Círculo de Fogo
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Capítulo 19
“Por favor, venha agora. Eu acho que estou caindo.”
— 35 anos antes —
Era uma tarde fria de inverno quando a pequena Lúccia nasceu. Era 14 de Janeiro. Ginrei e Naomi Kuchiki — seus avós — aguardavam ansiosamente a chegada da criança. Afinal, seria o primeiro neto deles, e estavam torcendo para que fosse um garoto, pois ele deveria herdar as responsabilidades da família Kuchiki. Entretanto, mesmo que fosse uma menina, eles a amariam da mesma forma.
O problema é que o pai da criança, e filho único Thomas Kuchiki, não pensava da mesma forma. Para ele, seu primeiro filho tinha, precisava, deveria ser um menino! Quando o choro de Lúccia ecoou pela casa anunciando seu nascimento, Thomas correu escada acima — sendo seguido por seus pais — e abriu a porta de uma vez.
— É um garoto, não é? — perguntou direto para a parteira sem direcionar um único olhar à esposa que estava na cama, suada e suja de sangue, com uma expressão apática.
— Não senhor. É uma lin...
— COMO É? — Thomas gritou antes da já idosa, parteira terminar de falar. A mulher deu um passo para trás com a criança em seus braços enrolada em uma manta. O bebê começou a chorar pelo grito.
— Não grite, meu filho! Assim você vai assustar o bebê — Naomi começou a alertá-lo, mas ele a ignorou.
— Você, mulher inútil — ele falou olhando pela primeira vez para a esposa que empalideceu ainda mais e as lágrimas amargas começaram a brotar de seus olhos azuis. — Nem para me dar um filho homem você serve!
— Thomas!
A voz grave e autoritária de Ginrei ecoou no quarto em sinal de repreensão. O rapaz grunhiu antes de sair do quarto e bater a porta do quarto com força. No segundo seguinte, a mulher desabou em lágrimas desesperadas.
— Oh Constante, não chore — o senhor tentou apaziguar seu estado, sem sucesso.
Ele mandou um olhar pedindo ajuda para Naomi que ainda estava atônita na porta do quarto, sem acreditar que o filho, o qual criou com tanto afeto e educação, tinha feito aquilo.
Naomi entendeu o pedido silencioso do marido.
— Me dê ela aqui — pediu para a parteira que logo se retirou após passar a criança para a senhora. — Não chore, querida Constance. Meu filho é um tolo, esqueça o que ele disse, logo virá se desculpar — disse com sua voz sedosa e calma, ninando o bebê em seus braços — Pare de chorar, olhe sua filha, pegue-a um pouco — sugeriu, chegando perto da cama.
— Tire-a de perto de mim! — Constance berrou entre soluços— Não a quero! Não a quero! — gritou mais uma vez fazendo a criança voltar a chorar.
Naomi ficou parada sem saber o que fazer. Logo seu marido veio para seu lado e pôs a mão em seu ombro de forma carinhosa.
— Vamos, meu amor. Vamos sair daqui. É melhor deixá-la sozinha por enquanto. Traga a criança — finalizou com um sorriso gentil.
Os dois saíram do quarto e foram para outro dos inúmeros quartos que a casa possuía. Ambos ficaram em silêncio por um tempo antes de Naomi se pronunciar:
— Olha como ela é linda, Ginrei — murmurou baixinho, olhando maravilhada para a menina que já cochilava em seus braços.
— Sim, Naomi. Um bebê muito bonito — concordou, olhando igualmente maravilhado para a criança. — Como vamos chamá-la?
— O que acha de Lúccia? Significa luz! — disse animada.
— É perfeito, Naomi. Nossa pequena Lúccia. Nossa luz — Ginrei murmurou baixinho, olhando para menina.
“Meu nome é Lúccia Kuchiki. Sou a primogênita da décima terceira geração. Sim, sou uma Kuchiki legítima e Byakuya é meu irmão mais novo.”
— 30 anos antes —
A pequena garota de cinco anos dona de belos e expressivos olhos azuis se mantinha escondida dentro do guarda-roupa desde a hora do café. Aquele era seu precioso refúgio, seu esconderijo. Ali e a casa de seus avós, eram os únicos lugares em que realmente se sentia segura. Por algum motivo que ela desconhecia, sua mãe a odiava. Não que ela soubesse disso na época.
