Círculo de Fogo
29 Capítulo 28
Notas iniciais
Capítulo 28
— 20 anos antes —
Lúccia já não sabia mais quanto tempo havia passado, só sabia que não aguentava mais andar. Toda a sua pele ardia — provavelmente tinha pegado uma insolação das pesadas —, sua barriga fazia um barulho desagradável e a cabeça estava dolorida. Mesmo tendo conseguido pegar o trem até metade do caminho — de maneira clandestina, diga-se de passagem, e com porcos —, e mais umas caronas, já estivera andando perante o sol quente durante horas.
Quando decidiu que se libertaria do sofrimento, não tinha planejado o que faria depois. Para dizer a verdade, não esperava que fosse conseguir. Achou que falharia e seu “pai” meteria uns bons tiros no meio da sua cara e assim estaria livre para sempre. Mas acabou fazendo tudo que tinha pensado e mais.
Agora estava em um lugar desconhecido, a Deus dará, esperando por qualquer raio de esperança que a fizesse querer continuar lutando por sua vida. Até o momento não tinha visto nada que a guiasse para qualquer caminho. Há quantos dias não comia mesmo? Não conseguia se lembrar.
Estava com tanta fome! E sede!
— Será que tem pessoas procurando por mim? — sussurrou, olhando para o céu azul e limpo de verão. Pensou no irmão e a bile ácida ameaçou subir por sua garganta. — Provavelmente... Devem saber que fui eu. — Fechou os olhos quando começou a sentir a fraqueza finalmente se abater sobre si.
Caiu no chão, as pernas fracas e bambas, enquanto o estômago continuava a reclamar pela falta de alimento. Iria morrer, com certeza iria morrer se ficasse ali. Mas não tinha mais forças para levantar. Não era um fim muito digno, porém, não merecia aquilo depois de tudo que tinha feito?
Deixou um suspiro escapar pelos lábios ressecados, o sol continuou a castigar sua pele já queimada e, enfim, a inconsciência tomou conta de si.
I&R
A carruagem seguia seu caminho silenciosamente. Os presentes ali dentro também se mantinham calados, não era um ambiente confortável e a jovem sabia disso mais do que ninguém. Sob o olhar atento do seu pai, remexia-se inquieta no assento, evitando encará-lo diretamente nos olhos.
Estava zangada e isso era visível em toda sua expressão corporal. Os lábios apertados em uma linha reta, o queixo empinado, o cenho franzido e os olhos gatunos reluzindo de uma maneira quase desafiadora. A postura ereta e tensa, enquanto as unhas estavam cravadas com força na saia do seu vestido longo.
— Yoruichi. — A voz grave e séria do seu pai soou, mas ela o ignorou. — Olhe para mim quando eu estiver falando com você, mocinha! — repreendeu e ela levantou os olhos para ele a contragosto com a expressão carrancuda. — Você já não é mais uma criança, já está na hora de enfrentar a realidade! Assuma a postura de uma mulher!
A morena mordeu os lábios e, segurando uma maldição no fundo da sua garganta com muito esforço, abriu a boca para falar:
— Claro, papai — murmurou, o tom irônico pesando em sua voz quando ela continuou: — Seria ótimo e conveniente assumir uma postura mais adulta, quando seu pai praticamente vende a filha de catorze anos para um velho babão por causa de negócios!
— Yoruichi! — repreendeu-a sério e deu-lhe um olhar duro, mas isso não a fez se abalar. — Meça suas palavras ao falar comigo! Sou seu pai e não seu criado ou suas amiguinhas.
— Se convivesse comigo saberia que não tenho “amiguinhas” — resmungou ácida. — E estou sendo educada, papai.
O homem soltou um suspiro cansado na tentativa de ignorar a língua afiada de sua filha. Sua paciência estava se esgotando, não tinha tempo — e nem queria ter — para ficar discutindo sobre o que era certo e errado com uma adolescente que não sabia nada da vida. Será que ela simplesmente não podia entender que, como uma herdeira mulher, era seu dever se casar com um homem de bom status e que desse um neto a ele?
— Não importa. — Fez um gesto de desdém com as mãos e continuou irredutível: — Você deve fazer o que estou mandando e conceber um herdeiro, rápido!
Em sua pele morena o rubor era praticamente imperceptível. Soltou uma espécie de grunhido — um som nada apropriado para uma dama — e bateu o pé no chão da carruagem, fazendo um som desagradável.
— Eu tenho catorze anos! Como o senhor pode estar pensando nisso? — protestou com os braços sobre o busto pouco avantajado. — Isso é cruel! Se mamãe estivesse aqui, não deixaria que fizesse isso comigo!
E tocara na ferida com sucesso!
A tensão preencheu o ar, dura como ferro, e Yoruichi conseguiu perceber como a expressão de seu pai se endureceu e todo o sangue tinha passado para o seu rosto, borbulhando de fúria.
— Não ouse! Não ouse falar da sua mãe, Yoruichi! — disse pausadamente e ela estremeceu, as palavras pareceram atravessar sua alma como facas afiadas. — Os mortos devem continuar mortos! — acrescentou.
Ela desviou o olhar para o chão, magoada. Como ele conseguia falar daquela maneira? Parecia que não levava em consideração seus sentimentos. Mas se ele pensava que iria fazê-la casar com algum velho babão só por causa do seu negócio estúpido de bois e trens, ele estava muito enganado! Porque ela preferia morrer a fazer o que ele queria.
Qual era o problema do seu pai? Mais do que ninguém ele deveria saber o valor da liberdade, afinal, tinha se casado com uma ex-escrava! E mais do que isso: Tinha lutado na guerra civil em prol da libertação, por ser uma causa nobre e justa. E agora simplesmente queria privá-la de escolher com quem — tecnicamente — passaria o resto da sua vida?
Apenas morta aceitaria algo como isso. Se ele não tratasse de mudar de ideia, iria fugir de casa e desaparecer no mundo, para que assim pudesse ser livre e fazer o que bem entendesse da sua vida.
Voltou a encarar a paisagem crua pela pequena janela, até ver uma figura a poucos metros.
— Pare a carruagem! — gritou de repente, assustando seu pai.
— Que modos são esses, Yoruichi? — murmurou com o cenho franzido de irritação.
A carruagem parou, provocando um solavanco. Ela ignorou seu pai e forçou a porta para abri-la. Quando esta cedeu, levantou a saia do vestido e pulou para fora, sujando suas botas de poeira. Antes que continuasse o percurso, Derek segurou-a pelo braço. E havia uma pergunta silenciosa em seus olhos:
Que raios você pensa que está fazendo?
— Papai, tem alguém ali desmaiado no chão! — disse com a voz aflita e girou o corpo na direção da pessoa. Desvencilhou-se do aperto do pai e correu na direção do indivíduo.
— Espere, Yoruichi! — Derek pediu, mas não obteve resposta. Soltou um suspiro e foi atrás da filha, que corria na sua frente.
A morena alcançou a pessoa segundos depois, agachou-se ao lado dela e viu que se tratava de uma menina tão nova quanto ela que estava suja. Ainda assim dava para perceber como sua pele estava queimada pelo sol quente. Era pequena com o cabelo preto e curto e pelo tamanho das suas pálpebras, possuía olhos grandes.
— Ei papai, é uma garota! — gritou, puxando-a para seu colo de maneira desajeitada. — Ela precisa da nossa ajuda, parece que está desidratada e está magra demais!
— Yoruichi, não podemos levar qualquer pessoa que encontramos para nossa casa. Não sabemos quem ela é — resmungou de mau humor. — Vamos embora, por Deus!
— Papai! — repreendeu antes de estreitar os olhos felinos ameaçadoramente. — O senhor vai mesmo deixar essa pobre agora aqui ao relento? Podendo ser machucada por qualquer um ou até coisa pior? — reclamou usando um tom aterrorizado. — E se fosse eu?
Derek encarou Yoruichi com os lábios apertados de desconforto. Ela o encarava de volta com aqueles olhos repuxados e insistentes, que mais pareciam olhos de um filhote quando querem algo. Ficaram assim por alguns segundos, até o que o senhor amaldiçoou em voz baixa.
— Tudo bem. Vamos levá-la para a carruagem e depois veremos o que faremos com ela — concordou e pegou a garota nos ombros; depois voltou para a carruagem com a filha em seu encalço.
— Obrigada, papai! — agradeceu cantarolando e dando pulinhos, enquanto o seguia.
Apoiou a garota no seu colo e ficou observando a sua face inconsciente.
“Qual é o seu nome?”, pensou com um sorriso.
I&R
Quando Lúccia abriu os olhos já era noite. Ainda desnorteada, demorou a assimilar que não estava mais no meio do nada, a mercê de outras pessoas sem ter certeza que estaria viva ou morta. Quando percebeu que repousava em uma cama quente e macia, que vestia uma camisola grande mais para o seu corpo e que estava limpa, levantou bruscamente.
Estava assustada.
Onde estava e como tinha ido parar ali? Será que tinham descoberto que havia matado seus pais e já a tinham capturado? Olhou em volta, sentindo os olhos arderem pela ameaça das lágrimas que não demorariam a cair. Oh Deus! Não sabia o que fazer! Andou até a porta, os pés descalços fazendo barulho a medida que pisava nas tábuas.
Pegou na maçaneta e fez o movimento para girá-la, mas alguém o fez primeiro. Recuou aos tropeços, “escondendo-se” com rapidez embaixo dos lençóis e espiando em seguida.
— Oh, parece que você acordou. — Yoruichi entrou no quarto, segurando uma bandeja com comida em frente ao peito. Como não obteve resposta, acrescentou: — Trouxe comida, você deve estar com fome.
Lúccia tirou o lençol da cabeça e olhou para a garota morena parada a alguns metros da cama. Ela não parecia ser uma ameaça, pelo contrário, tinha uma aparência muito amigável. Um sorriso sincero delineava os lábios cheios e os olhos eram suaves e brilhantes. Ajeitou-se na cama e abriu a boca para falar, mas a voz falhou.
Pigarreou e tentou de novo:
— É... Onde eu estou? Como eu vim parar aqui? — fez uma pergunta atrás da outra, o lábio inferior tremendo.
Yoruichi olhou para Lúccia, percebendo como a garota parecia assustada. Os olhos azuis e intensos estavam fundos e toda a sua aparência indicava sofrimento. Deu-lhe um sorriso amistoso e tranquilizador para tentar fazer com que ela se sentisse mais confortável na sua presença.
— Que tal se conversássemos enquanto você come? — sugeriu gentilmente, depositando a bandeja no colo de Lúccia e afastou-se um pouco em seguida.
Lúccia olhou para a bandeja repleta de comida: pão, sopa, purê de batata e suco de laranja; sua barriga roncou, estava tão faminta!
Olhou para Yoruichi novamente e quando ela assentiu, incentivando-a a comer, atacou a refeição. Enfiou o pedaço de pão na boca, os farelos caindo sobre os lençóis, para depois segurar o prato de sopa com as duas mãos e tomar direto dele.
A morena puxou uma cadeira que estava no canto e se sentou ao lado de Lúccia, vendo como ela devorava toda a comida feito um animal faminto. Nunca tinha visto alguém comer assim em toda a sua vida! Esperou pacientemente que terminasse para que pudesse falar algo.
— Eu sou Yoruichi — começou com a voz suave e a garota olhou para ela por debaixo dos cílios longos. — Você está na minha casa, então pode ficar tranquila, ninguém irá machucar você. Papai e eu achamos você no meio da estrada, o que aconteceu?
A dona dos olhos azuis pensou no que deveria dizer. Certamente a verdade não era uma opção. Ficou assim por alguns segundos, até que finalmente respondeu:
— N-não me lembro. Estava andando e... — parou. — Não sei.
— Hum — murmurou com o indicador no queixo, em uma postura pensativa. — Qual é o seu nome?
— Lúccia — respondeu, a voz saindo estrangulada de pavor enquanto as mãos suavam mais do que o necessário. — Apenas Lúccia.
— Ok, Lúccia. Quantos anos você tem? Eu tenho catorze!
— Quinze — disse ainda em voz baixa, terminando de beber o suco de laranja que tinha ficado pela metade.
— Nossa! Mas você é tão pequena! — murmurou sem se importar em ser discreta. — Achei que era mais nova do que eu...
