Cálice de Dragão
7 Olhos na floresta
Notas iniciais
Olhos na floresta
Final de outubro, dia das bruxas.
— Apenas digo, Weasley, que se tem como principal companhia o Malfoy, já é um grande indício de que a pessoa não é das melhores.
Como o assunto havia chegado a uma discussão sobre as companhias que Blue possuía, Lily não tinha a mínima ideia. Ela estava cansada de mais para prestar muita atenção na conversa e deixava que Rose cuidasse de seus problemas com Peni.
Depois de dois meses no enorme castelo que era Hogwarts, Lily se viu no luxo de ter mais companhia do que apenas Rose e Portgas. Não que ela reclamasse dos dois, Rose era sua melhor amiga e Portgas era uma boa companhia, quando você sabia ficar em seu lado bom. A questão é que todos pensam em ter mais amigos quando se ingressa em uma instituição de ensino. Lily era uma saudável garota de onze anos que, como todas as outras de sua idade, queria ter relações amigáveis com outras pessoas.
De sua casa ela tinha agora como companhia de mais três garotas, além, é claro, sua própria prima. Peni Peterson era uma delas, apesar de que Rose não parecia compartilhar de seu agrado com a garota loira, afirmando veementemente que ela só estava próxima a Lily por causa de seu nome e por ela parecer ter uma relação mais próxima com Portgas, que em pouco tempo tinha conquistado o posto de um dos garotos mais desejados da escola. Talvez fosse pelo fato dele simplesmente evitar qualquer outras garotas que não fossem Lily e Rose.
Peni era uma garota de estatura mediana, um pouco mais alta do que Lily e mais ou menos do tamanho de Rose. Os cabelos eram de um loiro acastanhado, com ondulações que o deixavam cheio sobre sua cabeça e envolta de seu rosto redondo e rechonchudo, caindo sobre os ombros e escorrendo para próximo a cintura. Os olhos eram castanhos, a pele rosada, dedos pequenos e gordinhos, nariz achatado e com o rosto quase sempre coberto com algum tipo de maquiagem. Seus lábios, sempre esticados em um sorriso que ninguém saberia dizer se era verdadeiro ou forçado, sempre tinham algum tipo de batom, o qual ela afirmava que era para evitar que seus delicados lábios rachassem. Era uma garota que gostava de moda, exigente em sua aparência e nas das pessoas com quem andava. Lily não sabia quantas vezes já a havia escutado reclamar de Pride, que sempre impedia-a de fazer algum penteado em seus cabelos ruivos. Sempre elogiados pela loira.
Outra a qual tinha começado a ter contato era Lin Matsumoto. Uma descendente japonesa cujo os avôs haviam se mudado para a Inglaterra muito antes de seus pai chegar a nascer. Sua mãe era Inglesa pura, mas parecia que boa parte de suas características tinham vindo do lado asiático. Olhos puxados e negros, cabelo escuro tão liso que chegava a dar inveja em Peni, que sempre reclamava do volume causado pelas ondulações de seu cabelo. Sua pele era extremamente pálida, seria fácil dizer que ela estava doente ou com mal estar. Os longos cabelos presos em duas baixas marias-chiquinhas enquanto a franja cobria-lhe por completo a testa, ligeiramente protuberante. Seu corpo era magro, encoberto por vestes mais largas do que realmente era necessário, bochechas salientes e lábios finos. Não era muito alta, deveria ser do tamanho de Lily, tão calada que eram raros os momentos que pronunciava alguma palavra. Rose gostava dela. Talvez por ser uma garota que apreciava os estudos tanto quanto sua prima fazia.
A ultima, mas não menos importantes e uma das que Lily mais gostava, era Anne Mcgreen. Uma sul americana, seus pais haviam se mudado para a Inglaterra pouco antes de nascer. A mesma garota alta que Lily tinha visto em sua primeira aula de defesa contra as artes das trevas. Apesar de seu tamanho bastante avantajado para sua idade e aparência forte, com a pele bastante morena e cabelos volumosos, ela era uma garota tímida, retraída e facilmente impressionável. Lily gostava dela pelo simples fato de não suspirar a todo momento quando Portgas estava por perto. O tratava com igualdade, sem charmes jogados ou nada relacionado. Uma garota bem simples, nascida trouxa e que, assim como Lily, procurava passar despercebida por outras pessoas.
Junto a Rose o grupo de cinco meninas se dirigiam a sua primeira aula do dia, logo depois de sair de um agitado café da manhã que acordaria até mesmo os mortos que perambulavam pelo castelo. Talvez fosse daí que tinha surgido a tão acalorada discussão, mesmo que Lily, com toda a sinceridade que podia reunir, não se importava nem um pouco.
