Curupira
1 Diários do Jesuíta
O Padre José de Anchieta me enviou, o Índio guia e mais dois soldados (Gildo e Azevedo) para uma missão de evangelização dos povos nativos, Tupinambás, do sul do Brasil. Pediu-me que escrevesse em um diário todo o processo, pois queria estuda-lo depois. Estou ansioso, porque essa é uma experiência totalmente fora de minha zona de conforto. Quando vim ao Brasil estudar com o Padre Anchieta, pensei que só sairia em missão depois de terminar o seminário, porém cá estou.
Acho que não sinto somente a ansiedade de uma experiência nova. Ouvi uma conversa entre Índio e o padre que me alertou. Não compreendi direito, pois a interromperam quando me aproximei, mas não fiquei nada contente com o que ouvi. Bom, o objetivo me foi confiado e ei de vencer meus medos para cumpri-lo, por amor a meu Senhor.
Dia 2
Levantamos de manhã e seguimos viagem. Nunca fui um homem de aventuras e estava preocupado, sobre tudo com o que ouvi. Então perguntei:
— Índio, escutei uma conversa sua e do Pe. Anchieta sobre um tal demônio nessas florestas. Poderia por favor acalmar meu coração e explicar isso?
— O quê? Um demônio? – indagou preocupado Azevedo, um de nossos guardas. Seu irmão, Gildo, me olhou com uma expressão indagadora. Percebi que Índio ficara desconcertado, mas insisti. Ele então falou, de forma simples:
— Não posso mentir senhor, apesar do padre ter pedido que eu escondesse isso de todos. Antes de conhecer meu Senhor Jesus, quando ainda vivia na tribo, acreditava que a floresta era protegida por uma coisa poderosa, a Curupira.
— Ah! Isso é apenas crendice de seu povo selvagem, guia – ralhou Azevedo.
— Mais respeito com o homem, garoto – corrigiu-o seu irmão. Índio continuou:
— Ela é a mãe da floresta, a protege de quem arranca as árvores e caça os animais. Quem não a respeitar, a Curupira persegue e mata. Sempre que íamos caçar, tentávamos acalma-la com oferendas. Seu corpo é cheio de pelos grossos, possui cabelos grandes que cobrem o rosto e seus olhos; dizem que enxerga muito bem no escuro. Tem orelhas pontudas, cheira e ouve mais que todos os animais, anda curvada como um macaco e seus pés são virados para trás.
Enquanto Índio descrevia aquela criatura proveniente do inferno, comecei a transpirar. Para minha surpresa, não era apenas eu que ficara transtornado com a Curupira. Quando me virei para meu colegas, suas expressões eram, apesar das tentativas de ocultar, de terror. Todos nos calamos, perplexos.
Dia 3
Faz uma hora que raiou o terceiro dia. A floresta se tornou mais densa, dificultando a locomoção, embora o facão do guia nos de passagem com um som seco no ar. Definitivamente não dormi bem, pois aquele monstro permeou meus sonhos a noite toda. Não a tirando da cabeça, perguntei:
— Índio, acreditas realmente que aquele bicho, a tal Curupira, guarda essa floresta?
— Bom, seu Jesuíta, antes de me converter pensava que sim. Fui ensinado desde pequeno que a Curupira não era bicho mal, mas que cometeria maldades para proteger a mata e seus habitantes. Ai de mim! Agora sei que ela é má.
Aquela resposta me deixou mais infeliz. O tom na voz do guia era muito sério e suas expressões eram de um sincero medo. Mas o pior de toda aquela tensa situação foi o que narrarei a seguir:
— Somos soldados de Portugal, a maior nação do mundo – disse Azevedo, exaltado – nosso pai não enfrentou o Mar Tenebroso para gerar filhos covardes. Deixe essa Besta aparecer para ela sentir o gosto da civilização – e com isso disparou um tiro no tronco de um Pau-brasil. As aves ao redor se espantaram com o eco do disparo, o sol se escondeu em meio às nuvens e um forte vento soprou em toda aquela região, dobrando árvores, nos desequilibrando e fazendo os animais se esconderem em suas tocas; o “sangue” que escorria da árvore, contrastava com nossos rostos empalidecidos.
— Cristo, se apiede de nós – suplicou Índio, aterrorizado – estamos condenados.
Depois do acontecido, não conseguimos dar um passo sem olharmos desconfiados para os lados. O clima na floresta está pesado. Entre os arbustos, nos galhos das árvores, passando por meus pés, sempre pensava ver algo de estranho. A sensação é horrível e percebo que também afeta meus colegas. No momento em que escrevo estamos acampados, preparando o jantar. Ninguém falou nada desde o ocorrido, então decidi quebrar o silêncio:
— Olha, não sei ao certo o que aconteceu quando Azevedo disparou contra aquele Pau-brasil...
— Desde àquela hora – interrompeu-me ele – venho sentindo uma presença, como que me observando.
— Sinto o mesmo – disse eu, e todos concordaram com a cabeça.
— Então, parece que não temos como escapar desse fato, mesmo que ele pareça impossível – disse Gildo – a Curupira protege realmente essas matas.
A sensação ruim se intensificou e uma rajada rápida, porém forte, de vento bateu, derrubando nosso jantar no chão com um barulho que fez gelar minha espinha.