— Obrigada — interrompeu. Lúccia olhou bem para Yoruichi, a expressão séria e determinada. — Agradeço pelo abrigo, pela roupa e pela comida, mas não posso ficar aqui.
— Por que? Você ao menos tem algum lugar para ir ou para ficar? — perguntou, franzindo o cenho desconfiada. De algum modo, a garota lhe transmitia um sentimento que a fazia querer protegê-la.
Lúccia não respondeu. A grande verdade é que além de não ter nenhum lugar para ir, não tinha uma única pessoa com quem poderia contar. Não fazia ideia de como viveria dali em diante. Estava completamente perdida.
— Não tenho para onde ir.
— Ah! — exclamou surpresa. — Estou certa de que se eu conversar com papai, estará tudo bem se você ficar. Ele não negará abrigo a uma criança sem lar! — Levantou da cadeira e pegou a bandeja do colo dela, com um sorriso acrescentou: — Descanse um pouco mais, ainda parece cansada. Conversaremos mais depois, Lúccia. Sinto que seremos boas amigas.
Como nada aconteceu durante vários minutos, voltou-se a se aconchegar no meio das cobertas, tinha um cheiro bom. Cheiro de lar. Não demorou para sentir os efeitos de ter ficado tanto tempo no sol, e então, sucumbiu ao sono.
I&R
Yoruichi deixou um suspiro escapar ao entrar em seu quarto e se deparar com Derek sentado em uma das poltronas, folheando um livro que ela não reconheceu. Imaginou que ele estivesse ali para falar sobre seu futuro casamento e tentar lhe convencer que queria apenas o melhor para ela, etc. e etc.
— Como foi? — perguntou sem tirar os olhos do livro, parecendo indiferente.
— Ela está bem — respondeu. — O nome dela é Lúccia e não se recorda do que aconteceu. Também não tem lugar para ir.
Derek levantou os olhos para ela, desconfiado. Já sabendo o que viria depois disso, apenas esperou que a filha acrescentasse:
— Ela pode ficar conosco, não é? O senhor não vai ter coragem de jogar ela na rua sem ninguém para ficar, não é, papai?
O senhor lhe lançou um olhar afiado, mas não conseguiu retrucar uma resposta negativa quando ela o olhava daquela forma. Yoruichi lembrava muito sua falecida esposa. O cabelo liso e curto, com uma estranha colorização preto-arroxeada, os lábios carnudos, mas o que mais a deixava parecida com sua esposa, eram os olhos. Eram intensos e determinados, repletos de esperança e fúria.
Quando se casou com Teresi, estava indo contra tudo que os seus pais acreditavam e prezavam. Ela era uma ex-escrava que tinha sido recém abolida depois de uma guerra civil sangrenta. O que o fez se apaixonar por ela, fora sua determinação em lutar pelo que acreditava, pelo que era certo. Era uma mulher magnífica, que tinha morrido de uma forma ridícula: Tuberculose.
Yoruichi tinha puxado a pele achocolatada e os cabelos negros de Teresi, junto com sua personalidade gentil e ao mesmo tempo feroz, enquanto puxara dele os olhos mais claros e os traços estoicos do seu rosto. E era teimosa feito uma mula, vivia aprontando e o desobedecendo.
Nada melhor que lidar com uma adolescente cheia de hormônios.
— Certo — concordou. — Mas ela vai ter que ajudar com alguma coisa. Mas não precisamos falar disso agora, vim falar do seu casamento.
A morena revirou os olhos e soltou um grunhido nada feminino — como se fosse possível —, mostrando claramente seu desagrado sobre o assunto. Derek pediu gentilmente que ela se sentasse na poltrona ao seu lado, para que iniciassem aquela conversa enfadonha e desagradável. Ela aguardou e ele quebrou o silêncio:
— Minha filha, eu sei que você está irritada sobre o assunto, mas preciso que entenda que isso é preciso pelo bem da nossa família. — Deu uma pausa considerável e depois continuou: — Não me entenda mal, isso não quer dizer que eu não ame você. Eu quero apenas o seu bem.
— Não entendo — murmurou, os olhos fixos no pai. — O senhor diz isso tudo, mas não parou para pensar se isso é o certo a se fazer. O senhor disse que se casou por amor e que lutou contra tudo para concretizar isso. Mamãe era uma ex-escrava e sabia bem o valor da liberdade, inclusive o senhor papai, que a ajudou em sua causa. — O seu lábio tremeu de nervosismo. — Então, por que quer tirar o meu direito de escolher com quem quero passar o resto da minha vida?
— As coisas não simples desse jeito, minha filha — tentou explicar, tenso pelo rumo que a conversa tomava. — Está vendo essa casa? A cama quente que você dorme, a comida boa que você tem todos os dias e as roupas confortáveis e bonitas que você usa? — perguntou e ela assentiu temorosa. — Amor não paga isso, querida. E sinto por isso. O nosso gado já não é o suficiente para nos sustentar, esse negócio está crescendo, mas ainda há muito em jogo. Então...
— O senhor precisa garantir que nosso dinheiro continue existindo e por isso precisa que sua única herdeira se case com um velho gordo que investe em ferrovias para que tenha comida na nossa mesa — replicou de forma grosseira com os lábios apertados de angústia. — Certo, entendi, papai. Não há nada a ser feito.
— Yoruichi...
— Estou cansada, papai. Não quero mais conversar, boa noite. — Levantou da cadeira, deu as costas para ele, sentindo as mãos tremerem de raiva e os olhos embaçarem pelas lágrimas salgadas que ameaçavam descer pelo rosto bonito. — Preciso me trocar.
Derek suspirou afetado e andou até a porta. Lançou um último olhar para a filha — como se pedisse desculpas — antes de sair. A moça desabou no chão desolada. O que poderia fazer? Não queria se casar com um velho qualquer, mas também não queria que seu pai caísse na desgraça e morresse assim.
Amava-o.
Só teria que pensar em algo, tinha tempo, até que completasse dezoito anos ela não poderia casar, até lá, arrumaria um jeito.
I&R
No dia seguinte, antes mesmo de tomar seu desjejum, Yoruichi foi até o quarto de Lúccia para acordá-la e assim tomarem café da manhã juntas. Mas para sua surpresa, quando bateu na porta e não houve resposta —, a garota já não estava mais lá. Com o cenho franzido, correu escadas abaixo e entrou na cozinha.
— Rosa, você viu a...
— Ah! Olá, senhorita Yoruichi, bom dia! Olhe só, Lúccia, seu bolo cresceu!
A garota veio correndo do fundo da cozinha com o cabelo devidamente penteado e com roupas limpas. Uma saia longa amarela e uma blusa de mangas longas da mesma cor. Ela parecia feliz, por algum motivo que a morena desconhecia.
— Sr. Derek me pediu para cuidar da garota. Ela irá me ajudar na cozinha e nunca vi alguém tão empolgado com essa ideia! — Riu, batendo palmas de empolgação. — O café está quase pronto, a senhorita quer alguma coisa especial?
— Não, obrigada. Será que eu poderia falar com a Lúccia por um instante? — perguntou olhando para a garota.
Lúccia seguiu Yoruichi em silêncio, até ela parar perto da mesa do café e fazer um sinal para que se sentasse em uma das cadeiras.
— Vamos tomar café juntas — explicou.
— Mas...
— Não se preocupe, Lúccia. Fique à vontade e coma o que quiser e quanto puder. Você está em casa, agora vá em frente. — Sorriu.
As bochechas de Lúccia coraram de imediato prazer, mal parecia que a menina tinha assassinado os pais semanas antes. Passou os dias tendo pesadelos com isso, mas desde que chegara naquela casa, o pensamento nem tinha atravessado sua mente.
Minutos depois, Rosa apareceu e serviu a mesa, colocando o bolo que Lúccia tinha aprendido a fazer, mesmo sob os protestos dela. No fim, estava delicioso e elas puderam conversar com tranquilidade. Lúccia agradeceu internamente pela morena não fazer perguntas sobre sua vida, apenas desculpou-se por ela ter que trabalhar para ficar, coisa que dispensou, porque se sentiria muito mal se morasse ali de favor.
Não demorou muito para que ela tivesse a certeza de que realmente tinha uma amiga em quem poderia confiar.
I&R
Dois anos e meio se passaram desde então. Lúccia e Yoruichi tinham se tornado melhores amigas. Depois de um longo tempo convivendo juntas, Lúccia decidiu que era a hora de contar a verdade sobre seu passado para a amiga.
Elas tinham sentado na escada da porta dos fundos e bebiam leite morno. Era uma noite fria de inverno. Rosa as tinha ajudado a acender uma pequena fogueira para mantê-las aquecidas. Yoruichi estava um pouco apreensiva, pois jamais vira Lúccia tão séria. Depois de colocar um cobertor no colo de ambas, a morena mais nova esperou pacientemente, enquanto a outra se preparava para dizer alguma coisa.
— E então? Qual é o problema? — perguntou quando o silêncio se estendeu a um nível insuportável.
— Na verdade, não sei como falar o que tenho para te contar, porque estou com medo de destruir tudo que construímos.
— Você está me assustando. Sabe disso, não é? — retrucou e bebeu mais um gole de leite morno. Continuou de bom humor: — Por acaso você matou alguém? — Riu para quebrar a tensão e só parou quando viu a face de Lúccia empalidecer, os lábios tremerem e os dedos endurecerem na coberta. — Lúccia?
Os olhos azuis se encheram de lágrimas quentes e salgadas, e ao olhar para sua única e melhor amiga, sentiu como se o seu coração se partisse em milhares de pedaços. Não sabia como falar aquilo para Yoruichi, não queria falar. Por que quem aceitaria um monstro como ela?
Aquilo com certeza a destruiria, mas Yoruichi tinha o direito de saber quem era de verdade.
Quando abriu a boca para falar, foi interrompida pela amiga:
— Lúccia, não sei o que você tem para me dizer e parece que é muito sério. Mas seja lá o que for, não precisa se preocupar. Sou sua amiga e ficarei ao seu lado para sempre, não importa o que você me diga, o que tenha a dizer — tranquilizou-a, e, nesse instante, Lúccia começou a chorar.
— Oh, Deus! — rogou. Abraçou Yoruichi apertado e só depois de alguns minutos começou se acalmar. — Me desculpe. Yoruichi, eu matei meus pais.
A morena não disse nada, apenas esperou que Lúccia continuasse. Os seus dedos se entrelaçaram nos dela para mostrar que continuava ao seu lado. A garota sentiu alívio, os olhos azuis repletos de calor, de carinho e tudo isso só aumentou quando percebeu que não havia acusações ou repugnância no olhar de Yoruichi.
E ela disse tudo. Contou tudo que conseguia se lembrar e foi sincera, não escondeu nada. Falou sobre os avós, sobre o irmão e como teve que viver os quinze primeiros anos da sua vida. Yoruichi ouviu tudo em silêncio e só falou quando teve certeza que Lúccia tinha terminado.
— Seu segredo está a salvo comigo. Não se preocupe, tudo bem? — Apertou os dedos em torno dos braços finos dela. — Você está em casa agora e eu a amo como se fosse minha irmã. Sangue do meu sangue. E isso não muda nada, entendeu? Eu continuo amando você, Lúccia. Você fez o que deveria fazer e não vou julgá-la por isso. — Sorriu.
Aquilo parecia tão surreal. A menina não podia acreditar que existia alguém assim. Uma pessoa capaz de ignorar todos os seus pecados... Por amor? Alguém capaz de amá-la mesmo depois de tudo que fizera, mesmo depois de ter sido corrompida. E ainda assim... Não a julgava?
— Obrigada — sussurrou com a voz embargada.
— Não precisa agradecer. Irmãos servem para isso, não é? — Abraçou-a apertado.
I&R
Mais um ano tinha se passado. Yoruichi tinha dezessete e Lúccia dezoito. Faltava pouco menos de um ano para que a jovem herdeira se casasse com um velho rico qualquer. Durante os anos que se passaram, ela não conseguiu convencer o pai a mudar de ideia. Por mais que os negócios estivessem melhorando, ele não podia garantir que eles mantivessem aquele padrão de vida.
A pecuária era um bom negócio no Kansas, perdendo apenas para as ferrovias — que a cada dia cresciam mais —, e por conta disso, o número de investidores aumentava, o que deixava um número considerável de concorrentes que nem sempre estavam dispostos a jogar limpo.