Tinha sido um café da manhã normal para os parâmetros daquela escola. A comida quente e farta sobre a mesa simplesmente sendo jogada para dentro da boca esfomeada de dois principais alunos do primeiro ano. Ace ignorava as garotas, ele não tinha problema com Anne, e algumas vezes poderia ser visto a conversar em japonês com Lin, mas Peni... Talvez o fato dela morrer de amores por ele tinha propiciado o detalhe dele evitá-la como a peste. Sempre que a loira se encontrava presente Portgas fazia toda a questão de correr para o lado de Fred e James, que o recebiam com sorrisos marotos.
Albus chegou a questioná-la, um dia desses em um encontro casual na Sala Comum da Grifinoria, se o rapaz tinha algum problema em sua cabeça para "fugir" de garotas como ele fazia. Lily não soube responder, Portgas era um mistério e a única que realmente parecia desvendá-lo não queria se aproximar. Não a culpava também, Hugo não era uma pessoa tolerante, e corria de sonserinos, desdenhando-os como se a grifinoria fosse a melhor das casas.
Pobre Rose, ela queria uma conversa com Blue e nem ao menos poderia se aproximar da garota sem ouvir o sermão de seu irmão e muito provavelmente de seu pai também. Tio Ron era igual ou ainda pior do que seu filho, para grande exasperação de Tia Hermione.
Seja como for a loucura daquela manhã começou quando, assim que terminou sua refeição, Portgas se ergueu, pedindo licença para James e Fred e montando seu caminho para a mesa da sonserina. Que, para seu grande pesar, já não mais comportava a pequena que, de algum forma inexplicável, o havia notado se aproximar, por mais que estivesse de costas para a mesa da Grifinoria, deixando apenas Malfoy e dois gêmeos da Corvinal sentados na mesa, sem ao menos preocupar-se com o desaparecimento repentino da garota.
Eles pareciam demasiadamente acostumados.
Lily não sabia como aquele inusitado grupo havia se formado, Blue parecia mais do tipo que queria ficar sozinha e mesmo assim permitia aos três rapaz acompanhá-la para a maior parte de seus afazeres. Eles pareciam ter ficado demasiadamente próximos com o pouco tempo de convivência.
Seria sua impressão, ou eles sabia de alguma coisa?
Todavia o que realmente causou a discussão foi a indignação de Peni em ver como Portgas corria atrás da pequena sonserina. Para ela, apenas o fato dela estar na sonserina e ter como companhia dois lunáticos e o filho de um traidor era o suficiente para mostrar seu caráter. Detalhe completamente desconcertante para Rose.
— Eu ouvi dizer que o senhor Malfoy mandou cartas de desculpas para as famílias afetadas por ele. — comentou timidamente Anne, depois de bons minutos de bate boca entre Rose e Peni.
— Sim, mas desculpas não concertam um erro já cometido! — exclamou Peni, erguendo o queixo com um sorriso presunçoso, cruzando os braços e esticando-se como podia, como se quisesse aparentar superioridade, tanto em suas palavras como em sua pose. Talvez pensasse que assim elas soariam mais certas e lhe desse a vitória na discussão. — É por isso que ninguém anda com Scorpius Malfoy. Ele vem de uma família de traidores!
— Mas não estamos falando do Malfoy. Você julga Kuroo só pelo fato dela ignorar os rumores! Isso não é justo, você nem ao menos falou com ela! — exclamou Rose, indignada. Todavia Peni não abaixou sua pose.
— E você já? — fez a loira com descrença, um pequeno sorriso crescendo no canto de seus lábios, com certo desdém.
— Sim! É uma garota tranquila e quieta! Só por ser da sonserina e andar com pessoas das quais você não gosta significa que seja uma pessoa ruim!
— Mesmo assim, não acho certo que Ace deva ficar correndo atrás dela. O que ele procura naquele projeto de gente?
— Portgas não ia gostar que você o chame por seu primeiro nome, Peni. — intrometeu-se Lily, um suspiro cansado escapando de seus lábios enquanto arrastava-se pelos corredores. Estavam quase chegando na sala, esse castelo era enorme! — E Kuroo conhece Portgas, é por isso que ele vai atrás dela.
— Pobre! Sem qualquer memória sobre si mesmo e sendo obrigado a correr atrás daquela garota! — Peni colocou-se a lamentar, da forma dramática que tanto a caracterizava. Lily gostava da loira, apenas algumas atitudes dela lhe incomodavam profundamente.
— Minha vida não te nada haver com você, Peterson. — todas as quatro garotas saltaram ao ouvir a voz. Portgas agora estava atrás delas, uma carranca desenhada em seu rosto formando saliências bem demarcadas em seu cenho. Seus olhos cinzentos estavam frios, escurecidos e parecia terrivelmente mal humorado.
