Código Negro
6 Capítulo 6
6
Acordo com uma luz forte.
–Hanna acorde. -Diz Klara.
Dou um resmungo.
–Que horas são?
–Seis e meia.
–Você é Masoquista? Como ousa me acordar às seis e meia? Ainda mais nas férias?- Digo. –Que tipo de amiga é você?
–Já acabou? –Diz ela após um suspiro e olhando-me séria.
–Já. Boa noite Klara. -Digo me virando.
–Ei! Vamos Hanna acorde. –Ela me vira novamente e vejo um sorriso se formando em seus lábios.
–O que foi Klara?
–Ontem não te mostrei a surpresa. E se sairmos cedo, antes de minha mãe acordar, posso te mostrar. — Diz ela sorrindo. -Agora se apronte.
Bom que valha a pena.
Vou para o banheiro da suíte de Klara e me arrumo. Faço a higiene matinal, coloco um vestido branco, casaco cumprido e grosso, um chapéu de frio, luvas e botas.
Depois de pronta, encontro com Klara terminando a maquiagem.
–Tem mesmo que se maquiar?
–Claro.
Reviro os olhos. E me sento na ponta da cama.
Depois da eternidade de Klara, finalmente saímos do quarto. Fechamos a porta com cuidado. Tentamos não fazer barulho ao descer as escadas, o que é quase impossível com o pequeno salto da bota de Klara, graças a Deus ninguém acordou. Logo já estamos do lado de fora.
Um vento frio bate em meu rosto. Hoje esfriou bastante.
–Posso saber o destino da viagem?- Pergunto curiosa.
–Floresta Negra.
–Você quer ir para a Floresta Negra?! O que aconteceu?
–Vai descobrir.
Vamos andando em silêncio.
Como a casa de Klara é quase no centro, a Floresta Negra fica á aproximadamente vinte minutos de caminhada. Caminhamos em silêncio uma ao lado da outra. Olho de relance para Klara que permanece concentrada.
Klara é um pouco mais baixa do que eu, mas aparenta ser bem mais velha quando está séria.
Logo chegamos a minha casa, como sempre pulamos uma parte da cerca e adentramos na floresta.
Vou andando no mesmo percurso que sempre fazemos para o rio Neckar.
–Hanna, aqui.
Klara me puxa pro outro lado da floresta, um que nunca fui.
O que Klara quer aqui? Como ela conhece este lugar?
–Alguns anos atrás, eu e minha prima brincávamos na floresta. -Começa Klara. -Neste dia nos perdemos.
Ela faz uma longa pausa. Continuamos andando na mesma direção. Tento desvendar sua fisionomia, séria muito séria. Quando estou prestes a pedir que continue ela fala:
–Era verão, e começou a escurecer. Éramos muito novas, acho que eu tinha uns sete anos. E encontramos esse abrigo.
Logo paramos.
Estava prestando tanta atenção no chão que nem notei o que estava na minha frente. Parecia uma cabana, pequena, o suficiente para um escritório. E tinha uma pequena varanda.
–Não conseguimos abrir a porta, então dormimos na varanda.
–Era isso que queria me mostrar?- Pergunto indignada.
–Olhe na janela.
Olho pela janela e vejo. Uma mesa cheia de papeis, na parede um grande mapa. Quando olho melhor para a mesa vejo a caixa, a mesma que estava debaixo da cama de Haralda.
–Bem a caixa não estava. Mas creio que aqui seja o local onde os códigos foram desvendados. Acho que você deve conseguir abrir se tentar.
Eu concordo com a cabeça.
Vou à frente da porta e tento abrir. Não é uma maçaneta comum. Tento forçar mais é muito resistente, mesmo com minha força. Olho para a fechadura. Parece ser muitas engrenagens de madeira. Eu teria que as fazer funcionar. Pense Hanna.
Olho fixamente. Como se olhando eu conseguiria mover. Então as engrenagens se movem. Estou impressionada. Como fiz isso?
Abro a porta.