Além de não ter obtido bons resultados com isso, também não tinha pensado em nenhuma outra solução “razoável”. Não queria fugir de casa ou algo do gênero, não teria coragem de fazer isso com seu pai, por mais injusto que este fosse. Ela era a única coisa que lhe restava e Derek provavelmente não se casaria novamente.
Partiria seu coração se tivesse que abandoná-lo.
Com a ajuda de Rosa e Lúccia, Yoruichi tinha o convencido a investir em uma pequena pousada, que acomodava principalmente viajantes e andarilhos, ou até mesmo crianças de rua. Lúccia e Rosa cuidavam da comida — uma das coisas que a morena tinha pegado apreço por fazer era cozinhar — e eventualmente ela ajudava também. Lavando lençóis e fronhas. Seu pai não gostava muito da ideia de deixá-la “a mercê” de outros homens o tempo inteiro, mas a culpa que sentia ganhara e no final deixou ela fazer o que quisesse.
Em um desses dias, Yoruichi resolveu dar uma passada na pousada para visitar Lúccia, que agora vivia constantemente no lugar. Entrou pela porta dos fundos que dava para a cozinha e chamou o nome da amiga em um tom bem audível — para não dizer escandaloso —, mas não houve resposta. Andou até o balcão da recepção e chamou novamente.
— Rosa, você viu onde a... — ela deu uma pausa intensa quando entrou no hall principal. Os seus olhos se encontraram com os misteriosos de um forasteiro. — ...Lúccia está? — completou.
— Ah, Senhorita Yoruichi! — a mulher exclamou surpresa. — Bom dia! Lúccia foi no mercado comprar algumas coisas que estavam faltando. Faz pouco tempo que ela saiu, então a senhorita pode sentar e esperar. Tenho certeza que ela não vai demorar.
— Tudo bem — respondeu sem olhá-la nos olhos, o olhar ainda preso no rapaz que se apoiava no balcão preguiçosamente. Ele sorriu e ela sentiu o coração falhar uma batida. — Vou me sentar ali. Obrigada, Rosa.
A morena caminhou de forma lenta até o modesto sofá, sentou e cruzou as pernas. Pegou um jornal que estava jogado em cima da mesa de centro e o ergueu até o nariz. Observou discretamente, de onde estava, o forasteiro conversar com Rosa. Ele era bonito, admitia isso.
O cabelo loiro e liso ia até metade do pescoço, os olhos eram claros de um azul cinzento e todos os traços do seu rosto eram delineados com perfeição. O queixo pontudo, o nariz perfeitamente afilado e as maçãs do rosto altas e coradas.
E ele era... Alto.
Um sorriso brotou em seus lábios carnudos, enquanto o seu sangue corria apressadamente entre suas veias e iam na direção de suas bochechas. Os poros se dilataram de prazer. Era a primeira vez que se sentia assim e a sensação era maravilhosa. Desviou o olhar quando o estranho a pegou o observando, os olhos dele se voltaram para ela em uma análise no mínimo inapropriada.
— Obrigada, Senhorita Rosa — ele disse depois de um tempo.
— Por nada, Senhor Urahara. Espero que fique à vontade, o almoço será servido ao meio-dia e teremos sobremesa!
Urahara? Então esse era o nome do estranho?
— Yoruichi! — a voz de Lúccia a surpreendeu e ela acabou dando um pulinho de susto no sofá. — Você chegou cedo.
— O que você quer dizer com isso? — Estreitou os olhos. — Eu sempre chego cedo!
— Se você diz. — Deu de ombros, escondendo uma risada. — Não me olhe assim, eu estou concordando com você! — acrescentou enquanto segurava as sacolas com compras de ingredientes fresquinhos.
— Você está debochando de mim, não me faça de idiota, por favor! — resmungou de bom humor.
Lúccia revirou os olhos e deu as costas para ela, a fim de ir para cozinha e começar a preparar o almoço junto com uma das criadas que tinha sido recentemente contratada. Parou quando viu Urahara.
— De novo aqui, Kisuke*? — perguntou um tanto ácida.
— Ah! Isso é jeito de tratar seu cliente preferido? — replicou em um tom falsamente magoado. — Isso quebra meu coração, Lúccia.
— E quantos corações você tem? Porque desde que você começou a vir aqui, já me disse isso várias vezes! — pontuou sarcástica. — Você não presta, sabia?
Ele sorriu, maroto, dando uma piscadela discreta para Yoruichi, que ficou surpresa pela velocidade que seu coração começou a bater.
— Eu gostava mais de você no começo, pequena Lúccia. Você não costumava me dar tantos coices.
Dessa vez ela rodou os olhos com gosto e sorriu desdenhosa em seguida, os olhos azuis brilhando de ímpeto.
— Oh, Senhor Urahara! Perdoe minha falta de educação. Você prefere que eu lamba seus pés agora ou mais tarde? — ironizou com uma expressão muito séria.
O olhar de Yoruichi ia de Lúccia para Urahara, estupefata com aquela conversa... Medonha? Esperou que o homem ficasse ofendido e saísse praguejando, dizendo que nunca mais voltaria naquele lugar já que tinha sido seriamente desrespeitado. Porém, aconteceu justamente ao contrário.
— É por isso que eu continuo vindo aqui! — Riu e começou a subir as escadas, mas não sem antes fazer uma breve reverência e dizer: — Senhoritas.
— Estúpido! — Lúccia resmungou e começou a marchar na direção da cozinha.
— O que foi isso? — Yoruichi a seguiu a poucos metros de distância e entraram na cozinha ainda em silêncio.
— Ah, apenas Kisuke Urahara. É sempre assim, não se preocupe. Não importa o quanto eu o insulte, ele sempre volta — disse antes de começar a lavar alguns tomates.
— Hum. E desde quando ele vem pra cá? Eu nunca vi ele por aqui — soltou na tentativa de não parecer muito interessada no assunto.
— Já faz alguns meses — respondeu sem olhá-la, picando algumas verduras e legumes. Continuou: — Não deve tê-lo visto antes, porque ele geralmente aparece no final da tarde, raramente vem pela manhã. — Jogou os ingredientes na panela e mexeu.
Depois de alguns segundos, ela ergueu a colher e assoprou, levando na direção de Yoruichi para que ela provasse.
— Isto está delicioso, o que é?
— Um molho novo que estou preparando para acompanhar o assado de carne da Rosa. Achei que estava apimentado demais, mas se você diz que está bom, confio em você. — Sorriu e voltou-se para a panela.
— Você sabe o que esse tal de Kisuke vem fazer aqui? — Mordeu o lábio inferior com força enquanto esperava pela resposta. Desviou o olhar para a parede e percebeu que a pintura cinzenta começava a descascar.
— Para dizer a verdade, não faço ideia do que possa ser. Ele é bem misterioso, vai e vem constantemente, mas deve ser algum investidor das ferrovias. Não sei. Por que está perguntando? — Virou para ela, as sobrancelhas negras arqueadas em uma pergunta inquisitória. — Você por acaso estaria... Interessada nele?
Ela abriu a boca para responder, mas fechou-a em seguida. Franziu o cenho e apertou os lábios de maneira nervosa, para, por fim, dizer:
— Acho que estou me sentindo atraída — confessou. — Admito que não sei muito sobre essas coisas, porque sempre fui cética em relação aos homens e nenhum nunca particularmente chamou minha atenção, mas... — deu uma pausa. — Quando eu olhei para ele, meu coração bateu bem rápido e minha respiração ficou pesada. Isso não é normal, então deve ser atração. O que você acha?
— Acho que está certa — concordou séria. — Mas veja bem, não acho que Kisuke Urahara é uma pessoa com quem você deva se envolver. Ele é muito suspeito, não colocaria minha mão no fogo por ele. — Yoruichi quis comentar que ela não colocaria a mão no fogo por praticamente ninguém, mas optou por ficar em silêncio. Lúccia olhou para ela e deu uma risada que alcançou seus olhos. — Conheço você, não importa o que eu diga, se está com isso na cabeça, vá em frente. Quem sou eu pra te impedir? Só não abra as pernas para ele, pelo amor de Deus.
— Lúccia! — Riu com vontade nem um pouco constrangida. — Eu não vou. Apesar dos pesares, ainda sou uma dama. Não pense que eu sou estúpida.
— Não acho, mas homens são animais. Se ele te forçar a fazer alguma coisa, me conta que eu acabo com a raça dele, entendeu?
— Se ele tentar alguma coisa, EU acabo com a raça dele! — Cerrou os punhos com uma expressão séria e assoviou. — Vai querer ajuda para servir o almoço?
— Claro. Por que não? — aceitou e depois acrescentou: — Só assim para você poder ver o Kisuke de novo, sua danadinha!
I&R
Para a decepção de Yoruichi e o divertimento de Lúccia, Kisuke não apareceu na hora do almoço. Ele tinha saído para resolver seus negócios misteriosos e sabe-se lá que horas iria voltar. A morena mais nova deu um suspiro inconformado e remexeu a colher no prato com assado de carne.
— Você não vai comer? — Rosa perguntou. Estava sentada do outro lado da mesa, que ficava dentro da cozinha em um canto discreto.
— Não estou mais com fome — murmurou e voltou a remexer a colher no prato.
— Nada! — Lúccia começou em um tom provocativo e, recebeu um olhar desconfiado de Yoruichi. — Ela está assim porque o Kisuke não apareceu na hora do almoço, ela queria conversar com ele um pouquinho.
Rosa deu uma risada de surpresa, vendo as duas “brigarem” feito crianças.
— É a primeira vez que vejo a senhorita interessada em algum rapaz — comentou e deixou a refeição de lado antes de continuar: — Isso é muito bom. O Sr. Urahara vem sempre aqui e nunca o vi com nenhuma mulher, se não me engano, ele é apenas uns dois anos mais velho que você.
— Mesmo? — ignorou um comentário de Lúccia e voltou-se para a cozinheira, muito mais interessada no assunto. — O que mais você sabe sobre ele, Rosa? — acrescentou descaradamente, sem nenhum pingo de vergonha na cara.
— Bem... — parou para pensar. — Sei que cuida do negócio do pai, é algo relacionado com armas, se não me engano. Ele está sempre viajando pelo país, nunca para.
— Isso é o que ele diz — Lúccia retrucou e enfiou um pedaço de carne na boca. — Não acredito que seja isso, é tudo mentira! Tenho certeza! — terminou de boca cheia.
— Como você pode saber? — Yoruichi perguntou com um brilho desafiador nos olhos.
— Quer apostar? — rebateu igualmente desafiadora.
— O que você vai me dar se eu ganhar?
— Faço o que você quiser por um mês inteiro.
— O que eu quiser? — Arqueou as sobrancelhas.
— O que você quiser — reforçou e colocou a mão em cima da mesa para selar a aposta. — Mas se eu ganhar, e sei que vou, vai ter que massagear meus pés todos os dias por um mês e trazer leite morno para mim na cama!
— Feito! — Revirou o solhos de forma dramática.
— Vamos!
— Cuidado, garotas! — Rosa avisou receosa, desconfiada sobre o que exatamente elas iriam aprontar. — Não vão se machucar com essa brincadeira.
— Não se preocupe, Rosa. Vamos tomar cuidado — Lúccia tranquilizou-a e beijou-a no rosto antes de sair correndo porta a fora.
— Vai dar tudo certo! — Yoruichi acrescentou e também a beijou, para depois correr e seguir Lúccia.
— Essas crianças — sussurrou para si, enquanto um sorriso maternal pousava em seus lábios.
I&R
— Vamos aproveitar que ele está fora — Lúccia comunicou, parada em frente a porta do quarto de Kisuke.
— Ai! Vamos invadir o quarto de alguém! Estou tão empolgada! — Deu pulinhos de felicidade.
— Cale a boca, não faça barulho. Você quer que alguém nos veja entrando aqui?
— Tanto faz — resmungou e depois empurrou Lúccia para dentro do quarto, quando ela abriu a porta com a chave reserva. — Entra logo.
— Olha, ele é organizado — constatou surpresa. — Quem diria, admito que estou surpresa. — Assoviou, xeretando o armário dele e vendo como as roupas estavam devidamente organizadas nos cabides.
— Não estou vendo nada de suspeito, isso é coisa da sua cabeça! — disse dando uma espiada em um dos livros em cima da cabeceira da cama.