— Não conseguiu alcançá-la? — questionou Rose, depois de se recuperar do susto. Ela já sabia a resposta, mas era uma maneira de aliviar o clima tenso que havia se posto no lugar. O desgosto de Portgas para com Peni era palpável sempre que os dois se encontravam próximos um do outro, apesar de que Peni parecia ser a única a não notar.
— Infelizmente não... — suspirou o rapaz, adentrando na sala de Herbologia junto as quatro garotas e acomodando-se em uma mesa próxima a Lily e Rose, longe de Peni que, com um beicinho de desgosto, sentou-se ao lado de Lin. — A perdi perto das masmorras. Não sei mais o que fazer para apanhá-la.
— Eu fico surpresa como ela sempre te nota chegar. Parece um sexto sentido assustador! Como um olho na nuca! — comentou Lily, arregalando os olhos e fazendo gestos com os braços, dando ênfase a sua frase. Todavia, enquanto Rose bufou em divertimento, Portgas simplesmente sorriu, um pequeno sorriso divertido.
— Isso eu acho que sei o que é, apesar de não conseguir explicar com palavras.
A conversa terminou e o professor já estava a dar sua aula. Neville Longbotton era um homem legal, desengonçado e divertido. Lily gostava de suas aulas, de verdade. Mas naquele dia ela não estava com muita animação em prestar atenção nas palavras proferidas por seu professor. Muitas perguntas estalavam em sua cabeça para se quer pensar em qualquer outra coisa.
Com toda certeza a ganhadora de todas elas era, definitivamente, o motivo que levava Blue a não dizer a Ace sobre seu passado. O rapaz tinha o direito de saber, então por que não simplesmente acabar com todo esse jogo de gato e rato? Por que toda essa confusão? Lily não conseguia entender. E o pior, Ace não parecia chateado, ele apenas estava frustrado.
E o mais intrigante e gerador de todas as suas perguntas com toda certeza era Ace. Mesmo sem suas memórias todas as atitudes do rapaz eram deveras um mistério. Era como se, mesmo sem elas, seu corpo tivesse a certeza de quem era, ela não saberia bem como explicar essa situação. Ace era um personagem o qual lhe era impossível desvendar, mesmo que o desmontasse e montasse de novo em sua mente diversas vezes.
Para exemplificar, uma vez contou-lhe sobre seus sonhos, em um final de semana qualquer no início do mês de outubro. Contou sobre o navio o qual estava, descreveu com detalhe tudo o que conseguiu ver. Suas sensações e incomodo de quietude, da calmaria que seu sonho era e como aquilo a assustava. Contou sobre o mar, a sensação de liberdade, de poder fazer tudo o que quisesse sem qualquer tipo de restrição, mesmo que tal fato fosse fisicamente impossível. E contou sobre sua teoria, de que em seu sonho ela fosse na verdade ele, como se estivesse no lugar onde ele costumava ficar, em sua pele, talvez uma lembrança.
Ela supôs, naquele dia, que seria um notícia chocante, talvez louca e que ele apenas riria dela, a chamaria de louca e dissesse que aquilo não fazia o menor sentido. Mas, ao invés disso, ele levou a mão ao queixo, ergueu o rosto em uma pose pensativa encarando o teto da Sala Comum em que se encontravam e então sorriu, um sorriso caloroso. Seus olhos cinzentos encheram-se de nostalgia por um momento até voltar-se para ela jogando as seguintes palavras: "Eu não me incomodaria de viver em um navio, na verdade. Sinto que realmente se encaixa em meu jeito de ser esse tipo de vida."
Lily tinha começado a duvidar de que ele realmente não se recordava de nada e apenas estava caçoando da cara de todos eles. Não seria de todo uma surpresa se tal especulação fosse certeira.
Tinha duvidas sobre o que acontecia. Suas noites mal dormidas que não tinham qualquer tipo de explicação a qual pudesse encontrar e a deixavam cada dia mais e mais cansada. E não era por pesadelos, sonhos estranhos ou nada parecido. Ela simplesmente não conseguia pregar o olho durante horas revolvendo-se sobre a cama, tendo a sensação inquietante de estar sendo constantemente vigiada. Mas, diferente da que tinha antes do aparecimento de Ace, aquela, que só lhe vinha quando a lua tocava o céu, era extremamente assustadora.
Ela não saberia como explicar a sensação que lhe arrepiava a espinha cada vez que se acomodava no dormitório para dormir depois do dia cansativo de aulas. Era como... Ter olhos atentos em sua pessoa, atravessando as janelas, mesmo que as mesmas estivessem cobertas pelas grossas cortinas avermelhadas do lugar. Não importava quantas vezes virasse na cama, como se escondia por debaixo dos cobertores ou o quão distante da janela se encontrava, sempre tinha aquela terrível sensação de estar sendo vigiada lhe incomodando a nuca, acelerando seu coração, como a presa de um astuto animal faminto.
