Cutter
2 Assuntos não tão alheios
Eu, realmente, não sei o que eu senti naquele momento. Foi como se toda aquela dor que eu sentia com a separação dos meus pais, tivesse voltado. Não reparei, mas eu tinha sentado no chão do lado da porta da sala, até que eu escuto o sinal de término da aula. Todos começam sair dela, enquanto eu continuo sentado no chão. Começo a pensar em todos os problemas que eu tive até chegar aqui. Perco a noção do tempo, até que eu sinto alguém me cutucando com a ponta do pé. Olho para cima e não foi uma das melhores visões que eu poderia ter. Era ela, a Elis.
– Ei, ei... Vai ficar sentado aí mesmo? – dizia ela com o mesmo tom de arrogância de antes.
Eu a ignoro, sem intenção alguma.
– O garoto, você é idiota assim mesmo ou só de vez em quando!?
– Me desculpe, eu perdi a noção do tempo. – eu dizia, tentando ser o máximo educado possível.
Ela me ignora e vai em direção a próxima sala. Sem a sua autorização, eu ando ao seu lado para poder chegar a sala, dessa vez, sem nenhum tipo de problema. As aulas passaram rapidamente e o intervalo chegou, eu não levei dinheiro algum, até porquê eu só havia vindo para escola para fazer minha matricula, depois iria embora arrumar as coisas da mudança. Tinha uns trocados que sobrou da padaria, mas não daria para comer nem um simples sanduiche. Sai da sala em direção ao refeitório, estava um pouco cheio na verdade, mais cheio do que eu esperava. Não havia conhecido a escola toda ainda, nem o banheiro sequer. Entrei por uma fila imensa, peguei uma bandeja com um prato no centro e fui andando de acordo. Não sei se era minha impressão, mas era como se todos me olhassem de cima à baixo, talvez por que eu seja novo ou por que tenham me achado bonito de se ver, não sou lá grandes coisas, mas sou um homem de um metro e oitenta, quase noventa de altura, diferente das pessoas daqui, que tem uma palidez horrível por causa do tempo que vive chuvoso e fechado, tenho uma pele mais bronzeada por causa das praias de Saint Merlin, quando vivia com minha mãe. Chegou à minha vez e a senhora da cantina estava com a mesma cara que a secretária estava quando me viu, mas diferente dela, essa não abriu nenhum sorriso, não sorria nem com os olhos. Eram opacos como se, não tivesse vida ali dentro.
– Vai querer o que? – ela me ofereceu um tipo de pasta marrom e outra amarela, escolhi a amarela porquê tinha uma remota chance de ser purê de batata.
– Esse, por favor.
– Por favor? É novo por aqui, né garoto? – ela riu debochadamente e depois colocou uma placa daquela pasta amarela, que seja purê, por favor...
Ela colocou duas carnes de hambúrguer e me deu um suco de só deus sabe, porquê tinha cor de maracujá, e gosto de acerola, e mais uma maçã. Havia chegado mais um ponto do dia que seria difícil de lidar. A procura de um lugar no refeitório, como entrei na escola com dois meses de aulas corridos, os ‘’grupinhos’’ já foram montados, e todos tinham mesa porquê um tinha um conhecido e sedia a mesa para amigos de amigos também. Apenas eu ali, em pé, olhando pro nada. Penso na Elis, mas dúvido que ela fosse me deixar sentar na mesma mesa que ela, mas mesmo assim vou a procura dela. Corro meus olhos pelas mesas, vendo cabeça por cabeça até achar aquela cabeça alaranjada. Estava ela e um garoto mais velho, devia ser do terceiro ano, andei até eles e sentei-me à mesa. Ela me fuzilou com os olhos, mas não liguei. Apresentei-me para o garoto dizendo que era amigo dela e começamos a conversar sobre um assunto qualquer do tipo, o quanto queria que aquilo fosse purê.
– Você veio em um dia bom, tem dia que ela faz cada porcaria... não coloca nem sal, me sinto uma criança comendo papa mal feita – Imagina quando isso ta ruim então.
– Aqui não tem lanchonete ou algo do tipo pra comprar algo decente? – Elis me encarou com um rosto de ‘’cala a boca’’.
