Céu

1 único


Dias longos. E pesados. Kath sentia isso quando observava a janela da sala de aula e pensava que era verão, era normal os dias serem maiores por conta dessa estação, mas sentia que esse não era o motivo. Um pássaro no galho da árvore pareceu que a notou, porque a encarava com os seus olhinhos escuros e brilhantes. Ela levantou uma sobrancelha e perguntou se tirava sarro dela, arremessou uma borracha e o animal voou longe. Quem dera se pudesse voar também.

Já que era verão, voaria para algum lugar com praia. Fazia muito tempo que não via uma, mas só pôde se contentar com um sorvete que comprou quando voltava pra casa. Suspirou, sentia saudades da sua antiga cidade que ficava no litoral e como ainda teria sol, pularia da ponte de madeira com seus amigos se estivesse lá naquele exato momento.

Kath passou a descer uma ladeira e se lembrou que na sua antiga cidade tinha várias, ela costumava descer correndo junto de Larissa, sua melhor amiga naquela época. Ambas eram da mesma sala e cursavam o primeiro ano, mas Larissa tivera um surto paranoico por acreditar que o mundo acabaria naquele ano de 1999. Tirou sua própria vida e as ruelas passaram a não ter sua voz imbuída com sua risada, nunca imaginaria que ela faria isso. Kath se sentia um pouco culpada, porque achava tudo besteira e não esteve ao lado dela quando precisou. Continuou pulando na ponte com a molecada da cidade, enquanto sua amiga se cortava no banheiro de sua casa.

A mãe de Kath precisou se mudar e agora ela estava ali, descendo mais uma ladeira sozinha enquanto não compartilhava seu sorvete com ninguém. No entanto, havia pombos ciscando o chão a alguns metros de distância e Kath passou a correr na direção deles. Descia a ladeira com toda a sua força e se lembrou de uma vez que engoliu um inseto enquanto corria, estava no fundamental e Larissa segurava sua mão. Seus dias nesse tempo eram curtos e pediu a Deus para que o sol não se pusesse nunca mais, só para continuar brincando lá fora. Mas agora seus dias eram longos.

Seu sorvete caiu no chão e assustou todos os pombos, que voaram longe como o passarinho na janela da sala de aula. Sorria e gritava “Voem! Voem! Vocês são livres!”.

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