Não tinha contado a ninguém, porém. Se fossem lhe perguntar o motivo ela também não saberia dizer, apenas pensava que não era necessário, talvez fosse apenas coisas de sua cabeça. Talvez não fosse nada com o que realmente se preocupar. Dar falsos alarmes apenas poderia piorar a situação.
E a aula passou, a próxima seria de poções, junto com a turma da Sonserina, a qual Ace tinha a fraca esperança de ter uma chance de encurralar a pequena garota escorregadia. Todavia foi em sua caminhada pelos corredores que se depararam com ela.
Lily não poderia deixar de se surpreender ao ver Pride apoiado comodamente no ombro da pequena garota a qual se destacava por seu chapéu diferenciado, mesmo que de cor escura. A Fênix azul arisca havia desaparecido assim que havia aproximado-se da aula de Herbologia, aparentemente não lhe agradavam as plantas, assim como as mesmas não agradavam-se dele ou Ace, ou se quer mesmo ela. Talvez fosse por causa do fogo, todos os três tinham tal afinidade e acabavam por gerar um conflito não verbalizado com os seres terrestres.
Seja como for, Lily nunca havia imaginado que, de todos os lugares para os quais a pequena ave poderia ir seria exatamente para onde Blue estivesse. Talvez nem sempre ele estivesse com ela, mas ainda era frustrante para a ruiva. Afinal, Pride apenas havia demonstrado real "calmaria" com Lily, nem mesmo Portgas, o qual ele tratava com alguma cortesia, era tanto quanto existia com Lily. Vê-lo a se dar bem com outra pessoa trazia a ruiva um pouco de ciúme, o qual tentava não demonstrar.
Foi uma visão longínqua. O grupo de quatro pessoas estava amontoado em um corredor próximo ao caminho que levava as masmorras. Era um pouco... Engraçado vê-los juntos, não era um grupo típico e destacava-se ainda mais suas diferenças quando estavam juntos daquela maneira. Os gêmeos pareciam extremamente excitados com o pássaro sobre o ombro de Blue, todavia não ousavam acercar-se, pareciam já ter conhecimento que a ilustre ave de penas flamejantes não aceitava qualquer um próximo dele. Malfoy, o mais alto do grupo, apesar de possuir um pequeno e contido sorriso, mantinha os braços cruzados e um rosto que talvez tinha a intenção de passar desinteresse para o resto que não estivesse prestando completamente atenção nele. Blue, por sua vez, sorria extensamente, guardando alguma coisa em sua bolsa enquanto escutava o pequeno pássaro piar em seu ombro.
Ela poderia entendê-lo, talvez fosse o motivo pelo qual Pride permitia sua companhia.
— Blue! — Ace se inquietou ao seu lado, apressando-se para onde a pequena garota estava. A pobre saltou assustada, parecia estar distraída de mais para usar seu tão famoso sexto sentido, como Lily gostava de nomear. E, tão depressa como podia, desapareceu corredor a fora deixando Pride resignado a bater as asas na direção de Lily, acomodando-se novamente em seu ombro, o peito estufado e carrancudo. — Matte*! Blue! Mette kudasai*!
Ace deteve-se próximo ao pequeno grupo, sabendo muito bem que, depois que Blue tinha tomado a dianteira, não poderia mais alcançá-la. Ela sabia como desaparece quando queria e ele ainda não tinha completo controle sobre as habilidades que lhe permitiam ver além do que as pessoas normais viam. E ele não podia deixar de suspirar, amuando resignado por tê-la perdido mais uma vez.
Malfoy, por sua parte, encarava a cena com certo divertimento. Depois de quase um mês observando tal situação você começava a ver um pouco de graça em tudo. Todavia, ele não poderia deixar de sentir-se um pouco interessado sobre a relação dos dois, afinal, Blue tinha todas as respostas, mas não havia passado o suficiente para conseguir compreender totalmente.
—--------------------------------------------------------------------
— Você ia ter que contar a ele uma hora ou outra, Neko-chan! — lamuriou um dos gêmeos, Scorpius não saberia dizer qual deles exatamente, logo depois de levar uma bofetada na cabeça por ter falado próximo a ele mais do que deveria. Aparentemente Blue não tinha a menor intenção de dizer a ele mais sobre ela, e com a intromissão dos irmãos da Corvinal seus planos haviam descido pela culatra.
— Lorcan tem razão, Neko-chan! Estamos todos envolvidos nisso, querendo ou não! — chorou o outro, dessa vez o reconhecendo como Lysander. Todavia, se ele não tivesse pronunciado o nome de seu irmão, tinha certeza que não o reconheceria. Gêmeos eram complicados de discernir, ele se sentia confuso, era como olhar para a mesma pessoa em lugares diferentes ao mesmo tempo. Blue cruzou os braços, o cenho franzido profundamente. — Estamos dizendo a verdade! Hogwarts nos disse!