“Eu era muito pequena para realmente entender a situação. Eu não sabia que minha mãe me odiava. Ela me surrava constantemente e eu não entendia por que. Quando eu falava mais de dez palavras em um minuto, ela me amordaçava e me deixava sem comer por um dia inteiro.”
— Lúccia! — Constance gritou, fazendo Lúccia estremecer inconscientemente dentro do guarda-roupa. — Onde você está? Venha cá agora, sua fedelha maldita!
Lúccia se apertou ainda mais dentro do guarda-roupa e se manteve em silêncio. Não queria apanhar novamente naquele dia. Seu bumbum estava ardendo e seus olhos inchados de tanto chorar.
— Você não vai vim putinha? — ouviu-a gritar novamente— Eu já mandei você não ficar se escondendo! Venha aqui agora ou quer que seu pai te procure mais tarde?
“O papai não”, a menina pensou, saindo depressa do guarda-roupa e correndo de encontro a sua mãe que estava a esperando no pé da escada com uma expressão nada agradável segurando uma colher de pau.
— Eu já não disse para não ficar se escondendo pela casa, garota? — gritou, fazendo Lúccia encolher os ombros e tremer de medo.
— Mas, mamãe! Eu não estava me- Ai!
Não pode terminar a frase, pois Constance lhe acertou um tapa feroz no rosto.
— Não me chame de mãe, entendeu? — vociferou furiosa com a mão ainda levantada e a face avermelhada. — E só fale quando eu mandar! Entendeu? — Silêncio. Lúccia prendia as lágrimas até o barulho de outro tapa ecoar. — Me responda quando eu falar com você!
— Sim, mamãe — respondeu chorosas se esquecendo de não chamá-la de mãe.
Constance a olhou de forma mortal, parecia o próprio demônio. Odiava aquela criança! Odiava! Sem pensar duas vezes, acertou com força as costas da menina com a colher de pau. Lúccia gritou de dor.
— Sua maldita! Desgraçada! Eu odeio você! Odeio! — gritava enquanto continuava a bater na criança que chorava e gritava. — Você destruiu minha vida, meu matrimônio! Seu demônio! Cria do demônio!
“Eu ainda era inocente demais para entender que o silêncio seria meu melhor aliado. Eu não conseguia entender o motivo dela me espancar daquele modo. Eu a amava tanto! Então, por quê?”
— Eu te odeio! — continuou a gritar.
— Mas eu te amo, mãe — sussurrou entre os soluços e lágrimas de dor e desespero.
— Demônio!
“Demônio. Rum, engraçado. Quem realmente era o demônio da história? Quando ela me chamou de demônio pela primeira vez, a palavra ficou ecoando em minha mente. O que eu tinha feito de tão ruim para ela me odiar? Eu não sabia.”
“Eu estou me segurando em tudo que eu acho seguro.”
— 27 anos antes —
Lúccia estava feliz nesse dia. Com apenas oito anos de idade já havia sofrido terríveis punições pelas mãos de Constance, mesmo agora que tinha aprendido ficar em silêncio, ainda era surrada. Pois sua “mãe” se irritava com isso também. E seu pai a desprezava. Não movia um dedo para ajudá-la, isso é, quando não a surrava também, o que era muito pior. Qualquer coisa que fazia era motivo para apanhar. E apesar de tudo isso, ainda tinha um motivo que a fazia sorrir, que a fazia querer continuar. E esse motivo tinha nome: Avós.
Naomi e Ginrei eram as únicas pessoas que Lúccia tinha certeza que a amavam. Eles a faziam sorrir e lhe davam afeto, amor e carinho. Tudo aquilo que não recebia em casa. Eles eram tudo que Lúccia tinha no mundo e por isso, ela os amava mais que tudo.
“Eu tinha muito medo daqueles dois nojentos. Por isso nunca disse para meus avós que eu era constantemente surrada. Eu tinha medo por eles, que o meu pai fizesse algo para machucá-los. Ele era um homem repugnante. Por esse motivo, meus avós não faziam ideia do que eles faziam comigo. Porque toda vez que eles iam nos visitar, Constance virava outra mulher, agia como uma mãe de verdade. Já Thomas nem tentava esconder seu desgosto, seu desprezo. Mas meus avós descobriram, não tardaram a descobrir.”