— Acredite no que estou falando. Meu instinto diz que tem algo errado com ele! E meu instinto nunca falha — afirmou convicta.
— Sério? — zombou e continuou com ironia: — E daquela vez que você disse ter certeza que tinha uma barata gigante dentro do seu armário?
— A-aquilo foi diferente! — gaguejou, corando de constrangimento por aquele episódio humilhante. — Não vamos falar disso!
— Claro, claro. Quando é para falar das minhas humilhações, tudo bem, mas quando é para falar das da dona Lúccia...
— Psiu.
— Viu só. Realmente...
— Cala a boca, você está ouvindo isso? — cortou-a quando ouviu passos subindo pela escada. — Droga! Tem alguém vindo! Vamos embora!
Elas correram para a porta, mas a voz de Urahara as fez recuar.
— Desculpe por isso, espero que não se incomodem tanto...
— Não vai dar tempo de sair, merda! — Lúccia sussurrou e tentou ver alguma saída alternativa.
— Podemos dizer que estávamos limpando — Yoruichi sugeriu calmamente.
— Que lindo. E como? Sem vassoura e baldes? Sério? — sibilou e apertou os olhos. — Vamos sair pela janela.
— E quebrar as duas pernas? — rebateu cética. — Não, muito obrigada, eu passo!
E as pessoas se aproximavam ainda mais, Lúccia apertou os lábios com mais força, até que Yoruichi puxou-a pelo braço e apontou para a cama. A pequena revirou os olhos, mas, sem escolha, seguiu-a para debaixo dela com rapidez. O lugar era apertado, então tiveram que se encolher para que as duas coubessem. Lúccia observou, com horror, uma parte do vestido de Yoruichi sobrar, e no instante em que Urahara abriu a porta, ela puxou a bainha do vestido, rasgando a parte da saia e deixando as pernas de Yoruichi totalmente nuas. Ela ia protestar, mas a dona dos olhos azuis tapou sua boca.
— É um lugar simpático, Sr. Urahara — um rapaz comentou casualmente ao entrar no quarto. — Agora sei porque gosta tanto daqui.
— É verdade e aparenta ser muito confortável. — Dessa vez uma mulher com a voz doce demais que falou, o que fez Yoruichi apertar os lábios de desgosto.
— Todos estão certos, é um lugar adorável — Kisuke murmurou preguiçosamente. — Fiquem à vontade, e não precisa dessa formalidade toda. Chamem apenas de Kisuke e estaremos bem.
— Adorável! — A moça bateu palminhas. — Será que podemos ver o produto?
— Mas é claro! — concordou com um sorriso amistoso. — Vocês aceitariam algo para beber?
— Eu adoraria um copo de água, aqui faz calor!
— Aceito uma xícara de café, se não for muito incômodo, é claro. — O homem tinha a voz grave e bonita, parecia pertencer a alguém charmoso e educado. Ambas as garotas tiveram curiosidade em ver o seu rosto.
— Tudo bem, tenho certeza que Rosa não se incomodará, volto em um minuto, podem ficar à vontade. — E deixou o recinto.
Lúccia conteve um suspiro desanimado. Quando elas iriam conseguir sair dali? Esperava que eles fossem embora logo, para que assim, pudessem sair sem serem descobertas. Nem queria imaginar o constrangimento que seria se alguém as visse. Por Deus! Olhou para Yoruichi e viu que ela parecia prender um riso.
— O que foi? — os lábios de Lúccia se moveram rapidamente e os olhos gatunos se voltaram para ela, risonhos.
— Nada — disse de volta, afundando os lábios no braço para abafar uma risada. — Nada mesmo.
Nesse momento Lúccia também teve vontade de começar a rir, a amiga estava praticamente roxa de tanto prender as gargalhadas e a expressão dela era totalmente hilária. Ela mordeu o lábio inferior com força e mandou-a calar a boca.
— Estava lembrando da cara que você fez naquele dia da barata, quando ela voou em cima de você — moveu os lábios lentamente para que Lúccia entendesse, não saia mais do que um silvo.
A morena menor revirou os olhos, mas ao ver o rosto de Yoruichi começar a ficar realmente roxo de tanto prender o riso, teve que prender a respiração para não rir alto. Oh, céus! Por que elas tinham que começar a rir logo naquele instante? Nem conseguia imaginar o que fariam se fossem pegas.
— Cale a boca, maldita! — Lúccia sussurrou entredentes.
— Ai! Que idiota! — A voz da mulher soou estridente, assustando as duas que ficaram paralisadas e em silêncio. — Não vejo a hora de ir embora daqui, esse lugar além de ser asqueroso é um inferno. E esse estúpido que fica com esse sorriso condescendente o tempo inteiro? Ele me irrita!
— Vamos com calma, Masaki — o homem pediu, seu tom de voz tinha mudado completamente, estava diferente do que elas tinham ouvido antes. — Nós poderemos dar um jeito nisso depois, mas antes precisamos descobrir onde ele pega as armas. Depois, você pode fazer o que quiser com ele, querida.
Lúccia e Yoruichi se entreolharam com os olhos arregalados de surpresa e ouviram o barulho de um beijo estalado. Armas? Do que eles estavam falando? E queriam matar o Kisuke? Por qual motivo? Um arrepio atravessou a espinha de Yoruichi, enquanto o queixo de Lúccia estava travado de tensão, os dedos crispados para conter o tremor que se apoderava involuntariamente do seu corpo.
— Parece que ele está voltando, Aizen. — Os passos de Urahara ecoaram pelo corredor enquanto ele cantarolava uma canção qualquer. Ele abriu a porta. — Bem vindo de volta, Sr. Urahara. — o tom gentil da mulher voltou e Yoruichi teve vontade de vomitar.
— Deixei os senhores esperando demais? — perguntou de forma agradável.
— Não se preocupe com isso. — Aizen pegou a xícara de café na bandeja que o loiro oferecia e agradeceu em voz baixa. — Mas então, Sr. Urahara. Gostaria de saber mais sobre seu negócio, se é que me entende.
— Meu irmão está certo. Nós queremos saber mais. O senhor foi indicado por um amigo que disse que você era um homem de confiança.
— Ah, claro. É uma honra saber que sou confiável. — Sorriu gentil. — Agora que estamos em um lugar agradável, podemos conversar melhor sobre os negócios. — Uma expressão séria dominou o seu rosto e ele continuou em um tom ameno, mas ao mesmo tempo, horripilante: — Preciso saber exatamente quem os senhores são e o que desejam.
Aizen descansou a xícara de café no pires e deu um sorriso matreiro. Urahara não pôde deixar de notar que o homem emanava uma estranha aura, que o deixava extremamente desconfortável, apesar de não demonstrar. O loiro esperou pacientemente que o homem começasse a falar, mas foi a moça quem começou:
— Bem, Sr. Urahara. Não sei se o senhor tem o conhecimento de como funciona os bancos. Estamos nesse ramo há anos e infelizmente, o número de roubos têm apenas aumentado, o que nos deixa totalmente preocupados.
— Os xerifes não conseguem prender, com todo perdão da palavra, os malditos bandidos. Então temos que proteger nosso legado com nossas próprias mãos — Aizen tomou a palavra, uma expressão séria dominando o seu rosto. — E bem, já que o governo não pode nos proteger, faremos justiça nós mesmos.
— Então vocês querem armar homens para que defendam seus bancos. — Kisuke pareceu pensar por um instante antes de retomar a conversa: — Parece um bom motivo para mim. E de quantos homens estamos falando? Porque vocês devem saber que esse não é um negócio fácil.
— É claro. Era de se esperar. Como um homem de negócios, Sr. Urahara — Aizen disse cordialmente.
Yoruichi franziu as sobrancelhas, incomodada. Certamente Kisuke não sabia com que tipo de pessoa estava se envolvendo. Lúccia estava tão tensa que os músculos estavam começando a ficar doloridos e o simples ato de respirar era difícil. Achava que qualquer barulho que fizesse — mesmo o da sua respiração — poderia denunciá-las.
Engoliu a saliva, que desceu seca por sua garganta.
Lúccia cutucou Yoruichi no braço e disse bem baixinho:
— Temos que sair daqui.
A morena revirou os olhos em resposta e apontou discretamente para os pés na frente delas, como se dissesse “como se pudéssemos fazer isso agora”. Ficaram paradas enquanto os três conversavam, esperando pela oportunidade de escapulirem. Depois de dez minutos, a negociação pareceu ser acertada.
— Então estamos entendidos, Sr. Urahara? — Masaki perguntou.
— Com certeza, Srta. Masaki. Podemos nos encontrar amanhã nesse mesmo horário no lugar em que mencionei. Estarei lá com a encomenda dos senhores.
— Isso com certeza será de grande ajuda — Aizen completou, parecendo satisfeito. — Então, nos encontraremos amanhã.
Kisuke os acompanhou até a saída da pousada. Essa foi a chance perfeita para que ambas as garotas saíssem sem nenhum problema. Quando elas se refugiaram na cozinha, sentaram-se na mesa, pensativas, até Yoruichi quebrar o silêncio:
— É, o que vamos fazer agora?
Lúccia piscou algumas vezes antes de responder.
— O que nós vamos fazer? Nada! Isso não é da nossa conta — retrucou. — Mas sabe o que você vai fazer? Massagear meus pés essa noite e me trazer leite na cama! — emendou.
Yoruichi revirou os olhos dramaticamente e resmungou alguma coisa que Lúccia não compreendeu. Olhou desconfiada para ela, as sobrancelhas juntas, um vinco formado no meio da testa, torceu os lábios e disse:
— Yoruichi, não se meta com os negócios do Kisuke. Ele mexe com isso há muito tempo, creio eu. Deve saber lidar com esse tipo de gente muito melhor que nós duas juntas. Não se meta! — Estava bem séria.
— Mas aquela mulher disse que iria matá-lo! Você ouviu! Como vai conseguir dormir à noite com isso na cabeça? Não vai ficar com remorso? — perguntou retoricamente.
— Okay, senhorita — Lúccia começou ironicamente. — E o que você espera que façamos? Você quer chegar nele e dizer que invadimos o quarto dele e que ouvimos uma conversa que realmente não tem nada a ver conosco?
— Sim — respondeu com sua típica cara de pau. — Qual é o problema?
— Qual é o seu problema? — jogou de volta, incrédula.
— Quero salvar a vida dele! Seria desperdício deixar um homem tão bonito como ele morrer!
— Inacreditável, Yoruichi. A palavra “limites” não faz parte do seu vocabulário. — Balançou a cabeça. — Não consigo acreditar que você está se sentindo atraída pelo idiota do Kisuke ao ponto de fazer tudo isso — completou para si em voz baixa.
— Quando ele voltar, faço questão de falar com ele. Você não precisa vir, só para ficar informada! — Levantou da cadeira, pronta para se retirar. — Estou voltando para casa, mais tarde estarei aqui!
— Yoruichi, você não pode ir... — Antes que a mais velha conseguisse completar o que dizia, a outra saiu do recinto em passos apressados. — Seu vestido está rasgado — emendou.
Quinze segundos depois ela voltou, emburrada, passou direto por Lúccia, que mantinha um sorriso de escárnio.
Ah! Ela nunca aprendia!
I&R
Naquela mesma noite, a jovem e espirituosa Yoruichi foi falar com Kisuke Urahara. Como tinha que estar apresentável e não podia voltar para casa, pediu que Rosa ajudasse a emendar parte do seu vestido — o que foi feito porcamente, já que pela falta de tecido, Rosa emendara um pedaço de lençol.
Decidiu que levaria o jantar ao quarto dele, ignorando todos os protestos de Rosa sobre o quão inapropriado era essa atitude: uma dama sozinha no quarto de um homem solteiro.
“Blábláblá”, pensou, “besteira”. Como se ligasse para essa porcaria.
E se por um acaso ele resolvesse atacá-la, quebraria um prato na cabeça dele! E depois chutaria suas partes baixas para que aprendesse que não era por ser uma mulher, que ela não saberia se defender.
Com a bandeja em mãos, parou em frente a porta do rapaz. A luz provinda dos candelabros fazia com que sua sombra tremulasse no corredor — o que fazia arrepios bem desconfortáveis atravessarem sua espinha. Apoiou o objeto com uma mão — como Lúccia tinha a ensinado — e bateu suavemente na porta com a outra.
