Círculos da Vida
2 Capítulo 2 - O casamento
Notas iniciais
Quando menos percebi, o casamento já era no dia seguinte. Gracie estava em seu quarto se arrumando para sua ultima noite de solteira. E eu como sempre estava trancada em meu quarto, deitada na minha cama lendo um livro qualquer.
Dois toques na porta me chamaram a atenção, o rosto de fadas de Gracie apareceu atrás da porta.
– Você tem certeza de que não vai com a gente? – Ela perguntou com suavidade.
Lancei um meio sorriso e ergui meu livro.
– Tenho, vai lá e se divirta. – Eu disse, — Está é a sua noite, não se preocupe comigo.
Gracie suspirou e passou pela porta.
– Eu garanto que eles não estarão lá, — começou sem jeito, fechei a página do livro que estava lendo e acomodei melhor minhas costas no travesseiro, ficando incomodada.
– Não, Gracie. – eu disse decidida.
Eu ainda não estava preparada para voltar a circular pela cidade de Londres. Eu havia chegado há quatro semanas, e qualquer vestígio de que encontraria a assombração do meu passado, eu voltaria para Wilmington num piscar de olhos.
– Eloise, por favor. É a minha ultima noite de solteira. Você é a pessoa mais importante na minha vida, e eu gostaria que comemorasse comigo. – Ela voltou a bater aqueles cílios novamente. Mas eu estava decidida, já estava fazendo um grande esforço de ir ao seu casamento.
Suspirei profundamente.
– Gracie, — Falei pausadamente, escolhendo bem as palavras que iria usar. – Por favor, não exija algo de que eu ainda não estou pronta para fazer. Gostaria e muito de ir comemorar com vocês, mas simplesmente ainda não dá. – Ignorei a vontade crescente de chorar e logo tratei de pensar em algo divertido para irritá-la. – Estarei linda e gorda ao seu lado amanhã à noite... E de preferência parecendo um cenourão repartido. – Consegui tirar uma alta gargalhada dela seguida de um rolar de olhos e de algum modo aquilo me aliviou, pelo menos ainda conseguia fazer alguém achar engraçado minhas piadas.
Gracie estava estonteante esta noite, mesmo que seu lindo rosto estivesse retorcido numa careta magoada naquele momento. Mas, o bom dela, é que ela era compreensível e entendia pelo momento que eu estava passando. Seu cabelo loiro acinzentado estava trançado em uma trança francesa, os olhos azuis brilhantes marcados com delineador. Seu corpo alto e curvilíneo abrigava perfeitamente um vestido preto com jeitinho retro mais moderno e ajustados na silhueta, boa parte era rendado com mangas curtas transparentes.
Depois de muita insistência de minha parte e certeza de que ela poderia ir tranquila e feliz para a sua despedida de solteiro. Eu pude enfim sentar a minha bunda gorda e pesada no sofá da sala de estar meia hora depois, com uma bacia de pipoca e uma latinha de refrigerante em cima da mesinha de centro. Minha ideia era de assistir algum filme que de ação e a maior do filme se via carros e prédios explodindo, mas como a minha alegria durava pouco, assim que liguei a televisão, o filme, O diário de uma paixão estava passando. Franzi o cenho, com o próprio pé puxei o controle que estava longe e sem rodeio algum troquei de canal. Ótimo, estava passando, P.S Eu te amo.
Ahh, Qual é? Aquilo era algum complô comigo? Não era possível uma televisão que continha mais de cem canais e todos eles simplesmente resolveram passar filmes melosos e quase impossíveis de acontecer na vida real.
Com um longo suspiro impaciente zapeie os canais um por um até que acabei encontrando um programa de culinária onde ensinava a fazer tortilhas recheadas.
***
Eu ainda não acreditava no que estava vendo, parecia uma ilusão minha refletida no espelho, ou seja, impossível. Agatha e Gracie haviam feito algum milagre, só essa pode ser a explicação. Eu não poderia ter emagrecido da noite para o dia, até porque eu havia comido duas tigelas de pipoca, um sanduiche enorme de salame e ainda não sendo suficiente, emborquei duas latinhas de coca diet.