“Parece que eu achei a estrada para lugar nenhum.”
Em um dia de verão Lúccia foi passar um final de semana na casa dos avós — sob ameaça de sua mãe caso contasse algo —, Ginrei e Naomi levaram para tomar um banho em um pequeno córrego, pois que estava calor. A menina teve que inventar algo para tomar banho de roupa para esconder as marcas, cicatrizes do seu corpo. Só que isso não impediu que Naomi descobrisse. De noite, quando a menina foi se lavar para dormir, Naomi entrara na casa de banho sem bater para ver se a neta precisava de algo, já que ela estranhamente tinha insistido em tomar banho sozinha. Quando entrou, estancou na porta, horrorizada.
— Lúccia! — balbuciou, sentindo as pernas bambearem. Lúccia se assustou e se virou na direção da avó com os olhos arregalados como pratos. — Minha filha, o que é isso? — perguntou, aproximando-se da neta que continuava estática e em silêncio. A senhora levantou a mão na direção de Lúccia e percebeu que tremia. Seus dedos tocaram a pele machucada da neta sem poder acreditar naquilo. — Lúccia, minha querida... O que foi isso? — perguntou mais uma vez, segurando-a pelos ombros.
— Vovó... — murmurou de volta com os olhos marejados e, sem aguentar mais, atirou-se nas pernas da avó as abraçando com força para, em seguida, entregar-se ao choro.
E naquelas lágrimas havia grande parte de um sofrimento que ninguém sabia como uma criança de apenas oito anos conseguia suportar.
“Naquele dia eu contei tudo para minha avó. O que eu mais temia era que ela não acreditasse em mim, pelo contrário, ela acreditou em mim e me levou para meu avô. Eu também contei para ele. Foi a primeira vez que o vi tão bravo. No dia seguinte, os dois foram até a casa em que eu vivia e mandaram que os empregados arrumassem tudo que era meu, porque eles me levariam dali para nunca mais voltar.”
“Nem Constance, nem Thomas protestaram. Eu fui morar com meus avós e no mesmo ano uma coisa surpreendeu a todos: Byakuya nasceu. O primeiro herdeiro homem tinha nascido. Mas eu só o conheci seis anos depois.”
“Por cinco anos eu fui criada pelos meus avós, foram os melhores anos de toda a minha vida. Até aquilo acontecer.”
“E eu estou tentando escapar.”
— 22 anos antes —
— É isso mesmo que você ouviu, Thomas. Você não será xerife nem amanhã nem nunca! — Ginrei repetira mais uma vez com seu ar autoritário, olhando para o filho do outro lado da mesa.
— Por quê? Eu tenho que ser xerife! É o meu dever! É a minha herança! — gritou batendo as mãos na mesa com força visivelmente alterado.
Ginrei se levantou da cadeira mantendo a calma enquanto uma expressão fria passeava pelo seu rosto. Ele parou de frente para o filho e o encarou seriamente.
— Não ouse dizer isso. O único dever que você deveria cumprir, não o fez. Se não consegue amar, proteger a própria filha quem dirá de uma cidade inteira. Você não é um homem capaz de ser xerife agora e nem nunca — disse observando Thomas estava vermelho de tanta raiva. — Vá embora e não volte. Nunca mais fale sobre isso novamente. Estamos terminados — finalizou, dando as costas para o filho.
Com os punhos cerrados e a face completamente em chamas de tanta ira, Thomas proferiu as palavras com todo o rancor pesando nelas:
— Você vai se arrepender disso, velho. Você não pode fazer isso comigo — gritou, repleto de cólera.
— Não me faça repetir outra vez, Thomas — foram as últimas palavras ditas por Ginrei antes de Thomas deixar a delegacia disposto a fazer suas palavras valerem.
“Eu ouvi meu vô conversando com minha vó sobre Thomas. Eu ouvi meu verdadeiro pai dizer que Thomas não era mais o mesmo. Que ele estava esquisito e tinha praticamente o ameaçado. Que tinha dito que meu avô se arrependeria. E eu, apenas eu sabia que Thomas faria aquelas palavras se tornarem verdade. Eu fiquei com medo. Não. Eu era o medo encarnado.