Demorou apenas alguns segundos para que a porta fosse aberta. Urahara pareceu verdadeiramente surpreso ao vê-la, mas logo abriu um sorriso bem discreto. Sob seu olhar atento, ela sentiu-se nua.
— Boa noite, Sr. Urahara — desejou cordialmente. — Se incomodaria se jantássemos aqui?
Ele ergueu as sobrancelhas, mais surpreso ainda.
— De forma alguma, entre. Srta. Yoruichi, certo? — Ela assentiu e ele deu passagem para que ela entrasse, viu o receio no rosto dela e soube no mesmo instante sobre o que se tratava. — Não te farei nenhum mal, se é isso que a preocupa — tranquilizou-a.
— É bom mesmo, senão chutaria suas bolas com toda minha força — decretou séria.
O loiro olhou para ela, estupefato e soltou uma sonora gargalhada. Ah!
— Terei isso em mente, senhorita — disse com humor. — Tem uma língua afiada.
Yoruichi devolveu o sorriso e entrou no quarto com o queixo empinado. Ele fechou a porta em seguida e a ajudou a arrumar a pequena mesa que ficava no canto da parede. Depois puxou a cadeira para perto e olhou para a refeição: Sopa de carne com ervilhas.
— Lúccia fez especialmente para o senhor — avisou com um meio sorriso.
— Tem algum perigo de estar envenenada? — brincou.
— Não. — Fez um gesto de desdém com as mãos. — Provei antes de trazer, se estiver, morreremos nós dois.
— Reconfortante — murmurou sem tirar os olhos dela, para só depois arrumar a colher e colocar o guardanapo no colo. — O que a senhorita deseja tratar com esse humilde comerciante?
E com toda sua sutileza, a moça começou:
— Não sei exatamente como começar, Sr. Urahara, o assunto é um tanto constrangedor, apesar de sério. Mas como prefiro ir direto ao assunto, vou dizer logo: Eu e Lúccia invadimos seu quarto essa tarde. Como uma verdadeira dama deveria fazer, pediria desculpas pela nossa estupidez e inconveniência. Porém, não vou fazer isso, porque além de não estar arrependida, as desculpas não seriam nenhum pouco sinceras. — Deu uma pausa dramática. — Enfim, o senhor não parece surpreso.
— É porque eu já sabia, Srta. Yoruichi. — Mexeu em algo no bolsos da calça e a morena franziu as sobrancelhas. Puxou o pedaço do vestido dela e levantou-o na altura do ombro. — Acredito que isso seja seu.
Se Yoruichi não fosse Yoruichi, provavelmente teria ficado muito constrangida, mas não foi o caso. Apenas limitou-se a sorrir desdenhosa e esticar as pernas para fora da mesa pequena.
— Sim. Eu poderia dizer que me sinto estúpida agora, mas seria outra mentira. E como pode ver, não preciso mais dele, foi substituído por esse lindo e magnífico pedaço de lençol velho. Então, pode ficar com ele, senhor.
— A senhorita não precisa me chamar de senhor. Apenas Kisuke.
— Se for assim, me chame apenas de Yoruichi e ficaremos ótimos. — Saboreou mais uma colher de sopa. — Não tenho dessas frescuras. De qualquer modo, deixe-me finalizar o assunto. Os senhores que você atendeu naquela hora, eles querem assassiná-lo — declarou.
— Oh — murmurou com falsa surpresa. — Entendo. O que você ouviu exatamente? — Apoiou os cotovelos na mesa enquanto cruzava as mãos.
— O homem disse que antes da mulher poder dar um jeito em você, precisavam saber onde guardava as armas. E com certeza eles não eram irmãos — fez questão de pontuar.
Kisuke pareceu pensar por um instante antes de falar qualquer coisa. Enquanto isso, Yoruichi ia tomando a sopa, nervosa, esperando que ele falasse qualquer coisa. Qualquer coisa. Os olhos cinzentos se voltaram para ela com um brilho divertido.
— Aprecio sua preocupação, senho... ham... Yoruichi. Na verdade, me sinto honrado que tenha feito questão de avisar sobre o risco que minha vida está correndo. É uma mulher formidável e corajosa. — Ela murmurou um “obrigada” e ele sorriu. — Temo que não há nada que eu possa fazer além de ir embora. Não gosto de derramar sangue desnecessário.
— É um bom homem. Já sabia disso, Kisuke — declarou, demorando-se em seu olhar. — Por isso vou fazer uma pergunta, para saciar minha curiosidade, é claro. — Ele assentiu e ela continuou: — Você é um contrabandista de armas, por quê?
— É uma boa pergunta, Yoruichi. Mas o maior motivo é que eu precisava de dinheiro e esse era o melhor jeito e mais rápido de conseguir. Não me agrada mexer com bordeis e nem teria dinheiro para começar bem e esse tipo de “mercado” pode ser bem mais perigoso. — Suspirou e tomou uma colher de sopa, limpando os lábios em seguida. — Provavelmente não é isso que gostaria de saber, então vou resumir: Meu pai fez muitos dívidas com agiotas e nossa casa estava hipotecada, para salvar nossas vidas, entrei no ramo. Não adiantou muita coisa, porque mataram ele de qualquer jeito.
— Sinto muito — sussurrou com os olhos gatunos arregalados de surpresa.
— Não sinta, já faz anos, não há mais sobre o que se lamentar — disse suavemente sem deixar de encará-la. — Acostumei-me a ganhar dinheiro e continuei no negócio. Dá muito lucro.
A moça poderia ter começado um discurso moral, dizendo o quanto isso era perigoso e como isso afetava na segurança das pessoas e milhares de pontuações sobre como era politicamente errado tudo o que fazia. Mas ela não o fez. O mundo não funcionava assim. Conhecia os negócios do pai e sabia como as pessoas morriam por motivos tão idiotas. As ferrovias eram um negócio muito caro e quebrava inúmeros valores morais, como o respeito.
— Compreendo por parte — foi sincera. Era rica desde que nascera, não sabia o que significava passar fome ou qualquer outra necessidade. — Não serei eu a julgá-lo, Kisuke. Só tome cuidado.
— Agradeço, Yoruichi. Seria ótimo se compartilhássemos o jantar de devida maneira e falássemos sobre nós ao invés desses assuntos tensos e entediantes.
— Seria ótimo — concordou, satisfeita com o rumo da conversa. — E bem... Parece que estamos salvos. Lúccia não envenenou a sopa como temia.
Kisuke riu.
Eles conversaram sobre inúmeras cosias enquanto riam e apreciavam o jantar. Yoruichi descobriu que a cor favorita dele era verde e que odiava beterraba com a força da sua alma, que apreciava um bom vinho ao invés de cerveja e gostava de ler. Kisuke teve a chance de perceber que a língua da moça era muito mais afiada do que parecia, mas isso não o incomodou, na verdade, adorou o seu humor fácil e a escolha de suas palavras. Descobriu que ela odiava cantar ou tocar qualquer instrumento, juntamente com aquelas regras estúpidas para comer. “Porque comida era comida, oras! Pra que tanta frescura?”, tinha dito ela. Adorava comer, cavalgar e qualquer coisa que cheirava a aventura. Não bebia por causa das restrições do pai, mas já provara cerveja escondido.
— Algum dia, quando eu voltar, poderíamos compartilhar uma boa taça de vinho. Por minha conta, é claro.
— Seria ótimo e com um pato assado... — Faltou salivar.
— Ficaria perfeito — completou maroto.
Alguém bateu na porta e antes que algum deles se pronunciasse, Lúccia abriu-a bruscamente. Quando os viu sentados na mesa, o alívio que tomou conta da sua expressão era evidente.
— Hora de ir para casa — anunciou, o olhar alternando entre os dois.
— Que falta de educação da sua parte, Lúccia — Yoruichi reclamou. — Não se pode sair abrindo a porta desse jeito. E se ele estivesse pelado?
— Se ele estivesse pelado? — Franziu o cenho suavemente e empinou o queixo. — Se ele estivesse pelado eu ia bater nele e depois em você por não me escutar. Mas do jeito que você é teimosa, não ficaria surpresa se isso acontecesse.
— Do que as senhoritas estão falando? — Urahara indagou com as sobrancelhas arqueadas.
— Ela disse que eu poderia apreciar sua beleza, desde que não abrisse minhas pernas para você — Yoruichi explicou.
— Yoruichi! — Lúccia repreendeu, corando.
— Que foi? Você disse isso mesmo — pontuou bem humorada.
— Eu sei o que eu disse! — rebateu. — Mas esse é o tipo de coisa que era para ficar entre nós duas! — emendou enquanto apertava os lábios e os olhos.
— Parte meu coração saber que achava que poderia fazer algum mal para Yoruichi, Lúccia. — Kisuke fez um beicinho e a morena mais nova riu alto.
— Poupe-me, Kisuke! Poupe-me! — sibilou entre dentes. — Quer saber? Vocês dois se merecem! São perfeitos um para o outro. Vocês e suas malditas línguas! — Voltou-se para a porta e foi segurando a maçaneta com força desmedida que disse em alto e bom tom: — Vou esperar lá embaixo, não demora!
E saiu em passos pesados para alguém do seu tamanho.
— Parece que a irritamos — o loiro constatou, ainda sentado.
— Nada fora do comum. — Deu de ombros. — Parece que tenho que ir. Foi um prazer passar a noite com você. É certamente uma companhia adorável e divertida.
— Faço das suas palavras as minhas. Foi um prazer imenso. É uma pena que tenha acabado. — Levantou da cadeira e aproximou-se dela, para depois tomar as mãos femininas entre as suas e continuar: — Nos veremos novamente, Yoruichi.
— Espero que sim! — concordou com um sorriso. — Tome cuidado na sua viagem, não demore a voltar!
— Prometo! — Beijou-a na mão lentamente, os lábios pousaram em uma carícia quase erótica. — Estarei aqui novamente antes que perceba.
— Vou me lembrar disso — sussurrou e se aproximou o suficiente para que seus lábios se encostassem. Quando ia avançar, ouviu a voz de Lúccia:
— E traga a maldita louça! Vem logo que eu não tenho o dia todo!
— Às vezes ela parece uma velha rabugenta! — Yoruichi murmurou e uniu os lábios ao dele, beijando-o ternamente. — Não se esqueça de mim.
— Não vou — prometeu e afastou-se apenas o suficiente para mostrar o pedaço do seu vestido. — Vou me lembrar toda vez que olhar para isso.
— Até mais — disse relutante em se despedir e atravessou a porta, tendo um último relance do olhar acinzentado do rapaz.
Quando chegou no andar de baixo, a outra morena a esperava na ponta da escada.
— Cadê a louça? — retrucou.
— Esqueci — respondeu e andou na frente. — Vamos?
— Por que você está sorrindo desse jeito? — perguntou desconfiada. — Você está me assustando.
Mas Yoruichi não a ouviu, estava em um mundo diferente. Apenas repassava a cena do seu primeiro beijo. De novo, e de novo. Até que ficasse cravado em sua memória e fosse incapaz de esquecer.
I&R
Depois do primeiro encontro entre Urahara e Yoruichi, vários outros se sucederam. Como tinha prometido, voltara para vê-la menos de um mês depois. Comeram, beberam e dançaram e cada vez que se encontravam, o sentimento que compartilhavam ia apenas florescendo ainda mais.
Logo os dias começaram a virar semanas, depois meses e ela sabia que não tardaria a fazer seus dezoito anos e casasse com alguém que não queria. Lúccia fazia questão de lembrá-la disso todas as vezes que acobertava algum encontro dos dois. Não por maldade, mas para colocar os seus pés no chão e fazê-la saber o que estava enfrentando.
— Kisuke poderia pedir minha mão para o meu pai. Ele tem dinheiro e não seria um problema.
— Você está dizendo isso por dizer, porque sabe que está sendo ingênua — Lúccia dissera da forma mais branda que pudera. — Sabe que o problema não é o dinheiro. E acha mesmo que seu pai a entregaria para um contrabandista de armas? Nem que estivesse louco.
Yoruichi odiava ter que concordar com Lúccia. Seu pai não cederia, teria que se casar de qualquer jeito apenas para assegurar a boa vida. Por mais que tentasse ser positiva e pensar em uma boa “solução”, toda vez que encontrava Urahara, só conseguia pensar na separação. O comportamento dela o deixava tão preocupado que nem conseguiam mais apreciar a companhia do outro.