Eu ainda olhava para a minha imagem no espelho, desconfiada e até mesmo desacreditada. Havia se passado quantos meses mesmo da ultima vez que eu havia ficado tão bonita assim? Poderia afirmar que já fazia um bom tempo... Não, com toda certeza elas haviam trocado o vestido, eu não me lembrava de que ele tinha caído tão perfeitamente assim no meu corpo. A cor que eu julgava de que seria a piada da festa, me deixava mais sofisticada, e, também não imaginava que tinha alguma salvação para o meu cabelo, que milagrosamente estava bem arrumado, preso parcialmente na frente e os cachos caindo pelas costas com pequenas flores de ferro brilhante, dando um toque perfeito ao penteado. Eu estava linda por fora, e ao mesmo tempo destruída por dentro.
Virei para trás onde as garotas se encontravam arrumando Gracie contra o tempo.
– Vocês trocaram o meu vestido não foi? – Perguntei desconfiada, me aproximando delas, para ajudar Gracie passar pelo vestido sem estragar sua maquiagem e seu penteado.
Todas elas riram inclusive Gracie que parecia uma princesa.
Afinal elas realmente fizeram algum milagre.
Tirei algo que tinha guardado por muito tempo e a fiz virar de costas para mim e ficar de frente para o espelho. Delicadamente o passei pelo seu pescoço e o afivelei.
– Como manda a tradição, algo antigo. – Falei a admirando, meus olhos estavam cheios de lágrimas e ela estava nos estados de nervos, mas como sempre tentava disfarçar muito bem. – Não se preocupe, ele está no altar te esperando. – Falei para tranquiliza-la e Gracie se virou para me abraçar com os olhos cheios de lagrimas.
– Obrigada. – Disse com a voz embargada e depois suspirou aliviada.
– Não á de que... – beijei seu rosto. – E mesmo porque eu o ameacei de que se ele tentasse fugir, eu iria buscá-lo no inferno se fosse preciso. – Falei essa ultima parte sussurrando.
Gracie balançou a cabeça revirando os olhos.
– Só você mesmo para fazer piadas nessas horas... – Murmurou nervosa.
Sorri de canto.
– Qual é você conseguiu fazer minhas gorduras abdominais sumirem, eu tenho que te agradecer por isso. – Falei sarcasticamente a fazendo revirar os olhos.
Nunca imaginei que uma cerimônia de casamento fosse tão romântica e emocionante como o de Zach e Gracie foi. Eu havia sido equivocada ao dizer que eles eram burros por casarem com apenas cinco meses de namoro e aos vinte e um anos.
Mas ali, naquele momento me provou que pelo menos eu estava enganada em relação a eles. Eles eram tão perfeitos juntos, Gracie era tão energética e Zach tão sereno. Eu nunca havia visto a paixão e o amor brilhar nos olhos de uma pessoa como os deles que praticamente gritavam um para o outro. Foi impossível em não me lembrar de uma lembrança que eu lutava para esquecer.
– Permita-me ser o homem de sua vida. – A voz da lembrança se chocou tão rapidamente em meus pensamentos, chegando a me desequilibrar daquele maldito salto de agulhas. – Permita-me vê-la de branco entrando numa capelinha. – Continuou á voz rouca e brincalhona.
Meu coração sangrou naquele momento. Eu achava que havia conseguido esquecer-se de como sua voz era tão macia e rouca e mais uma vez eu estava enganada. Era como se ele estivesse aqui, do meu lado. Prendi a respiração, me obrigando a engolir o choro, tentei me concentrar no momento em que Zach dava um beijo terno na testa de Gracie antes de colocar a aliança em seu dedo.
Okay, o meu papel de madrinha devotada à noiva eu havia comprido. E agora todos os convidados se encontravam se divertindo na pista de dança entre os noivos que dançavam loucamente. E eu me encontrava sentada sozinha em um dos bancos vazios no bar fazendo nada mais nada menos do que enchendo a cara.
– Sabe... – Uma voz aveludada e extremamente quente falou ao meu lado. – Não é muito comum ver mulheres enchendo a cara em festas de casamento...
