho... É complicado.” Explico, dando de ombros. “Ela é sua tia, então...”
“Perséfone é quem criou Oceano! Então é, basicamente mãe. Mesmo que tecnicamente deuses não tenham realmente conexão biológica... É mais emocional e tal. Uma bagunça. Eles não são como a gente afinal.” Angelyne explica, excitada. Ela claramente se esforçava bastante nas aulas da Zero, apesar de tudo.
“É, bem isso. Até parecer humano é preferência pra se enturmar mesmo. Coisa de deuses.” Oceano concorda. “Mas esquece essa nerdice. Quer ir treinar comigo?”
“Ei, isso seria divertido! O Oceano tem as técnicas mais loucas pra treinamento daqui.” Angie fala, segurando minha mão. “Vem, por favor?”
“Não é o treinamento que os bombeiros tem trauma...?” Sussurro, nervoso. “Era pra gente relaxar...”
“Ah, que nada! Eles adoram.” Oceano afirma. Duvido muito. Não tá ajudando! “Você vai ver, vem.” Ele segura minha outra mão, ambos me puxando em direção ao domo.
“É, eles só são molengas. É bem divertido.” Angelyne garante, rindo. “E surpreendentemente relaxante também!”
Ou eles estão falando a verdade, ou eles não tem noção da diferença deles para humanos. Provavelmente ambos. Valeu, em? Socorro.
Eles me puxaram pelos corredores do Domo Central, em direção a uma das arenas. Cada arena era para um tipo diferente de treinamento e combate. A Arena Red era a maior, para treinamento de poderes perigosos, sendo uma verdadeira fortaleza. A Arena Blue era para treinamento de poderes fortes, mas controlados, normalmente usada para avaliação ou estudos das capacidades desses poderes. E a Arena Green era a qual Oceano havia pego para si.
Ao entrar... Era uma gincana. Não qualquer gincana entretanto. Era um enorme circuito de obstáculos e provas, desde coisas como escalada, até plataformas giratórias e máquinas girando com bastões acolchoados, feitos apenas para te derrubar.
Toda a Arena Green era assim, com ao menos uma dezena de provas e desafios diferentes, que definitivamente não era algo que uma pessoa normal conseguiria fazer facilmente.
“Esse... É o treinamento?” Pergunto, chocado e com um pouco de medo.
“É isso aí! Eu disse que era divertido.” Oceano afirma, sorrindo orgulhoso.
“Bom pros músculos! Vai treinar tudo enquanto se diverte. Minha atividade favorita na D.E.L.T.A.” Angie confirma, excitada.
“Meus músculos são literalmente inúteis! Não consigo treinar eles, eles se regeneram. E mesmo se desse, minhas chamas tão literalmente devorando meu corpo, não vai ter nenhum sobrando em alguns anos!” Reclamo, indignado. “De qualquer forma, tecnicamente minhas correntes são meus músculos. Duvido que elas sejam afetadas...”
“Oh...”
“Bom, isso ainda vai ajudar com o resto. Agilidade, resistência, reflexos e reação, músculos não são a única coisa que isso treina.” Oceano continua. “Seu cérebro vai aprender a lidar com o caos. Muito útil.”
“Eu também não tenho cérebro!” Lembro, apontando para minha cabeça. Oca, com chamas dentro e mais nada.
Oceano me encara.
“Você só tá arrumando desculpas a esse ponto.” Ele rola os olhos. “Você entendeu o que eu falei. Agora vai fundo! Cuidado com a água.” Ele me empurra em direção ao circuito.
“ÁGUA?” Grito, percebendo as piscinas de água abaixo das plataformas, provavelmente para amortecer qualquer queda.
“Se preocupa não, é fresca e quentinha.” Oceano ri.
“NÃO É ESSE O PROBLEMA!”
“Relaaaaxa! É só você não cair.” Ele faz um joinha com a mão, sorrindo.
“Juro que eu vou destruir esse lugar se eu cair...” Resmungo. Definitivamente! Não é hora de me apoiar! “Odeio minha vida...”
HORAS DEPOIS
Me joguei na minha cama, extremamente cansado, afundando meu rosto contra o travesseiro.
“Juro que eu vou me vingar...” Prometo, voz abafada.
A tarde inteira. Eu tive que passar pelas provas a tarde inteira. Sofrendo cada minuto, escalando paredes, desviando de máquinas, pulando plataformas – evaporando uma piscina inteira e destruindo uma das provas depois de ter CAÍDO NA ÁGUA.
Enquanto isso, Angie e Oceano fizeram as mesmas provas com facilidade! Como eles conseguem... Eu provavelmente estaria dolorido, se tivesse alguma coisa para doer.
Oceano literalmente percorreu o circuito inteiro com uma venda nos olhos. Angie escalou a maior parede de escaladas com uma mão atrás das costas. Enquanto isso, eu acabei ficando preso de cabeça para baixo no meio do caminho.
“Eles são monstros...” Murmuro. Molenga. “Eu juro que vou te trazer de volta, só pra te jogar em uma das piscinas!” Ameaço. Provavelmente eu parecia um maluco. Droga.
Preciso dormir. O que foi fácil. Comigo caindo no sono imediatamente.
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