Notas iniciais
Leiam com calma, que nos encontramos lá embaixo! ;)

— Daqui duas semanas fará quinze anos, e estará se tornando uma moça, uma adulta. — Disse minha mãe um dia desses.

Eu tentava ao máximo não pensar sobre isso, em duas semanas eu iria perder tudo.

Sim tudo, por que pra mim ele era tudo. Eu não me importava se era louca ou o que, só pensava em como conseguir ficar com ele para sempre.

Não lembro exatamente quando foi que ele apareceu, talvez eu só estivesse me sentindo sozinha, uma criança de nove anos desprezada pelos coleguinhas por ser uma ruiva esquisita, cheia de manchas na pele.

É eu sei, eles eram uns idiotas, hoje eu sei, mas esse fato não mudou muito minha situação na escola conforme o tempo foi passando.

Continuo a mesma ruiva, cheia de manchas, meio magra e desajeitada. Só que um pouco mais louca.

Você deve achar estranho uma pessoa se referir a si mesma como louca, porém depois que você ouvir toda a história, vai me achar tão loca quanto eu.

Eu criei uma pessoa imaginária.

Ele não é só um amigo imaginário, ele é tudo o que eu tenho. Eu o amo, amo mais que tudo, mais que minha própria vida.

Entende agora quando eu disse que era louca?

Bem voltando ao fato principal, eu o imaginei quando tinha nove anos, não lembro exatamente que dia, ou se era de manhã ou tarde. Só sei que quando percebi, ele já fazia mais parte da minha vida do que eu mesma.

Quando era mais nova eu era uma criança muito sozinha, então inventei um amigo.

Um garoto três anos mais velho, legal, companheiro, e que ao contrário dos outros adorava minhas manchas e meus cabelos vermelhos.

Ele dizia que minha pele era cobertade de pequenas telas, onde a vida pintou nossa história.

Só que minha imaginação fugiu do meu controle, ele já não fazia só o que eu imaginava. Ele tinha controle próprio, ele pensava, ele existia. Pelo menos para mim, outras pessoas não podiam vê-lo.

Agora que ele era independente, que não precisava mais de mim eu tinha medo que me deixasse.

Mas ele nunca foi embora. Dizem que em uma relação um sempre ama mais que o outro.

No meu caso, ele ama mais com certeza.

A amizade inocente entre crianças deu lugar a um amor diferente. Um amor adulto.

Mas ao mesmo tempo, um amor puro e cristalino.

Sempre tive muito medo de perdê-lo, o fiz prometer tantas vezes que nunca me deixaria sozinha, que nunca me abandonaria, que jamais permitiria que eu o esquece-se...

— Promete nunca ir embora? — Minha voz sai meio rouca.

— Deixe de bobagem, eu nunca te deixaria. — Ele responde naquele seu tom despreocupado de sempre.

— Prometa! — Ordeno, a voz agora apenas um sussurro, minha garganta totalmente fechada pelo medo.

— Eu prometo que nunca, nem sobre tortura, vou te deixar sozinha — Ele sorri, dentes a mostra e beija minha testa.

E então eu suspiro aliviada, momentaneamente por suas palavras.

E no fim serei eu a deixá-lo, me sinto o próprio Judas.

Adiei o momento o máximo que pude, aos treze joguei fora todas aquelas pílulas estúpidas azuis e vermelhas que o Dr. Benevides me receitava para manter minha saúde, como o próprio falava. As pílulas faziam Andrew sumir, e eu não gostava disso.

Mas agora o que eu podia fazer? Meu décimo quinto aniversário se aproximava, eu iria me tornar uma adulta idiota, e tudo de mágico sumiria da minha vida.

É claro que ele não sabia que quando eu completasse quinze anos, não poderia mais vê-lo, tocá-lo, ouvir sua voz...

Quando disse isso a ele, Andrew ficou em silêncio. Uma estátua me encarando, os dedos deslizando pelo contorno do meu rosto.

— E você quer que eu vá embora? — Perguntou ele baixinho.

— Meu Deus Andrew, claro que não, eu jamais vou querer que você vá. — Digo me agarrando a ele como se fosse uma segunda pele.

Passamos a tarde toda juntos aquele dia (Andrew some às vezes, e ficamos vários dias sem nos falar) ele me levou para conhecer uma cachoeira, e deitamos juntos na grama verde e macia, o dia quente, tudo estava perfeito.

Até ele se lembrar do meu aniversário, e de nossa inevitável separação e ter uma terrível ideia.

Terrível pra mim, ótima para ele.

— Claro isso resolveria tudo, e poderíamos ficar juntos para sempre.

— Para sempre? — Perguntei-lhe.

Ele assentiu.

— O meu mundo e o dos mortos está interligado, de certa forma todos somos fantasmas, e uma vez que você estivesse do outro lado poderíamos facilmente nos encontrar.

— Mais para isso eu precisaria usar a corda?

— Bem sim, mas não tenha medo eu estarei com você o tempo todo.

E então eu não tive medo, ele ficaria comigo para sempre, não havia o que temer.

Então não hesitei em aceitar.

— Tudo bem eu faço, mais não quero que você veja. Quero ir sozinha.

— Não pode ir sozinha, a promessa lembra? Jamais te deixar.

— Você não estaria me deixando, poderia ir para o outro lado e me esperar, para eu não me perder quando chegar lá. — O convenço.

Ele sorri meio contrariado, e se despede.

Me deixa sozinha e parte para outro lugar. Parte para me esperar.

Agora não há mais volta tenho que fazer.

Não posso deixa-ló me esperando por muito tempo.

Corro de volta para casa, corro o mais rápido que posso.

Minha mãe não está, facilitando minha parte do plano.

Já em meu quarto escrevo um breve bilhete, tranquilizando-a.

A corda já esta bem amarrada, coloco um CD para tocar durante o processo. Caso eu sinta dor e venha a gritar ninguém irá ouvir, e tentar me impedir de fazer a coisa certa.

Sim certa, porque tenho certeza do que estou fazendo, estou cumprindo o meu destino.

Estou indo encontra-ló.

Meu único amigo, meu único amor.

E assim que sinto a grossa corda apertando meu pescoço e dificultando minha respiração, imagino o rosto de meu eterno amigo imaginário e tudo vai ficando meio vago e nebuloso.

***

A mulher baixa e meio gordinha chega à casa cheia de sacolas, tinha ido comprar os ingredientes para fazer um bolo de aniversário para a filha.

Depois de guardar as compras sobe as escadas em direção ao quarto de Calyx, a menina esta escutando música muito alta e Célia se pergunta como os vizinhos ainda não reclamaram.

A primeira coisa que vê ao abrir a porta é o corpo, pendurado por uma corda.

Ela quer gritar, pedir socorro e sair correndo. Mas não faz nada, pois está paralisada de horror, aos poucos que os sentidos lhe voltam ela consegue deslizar pela parede e sentar-se no chão as mãos no rosto torturado pela dor.

Ainda petrificada no chão a mãe da menina percebe um pequeno pedaço de papel caído no piso de madeira. Escrito nele poucas palavras que nada explicavam:

Não se preocupem estou bem.

Fui apenas encontrar um amigo

Calyx

Notas finais
E então gostaram? Muito trágico?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!