Cálix Sanguinis

1 Bobo e equilibrista


Notas iniciais
Primeiro capítulo! Espero que muitas pessoas acompanhem e gostem!

Eu tinha que fazer minha parte contra aquela praga que aterrorizava a nossa nação, mas estava concentrado no planejamento anual, uma vez que a escola voltaria às aulas na semana seguinte. Era uma merda ser professor de história e não poder expressar minha opinião.

Lembro de quando acabei o planejamento do primeiro semestre, o relógio marcava 23:00 de uma sexta-feira e as aulas começariam na segunda. Eu deveria me apressar, mas estava morto de sono, fui dormir e acabei a outra parte no sábado à noite.

Desde criança, eu sempre quis fazer história, era uma boa maneira de questionar e ter senso crítico a respeito das coisas à nossa volta, mas com toda aquela censura que estávamos tendo, eu não sabia se havia feito uma boa escolha. Dar aula era a minha paixão, claro! Sem falar nas belas alunas e nos privilégios que temos dentro da escola, mas com minha aparência repugnante e meu jeito "carrasco", não havia belas alunas e nem privilégios, meu negócio dentro da escola era dar aula e demonstrar imparcialidade, apesar de ter muita vontade de dizer o que pensava. Na escola, era considerado o "vilão", eu era o mais velho dos professores, naquele ano era o único que trabalhava lá há 32 anos e não fazia a menor questão de ter qualquer tipo de relação com alunos, claro que as belas alunas eram legais de se fantasiar, mas não podia passar disso.

Justamente por minha aparência horrível, nunca casei. Sou calvo, os poucos cabelos que tenho são brancos, ando com barba por fazer (não sou nenhum Papai Noel), gosto de vestir camisa social e há pouco tempo, adotei o uso do jeans. Meu corpo é normal, não sou magro nem gordo... Aliás, vou um pouco para o lado do gordo.

O que me irritava em entrar nas salas de aula é que sempre tinham os comentários de "Esse aí já é o livro de história" ou "Não precisa nem ser formado, já viveu toda a história". Aquilo me doía no fundo da alma! Eu não era nenhum museu, tinha apenas 64 anos.

Entrei na sala e passei para as apresentações:

- Meu nome é Homero e lhes darei as aulas de história.

Para saber o nível dos alunos que frequentavam sua escola, o diretor, que era um verdadeiro canalha, pedia que perguntássemos em que eles queriam se formar. Na turma do terceiro ano A, em meio à sonhos de direito e medicina, uma menina dos cabelos dourados como o ouro e pele extremamente branca disse que queria se formar em história. A baderna e as piadas em cima da mesma foi geral, até eu fiquei curioso e perguntei o que o seu pai era, para minha surpresa, o homem era advogado. A mesma afirmou que sua família não tinha preconceitos com as profissões e que a aceitava, o que deixou muitos alunos que escondiam seus sonhos "medíocres" por trás de cursos extremamente almejados. Depois eu soube o nome da menina. Clarice.

Deixei claro que minhas aulas eram apenas aulas e não circos que os professores faziam. Fã de metáforas e trocadilhos, disse que de circo, já bastava o que vivenciávamos no país. Os alunos ficaram sem entender se eu me referia à ditadura ou aos protestos e era exatamente o que eu queria.

Naquele ano, a escola estava cheia de professores recém-formados, os mais velhos já haviam se aposentado e eu ganhei o título de múmia. Aqueles professores inexperientes me davam nos nervos! Eu costumava dizer que os mesmos eram palhaços mal-sucedidos que usavam a sala de aula como plateia para seu circo e se divertiam com as gracinhas dos alunos. Tive a oportunidade de mostrar que não estava para brincadeiras logo no primeiro dia. Um aluno estava bagunçando gastando seu latim com porcarias:

- Qual o seu nome? — perguntei.

- Augusto — respondeu.

- Augusto... O que você quer ser?

- Quero me formar em medicina.

- Medicina... Olha, tenho uma coisa a lhe dizer, primeiro, se for para continuar com essas brincadeirinhas, escolha uma profissão como a de gari ou mordomo, porque primeiro, medicina é um curso muito concorrido para um aluno como você e segundo, nem para palhaço você serve, porque eu, pessoalmente, se fosse para um circo que tivesse um palhaço com piadas idiotas como as suas, eu iria embora no mesmo instante.

A sala ficou em silêncio, mas ainda ouvi alguns cochichos e risos abafados:

- Preciso falar duas vezes? — perguntei para todos.

Não ouvi mais nada e segui a aula normalmente.

Quando acabei o expediente, fiquei mais um tempo na sala de aula elaborando umas matérias para o jornal, eu usava o pseudônimo Mr. H, lá, eu me declarava terminantemente contra a ditadura. Era um jornal clandestino que criei com um grupo de amigos. Ninguém sabia quem era o dono, o nome do jornal era Cálix Sanguinis (Cálice de Sangue), o jornal era uma sátira contra a ditadura e fazíamos tudo, humor, críticas, zombávamos dos presidentes... Claro que o presidente queria nossa cabeça, mas era tudo muito bem elaborado, entregávamos na madrugada das segundas-feiras em grande parte das casas. Esquecíamos o vocabulário rebuscado e usávamos termos vulgares para que todos pudessem entender.

Eu estava concentrado na nova matéria: "Marionetes de novo!", quando ouço uma voz por trás de mim:

- Então você é o Mr. H?

Notas finais
Espero que tenham gostado e acompanhem! :)