Bebi o conteúdo forte do meu copo em um gole só e me permitir olhar para ver quem era. Sacanagem, só podia ser uma puta de sacanagem com a minha cara ou a bebida tinha subido mais rápido dessa vez. Eu estava enxergando um homem... Um homem completamente quente... E pela primeira vez em meses, eu senti meu rosto esquentar em brasas com o tipo de pensamento que me viera na cabeça.
Ele exalava pura sensualidade e masculinidade que era irreal e incomum. Quantas tequilas eu havia bebido, não, não era possível. Eu devia estar enxergando demais ou aquelas luzes brilhantes estavam me fazendo ter alucinações.
– Talvez porque eu não sou como todas essas mulheres que ficam desesperadas para pegar o buquê. – Falei na minha melhor voz de bêbada. Ou seja, tudo lentamente e enrolado.
O tom de sua risada ecoou na minha cabeça, causando uma inquietação no meu estômago que eu não sentia há muito tempo.
– E não é que você está certa. – Ele sorriu para mim, é sério, que sorriso era aquele? Dentes brancos e perfeitos, a boca dele era perfeita, tudo nele era perfeito. Ele sentou-se no banco ao meu lado e pediu uma bebida ao bartender. Eu não sabia se a culpa era da bebida ou dele. Mas eu o devorava com os olhos.
Tudo nele gritava ser altamente sexy.
Também pedi mais uma dose de tequila e quando o bartender me entregou a bebida. Eu a engoli em um gole só.
– Hey, hey... É melhor pegar leve com a bebida. – Disse o meu sonho de consumo sorrindo, sua voz era um pouco áspera, mas ao mesmo tempo tinha uma suavidade impressionante.
Mordi meus lábios e o encarei com o meu melhor olhar de bêbada.
– Sou maior de idade, quer olhar minha carteira de identidade? – esbravejei inquieta ao ver suas linhas de contornos perfeitas enrugadas parecendo preocupado ou incomodado.
E mais uma vez ele riu balançando a cabeça negativamente.
– Não preciso olhar sua identidade. – Sua cabeça abaixou junto de seus olhos, e eu pude ver quando seus olhos voltaram a subir descaradamente. Ele estava me avaliando de cima a baixo e aquilo... Foi... Tão... Inconveniente, — Posso deduzir sozinho que seja suficientemente madura para encarar bebidas fortes.
Resumindo, ele quis dizer que para o meu corpinho de marmota fora d’ água era preciso um estoque inteiro de tequila vindo do Brasil para me derrubar.
– Obrigada, mas, já sei disso... — Eu pensei.
Sem dizer mais nenhuma palavra, eu tentei me levantar do banco. E como tudo já estava girando, apoie minhas mãos no balcão para não dar nenhum vexame. Tirei minhas sandálias ali mesmo e segui para a saída aos tropeços e esbarrões até conseguir atravessar o enorme salão e chegar á rua. Mesmo cambaleando na rua e enxergando duas calçadas ao invés de uma, caminhei lentamente pela viela deserta de Londres.
Apesar de estar bêbada, eu sabia que tinha passado uma imagem no mínimo estranha para ele e nesse momento ele estaria me achando louca. Mas quem sã em consciência iria achar uma mulher gorda e de baixa estima, atraente? Ninguém! Então não fiz nada anormal do que certo sair de lá antes que ele me chamasse de gorda alcoólatra.
Entrei no apartamento agora escuro e definitivamente solitário. Agora eu não teria com quem brigar no café da manhã por policiar a quantidade de donuts que eu iria comer apenas na primeira hora do dia.
Gracie aquela traidora que dizia que nunca iria se casar antes dos trinta, havia me deixado sozinha e deixado apenas algumas fotografias suas pelos cantos do apartamento, algumas peças de roupas, e por incrível que pareça sua segunda paixão que eram suas cardenetas de desenhos e anotações de moda.
– Traidora... – Resmunguei seguindo o caminho de meu quarto. Deitei-me em minha cama gelada, fiquei deitada ali por alguns segundos ainda com a cabeça girando. No entanto, como era de lei em todos esses meses que se passaram, puxei a única lembrança que sobrará dele. Um coração pequeno que cabia na palma de minhas mãos de pelúcia vermelha, o agarrei com força e o levei para perto do meu coração. Com um suspiro cansado e mesmo tendo consciência de que estragaria o vestido que Gracie havia feito para mim, permiti fechar meus olhos e segundos depois eu estava entregue ao sono repleto de pesadelos.