O cenho se franziu ainda mais, os olhos brilhando em descrença. Blue não parecia ser uma pessoa que acreditava em destino e seja o que for que estivesse a dizer e que de uma maneira mágica os dois rapazes da Corvinal conseguiam entender, mas seja o que for parecia um extenso sermão pelo que conseguia ver na expressão da pequena garota, normalmente tranquila.
— Olhe pelo lado positivo. — incentivou um dos gêmeos, Scorpius supunha que tinha sido Lysander novamente, o enorme sorriso novamente desenhado em seus lábios, os olhos azuis reluzindo em um tom sonhador. Malfoy questionava-se se eles realmente tinham suas cabeças no lugar. — Não terá que se repetir contando para todos nós.
Blue fez uma careta, entretanto um suspiro exasperado logo escapou de seus lábios, deixando o corpo cair em um dos bancos de um dos jardins do castelo. Mais ninguém se encontrava próximo, era a chance perfeita para conversarem e explicarem tudo o que estava acontecendo sem que mais nenhum curioso escutasse. Blue queria manter total descrição e sigilo com tudo isso, mesmo que Scorpius não entendia o motivo.
Sem muitos ânimos ela pegou o pequeno caderno o qual sempre carregava e colocou-se a escrever em suas páginas, às vezes rabiscando alguma ou outra coisa, rasgando e amassando algumas folhas, batucando o lápis em seu queixo como se pensasse exatamente o que poderia escrever. Depois de alguns minutos ela finalmente ergueu o as páginas na direção dos três que esperavam ansiosamente o que ela lhes iria contar.
"Primeiro vou explicar o que eu sou para que vocês possam entender que não é brincadeira." os olhos dela voltaram-se furiosamente para os gêmeos, que sorriam como se não tivessem entendido o que ela queria dizer. Com um suspiro, Blue continuou. "De onde eu vim eu sou o que vocês chamariam de Pirata"
—Pirata? Blue, não brinque com a gente. Os piratas deixaram de existir desde o fim das colonizações marítimas! Só se você estiver falando de contrabandistas de material de vídeo dos trouxas, aí talvez eu possa acreditar. — protestou Scorpius, os olhos descrentes sobre a baixinha que mantinha-se com um sorriso presunçoso.
"Acredite ou não, é isso que eu sou. Vive em um navio boa parte da minha vida e conheci todo tipo de pessoa que você pode imaginar. A que mais passei meu tempo era uma tripulação famosa de onde vim, nosso capitão era incrivelmente forte, muitos o temiam e respeitavam por sua monstruosa força, mas quem vivia sob suas ordens sabia como ele poderia ser amoroso e bondoso. Tínhamos vários territórios, éramos poderosos! Éramos uma família." um sorriso triste se desenhou no rosto de Blue enquanto ela continuou a escrever, seus olhos brilhando em nostalgia e com algumas lágrimas formando-se, mesmo a seu contragosto. "Foi quando aconteceu. Por nos sentirmos seguros de mais em nossos domínios, em nosso barco, nunca pensamos que entre nós poderia habitar um traidor. Afinal, chamávamos uns aos outros de irmãos! Quando se é procurado pelo mundo inteiro, não tendo como contar com mais ninguém, receber uma traição de dentro do lugar que você chama de lar... É como um balde de água fria sobre sua cabeça."
O silêncio começou a ficar pesado. Blue escrevia furiosamente, como se as palavras já não fossem mais um problema, mas as lágrimas que teimosamente queriam se formar em seu rosto e ela as retinha mostravam o quão doloroso era lembrar do que ela estava contando. E não tinha como ajudar, para saber das respostas as quais os três precisavam eles precisavam remexer no passado da garota, por mais tenebroso que esse possa ser.
Uma criminosa? Scorpius pôs-se a pensar, tentando associar cada informação que ela passaria, sabendo bem que era um dos poucos momentos que poderia saber alguma coisa daquela pequena garota que durante alguns dias estava a desfrutar da companhia. Uma garota tão forte, tão firme e que talvez possuísse mais dores do que os olhos pudessem ver, por mais que tivesse uma idade pouco avançada.
"Mashall D. Teach, ou em sua língua, Teach D. Marshall. Ele fazia parte da mesma divisão que eu, não falávamos muito, ele era um homem estranho, mas não deixávamos de considerá-lo um irmão. Um dia, um dos nossos comandantes, que por acaso são dezesseis, cada um a comando de uma frota, descobriu um item muito valioso, e esse... Homem, quebrou a mais importante das regras em nosso navio: Nunca matar um companheiro. A quebra dessa regra é punida com a própria morte." Malfoy engoliu em seco, não parecia uma regra difícil de cumpri, mas imaginar a situação era complicado. Ele não queria ver nada disso. "Na manhã seguinte que o comandante da quarta divisão, Thatch, havia trazido a bordo o tal item ele havia sido encontrado morto no deque... Várias especulações foram feitas para saber quem era o culpado até que descobriu-se que Teach estava faltando no navio e que um dos botes, junto com o item, haviam desaparecido. Não havia outra resposta se não que ele havia matado Thatch, esfaqueando-o pelas costas, roubado o item e fugido do navio. Devo dizer que o comandante de nossa frota ficou irado. Afinal, Teach era seu subordinado e Thatch um de seus melhores amigos, cabia a ele resolver o problema e mais ninguém. Ele deveria caçar o traidor e matá-lo."