Pensava que não existia lugar mais bagunçado que meu sótão. Mas ele é simplesmente perfeito. Parece uma central de operações. De um lado as mesas cheias de papel, do outro um aparelho que não conheço. Ele está em cima de uma mesa no fundo. Ele tem uma parte parecida de uma câmera de filmes do cinema, mas com uma lâmpada no lugar de lente. Ele é grosso em sua parte de baixo.
–O que é isso? -Pergunto.
Klara que olhava com pavor a mesa se vira.
–Acho que é de código Morse. -Diz ela.
–Você sabe decifrar?
–Não.
Olho par mesa e vejo partituras.
–Olhe notas agudas.
–O que é isso? –Pergunta Klara.
Olho para onde ela aponta. Parece que tiraram alguma coisa, que se unia ao aparelho de código Morse.
Droga.
–Hanna?
Olho para Klara. Ela esta perto da mesa com partituras.
–Sim?
–O código mandado esta em partituras.
–Por que fariam isso? — Pergunto como se a resposta fosse óbvia.
–Para dificultar?
Olho novamente no fio cortado.
–Não. Ela deve ter recebido as parturas por carta ou algo assim, e com a partitura conseguiu o código.- Ela me olha e eu sorrio. –Temos que encontrar alguém para arrumar isso.
–Sim.
Pego as partituras e dobro, coloco-as em meu bolso.
–Por que nunca me mostrou esse lugar antes? Pensei que tinha medo da Floresta Negra. -Digo.
–E tenho. É que não terminei a história. — Responde ela em voz baixa.
–Quer me contar?
Sei que ela não quer, mas eu quero.
Sento-me na mesa ficando de frente para ela.
–Naquela manhã acordamos com um barulho, quando olhamos para a porta vimos uma mulher com mãos de arvore, colado na porta. Sabe como sempre teve boatos de bruxas nesse lugar, ela olhou nos olhos da minha prima. — Ela faz uma pausa. –Quando ela fez isso um monte de lobos veio em nossa direção. Saímos correndo. Conseguimos fugir, mas ela nunca mais foi a mesma depois daquele dia... não demorou muito e minha prima enlouqueceu e se suicidou.
Que horror.
Eu a braço.
–Desculpe tê-la feito falar. –Falo.
–Nunca contei a verdade a ninguém.
Fico quieta e ela chora, ficamos assim, abraçadas. Depois de um tempo seus soluços param.
–Hanna, quero descobrir se foi Haralda que fez isso. Pela minha prima. Sei que não foi um sonho ou minha imaginação como todos disseram. — Ficamos um tempo em silêncio. Eu nunca fui boa em consolar pessoas, não sei o que dizer ou fazer. –Vamos mudar de assunto. -Diz ela.
–Quando você disse que as mãos dela estavam coladas na porta, o que quis dizer?
–Acho que era uma espécie de chave. –Diz ela dando de ombros.
–Então ela tinha habilidades. Assim como eu?- Ela me olha confusa. –Lembra-se de meus saltos? — Ela concorda com a cabeça. –E acho que tem mais. Quando eu abri a porta foi com... Bem, acho que com a força da mente.
Ela engole seco.
–Por favor, não tenha medo de mim.
–Não acha muita coincidência? -Ela pergunta com olhos prestes a se romper em lágrimas.
–Não.
Ela parece que ignorar o pensamento.
–Pode me mostrar a força da mente?
–Acho que posso.
Saímos da cabana e assim que a porta se fechou virei e vi que ela tinha se trancado novamente. Interessante.
Vejo algumas pedras nos meus pés. Com toda concentração que encontro eu as levanto, fazendo-as pairar sobre o ar.
–Isso é fantástico. Vamos fazer um trato? Nós duas queremos saber os códigos, eu te ajudo e você não me machuca.
–Tem medo de mim Klara? –Pergunto chateada. — Parece que não somos amigas.
–Desculpe.
Ela me abraça.
–Sempre seremos amigas. Fui tola em propor isso. Confio em você Hanna, e vamos nos ajudar. -Diz ela confiante.
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