E tudo que Lúccia podia fazer era observar a desilusão da amiga ao ter que se separar do primeiro homem por quem se apaixonara. Derek notou o abatimento da filha e sempre se perguntava se havia algo errado para que estivesse tão cabisbaixa. E ela sempre negava. Não se atreveria a falar de Kisuke para seu pai, não deixaria que ele levasse embora o resto da sua felicidade. A única coisa que lhe ocorria era fugir, entretanto, o pensamento de abandonar seu pai a deixava relutante.
Aos poucos a felicidade e a tenacidade que eram características tão marcantes de Yoruichi iam sumindo. A monotonia começou a preencher os pequenos espaços de sua esplêndida juventude e energia, transformando-a em uma mulher ácida e mal humorada. Um dia, simplesmente explodira. No seu aniversário de 18 anos, Derek levou o seu futuro marido.
— Olhe para o seu futuro marido, Yoruichi — ele sussurrara a mesa antes de levantar para recebê-lo.
A moça encarou a porta e observou o homem com no mínimo quarenta anos entrar. Ele era corpulento e baixo, com uma barriga pronunciada. O cabelo era castanho e estava ralo enquanto fios prateados começavam e tomar conta de sua cabeça. Tinha um bigode espesso que cobria parcialmente seus lábios finos e rachados. A coisa mais atraente nele eram os olhos castanhos que possuíam um aspecto brilhante e aquoso.
Yoruichi também se levantou quando o senhor se aproximou. Ele a cumprimentou com um sorriso e beijou-lhe a mão demoradamente. Sentiu o estômago revirar de aflição e agradeceu por não ter comido nada, porque com certeza teria vomitado. Conseguia sentir o olhar de Lúccia sobre si e quando a olhou, percebeu a piedade nos olhos azuis.
— Não estou me sentindo bem — anunciou com vontade de chorar. — Com licença. — Retirou-se em passos apressados e subiu a escada aos tropeços, ignorando os chamados do seu pai.
Ao chegar no quarto, bateu a porta e respirou fundo para impedir que as lágrimas viessem. Era uma mulher forte e determinada, não iria ficar choramingando pelos cantos, chorar não ia resolver o problema. Piscou várias vezes e conseguiu recuperar a compostura.
Não demorou para que Derek entrasse sem bater e a encontrasse ali, parada no meio do quarto, com uma expressão séria.
— Qual é o problema, Yoruichi? — perguntou com as sobrancelhas unidas em um vinco. — Você precisa voltar. — Quando ela permaneceu em silêncio, ele continuou: — O que há de errado com você?
E isso foi o estopim. Ela soltou uma risada sem humor, amarga, e voltou os olhos claros para ele. Havia uma fúria mal contida neles juntos com uma mágoa arrebatadora. Derek quase desviou o olhar. Ela pareceu exatamente como sua mãe.
— O que há de errado comigo? O que há de errado comigo, papai? — repetiu irada. — Não é melhor perguntar o que há de errado com o senhor? Porque não sou eu quem está vendendo a filha. Não sou eu quem está arrancando sua liberdade e impedindo-a de ser feliz! Então, o que há de errado, papai?
— Não use esse tom comigo — advertiu com a voz controlada. — Eu sou o seu pai e não um moleque. Lembre-se de me respeitar. Já conversamos sobre isso várias vezes e já lhe disse que as coisas não funcionam assim.
— Já sei, já sei! — interrompeu-o e ignorou o aviso anterior. — Tudo que importa é o dinheiro! Quem se importa com o resto! Desde que tenha dinheiro, você pode até usá-lo para limpar a bunda!
O barulho do tapa ecoou no quarto. Yoruichi levou a mão ao lugar em que ele a acertara e uma única lágrima desceu pelo seu rosto bonito. Em 18 anos, Derek não tinha encostado um único dedo em sua filha e no momento em que o fez, arrependeu-se imediatamente. Porém, ao invés de se desculpar, manteve a postura firme e disse:
— Olhe a língua. Não fale dessa maneira, não foi essa a educação que te dei. Uma dama nunca deve falar com esse vocábulo vulgar. Espero que estejamos entendidos. — Ela rangeu os dentes e apertou os lábios em uma linha reta, mas não concordou. Derek continuou num tom mais brando: — Sua vida depende do seu casamento. Ele é um homem bom, vai dar tudo que precisar para viver bem e você nunca vai passar necessidade. E com certeza vai amá-lo com o...
— Nunca — a morena sibilou entredentes e seus olhos ficaram ainda mais intensos. Levantou bem o queixo e sorriu de uma maneira que o assustou. — Nunca vou amá-lo. Entende, pai? Jamais. O dinheiro dele nunca vai conseguir comprar meu amor. Nem que ele me dê todos os vestidos, joias e casas do mundo.
— Que seja. — Derek suspirou, cansado, e se virou para ir embora.
— Se prefere ficar aqui, fique, mas isso não vai mudar o fato de que irá se casar. Quer queira ou não. Lúccia trará seu jantar.
A voz dela o fez parar antes de abrir a porta:
— Diga-me, Sr. Derek — começou friamente. — Se fosse para escolher entre mim e quantas barras de ouro desejasse... O que escolheria?
Quando ele demorou demais para responder, Yoruichi sorriu, dessa vez não amargamente ou sarcástica, também não foi um cheio de dentes brancos e cintilantes. Foi um sorriso que não alcançara seus olhos bonitos, fora um sorriso magoado.
— Exatamente o que pensei — disse bem baixinho. — Boa noite, papai. Divirta-se com o seu convidado. — Viu que ele continuou parado, a mão apertando a maçaneta com força. — Por favor, vá embora. Estou cansada.
Sem dizer uma palavra, Derek se retirou.
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Não conseguia dormir. Não importava o quanto tentasse, não conseguia fechar os olhos. Yoruichi fitava o teto e parecia que ele a encarava de volta, em silêncio. Não havia palavras a serem ditas, não havia nada além do sentimento de ira.
Sentiu falta do tempo em que sua mãe a embalava no colo e contava histórias, lendas sobre o seu povo. O tempo a tinha castigado tanto e ainda assim ela era uma mulher doce e sincera. Teresi era esplêndida e parecia que ao morrer, tinha levado consigo todo o sentimentalismo do seu pai. Às vezes pensava que as coisas seriam diferentes se sua mãe estivesse viva.
Tinha certeza que sim, nunca deixaria que vendesse sua própria filha.
Ouviu um barulho na janela e sentou na cama tão rápido que sua cabeça girou.
“Um bandido?”, pensou e mordiscou o lábio inferior.
Outra batida. Franziu as sobrancelhas e dessa vez levantou da cama.
O contato dos pés descalços e quentes no piso de madeira fez um arrepio percorrer o seu corpo. O cabelo liso escorreu até o fim de suas costas — tinha crescido bastante durante os anos —, sedoso e brilhante, Lúccia tinha a ajudado a escová-lo naquela noite. A camisola de linho branco deslizou pelo corpo esguio. Aproximou-se do lugar, curiosa.
Se fosse um bandido... Bem, podia enfiar o abajur na cabeça dele. Afastou as cortinas devagar e espiou. Abriu a boca, surpresa, ao perceber que não era ninguém além de Kisuke Urahara. Estava pendurado no beiral com um sorriso desdenhoso. Ela abriu a janela para que ele subisse.
— O que você está fazendo aqui essa hora? — sussurrou quando ele já estava dentro do quarto. Andou até a porta e girou a chave, trancando-a. Não queria que alguém os pegasse de surpresa, mesmo que fosse Lúccia. — Achei que só voltaria semana que vem!
— Queria ver você — declarou no seu típico jeito sincero demais. O sorriso continuava lá. — Não gostou?
Yoruichi revirou os olhos e andou até ele, fazendo mistério, encarando-o diretamente nos olhos.
— Imagina... Eu amei! — Pulou no pescoço dele, e encheu-o de beijos, no rosto, no queixo e nos lábios. — Só fiquei surpresa. Mas fico feliz que esteja aqui.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado, ela desviou o olhar por um momento. — Yoruichi?
— Vem — pediu, tensa. Urahara deixou que ela o puxasse pela mão até a cama, tirou os sapatos e depois deitou-se ao lado dela. Quando estavam confortáveis, ela começou a explicar: — Meu pai trouxe hoje o bonitão com quem tenho que me casar. Nós brigamos... De novo.
— Eu sinto muito. — Pressionou os lábios no cabelo dela. Ele sentia. Muito mesmo. Amava Yoruichi e sabia que não iriam ficar juntos, por isso queria aproveitar o máximo de tempo ao seu lado e desfrutar da sua companhia.
— Eu também — sussurrou a resposta, parecendo mais frágil do que nunca. — O que vamos fazer, Kisuke?
— Não sei, meu amor — declarou com sinceridade. — Eu realmente não sei.
Nenhum dos dois se atreveu a dizer algo por um longo tempo. Até ele finalmente dizer:
— Trouxe uma coisa para você.
Ela levantou a cabeça para olhá-lo, estava curiosa. Com o braço livre, remexeu no bolso da calça e tirou um fino colar de ouro, simples, mas bem ornamentado. Tinha um pingente de sol e uma única e pequena pedra amarela enfeitava o objeto.
— Feliz aniversário — desejou com a voz branda e ela o abraçou com força. Ele retribuiu o gesto, enrolando os braços ao redor dela, carinhosamente. Acrescentou: — Para se lembrar de mim.
— Eu amo você, Kisuke — declarou e se sentou na cama. Ficou de costas para ele. — Coloque. — Afastou os longos cabelos para dar uma melhor visão.
Como o pedido, colocou o colar em volta do pescoço dela e depois se afastou. Yoruichi se virou.
— Como ficou?
— Perfeito. Combina com sua pele — disse. — Eu também amo você, não esqueça disso.
— Não vou. — Segurou o rosto masculino entre as mãos. — Nunca vou esquecer, Kisuke.
Com os dedos entrelaçados no longo cabelo liso, ele a puxou para um beijo. Deixou que seus lábios deslizassem através dos dela habilmente, explorando o calor de sua boca ávida e apaixonada. Ela o retribuiu com igual fervor e vontade, apertou os dedos no cabelo e no pescoço dele — o que o deixou sem fôlego. Acariciou o céu da boca dele e ele a sentiu morder seu lábio inferior.
Desde o primeiro beijo que trocaram, Yoruichi tinha ficado incrivelmente boa em beijar. Ela era maravilhosa. Separaram-se ofegantes. Kisuke aspirou o cheiro suave da pele morena e a apertou mais entre seus braços.
— Kisuke — murmurou, os dedos finos acariciando os traços do rosto masculino, até deslizar para a curva do pescoço. Ele se arrepiou.
— Yoruichi. — Tentou se afastar, porque sabia no que aquilo poderia dar.
— Não — pediu. — Não se afaste dessa vez. Está tudo bem — completou enquanto segurava seu braço.
— Você... — ele ia perguntar se ela tinha certeza, mas a morena o interrompeu:
— Eu tenho certeza. — Sorriu sapeca.
Urahara sempre a respeitou, nunca passou dos limites que possuíam. Era carinhoso e bem humorado e o máximo que fazia era roubar beijos — o que ela adorava. E agora, ela iria se tornar uma mulher que iria conhecer o sabor do desejo. Queria provar do amor e ele iria lhe mostrar o que poderia oferecer.
No fim de mais um beijo demorado e um êxtase irremediável de carícias, Yoruichi disse bem baixinho:
— Sabe o que é engraçado? Consigo escutar Lúccia dizendo para eu não abrir as pernas e olha o que estou fazendo agora.
O rapaz riu roucamente em seu ouvido.
— Abrindo os braços. — Arrancou um risinho dela. — Mas não se preocupe, logo você não vai escutar nada — prometeu antes de tomar os lábios dela mais uma vez.
I&R
— Você está estranha hoje. Digo, achei que estava irritada e você parece incrivelmente feliz — Lúccia observou desconfiada. — Está tudo bem? Ouvi você gritando ontem à noite, mas seu pai foi mais rápido que eu... Apesar de eu ter ouvido você falar que era um pesadelo. — A outra se manteve em silêncio e Lúccia uniu as sobrancelhas. — Por que você está usando esse vestido com o pescoço tão alto? Achei que o odiava e está calor...
— Você está fazendo tantas perguntas hoje! Jesus Cristo! — exclamou na tentativa de não rir. Desviou o olhar para a criada que terminava de pôr a mesa do café da manhã. — Conversamos depois.
