Um dia se passou desde o baile na mansão Halpine, a morte de Willburn acabou vindo a publico e os jornais aproveitaram o nobre nome da família para conseguir um destaque, reservaram a primeira página para noticia e mesmo a policia tendo alegado que se tratava de um acidente a impressa fazia questão de reforçar a parte de um assassinato. Era algo tão normal de se acontecer, não importava a noticia, a impressa sempre daria um jeito de aumenta-la até conseguir toda a atenção possível. Joseph, por sua vez, já imaginara que tal espetáculo fosse criado, mesmo que seu desejo fosse evitar tudo isso, não poderia manter um corpo escondido em sua casa, mas de pouco se importava com as notícias, apenas desejava que chegasse logo o fim da tarde. Podia não parecer, mas para uma pessoa ser influente e poderosa em Londres é necessário ter contato com o submundo de Londres. Poderia parecer um pouco sombria para os de fora, mas esses contatos não se revelavam com tanta facilidade a luz do sol, afinal andar a margem da lei era algo perigoso, nunca se sabe quem é o próximo na forca. Todavia, o encontro daquela tarde não era tão ilegal assim, na verdade apenas um velho amigo que convenientemente trabalhava no local mais cheios de segredos de toda Londres.

—Não acredito que estão fazendo isso. –resmungava Kathryn que pela primeira vez mantinha seus olhos focados no jornal. –Estão declarando abertamente que um de nós poderia ser um assassino!

Seu tom podia ser alto, mas ainda era um pouco abafado pela melodia harmoniosa que Harriette produzia conforme dedilhava as tecladas do piano. Uma melodia um tanto quanto melancólica, mas que transmitia certa calma para si.

—Ignore isso.. –comentava Rosemond em um tom tranquilo e mantinha sua atenção voltada para os pedaços de torta que havia em seu prato. –A impressa sempre faz coisas desse gênero, não podem ver um infortúnio na vida alheia que avançam. Acredite em mim, se todos soubessem da morte de meus pais teriam manchetes gigantescas me acusando.

Essas palavras não foram o suficiente para acalmar a garota que permaneceu com seus olhos vidrados no jornal por mais alguns minutos antes de amaça-lo em suas mãos, colocou-se de pé e foi em passos lentos em direção da lareira, que tinha seu fogo baixo no momento, jogou o pedaço de papel ali e ficou apenas observando o fogo consumir cada pedaço. Os olhos tempestuosos de Kathryn estavam focados no fogo, mas sua mente estava tão longe naquele momento. Em sua mente uma mistura de medo e confusão, todos os jornais da cidade alegavam que um assassino vagava pelos corredores de sua mansão, mas os policiais alegavam que Willburn havia sofrido um trágico acidente, um homem bêbado que acabou por tropeçar em seus próprios pés, uma fatalidade.

Não seria a primeira morte que aquelas velhas paredes testemunhavam. Conforme o fogo consumia o resto do jornal, Kathryn remoía o passado, os comentários sobre a morte de sua mãe. Ela podia ser jovem e não se lembrar de tal fato, mas as paredes da mansão eram testemunhas de tudo.

—Kat, não fique parada assim. -Falava Rose que soltava um longo suspiro antes de se colocar de pé e segurar a mão da amiga. -Eu sei que a morte é estranha e complicada, mas agradeça por não ser ninguém que ama... Como eu. -Ao terminar tão alegação Rose deu uma risada estranha para Kathryn. Claro que a garota riu de volta, mas ainda sim sentia algo estranho em sua amiga de infância. Rosemond parecia mais bela que o normal, seus olhos pareciam mais penetrantes. Tudo em si parecia melhor.

-Nisso devo concordar com Rose. -Dizia Harriette que permanecia sentada a frente do piano o tocando com destreza e elegância. -Deveríamos agradecer que não foi ninguém muito próximo, claro que ainda é triste o ocorrido.

Joseph mantinha-se em silêncio conforme escutava a melodia do piano e tomava com cuidado seu café. Ele podia ter um relacionamento complicado com Willburn, mas ainda eram velhos amigos, seria grosseiro de sua parte agir com indiferença a sua morte.

—Não se preocupe com isso. -falava Rose em seu tom calmo conforme abraçava Kathryn por trás e abria um largo sorriso. -Já sei o que pode melhorar esse seu humor, um piquenique a margem do rio. Podemos pegar os cavalos e passar uma tarde agradável longe de tudo isso. O que me diz Joseph?

—Senhor Halpine. – A voz de Marcellus foi o suficiente para trazer Joseph a realidade e assim lançar um olhar lateral para seu leal mordomo. –Telefone para o senhor.

—Sinto muito, Rose, mas tenho que atender. -Respondia o homem em um tom calmo conforme voltava a realidade. -Continuem combinando o piquenique, sei que fará bem há todos vocês.

