Cutter

1 Piloto


De dentro do avião olho para baixo e vejo somente o mar, desço meu olhar para a garotinha que estava sentada do meu lado, não deve ter mais de 7 anos, seus pais também são separados, mas diferente dos meus, eles foram forçados a isso. A mãe morreu em um incêndio, porém, seu pai não aguentou e caiu em depressão, diz ela que ele já não saia mais de seu quarto e 4 meses após o incêndio, cometeu suicídio. Agora ela está indo viver com os avós em Cutter, interior de Tale, que por acaso foi onde encontrei um bom apartamento para morar. O avião desce e me despeço da pequena Nina, que se encontra com uma senhora de cerca de 70/80 anos, ela acena com a cabeça para mim como se me conhecesse e entra no táxi com um sorriso gentil nos lábios.

Seguro minha mala e pego um táxi, dou o pedaço de papel onde havia escrito meu endereço para o motorista e chego lá em 40 minutos. Minha mobília já havia chegado, então apenas tirei as roupas da mala e coloquei nas gavetas do armário rústico que ganhei da minha avó antes dela morrer. Sinto-me sendo vigiado e olho pela janela do quarto, o vizinho estava me "espionando" pela cortina de sua janela e depois saiu. Senti os fios da minha nuca se ouriçarem com tal expressão que o garoto tinha em seu rosto.

Eu não consegui definir o que eu tinha visto. No momento que olhei naqueles olhos aparentemente castanhos, senti um frio na boca do estômago, que foi subindo até formar um nó na garganta, mas não posso pensar nisso agora, já está tarde pra isso.

Faz muito tempo que eu não mantenho contato com meu pai. Minha infância não foi uma das melhores, não fui muito próximo dele. Mas ele era um ótimo instrumentista, ainda guardo aquela gaita vermelha que ele tinha me dado aos 11 anos de idade. Não tenho muitos talentos, mas sei tocar algumas coisas. Me lembro quando eu tocava nos festivais da minha escola quando criança, época que eu tinha uma família.

E se não me engano, foi nessa mesma época que minha mãe engravidou do meu irmão. Lembro que fizeram uma festa pra ele. Mas parece que parte da minha mente se nega a lembrar de certos tipos de coisas. Uma coisa que lembro, é de ver minha mãe chorando na sacada da varanda, com uma camisola branca que estava pintada de vermelho, parecia ser um tipo de estampa diferente. Minha mãe teve meu irmão prematuro, porquê teve várias complicações durante a gravidez, principalmente transtorno emocional. As agressões pararam, mas meu pai compensou, chegando bêbado todos os dias em casa, porquê tocava em vários lugares que vendiam esse tipo de bebida, após um tempo perdeu o emprego. Minha mãe segurou a barra por muito tempo, até que um dia ele quis levantar a mão pra mim, nisso ela pediu divorcio. Mas ela também não é nenhuma santa, foi engraçado em como, dois dias depois de pedir o divórcio, já estava com outro.

Acordo com o barulho de serra elétrica e levanto da cama, olho pro relógio no criado mudo: 05:00h. Fui até a janela que da para a rua e vi que estavam tirando uma árvore velha que estava ali. Como não havia comprado nada, fui até a padaria e tomei café da manhã lá mesmo. Voltei para casa, tomei meu banho e fui me ajeitar pra ir na escola, tinha que resolver toda a papelada porquê iria entrar no mês de Abril e dois meses de aula perdidos.

Ponho uma roupa qualquer e saio de casa, a vizinha da frente, uma garota ruiva de 15/16 anos estava no jardim, fui até ela pra pedir informação:

– Licença, eu sou novo aqui, queria saber...

– Não fala o nome antes? De onde você veio no lhe deram educação? – disse a garota com um tom de arrogância.

Respirei bem fundo, não quero ficar como ''garoto chato'' no meu primeiro dia.

– Desculpa... Meu nome é Dylan, Dylan Brian e o seu? – respondo, tentando ser simpático.

– Elis Arboru, prazer. E então? O que queria saber?

– Eu queria saber onde fica a escola Stax Dealing, você sabe?

– Sim.. Eu sei, eu estudo lá.

– Nossa... Coincidência, né?

– Na verdade, não. A cidade é pequena, só tem duas escolas e uma que presta. –

– Você pode me levar até lá?

– Poder até posso. Mas porque levaria?

Essa cidade realmente é estranha.

– Como eu ia dizendo, eu sou novo aqui. E não sei onde fica a escola. – respondo, já quase desistindo.

– Tá tá, me segue. – ela responde, como já estivesse nervosa.

Para ser sincero, eu estava um pouco desconfortável com a situação. Chegando na escola, ela sequer se despediu de mim.

– Hein, muito obrigad... – respondo, ficando no vácuo quando percebo que ela já tinha saído.

Comecei a procurar pela a diretoria ou secretaria da escola. Fui andando pelos corredores até que trombei com uma criança, eu pensava aqui tinha só ensino médio.

Encontrei uma porta escrito ''secretaria'' com as letras douradas no fundo escuro da porta. Bati na mesma e logo depois uma senhora abriu:

– Posso ajudar? – diz a recepcionista da secretaria.

Estava com uma cara fechada como se já fosse o suficiente o que já estava fazendo.

– Eu sou o aluno novo... Vim acertar minhas coisas, documentação...

A mesma mudou o semblante em cerca de segundos para um sorriso simpático.

– A sua mãe ligou para cá e fizemos toda a sua matricula por telefone, senhor Brian. Pode ir em direção a sala 2B17.

Ela fechou a porta novamente e fiquei encarando a madeira velha que estava para os cupins. Continuei caminhando entre os corredores. Foi meio complicado, não tinha um mapa de sala. Mas não demorei muito para encontrar, são poucas turmas.

Quando eu entro, todos já estavam sentados todos olhando a minha direção, só estava sobrando duas únicas cadeiras, quando eu percebo a Elis ao lado de uma delas. Peço licença e vou em direção a cadeira longe da Elis, ela não esboçou nenhuma reação quando eu entrei.

Logo em seguida, o professor interrompe a aula e pergunta meu nome:

– Ei, o novato aí. Qual seu nome? – ele fala alto para todos da sala.

Novamente todos me olham.

– Eu sou Dylan, Dylan Brian. – respondo com um pouco de timidez.

– Prazer Dylan Brian, eu sou Robert, sou o seu professor de História. Pode ficar a vontade e me desculpa, às vezes sou meio doido mesmo. Só não levar a sério, se quiser.

Ele aparentava está na faixa dos 35 anos. Era baixo, já não tinha cabelo e olhos negros e possuia um sotaque estranho.

As aulas são de 1 hora, realmente entediante. Mas ele parecia ser um cara legal. Peço licença para ir ao banheiro, vou em direção ao bebedouro, não ficava muito longe da sala. Bebi o suficiente para as outras aulas, enquanto eu ia em direção a minha sala. De longe percebo alguém na porta da mesma, dava para ouvir as risadas de longe, uma pessoa simpática. Assim que ele vira o rosto, aquela sensação novamente, arrepio na espinha. Era a mesma pessoa que estava me olhando pela janela no dia anterior. Continuo em direção a minha sala e ele saindo dela. Um momento eu e ele passamos um por outro, mas não consigo explicar. Assim que eu passei do lado, eu senti como se todas as forças tivessem ido embora, nunca tinha sentido isso antes. Era como se eu quisesse, simplesmente, desistir da vida.