— Mas não foi isso que aconteceu, não é? — um dos gêmeos respirou, tão baixo que quase não conseguiu ouvi-lo, mesmo que não estivessem tão distantes. Os três estavam apreensivos e, por mais que desejassem um final feliz, eles já imaginavam que não seria assim.
Blue negou.
"Nosso capitão teve um mal pressentimento sobre tudo isso. Eu estava dormindo ainda nesse horário por isso perdi toda a confusão, mas o meu comandante e ex-capitão zarpou, contra a vontade de todos no navio, atrás do traidor. Agora que eu penso, eu deveria ter ido com ele... talvez... Talvez tivesse ajudado em alguma coisa, eu não sei."
— Por que ninguém foi atrás dele? — Scorpius questionou, completamente envolvido na história. Blue sorriu com tristeza, porém.
"Ele era forte, para ter o posto de comandante não pode ser qualquer um, todos confiavam nele, sabiam do que ele era capaz, por isso tentamos manter as esperanças elevadas. Só não esperávamos que o oponente fosse tão... Forte. Meu comandante foi capturado pelo traidor, que já estava começando a montar sua própria tripulação. Foi jogado na prisão de segurança máxima, a melhor de onde vim, apenas uma pessoa havia conseguido escapar dela até então e os piores nomes da história dos mares estavam presos lá. Quando nosso capitão descobriu, pelos jornais que espalharam a notícia, prontamente declarou guerra contra a marinha e o governo, juntando nossos aliados para atacar o ponto de execução de nosso companheiro. Iríamos salvá-lo, custe o que custar, ele era da família, nosso irmão! Não poderíamos deixá-lo para morrer!" Blue respirou profundamente, tomando forças para continuar a história. "Eu não sei o que aconteceu na guerra, meus companheiros não me deixaram ir ao igual que as enfermeiras do navio e Stefan. Deixaram-me inconsciente em uma de nossas ilhas, quando despertei, era tarde de mais para fazer qualquer coisa que não fosse esperar e torcer para que eles voltassem bem... Ridículo. Naquele dia, além de perder meu comandante, meu salvador, também perdemos vários membros da família, ao igual que nosso capitão."
Ver Blue tão próxima de quebrar, trazendo de volta aquelas lembranças, era uma cena que nenhum dos presentes esperava presenciar. Mas a garota não desistiu, respirou fundo mais uma vez e voltou a anotar, talvez o final de sua alongada história.
"Nós já não éramos um símbolo de poder, por pouco nossos companheiros não se separaram e nossa tripulação se desvaneceu em desgosto e dor. O comandante da primeira divisão, braço direito de nosso capitão, Marco, tomou o controle da tripulação, mesmo que ele mesmo estivesse tão destroçado quanto qualquer outro de nós. Pouco a pouco tentamos nos reconstruir, nos reerguer para buscar nossa vingança contra quem começou toda essa dor. Foi nesse meio tempo que descobri uma nova habilidade, uma com a qual eu consegui trazer Thatch de volta."
— Você conseguiu trazer alguém de volta a vida?! Como?! — exclamou Scorpius, os olhos arregalados em surpresa enquanto recebia apenas como resposta um sorriso misterioso por parte da pequena garota a sua frente. Ele sabia, apenas com aquilo, que ela não lhe contaria.
"Com isso consegui trazer de volta a esperança de muitos na tripulação. Tentei com nosso capitão, mas seu corpo já estava fadado a deixar esse mundo, eu não poderia trazê-lo de volta, mas meu comandante... Esse sim eu podia. Ele era muito novo, não era seu momento, acusado pelos erros de seu pai e revogado de seus direitos de viver... Todos o queriam de volta, apesar de tudo o que aconteceu por culpa de sua teimosia. Mas, por algum motivo, eu não conseguia encontrar sua alma. Ela estava presa em um lugar distante o qual eu não conseguia alcançar... Como se ainda estivesse viva. Não era mais do que um pressentimento, um instinto, nada que pudesse ser concreto o suficiente para levar alguém a acreditar. Eu não tinha nada em que me apoiar e mesmo assim segui meus instintos até aqui, com a única missão de levá-lo de volta para casa."