A mais velha entendeu na hora o que Yoruichi quis dizer e assentiu. Tomaram café em silêncio, apenas o trivial som do canto dos pássaros preenchia o ambiente. Quando terminaram, saíram para um passeio, um pouco de sol pela manhã fazia bem às vezes.
— O que foi? — Lúccia perguntou assim que colocaram os pés na rua.
— Você quer saber da melhor forma ou da pior? — devolveu a pergunta, matreira.
— O que você quer dizer com isso? — Estreitou os olhos azuis. — O que você aprontou dessa vez?
— Eu me deitei com o Kisuke — declarou com um sorriso. — Entendeu? Sem roupa...
Ela ficou em silêncio enquanto esperava por uma reação.
— Como foi? — Isso pegou Yoruichi totalmente desprevenida. — Você gostou?
— Que tipo de reação é essa? — quis saber quando se recuperou do choque. — Não vai dar um ataque? Brigar comigo? Tentar me bater? — Parou de andar e fitou-a.
— Eu posso fazer isso se é o que quer — retrucou. — Todavia, entendo sua surpresa. Lembro de te dizer para não abrir as pernas para ele, mas na época você mal o conhecia, agora é diferente. Vocês estão apaixonados. Já reparei no jeito que ele te olha e sei que Kisuke realmente te ama. E se você se entregou... Foi porque estava certa disso.
— Você me assombra, Lúccia — confessou bem humorada. — Foi melhor do que qualquer sonho que eu tive a respeito. Ele é ótimo com as mãos e fez...
— Eu não quero saber dos detalhes! — exclamou com o rosto completamente vermelho.
Yoruichi riu alto e continuaram andando sem rumo, porém, acabaram indo para a pousada de forma inconsciente. Força do hábito. Perceberam uma estranha movimentação para aquele horário. Lúccia estreitou os olhos, confusa com aquilo, antes de ir embora na noite anterior, tinha certeza que não havia tantos clientes. Tanto que Rosa a mandara para casa muito mais cedo.
— Tem alguma coisa acontecendo — Yoruichi observou, atenta. — Vamos ver o que é! — Sem esperar por respostas, andou até a entrada do lugar e em poucos segundos, puxou Lúccia para a parede, ocultando-as e depois sussurrou: — Homens armados.
— O que? Você viu direito? — sussurrou de volta, os olhos como pratos de tão arregalados. A outra assentiu, tensa. — Você viu a Rosa?
— Não, foi muito rápido. Precisamos fazer alguma coisa — disse.
— Vamos aproveitar que não fomos vistas e voltar. O melhor é chamarmos o xerife. Ele saberá o que fazer.
— Mas e se não der tempo? Se eles fizerem mal para Rosa ou... Kisuke está ali! — lembrou-se de repente. — Vamos dar a volta!
— Espera, não. Yoruichi! Isso é muito perigoso! — alertou-a ainda aos murmúrios. Foi completamente ignorada e a amiga passou por ela ainda abaixada e dobrou a esquina da pousada. — Droga! Espera!
Não teve outra opção a não ser segui-la. Foi atrás dela também abaixada, enquanto amaldiçoava com todas as palavras que conseguia se lembrar naquele momento. Aquilo não iria dar certo, pressentia isso. Quis grunhir de raiva, de frustração.
— Cuidado por onde anda! — alertou e Yoruichi limitou-se a assentir, para continuar seguindo em frente.
Para surpresa de ambas, assim que deram o último contorno em uma das pontas da casa, um homem apareceu. Era alto e a pele era vermelha — o que lembrava muito os indígenas que um dia habitaram aquelas terras —, os dentes eram amarelos e tinha um ou dois que pareciam podres. Suas expressões eram muito rígidas, possuía um longo bigode sujo e os olhos eram de um castanho opaco, completamente sem vida. Antes de vê-las, cuspiu no chão.
Lúccia prendeu a respiração, alarmada, mas logo depois tomou consciência da situação em que se encontrava e agiu puramente por instinto. Com Yoruichi não foi muito diferente, assim que percebeu que o homem carregava um arma, achou que teria um colapso nervoso e quase entrou em pânico. Mas ao se lembrar do sorriso reconfortante de Rosa, do abraço quente e gostoso de Kisuke e dos sinceros e duros olhos do seu pai, uma estranha calma se apoderou dela.
Pareceu que elas tinham entrado em sincronia e pensado juntas. Yoruichi puxou a perna do homem com força e ele desabou no chão. Tentou pegar a arma presa no cinto, porém Lúccia fora muito mais rápida e subira em cima dele, dando um soco em seu rosto com toda sua força. Yoruichi pegou a arma e bateu na cabeça dele, o que o fez desmaiar.
As morenas se puseram de pé rapidamente. Olharam uma para outra e soltaram uma risada engasgada e nervosa.
— Que inferno. Olha só pra você. Suas mãos estão sujas de sangue.
— Puta que o pariu. Você está segurando uma arma de verdade e não está tremendo.
Outra risadinha nervosa.
Prenderam a respiração e antes que a coragem fosse embora, entraram. Não tinha ninguém guardando a porta dos fundos, conseguiam ouvir os gritos de onde estavam.
— Acha que eles querem dinheiro? — Yoruichi perguntou.
— Acho que não, quer dizer... Não sei — admitiu. — Se fosse dinheiro, não seria mais fácil terem ido ao banco? Tem muito mais dinheiro lá.
— Faz sentido — concordou. — O que eles estão dizendo? Não consigo entender direito.
Lúccia engoliu em seco novamente e pegou uma faca bem amolada para depois passá-la a amiga. Pediu a arma. Ainda se recordava de como manejá-la e não pode se impedir de tremer quando apertou o objeto gélido entre os dedos. Teve que se esforçar para conter o tremor que tentava dominar o seu corpo e respirou fundo. Os olhos claros de Yoruichi estavam pousados em si. Checou os cartuchos e ainda restavam quatro balas. Pegou outra faca e colocou entre os pequenos seios.
— Nós vamos atirar? — perguntou.
— Eu não sei — respondeu com sinceridade. A ideia de matar novamente fazia com que uma sensação desagradável tomasse todo o seu corpo. Até tinha náuseas. — Estou me perguntando como vamos ajudá-los. Somos nós duas contra todos eles. Temos quatro balas e duas facas.
— Seu otimismo me alegra — murmurou com um sorriso trêmulo. — Não temos outra opção, vamos fazer algo antes que seja tarde demais.
Um barulho alto as assustou e espiaram através do vão da porta. Kisuke tinha sido arremessado por cima de uma das mesas, o que provocou um grande estrondo e fez com que a mesa se partisse em duas. Yoruichi teve que abafar um grunhido e Lúccia segurou seu braço com força.
— Espera — pediu com os lábios apertados. — Não seja impulsiva logo agora.
— Pois é, contrabandista. Fugiu daquela vez, mas eu sabia que você voltaria para essa pousada fedorenta — cuspiu enquanto segurava Urahara pelo colarinho. — Agora está comendo aquela negrinha, não é?
Os olhos de Urahara arderam como fogo e ele prendeu a respiração por um instante, mas rangeu os dentes de raiva. Iria acabar com aquele homem, insultar Yoruichi era imperdoável, não ligava que falassem dele, poderiam dizer o que quisessem, mas da mulher que ele amava, jamais.
— O que foi? — o homem continuou a provocá-lo. — Vai me dizer que a mercadoria não é boa? Seria decepciona...
Ele não pôde terminar, porque o tiro o atingiu em cheio no peito. O sangue se espalhou por sua camisa azul encardida e ele cuspiu sangue antes de soltar Kisuke no chão — que arregalou os olhos totalmente surpreso.
— O que... — tentou formular alguma pergunta, porém já tinha começado a se engasgar com os próprios fluídos.
— Opa! O que foi? Você foi atingido pela negrinha? — A voz de Yoruichi soou estridente e sua indignação era evidente. — Ah, perdão, senhor. Está muito ocupado para responder alguém da minha cor? Branco desgraçado!
— Que merda — um dos capangas sibilou e atirou na direção da voz, nesse meio tempo Kisuke pegou a arma do morto e se arrastou para trás de uma mesa caída. — Vadia desgraçada!
— Ruim de mira! — ela gritou de volta. — E só abri as pernas uma única vez! Como posso ser vadia? Otário!
Lúccia revirou os olhos. Ainda estava assimilando o instante em que Yoruichi ouvira a palavra “negrinha” e tirara a arma de suas mãos, furiosa, e simplesmente atirou para matar.
— Pelo amor de Deus, Yoruichi. Cale a boca — pediu. — Você acabou de matar um homem e está discutindo com outro. Não piore as coisas.
— Ele me chamou de “negrinha”. Não que eu não seja uma, mas foi com a intenção de me insultar! — retrucou brava. — E ele estava machucando meu homem!
— Eu gostei disso! — Urahara gritou e dava para sentir o sorriso em sua voz.
— De nada! — disse com um sorriso orgulhoso. Lúccia revirou os olhos novamente. — Ei, otários! É melhor correrem se não quiserem levar chumbo na bunda! — ameaçou.
— Ai, putinha. Você vai ver só! Vou matar vocês, todos vocês!
— Então vem me pegar! Cuzão.
— Estava me perguntando onde você aprendeu todas essas palavras — a morena de olhos azuis pensou alto e suspirou. — Urahara, faça alguma coisa.
Um tiro, dois, três. Ela espiou pela porta e só restavam dois capangas. Ela não conseguia ver onde o morto tinha sido acertado, mas este jazia no chão, mortinho.
— Três tiros e um morto? — sibilou enquanto se esgueirava no balcão do bar.
— Temo que minhas atribuições em atirar não sejam tão boas como as da minha jovem senhora — falou por de trás da mesa.
— Obrigada! — Yoruichi agradeceu.
— Vocês só podem estar de brincadeira conosco! — um bandido reclamou, também escondido atrás de uma mesa. Dava cobertura para o outro que começava a se mover. — Desgraçados!
Lúccia já estava alcançando a outra bancada quando viu Rosa encolhida em um canto com as mãos nas orelhas. Balançava-se para frente e para trás, estava muito assustada. Ela tentou sussurrar algo para chamar a atenção dela, porém, Rosa estava em estado catatônico. Percebeu que um dos bandidos ia na direção da mulher e prendeu a respiração.
— Yoruichi! Um deles está indo na direção da Rosa, atire nele! — gritou.
Ela deu o primeiro tiro e errou. Lúccia rangeu os dentes e tentou chamar a atenção dela mais uma vez, sem sucesso. O homem estava a poucos metros de distância dela e logo a alcançaria. A morena podia ver nos olhos daquele homem, que ele não teria piedade. Se fosse necessário, mataria a cozinheira sem hesitar.
Tinha que salvá-la a qualquer custo.
Lúccia não tinha muitas opções, não poderia ficar esperando que Urahara ou Yoruichi acertassem os tiros — não quando a vida de Rosa estava em risco. Pegou a lâmina entre os seios e ponderou por alguns instantes. Uma faca contra uma arma.
Ótimo.
Seria ela ou ele. Apertou mais o objeto entre os dedos, até que as dobras ficassem pálidas e olhou para cima.
— Atire de novo! — gritou e se preparou para arrancar.
Ela prendeu a respiração e esperou. Os sentidos ficaram mais aguçados e os olhos se fixaram em Rosa encolhida no canto do balcão. O barulho do tiro ecoou, e o bandido, assustado, abaixou-se para se proteger. Nesse momento ela correu e parou de ouvir tudo ao seu redor, não havia nada além de um zumbido irritante. Passou direto por Rosa e encontrou o bandido de frente.
Ele pareceu surpreso com a investida dela e esse momento foi o suficiente. Lúccia tomou vantagem pelo seu tamanho pequeno e seguiu na direção dele com as duas mãos na faca, ele levantou a arma; porém a garota foi mais rápida e enfiou a faca na barriga dele. O homem soltou a arma e tentou se desvencilhar dela, mas Lúccia empurrou a lâmina para cima e o cortou até o diafragma.
— Billy! — o outro gritou a poucos metros de distância.
Ela suportou o peso do homem com um ombro e o usou como escudo até alcançar a arma no chão. As mãos estavam escorregadias de sangue e teve que tentar duas vezes até conseguir segurar o objeto com firmeza. Quando finalmente conseguiu, empurrou o corpo com força para frente e apontou a arma para o último bandido.