— E agora está nos perseguindo – falou Índio.
Todos foram dormir depois do susto (se é possível dormir nesse inferno), com fome. Aproveitando as últimas chamas da fogueira é que escrevo essas coisas.
Dia 4
Essa foi a pior noite que passei em minha vida. Malditos animais noturnos, maldito chão duro de terra, maldita Curupira. Acordei três vezes no meio da madrugada, pois essa Besta das florestas me trouxe pesadelos. A cada dia que passa, fico mais estressado. Novamente, enquanto seguíamos para nosso objetivo, sentíamos aquela presença maligna a nos observar. Assustávamos com qualquer coisa e meu coração quase parou de bater quando uma onça-pintada pulou em nossa frente, pronta para atacar.
— Fiquem calmos – ordenou nosso guia – ela só atacará se mostrarmos medo.
— Se acalmar?! – falei, sarcástico.
A onça rosnou ameaçadora e, ignorando sua própria natureza, saltou em nossa direção com suas presas à mostra. Calmo e calculista como sempre, Gildo atirou no animal ainda no ar, nos salvando. Se misturando com o eco da espingarda, mais uma vez aquele vento forte surgiu, como se fosse a própria ira da Curupira.
— Uma onça não agiria assim – explicou Índio – acho que estava sendo controlada por aquele demônio.
Até os animais ela coloca contra nós. Quero que esse pesadelo acabe logo, não aguento mais. Estávamos quase chegando à aldeia, quando Índio começou a agir de modo estranho. Ele parecia perdido, falava sozinho, como se algo – ou alguém – estivesse atormentando sua mente.
— Não! Por favor! Minha família não! – suplicava ele. Nós nada entendíamos, estávamos estupefatos.
— Índio, se acalme – tentei ajudá-lo – o que tem sua família?
— Não posso fazer essa escolha. Isso é cruel – gritava. Chorando, nosso guia continuou:
— Eu escolho meu Deus – a cena daquele homem desesperado marcará minha memória para sempre. Agoniado, ele caiu de joelhos no chão. Morto. Comecei a chorar também. Azevedo se irou. Gildo abaixou sua fronte, fez uma breve oração e pegou o corpo jazido na terra. Falou com voz fraca:
— Vamos embora desse lugar maldito.
Começava a anoitecer, porém faltava poucas horas para chegarmos à aldeia. Paramos, depois de nos afastarmos do local da tragédia, para enterrar o corpo de Índio. Foi uma breve homenagem. Covamos, fizemos uma oração e nos despedimos, sem demorar. Tínhamos medo. Ai de mim! A vida nunca fora tão má. Penso que Deus tenha nos abandonado nesse inferno, pois terminada a oração, erguemos nossas cabeças e vimos, no peito de Índio, feito por cortes, a frase: Saiam de minha floresta. Ao lado da cova, no chão, havia pegadas seguindo para a frente.
— Ó meu Senhor! Nem na morte ele terá descanso? – perguntei, chorando novamente.
— Vamos segui-las – disse Azevedo, com raiva – cansei dessa Besta.
Seguimos as pegadas. Gildo à frente, eu no meio e Azevedo atrás. Não posso prever o que teria acontecido se eu não me lembrasse daquilo. Era uma armadilha. Gritei rapidamente:
— Parem! Lembrem-se. Os pés dela são ao contrário.
Não fui rápido o suficiente, porém. Quando olhamos para trás já era tarde demais, a Curupira agarrara Azevedo. Não conseguíamos vê-la direito, mas distinguíamos sua estatura baixa, seus olhos ofídicos amarelos e seus pés singulares. O terror se apoderara de nós. Gildo:
— Azevedo! Ora, seu demônio, solte meu irmão.
Ela nada dizia, mas sorria maliciosamente com seus dentes pontiagudos. Suas mãos com garras afiadas apertavam o pescoço de Azevedo. Era forte. Por fim pronuncio palavra:
— Quero somente ele, sim – sua voz era aguda e rouca, me arrepiei – vocês nada tem a ver com isso, podem ir, podem.
Eu não consegui olhar. Toda aquela situação era apavorante. Gildo apontava sua espingarda para ela, tentando não mirar em Azevedo. As unhas afiadas da Curupira deslizavam suavemente no pescoço de sua vítima, fazendo pequenos arranhões. Eu conseguia sentir a pressão que o medo exercia em meu peito. Tudo estava por um fio, até que ele foi cortado.
— Irmão – gaguejou Azevedo – te am...
Suas palavras foram espremidas pela mão da Curupira. As unhas afiadas cravaram na jugular, o matando.
— Não! Maldita! – gritou Gildo, avançando. Não vi o resultado. Amaldiçoo minha miserável vida por ter sido covarde. Como pude correr na hora em que meu amigo mais precisava. Essa culpa será pior que os olhares acusadores, que a punição divina, que a decepção de meu mestre. Viverei com ela para sempre.
Corri como nunca havia corrido antes. Sem fôlego, parei na orla de uma clareira e, a salvo, adentrei na aldeia. Os Tupinambás me acolheram bem, se apiedaram de meu estado. Que Deus tenha misericórdia de Gildo. Jamais me esquecerei daqueles olhos amarelos me olhando pela última vez entre a escuridão das árvores, na borda da clareira.
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