Algo dentro de mim pulsava avisando que tudo aquilo que era importante na minha vida desapareceria como pó. E eu não estava errada.”
“Eu gritei quando ouvi o trovão.”
— Não vá hoje papai, por favor — Lúccia murmurava sonolenta enquanto puxava a camisa de Ginrei levemente.
— O que é isso, minha filha? Eu preciso ir para o trabalho — respondeu com um sorriso que suavizava sua expressão sempre rígida.
— Não papai. Não vá hoje — choramingou mais uma vez, sentindo um aperto no peito.
— O que está acontecendo? — Naomi apareceu na sala. — Algum problema? — Indagou preocupada.
— Mamãe! Peça para o papai não ir! Por favor! — Lúccia insistiu mais uma vez.
— O que há de errado, querida? — a senhora aproximou-se e esfregou o cabelo da menina carinhosamente.
— Eu tive um pesadelo em que o papai ia pra o trabalho hoje e não voltava mais. Nunca mais! — reclamou, chorosa.
— É claro que eu vou voltar, pequena, não se preocupe. Foi apenas um pesadelo — tentou inutilmente acalmá-la. — E eu nunca deixaria as duas pessoas mais importantes da minha vida.
Naomi sorriu amorosamente.
— Não está entendendo, pai — Ginrei se surpreendeu com o tom sério e determinado de Lúccia. E ela não falara “papai”. — Ele vai matar você. Thomas vai matar o senhor para ser xerife, igual no meu sonho. Entendeu agora? Não vá.
Ginrei e Naomi ficaram em silêncio, sem saber o que falar. Mesmo que tivesse sido apenas um pesadelo, a convicção nas palavras de Lúccia era forte o suficiente para fazê-los acreditar que tudo aquilo era real. Um arrepio esquisito percorreu a espinha de Ginrei, como um mau pressentimento.
Um mau pressentimento que não tardaria a ocorrer.
— Olha querida, eu preciso resolver umas coisas — Ginrei começou, ajoelhando-se para ficar quase da altura da garota. — E eu volto logo, ok? — finalizou na tentativa de tranquilizá-la.
— Mas... — insistiu com os olhos marejados.
— Venha querida. O café está pronto — Naomi a interrompeu suavemente, pegando em sua mão e a levando na direção da cozinha — Até mais querido — despediu-se com um sorriso gentil.
O Kuchiki mais velho rumou em direção à porta e arrumou o coldre com a arma. De repente, começou a suar e suas mãos estavam gélidas. Sua mão foi de encontro a maçaneta e ele notou que estava trêmulo. Um suspiro pesaroso escapou de seus lábios e então ele abriu a porta e andou até a baia em que seu cavalo estava preso enquanto o barulho de seus passos fazia um som desconfortável.
— Bom dia, Pietro — desejou ao cavalo que relinchou, parecendo feliz — Como você está hoje, amigão? — perguntou, alisando a crista do animal que voltou a relinchar, porém dessa vez, de forma agitada. — Calma, calma amigo.
— Vejo que ainda tem muito amor pelos seus cavalos, pai — a voz de Thomas foi ouvida pelo senhor que se virou lentamente na direção do filho. — Mais do que pelo próprio filho.
— O que você está fazendo aqui tão cedo, Thomas? Não posso falar com você agora — disse com a voz séria, sentindo o mau pressentimento voltar.
— Já imaginava que diria isso — Thomas respondeu com um sorriso quase diabólico, descendo de seu cavalo — O que eu quero? O que estou fazendo aqui tão cedo? Ora, ora, pai, eu vim buscar o que é meu de direito — uma expressão assassina passeou pelo rosto do filho Kuchiki.
— Eu já disse que não iremos mais falar sobre isso. Esperava que já tivesse entendido isso — disse, observando atentamente cada passo de seu filho.
— E entendi pai. Você que ainda não entendeu. O senhor não pode tomar o que é meu por direito, e já que não pode ser do jeito bom, vai ser do jeito ruim — pronunciou-se mais sério e em seguida tirou a arma da cintura e apontou para o pai. — Você sabe que pode ser diferente, é só você dizer que continuarei a ser o futuro xerife.
“Ele vai matar você”, a voz de Lúccia ecoou em sua mente e Ginrei fechou os olhos.