Os tiros dele atingiram o corpo inerte e quando cessou, ela deu dois tiros — um acertou o peito e o outro a garganta. Lúccia deixou a arma cair no chão e ficou parada. As mãos e o vestido estavam lambuzados de sangue, o cheiro de ferro era tão forte que ela quis vomitar, a roupa estava esfarrapada e o cabelo parecia um ninho de pássaro.
A realidade caiu nua e cruel, ela correu para o canto e vomitou tudo que tinha comido pela manhã. Um soluço ficou preso no fundo de sua garganta e ela fungou, aturdida.
— Lúccia? — era Urahara. Ele colocou a mão em seu ombro e apertou ali suavemente. Yoruichi tinha ido acalmar Rosa. — Você...
— Eu estou... — iria dizer que estava bem, mas vomitou novamente. — Desculpa.
— Está tudo bem — tranquilizou-a e entrou o lenço que guardava no bolso para que limpasse a boca. — O que você fez... Você é corajosa, garota.
— Não sei se o que eu fiz pode ser chamado de coragem, Kisuke. Olhe só para todo esse sangue — murmurou e limpou a boca. Depois aceitou a ajuda dele para se levantar. — Eu sou uma assassina.
— Eles eram pessoas cruéis — disse calmamente.
— Isso não me torna melhor. Obrigada de novo.
Ele balançou a cabeça negativamente e os dois seguiram em silêncio até onde Yoruichi estava. Rosa já estava bem mais calma quando a levaram para tomar um copo d’água. A morena mais nova parou ao lado de Lúccia e suspirou.
— O que nós fizemos, Yoruichi? — perguntou retoricamente. — Não era para isso ter acontecido.
— Mas aconteceu e não podemos fazer nada para mudar isso. Desculpe por te colocar nessa situação. A culpa é toda minha. Eu não queria...
— Eu sei, eu sei — murmurou. — E agora? Devíamos chamar o xerife.
— Com certeza virão mais deles. Talvez não hoje, mas depois — Urahara interviu com cuidado. — É melhor que você fale com seu pai e informe tudo que ocorreu. Ele poderá garantir sua segurança, diferente de mim.
— Meu pai nunca vai me perdoar por ter desobedecido. Por ter me envolvido com você. Assim que souber do nosso relacionamento, me casará com aquele velho asqueroso e nunca mais poderemos nos ver. Além disso, nós matamos homens! Ainda que não fossem de boa índole, fizemos o que fizemos.
— O que você quer dizer com isso? — Lúccia perguntou, não gostando do rumo que a conversava tomava. Urahara aguardou em um silêncio desconfiado. — Yoruichi...
— Nunca vamos ficar seguras aqui. Por quanto tempo meu pai poderá proteger a todos? Isso não vai durar — continuou calma. — Vamos embora daqui. Para qualquer lugar. SE formos embora, ninguém estará em perigo.
— Mas...
— Você deve ficar, Yoruichi. Você e Lúccia — Urahara interviu. — Mulheres na estrada, isso é perigoso.
— Ele tem razão — Lúccia concordou cheia de tensão. Desejava que a teimosia e a audácia da amiga não falassem mais alto que a lucidez. — Fugir é uma ideia perigosa, nós duas na estrada? Não sabemos fazer nada de útil. Como vamos viver na estrada? Realmente quer isso para você?
— O que eu não quero, é que todas as noites na hora de dormir, não saber se acordarei no dia seguinte. Todos os dias serão uma preocupação, para todo lugar que eu for, vou pensar: Será que tem alguém me seguindo? Quando eu virar aquela esquina, será que alguém vai enfiar uma faca na minha garganta? Opa! Espero que minha casa não esteja em chamas caso eu volte viva!
— Você está sendo dramática — a morena objetou antes de massagear as têmporas.
— Estou? Mesmo? — retrucou convicta. — Não quero pensar que podemos morrer só porque amo um homem que meu pai não aprova. E nós matamos pessoas. Foi minha culpa. Prefiro ir embora a fazer com que Rosa passe por uma situação semelhante. E ainda que meu pai tenha seus defeitos, não quero que seja morto.
Urahara e Lúccia se entreolharam por um instante. Yoruichi já tinha decidido, nada a faria mudar de ideia. Aquilo era loucura e todos sabiam disso. Mas era exatamente o que iriam fazer. A morena mais velha não deixaria Yoruichi perambular sozinha por ai. Ela era uma parte de si, uma das únicas coisas que possuía de importante, e se essa era decisão dela, por mais idiota que fosse, a seguiria.
— Tudo bem — finalmente assentiu. — Se é o que você quer, vamos fazer.
— Você é teimosa demais — Kisuke e murmurou, desgostoso e suspirou. — Mas o que eu posso fazer se você já se decidiu?
A morena de olhos gatunos sorriu.
I&R
Ela enfiou mais um pedaço de bolo de cenoura na boca e mastigou efusivamente. Bebeu um gole de leite e manteve os olhos azuis fixos no prato, sem dizer uma única palavra.
— Você tem certeza disso, minha filha? — Era a centésima vez que Rosa fazia essa pergunta.
Lúccia suspirou e largou a colher. Fazia uma semana desde aquela chacina na pousada. Uma semana desde que não conseguia dormir direito. Yoruichi usou o acontecimento como uma desculpa para ficar no quarto o tempo inteiro, pois estava “em choque”. Andava organizando as coisas para aquela fuga sem pé ou cabeça. Tudo que Lúccia fazia era ouvir e concordar.
Obviamente a culpa não caiu sobre elas, foi atestado como um sinal de legítima defesa e elas não passavam de pobres vítimas de uma tragédia. Ainda descobriram que dois bandidos eram homens procurados, então não tinham feito mais que um favor para a sociedade. O desmaiado foi preso.
Como Rosa não era idiota, percebeu o que estava ocorrendo e não teve como negarem. No final, contaram tudo para a mulher e ficaram ouvindo seus lamentos e súplicas para que não levassem a loucura a diante. Até Lúccia explicar que não tinha mais volta, porque ela também já tinha tentado. Apesar de ter ficado a semana toda tentando fazer Yoruichi desistir, acabou ajudando com algumas coisas.
Pegou roupas que Derek não usava mais e reajustou para que ambas pudessem vestir. Até porque seria impossível fugir com vestidos como os da morena mais nova. Estava escondendo uma quantidade considerável de comida para que levassem, além de prata — por mais que as duas tivessem negado a aceitar.
Seria naquela noite que iriam embora. Os cavalos já estavam prontos e só dependia delas para que tudo desse certo.
Dessa vez Lúccia levantou os olhos para encarar Rosa.
— Você sabe que não. Yoruichi faz o que quer e não adianta tentar convencê-la do contrário.
— Ah, minha filha... — ela choramingou em meio a um suspiro. — O destino é cruel. Sinto tanto que as coisas tenham tomado esse rumo. Minhas meninas estão crescendo e indo embora — murmurou tristonha.
Lúccia se levantou e a abraçou com força. O corpo pequeno recebendo o gesto de volta com uma felicidade agridoce. Os braços gorduchos de Rosa a apertaram mais um pouco antes de finalmente deixá-la ir e dar um beijo em sua testa.
— Nós vamos escrever, Rosa. Não vamos esquecer de você — prometeu Lúccia em um fio de voz.
— Sim, menina. Vocês são minhas preciosas e rezarei para que tudo dê certo.
— Obrigada — sussurrou.
Depois disso, ela subiu para o quarto e chorou.
Perguntou-se se tinha nascido amaldiçoada, era uma boa justificativa para tudo que estava acontecendo. Tão nova e as mãos repletas de sangue. Se algum dia encontrasse Byakuya, será que ele a perdoaria? Será que a aceitaria depois de tudo?
Pensar nisso fazia seu coração se apertar dolorosamente.
I&R
Yoruichi riscou a última palavra no papel e respirou fundo. Releu três vezes antes de assoprar para que a tinta secasse e o dobrou. Deixou ali em cima da mesa e conferiu todos os objetos na sacola de viagem, para ver se estava tudo certo. A escuridão há horas tinha caído e o vento cortante entrava pela fresta da janela.
Ela espiou pela janela e fechou a cortina. Ouviu o barulho da porta sendo aberta e sabia que era Lúccia, que continuou em silêncio. Sabia que ela estava esperando para que partissem.
Deu uma última olhada no cômodo, para gravar cada detalhe. A casa que passara toda sua vida, onde estavam as melhores lembranças de sua vida. Sua mãe, seu pai... Com os olhos fixos na cama de dossel no canto da parede, pensou que não poderia negar que iria sentir falta. Mas não desistiria.
Com os olhos determinados, pegou o papel, ajeitou a sacola nas costas e apertou o coque no alto da cabeça e rumou na direção da porta. Deu uma última olhada e finalmente saiu. Lúccia continuou em silêncio e fechou a porta atrás de si. Desceram silenciosamente as escadas e a morena mais velha viu a outra delinear a borda da mesa de carvalho com os dedos e depositar o bilhete ali.
Rumaram para a porta dos fundos, passaram pela cozinha e Yoruichi empurrou a porta devagar, mas isso não evitou que ela fizesse um rangido incômodo. Esperaram por um momento para ver se estava tudo certo e finalmente saíram. Urahara estava esperando montado no cavalo e segurando mais dois pela correia.
As duas subiram com facilidade e trotaram da forma mais silenciosa que conseguiram por trás das casas. O barulho dos bares enchia as ruas e nesse momento, os olhos de Yoruichi se encheram de lágrimas. Ela se esforçou para segurá-las e passou na frente, ocultando um soluço.
Eles pararam em um ponto deserto. Urahara desceu do cavalo e as ajudou a fazer o mesmo. Com os cavalos presos em um tronco de árvore, puxou um fósforo e uma pequena vela e pediu que Lúccia segurasse, para depois tirar um mapa.
— Veja bem. Vamos seguir viagem até aqui. — Apontou para um ponto do mapa que estava escrito “Iowa” e continuou: — Só poderei acompanhar vocês até aqui, não posso entrar em Illinois. Serei enforcado se me pegarem. Mas nesse ponto já estarão bem perto do destino de vocês.
— Nosso destino? — Yoruichi retrucou. — Achei que estávamos indo para o Colorado.
— Não — Lúccia resmungou. — Nós conversamos sobre isso. — Com “nós”, ela quis dizer ela e Urahara. — Não podemos viajar por aí a Deus dará. Precisamos aprender a nos defender, a fazer alguma coisa que garanta que isso tudo não seja em vão.
— Agora eu que estou confusa — admitiu. — O que vocês querem dizer?
— Quando você e Lúccia chegarem em Illinois, terão que ir para uma cidade chamada Decatur. Lá, vocês vão procurar um homem chamado Kyouraku.
— Kyoraku? Pra quê? — Yoruichi perguntou ainda desconfiada. — Ele vai nos abrigar ou algo parecido?
— Não. — Kisuke balançou a cabeça e um vento forte passou, o que acabou apagando a vela. Ele sibilou um “merda” bem baixinho. — Vocês precisam convencer ele a ajudarem vocês. Assim ele vai ensiná-las a sobreviver ou... Matá-las. Isso vai depender de vocês.
— Animador — Lúccia murmurou. — Mas é melhor do que nada.
— Certo. Isso parece bom para mim — assentiu mais animada que o normal. Qualquer vestígio que estivera prestes a chorar tinha desaparecido. — Acho que precisamos de um chapéu.
— Isso é ridículo — a morena declarou. — Vamos embora, está frio.
— Eu ainda quero um chapéu.
— Quando chegamos em Iowa, compro um pra você, meu amor — Kisuke disse.
— Obrigada.
— Credo.
Eles subiram no cavalo e seguiram viagem. Deixando para trás lágrimas derramadas, sangue seco no assoalho e uma carta de alforria.
“Papai, eu não espero que o senhor me perdoe por isso. Eu amo o senhor. Sempre amei. Estou fazendo isso para nosso bem. Viva, case novamente, tenha outros filhos. Não é porque a mamãe morreu que o senhor precisa morrer também. Viva de verdade.”
“Esse é o pedido da minha liberdade. É a minha carta de alforria. E agora é a minha vez de escolher o meu próprio caminho.”
“Da sua filha, Yoruichi.”
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