Não era bem um fim, tava mais para um novo começo, mesmo assim não deixava de causar arrepios nos ouvintes. Não existia finais felizes, apenas um fiapo de esperança que poderia muito facilmente se romper e derrubar o resto do que tinha sobrado. Blue suspirou, deixando os ombros relaxarem um pouco da tensão que havia se acumulado durante todo o momento em que contava a historia.
— E... Essa pessoa que você está querendo levar de volta, é Portgas? — e tudo que recebeu foi um sorriso tremulo em resposta.
—---------------------------------------------------------------------
Agora, sabia muito mais sobre Blue, não era o suficiente, mas conseguia entender um pouco mais da situação. Aparentemente os gêmeos achavam que poderia ajudá-la e por algum motivo o haviam arrastado junto. Ele queria, sim, devolver o favor que ela fez apenas lhe permitindo falar sobre seus problemas e, sim, estava curioso sobre ela e queria saber mais, todavia, não significava que queria se meter em problemas alheios sem ser chamado.
Seus olhos pousaram-se no rapaz que tinha quase a seu lado, amaldiçoando baixinho as várias vezes quem que não conseguiu alcançar a pequena garota. Pelo o que havia entendido ele não se recordava dela, então, o único motivo pelo qual ele poderia estar a persegui-la era para descobrir sobre quem ele realmente era. Mas então por que insistir tão avidamente em algo que já parecia ser perdido? Blue não parecia nem um pouco a vontade em falar com ele sobre esse assunto e agora Scorpius entendia o motivo.
Se ele havia entendido, ele também não se sentiria nem um pouco animado em falar para alguém que seria teoricamente intimo que ele na verdade havia morrido em uma guerra a qual, aparentemente, ele mesmo provocou e que havia retirado várias pessoas próximas a ele.
Ele tinha certeza que ninguém se sentiria animado em dizer algo assim.
— Por que você insiste tanto? — perguntou, surpreso consigo mesmo pelas próprias palavras que haviam escapulido de sua boca. Todavia, haviam chamado atenção daquele que realmente deveria ouvi-las. Não tinha mais como voltar atrás, por mais que seu rosto queimasse com o olhar prateado intenso que recebia. — Quero dizer, é óbvio que ela não quer nada com você. E você nem ao menos se lembra dela. Por que continua tentando? Por que não desiste?
— Desistir não está no meu vocabulário. — o rapaz respondeu simplesmente, dando de ombros. Foi uma surpresa, para o Malfoy ele esperava ser apenas ignorado e deixado com seus devaneios. — E... Apenas sinto que deveria continuar. Não me importo com quem eu era ou qualquer coisa do tipo, apenas... Não sei explicar, quero voltar a falar com ela.
Scorpius soltou um murmuro, mas não insistiu no assunto, deixando-se a divagar sobre o que havia aprendido nesse meio tempo, chegando a conclusão que ambos eram estranhos. Tanto Blue como Ace.
Um piado foi ouvido ao longe, chamando a atenção do moreno que não tinha percebido a aproximação das garotas ou se quer o distanciamento dos rapazes. Os garotos da Corvinal e o terceiro ano da sonserina com toda certeza iriam para sua respectivas aulas. Ele suspirou, tentando conter o riso que queria escapar.
— O que foi? — questionou Lily, reparando no ar divertido de seu companheiro, mesmo após mais uma falha em sua perseguição.
— Aparentemente Blue está ficando sem biscoitos. — comentou, levando as mãos ao bolso e voltando a sua caminhada, um sorriso zombeteiro em seu rosto. Ele não tinha que se preocupar, ele conseguiria falar com Blue, ele sentia isso. Só precisava insistir mais um pouco.
— Como sabe? — dessa vez foi Rose, que apressou um pouco os passos para conseguir alcançar o rapaz.
— É complicado de explicar. — o rapaz deu de ombros, uma mão levando-se ao queixo e os olhos voltando-se para o teto, nunca deixando de andar na direção das masmorras, era impressionante que, mesmo sem manter a atenção para onde estava andando, ele conseguir predizer exatamente para onde ia e quem estaria a sua frente para poder desviar. Ele então voltou seu rosto para Rose e sorriu maroto. — Eu apenas escuto a voz de Pride falando comigo, nada mais. No momento ele estava reclamando que tinha que dividir os biscoitos com um cachorro imundo e inferior, o que eu suponho que seja o cão de Blue, Stefan, e que quem faz os biscoitos, de acordo com Blue, não está por perto para mandar uma nova leva deles.
— Você é incrível em tudo que faz, Ace!! — exclamou Peni logo atrás, os olhos brilhante e empurrando Rose para um lado enquanto aproximava-se mais de Ace.
— Portgas-san pra você, Peterson. — assobiou Ace, acelerando o passo e puxando Rose com ele, ao mesmo tempo que não perdia Lily de sua vista. Ele fazia questão de se manter o mais distante possível de Peni, independente do que ela fizesse.