O senhor abriu a boca para falar, mas não houve tempo. O barulho do disparo ecoou no ar e Ginrei caiu no chão com o sangue já saindo de seu peito, enquanto sentia seu corpo amolecer. Thomas observou seu pai com seus olhos acinzentados — assim como os de seu pai —, fitando-o de uma maneira que o irritou.
— Mesmo agora continua me olhando desse modo — murmurou para, em seguida, ranger os dentes de forma furiosa. — Com decepção.
O velho Kuchiki murmurou algo inaudível e tossiu sangue.
— Papai! — Lúccia apareceu vestida com seu pijama, correndo na direção do seu amado avô que a cada segundo que passava sangrava mais.
— Meu Deus! — Naomi apareceu logo atrás cobrindo a boca com as mãos, as lágrimas descendo pelo seu rosto alvo. Como reagir vendo o amor da sua vida morrer na sua frente? — Ginrei! — gritou ela, andando lentamente na direção do marido.
— Pai? — Lúccia choramingou, já agarrada ao corpo quase inerte do Kuchiki — Papai? Fale comigo, por favor! — suplicou com o rosto coberto de lágrimas de dor.
Ginrei, com seu último resquício de consciência, segurou a pequena mão de Lúccia entre as suas e a apertou gentilmente. Com um sorriso ensanguentado, disse:
— Viva, minha pequena luz.
E morrera com um sorriso.
— Papai?
— Oh, Ginrei! — Naomi sussurrou em choque, caindo sobre os joelhos e abraçando o corpo inerte do marido enquanto chorava sem consolo e Lúccia chorava em silêncio, com a mão do avô ainda entre as suas.
“Mas o que me restou foi um último suspiro. E com ele deixe-me dizer, deixe-me dizer: Segure-me agora.”
“Aquela imagem nunca saiu da minha mente. Aquela imagem da minha vó abraçada ao corpo do meu avô morto enquanto aquele demônio nos observava sem um pingo de culpa, de arrependimento. Eu senti como se alguém tivesse destruído todo o meu mundo. Porque quando ele matou meu avô, ele também matou minha avó. Ela não conseguiria viver sem Ginrei. E Thomas sabia disso. Mesmo que ele não tenha atirado nela, ele a matou. Porque naquele dia, foi o fim das pessoas mais importantes da minha vida.”
“Um mês depois minha avó morreu de tristeza, de fome, de tudo. E bem... Eu não tive outra escolha. Com treze anos de idade eu voltei para aquela casa em que meus piores pesadelos se tornariam realidade.”
— 22 anos antes —
Mais uma vez Lúccia estava trancada em seu quarto, encolhida em algum canto. Desde que voltara para a casa que tanto odiava era a única coisa que fazia. Se pudesse, desistiria de viver. A dor era profunda demais, forte demais, e ela não conseguia mais suportar. Afinal, ainda era uma criança de treze anos. Só que as palavras de seu avô sempre vinham em sua mente e, por isso, ela continuava tentando. E agora, ela tinha outra razão para não desistir: Seu pequeno irmão Byakuya.
Lúccia o amava de todo coração. Era uma criança pura e inocente, que diferente dela, tinha recebido o devido cuidado dos pais. Constance não deixava que eles ficassem juntos por muito tempo, mas ainda assim os dois se amavam muito. Ele só tinha cinco anos, então Constance gastava muito tempo cuidando do garoto.
Isso só ajudou o pior fato que poderia acontecer com Lúccia. Aos treze anos, o corpo de Lúccia começou a mudar, começou a criar formas de uma bela moça. E Thomas notou isso. Constance estava ocupada demais criando um filho para perceber qualquer coisa. A menina quase não saia de seu quarto e quando o fazia, recebia olhares estranhos de seu “pai”. Esse era o motivo de estar encolhida em um canto sujo do pequeno quarto em que dormia.
Estava com medo. E com razão.
Já estava há tanto tempo ali que estava cansada. Decidiu se deitar na cama e acabou adormecendo. Acordou horas depois quando ouviu a porta do seu quarto ser aberta. Ela abriu os olhos ainda desnorteada e enxergando nada além da escuridão. Não sabia quem estava lá dentro junto com ela. Às vezes, Byakuya fugia e vinha dormir com ela, mas geralmente ele fazia um barulho que o denunciava, e dessa vez apenas o silêncio persistia. Um estranho sentimento a invadiu. A adrenalina estava correndo em suas veias com violência, avisando que havia um perigo eminente ali, junto com ela. Mas o quê?