– Seu primeiro dia e já ta reclamando tudo isso? Desse jeito você não dura nem um mês...
– Como assim? – Elis havia ficado mais pálida que o normal enquanto Eliot sorriu macabramente e depois voltou ao normal.
– É brincadeira cara, relaxa – Depois levantou da mesa e saiu – Não fala mais com ele e nem chega do nada assim, otario! – disse Elis enquanto observava ele indo para mais longe.
– Seu namorado por acaso?
– Primo, só que ele não gosta muito da companhia dos outros... Ele foi criado rigidamente pela família, e é muito tradicional. Basicamente, faz parte das famílias fundadoras da cidade.
– E você? Não foi criada tradicionalmente? – Disse enquanto tirava uma mordida da maçã.
– Meu pai era esquizofrênico e a família não aceitava muito bem... Então fui morar com a família da minha mãe, que não era nem um pouco tradicional – Fiz uma cara de ‘’Hm’’. E ela fechou novamente aquela cara pintada de sardas.
– Por que eu to falando isso pra você? Isso nem é do seu interesse! – ela se levantou e foi na direção oposta do ‘’primo’’, olha pelo lado bom, fiquei com a mesa só para mim.
Houve mais duas ou três aulas até o sinal bater para demonstrar que o final da aula tinha chegado, iria para casa com a Elis, já que éramos vizinhos, mas quando me dei conta ela não estava mais lá. Fiquei com vontade de ir no banheiro desde o intervalo mas não estava muito afim de procurar, mas como a escola estava vazia esse horário, seria o melhor momento para ir. Quando puxei a porta do banheiro pra entrar, ouvi sussurros que vinham de dentro do banheiro:
– Mas você acha que isso seja verdade? Meus pais sempre falavam comigo mas eu nunca dei muita atenção... – disse uma voz rouca.
– Se é verdade eu não sei, mas eu tenho visto umas coisas no sótão da minha famílias, uns objetos muito sinistros. E varias facas de madeira. – eu não quero saber de nada disso...
Só que meus pais precisarão de mim e eu estarei lá para ajudar. Eu comecei a me sentir mal por estar ouvindo a conversa e entrei no banheiro de cabeça baixa e fui direto para um banheiro, nem cheguei a ver o rosto daqueles que comentariam sobre coisas que... Eu nem sei explicar, dei descarga e sai da li com uma vontade de deitar na minha cama imensa, apesar que teria que ir até em casa, pegar o dinheiro e fazer as compras. Principalmente material escolar, apesar de não ser muita coisa... Sai da escola e comecei a pensar em como chegaria em casa, porquê quando vinha pra escola com Elis, ela que havia apanhado o ônibus e eu não faço a menor ideia de qual pegar. Também não tenho dinheiro para pagar o táxi. Decido ir andando, lembro-me que não demorou muito pra chegar da minha casa até a escola, então não demoraria se eu fosse a pé. Comecei a andar por umas ruas que pareciam históricas, casas em ruínas de séculos e séculos atrás. Árvores gigantescas que tinham raízes imensas ao seu redor, e suas copas tão altas que se ficasse muito tempo olhando para cima, acabaria com a retina queimada pelo sol. As ruas tinha um chão em ladrilhos antigos, tinham um formato engraçado se você parasse pra olhar bem. As lojinhas eram pequenas mas eram aconchegantes, principalmente, uma cafeteria que passei e mesmo de longe ainda sentia o cheiro forte. Passei por dois mercadinhos, um havia apenas frutas e legumes e o outro já era mais como um Mercado mesmo. Logo cheguei em casa, afinal era só seguir a rua que eu chegava. Quando já estava indo me deitar, escuto a campainha tocar duas ou três vezes e vou olhar a porta. Quando vejo era uma mulher de trinta e cinco, quarenta anos de idade, com uma bandeja com brownies de chocolate, quando voltei novamente para olhar o rosto, conseguia ver o sorriso em seus olhos, apesar de, toda cidade parecer problemática, talvez nem todos sejam assim, não se pode falar que todas as laranjas estão podres apenas por estarem em uma mesma bacia.
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