Adentrando na aula de Poções Blue já se encontrava na sala, acomodada em um canto próximo a janela, as pernas cruzadas sobre a cadeira e balançando-se para frente e para trás, dando a impressão que logo cairia ao chão. Seus olhos azuis, encobertos pela sombra da aba de sua boina pareciam reluzir, um brilho perigosos direcionado para o lado de fora da janela. Lily sentiu um arrepio ao observar, como um gato espreita um pequeno rato, Blue estava pronta para o bote.
Ninguém ousou sentar ao seu lado, alguns por desdém outros por reaparem a aura assassina que lhe rodeava. Mesmo Portgas, assim que entrou, reteve seus músculos. Era como se alguém tivesse apertado um botão e agora ele se encontrava em posição de batalha, pronto para matar qualquer suspeito que ousasse se aproximar dele. Se não fosse por Rose a sentar-se ao seu lado, ele provavelmente estaria como Blue agora.
O clima pesado envolta de ambos apenas se dispersou quando o professor entrou na sala e, para a surpresa de todos, seus cabelos comumente de um loiro esbranquiçado agora se encontrava em um rosa choque bem visível, arrepiados sobre sua cabeça tão chamativos quanto os enormes óculos grossos os quais já chegou usando. Tal cena, por mais sério que fosse o aluno, fez com que todos respirassem mais profundamente, tentando conter as risadas que queria escapar.
Mesmo Ace, que quando se mantinha sério era difícil arrancá-lo de seu modo assassino, prontamente sufocou as gargalhadas que enchiam-lhe a garganta e faziam seus olhos encherem-se de lágrimas. Blue, por sua parte, mantinha um sorriso maroto, cheio de dentes com caninos pontiagudos e divertidos que praticamente a acusavam do crime.
— Senhorita Kuroo, se continuar com esse sorriso em seu rosto irei supor que isso é obra sua. — disse o professor, depois de acomodar suas coisas, de sua forma atrapalhada de sempre, sobre a mesa. Por sua vez a garota ergueu seu pequeno caderno.
"Existem provas?" foi tudo o que foi encontrado escrito na página em questão. O professor, por sua vez, negou com resignação obrigando a garota a aumentar seu sorriso, mesmo que fosse fisicamente impossível. "Então não existem maneiras de me culpar. Se não há provas contra mim então eu sou inocente."
Um grunhido ecoou pela garganta do professor antes dele finalmente concentrar-se em sua aula. Lily percebeu que, mesmo eles fazendo parte da mesma casa, um profundo desgosto havia se formado entre ambos e Blue definitivamente era a culpada da brincadeira feita ao professor de poções, apenas não haviam maneiras, mais do que as aparências, de provar isso.
A tensão apenas voltou quando, de repente, Blue ergueu-se de sua cadeira e disparou para fora da sala. Ninguém compreendeu até o momento que latidos fortes, altos e furiosos foram escutados do lado de fora do castelo, adentrando na sala pelas janelas que davam visão a floresta proibida.
Dizer que o que se seguiu foi uma confusão era um eufemismo. Todos jogaram-se para as enormes janelas para ver o que se sucedia ao lado de fora, amontoando-se uns nos outros, cochichando por cima dos protestos do professor que tentou, inutilmente, manter a ordem. Lily conseguiu se aproximar o suficiente para arrumar um brecha entre dois alunos da grifinória, conseguindo finalmente ver pela janela um enorme cachorro albino, os pelos eriçados e em posição de ataque, votado para a direção da floresta.
Alguma coisa o havia atiçado, mas, sabendo para onde ele estava latindo, poderia ser qualquer coisa.
Blue logo se mostrou, um pequeno pontinho ao lado do enorme cão, procurando acalmá-lo enquanto, de alguma forma inexplicável, mantinha-o longe dos limites da floresta. Todavia, Lily não tinha certeza do que viu, mas jurou deslumbrar, durante alguns segundos, um par de olhos vermelhos brilhantes, selvagens, destacando-se nas sombras por entre as árvores da floresta, um pouco antes de Blue jogar alguma coisa em sua direção, dispersando-o ao instante.
Foi questão de segundos, ela não teve tempo para pensar direito, logo Ace a estava afastando da janela e jogando-a de volta para sua cadeira, os olhos nunca deixando o vidro que comportava tantos alunos de uma só vez.
Lily não tinha notado, mas seu coração acelerou, sua respiração ficou pesada e um suor frio começou a escorrer-lhe pela nuca. Ela estava com medo, com um simples vislumbre ela tinha ficado apavorada.
Como diziam? Chega um momento em que, de tanto olhar para o abismo, ele passava a lhe encarar de volta.
Bem, ela talvez tinha acabado de ver os olhos do fundo do abismo a encarando de volta...
Fale com o autor