De repente, ela sentiu uma mão em sua coxa e, assustada, soltou um grito que logo foi abafado de forma violenta por uma mão áspera e grande.
— Não faça barulho algum, querida. Ouviu? Não faça nenhum barulho.
Era Thomas.
A menina tremeu de medo entre o aperto dele em seus lábios. O que ele poderia querer? Ele nunca ia ao quarto dela à noite.
— Vejo que cresceu — murmurou baixinho, aproximando-se dos cabelos de Lúccia que já começava a enxergar algo no meio da escuridão.
Ela enxergou a silhueta de Thomas que estava praticamente em cima de si e soltou um gemido de dor.
— Silêncio! Já disse para não fazer barulho algum — sibilou em um tom raivoso, enrijecendo ainda mais seu aperto — Agora, vamos ver o quanto você cresceu — voltou a dizer em um tom completamente insano.
Lágrimas começaram a brotar dos olhos azuis da pequena garota que não fazia ideia da razão daquilo estar acontecendo. Quando a língua de Thomas alcançou seu pescoço e sua mão apertou com força sua coxa, ela começou a se debater violentamente contra ele que parecia ainda mais tentado em continuar e terminar o que havia começado.
— Adquiriu belas coxas Lúccia.
Lúccia já chorava desesperadamente enquanto continuava a se debater. Thomas rasgou facilmente a roupa dela ― que não passava de trapos que só serviam para não deixá-la nua.
— Agora vem a melhor parte.
E ela só pode fechar os olhos.
“Estou olhando para baixo agora que tudo acabou
Refletindo sobre todos os meus erros
Eu pensei que havia encontrado a estrada para algum lugar
Algum lugar na Sua graça
Eu clamei aos céus "salve-me"
“Foi a primeira vez que ele encostou em mim. E nessa primeira vez ele me violentou e se aproveitou de mim de todas as formas possíveis. E eu simplesmente não pude fazer nada, não conseguia fazer nada. Ele era muito mais forte que eu. Ninguém poderia me ajudar. Quem iria contra o xerife da cidade? Quem iria contra a família mais rica do Arizona? As únicas pessoas que poderiam me ajudar haviam sido assassinadas por ele, por aquele monstro.”
“Aquele demônio não tinha escrúpulos. Era quando ele queria, onde ele queria, e por conta disso, Constance não demorou a descobrir, ou melhor, ela o pegou me violentando. E claro, ela me culpou por isso e cada vez que ela tinha a chance, me espancava com mais violência que antes. Por dois longos anos ele cometeu essa atrocidade contra mim.”
“Inclusive, nessa casa de confinamento. Antes, era apenas uma casa de férias dos Kuchiki, mas virou o meu cárcere.”
“Porém, teve um dia em que eu não pude mais aguentar. Eu preferia morrer ao continuar vivendo daquela maneira. Então eu já tinha me decidido. Seria matar ou morrer.”
— 20 anos antes —
Lúccia já tinha completado quinze anos de idade. E nesse dia tinha decidido uma coisa: mataria Constance e Thomas. Seria matar ou morrer. Não aguentaria mais levar a vida do jeito que estava. Preferia morrer a continuar daquele jeito. Por isso, ela tinha roubado a chave de seu quarto de Thomas enquanto ele estava bêbado e sairia do quarto à noite. Ela tinha certeza que o demônio não iria ao seu quarto quando anoitecesse, iria dormir com a esposa nesse dia.
Quando deu meia-noite, pegou todas as coisas que tinha arrumado e depois a faca que tinha roubado da cozinha. Abriu a porta de seu quarto silenciosamente. Era uma noite de lua cheia e, por conta disso, o brilho da lua entrava de forma intensa pelas janelas, atravessando as cortinas, e iluminando o corredor. Ela olhou para os lados e, vendo que não tinha ninguém, foi para fora.
Os seus passos eram leves e ao contrário do que ela imaginava, não estava nervosa ou com medo. Tudo que sentia era ódio e uma determinação que lhe rasgava os pulmões e a garganta.