***
Será que essa coisa de sexto sentido funcionava mesmo quando se estava dormindo? Acho que sim... Algo me dizia para não abrir os olhos e encarar a realidade, ou melhor, um toquezinho irritante insistentemente que tocava em algum lugar pelo meu quarto. Mesmo contrariando a mim mesma, abri os olhos bocejando e logo me arrependi. Tai, a minha resposta para a minha pergunta. Desorientada, gosto amargo na boca, à cabeça latejando, uma sensação de que algo não estava bem com o meu estômago fez-me lembrar de que eu tinha passado do limite ontem á noite, sinceramente eu deveria ter ingerido nada mais que três garrafas de tequila pra dentro. É... Seja bem vinda amarga ressaca!
Novamente começou o toquinho irritante do meu celular. Bufei.
Levantei-me já puxando as cobertas para fora da cama, e nada do maldito celular. Também joguei os três travesseiros com quem eu disputava espaço todas as noites, e nada daquela porcaria! Observei a zona que estava o meu quarto e uma luz se acendeu na minha cabeça, corri em direção ao meu guarda-roupa e ao abrir uma das gavetas, eu o encontrei enrolado junto com alguns pares de meias-furadas. O celular parou de tocar e em seguida caiu uma mensagem.
OMG!
Fala sério, uma gorda não se podia curtir uma ressaca sozinha não? Tinha doze ligações perdidas e seis mensagens com ameaça de morte se eu não atendesse a porcaria do celular em dois minutos.
Tive que afastar o celular da orelha quando os gritos de Gracie invadiram minhas cordas auditivas, eu havia atendido o celular no primeiro toque.
–EU JURO QUE VOU TE MATAR... EU QUASE TIVE UM COLAPSO AO DESCOBRIR QUE A MINHA MADRINHA DE CASAMENTO SIMPLESMENTE TINHA IDO EMBORA ANTES MESMO DE JOGAR O BUQUÊ E AINDA SEM SE DESPEDIR DE MIM. – Nossa! O que havia acontecido com o “Bom dia” ou “Como você está?”, já foi logo me sentenciando à morte.
– Bom dia pra você também Gracie. –Eu disse com a voz rouca voltando o celular na orelha. – Você sabe que eu não acredito nesse lance de sorte do buquê e também sabe que eu não gosto de despedidas...
– Á MINHA MAIOR VONTADE NESSE MOMENTO É DE PEGAR O PRIMEIRO AVIÃO PARA LONDRES E FAZER PICADINHO DE VOCÊ!
Depois de duas horas pendurada no celular, depois de ouvir muitas sentenças de morte. Eu pude enfim contar o meu lado da historia e isso se resultou em mais meia hora e meia a menos do meu dia tedioso, não que eu ligasse para isso. Mas Gracie foi insuportavelmente irritante jogando suas pragas sobre mim e no fim simplesmente desligar o celular na minha cara. Dá pra entender? Nem um pouco...
Suspirei e sai de dentro do meu quarto pra me empoleirar no sofá de minha sala. Olhei ao redor e tudo estava sem graça e monótono, não tinha nada para fazer. E na televisão não estaria passando nada que prestasse naquele horário. Meu laptop ainda estava em cima da mesinha da forma que eu havia deixado da ultima vez que tinha usado. Eu não lia meus emails já fazia alguns meses desde o acontecido.
Eu havia deixado de fazer muitas coisas que gostava por causa dele. Tudo o que eu fazia, me fazia lembrar ele. Eu havia saído do meu antigo emprego porque nós havíamos nos conhecido lá e se eu permanecesse lá iria só me machucar ainda mais. Abandonei alguns amigos que tínhamos em comum, eles sempre faziam questão de trazer noticias deles. Deixei de frequentar lugares que sempre íamos juntos. Deixei de passar em ruas que pegávamos quase todos os dias. Eu havia deixado tudo em Londres e voltado pra Wilmington na Carolina do Norte, para conseguir esquecer-se de tudo e poder recomeçar a minha vida com o meu bêbe, sozinha.
Mas lá veio o destino e me passara à rasteira novamente.
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