Antes de seguir para seu objetivo, parou na frente do quarto de Byakuya e abriu a porta devagar. Entrou e parou na frente da cama do irmão. Ficou observando-o por apenas um minuto, pensando em quanto sentiria saudade dele e o quanto sentia por aquilo ter que acontecer.
Aproximou-se vagorosamente do garoto que já possuía cabelos longos que estavam bagunçados em sua face. Lúccia se abaixou e deu um beijo no rosto do irmão. De repente, a angustia subiu e aquela vontade insuportável de chorar apareceu. Ela segurou todas essas emoções, afastou-se e respirou fundo. Tirou uma carta da bolsa que carregava e colocou em cima da cômoda do irmão. A jovem Kuchiki andou até a porta silenciosamente e olhou para o irmão mais uma vez antes de partir, murmurando:
— Eu amo você, pequeno Byakuya. Eu não espero que você me perdoe por isso. Só quero que viva. Minha pequena luz.
E com último sorriso, abandonou para sempre seu último vinculo afetivo ainda vivo.
Os minutos seguintes se passaram como segundos. O quarto de Byakuya era próximo do quarto dos seus pais. Bastou que desse alguns passos para que chegasse ao lugar destinado. Ela sabia que Constance não acordaria, pois tinha chorado até o adormecer. Thomas tinha chegado bêbado e tinha a espancado de “leve”. E sabia que ele tampouco acordaria pelo mesmo motivo. Ela empurrou a porta do quarto que estava entreaberta e respirou fundo.
A garota de quinze anos que estava completamente corrompida e destruída, olhou para seus açoitadores com ódio, nojo e desprezo. Tinha certeza que não se arrependeria do que iria fazer, nunca ia se arrepender. Ela iria se vingar por tudo que eles tinham feito a ela, ia se vingar por Thomas ter matado seus avós, ia se vingar de Constance por tê-la espancado por tanto tempo.
E então, ela segurou a faca com força entre seus dedos pálidos, deixando as dobradiças dos mesmos ainda mais pálidos e se aproximou ainda mais da cama.
— Perdão Senhor, seus filhos não sabem o que fazem — Lúccia sussurrou com convicção.
Avançou para cama e foi para cima de Constance primeiro. Acertou a primeira facada no pescoço e depois a golpeou de novo, de novo e de novo. A mulher não teve tempo para gritar, começou a engasgar com o próprio sangue e demorou pouco mais de um minuto para morrer em agonia. Lúccia olhou para si mesma, completamente banhada em sangue e fitou Thomas deitado ao lado da esposa, já morta, caído em um sono completamente pesado.
Ela viu que não seria suficiente. Nada que pudesse fazer a ele seria o suficiente para fazê-lo pagar por tudo. E então ela viu a arma dele solta na cadeira ao lado da cama e a pegou. Analisou-a por apenas um instante, decidindo-se. Ela sabia como usar. Seu avô tinha a ensinado. Viu que estava carregada e mirou. Atirou no pênis de Thomas que acordou urrando de dor sem saber o que aconteceu.
— Porco nojento. Demônio. Agora você vai pagar por tudo no inferno! — gritou com raiva enquanto chorava de ódio e avançou para cima dele pegando a faca novamente.
Ainda desnorteado, Thomas não pode fazer nada além de ser esfaqueado. Uma facada lhe acertando atrás da outra, até que sua vida fosse tirada por aquela que ele tinha destruído.
E então, aquela que um dia tinha sido apenas uma pequena garotinha inocente e pura, que amava os seus avós e irmão mais do que tudo, mas que havia sido corrompida e destruída por aqueles que deveriam amá-la e protegê-la mais do que tudo, saiu do quarto, da casa, deixando tudo, que era ao mesmo tempo nada, para trás. Sem ter nenhum remorso, apenas disposta a cumprir as palavras de seu amado avô.
“Viva minha pequena luz.”
“Olhos tristes me seguem
Mas eu ainda acredito que tenha restado algo para mim
Então, por favor, venha ficar comigo
Porque eu ainda acredito que tenha restado algo para mim e para você
Para mim e para você.”
One Last Breath — Creed
“E então, eu renasci. Como uma fénix renasce das próprias cinzas.”
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