Eram raras as ocasiões que Marcellus não levava o telefone até a mesa de jantar isso só ocorria quando o assunto a ser tratado era particular até mesmo para as garotas. Isso sempre irritara profundamente Kathryn que não se aguentava de curiosidade, mas todas as vezes que tentara espionar acabava por ser pega por um dos empregados ou pelo próprio mordomo. Kathryn teve de se conter em seu acento e ficou apenas mordiscando seu lábio inferior de uma forma suave enquanto via seu pai saindo da sala. Claro que sua curiosidade era bem maior e estava quase indo em direção da porta quando pode escutar o tom de voz alto e mais severo de sua irmã:

—Kathryn, é uma falta de educação espionar as pessoas em telefonemas.

Kathryn lançou um olhar assustado para irmã, que naquele momento encontrava-se com seus olhos fechados conforme seguia com sua música. Rosemond deu uma risada antes de tocar o ombro da amiga e sussurrar algo.

—A senhorita deseja mais alguma coisa? -Perguntou Marcellus olhando para Harriette.

—Não, obrigada. Terei de resolver algumas coisas e creio que logo voltarei para Paris... –antes que a jovem tivesse a chance de terminar sua frase, Joseph regressou ao cômodo, lançou um olhar para Marcellus e o mesmo entendeu bem o que ele desejava. O mordomo saiu do local em silencio assim deixando Joseph apenas com suas duas filhas e a jovem Rosemond.

—Deveriam estar se preparando para o piquenique, irei pedir para o cocheiro preparar seus cavalos. Desejo que passem o resto da tarde fora, será bom para vocês respirarem um pouco de ar. -Comentava Joseph.

Claramente Harriette ignorava o homem, afinal ela sabia suas obrigações do dia, teria de se encontrar com Rorick na hora do almoço para assim ajuda-lo com algumas negociações, seu papel em si era ficar lá e parecer a esposa exemplar que ele tanto desejava.

—Espero que vocês duas se divirtam -Dizia Harriette.

—Você também irá.

Nesse momento Harriette errou uma de suas notas perfeitas criando um som um tanto quanto perturbador no cômodo. Seus olhos se voltaram confusa para o pai.

—Pai, eu tenho que me encontrar com meu marido e nosso trem de volta deve sair as oito, não tenho tempo de ficar cuidando delas.

—Sinto muito minha filha, mas seus planos vão mudar agora. Não irá voltar para Paris com Rorick, ficará um tempo aqui conosco pois preciso que vocês duas resolvam alguns assuntos para mim.

—Assuntos? -Questionava Kathryn que tombava sua cabeça para o lado.

—De noite nós podemos conversar com mais calma, agora preciso resolver algumas coisas e seguir para o hospital, não posso deixar o corpo de Willburn ser velado ainda.

Harriette, que sempre mantinha a aparência da mulher perfeita, se ergueu do piano de uma forma brusca, deu um passo mais a frente para falar alguma coisa, aos olhos de Kathryn ela parecia uma leoa brava que iria a qualquer momento avançar em seu pai, mas como já era de se esperar a unica coisa que ela fez foi abaixar sua cabeça e guardou seus pensamentos para si. Ela sabia que seu pai escondia algo, ele nunca deixaria suas coisas ficarem fora de controle a esse ponto, mesmo no falecimento da mãe das garotas Joseph manteve-se forte e continuou com seus compromissos como se nada tivesse ocorrido e agora a morte de um bêbado era o suficiente para deixa-lo abalado.

—Vejo vocês de noite. –Ao falar isso o homem começou a caminhar em direção a porta, mas antes de sair do cômodo pode ver os olhos de Harriette, uma certeza que o homem tinha eram que sua filha mais velha sabia de sua mentira, ela teria noção do que estava acontecendo, talvez não soubesse tanto, mas ela estava sabendo que alguma coisa de ruim estava se aproximando.

—Até de noite, meu pai. — despediu-se Harriette em um tom baixo.

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O nervosismo se fazia presente naquela pequena carruagem, Joseph e Marcellus mantiveram-se calados todo o percurso, nenhum comentário era feito e o único som que ouviam era do trotar dos cavalos. E esse silencio permaneceria até chegarem no necrotério se não fosse o mordomo quebra-lo:

—Harriette não é uma garota distraída e boba como Kathryn. –comentava o mesmo em um tom tranquilo. –Ela sabe que alguma coisa ruim está acontecendo e vai continuar o questionando até adquirir uma resposta.

Um suspiro deixou os lábios de Joseph que voltou seu olhar em direção da janela.

—Harriette sempre foi à dama que todos esperavam, mas ao mesmo tempo ela é tão observadora e esperta. –Continuava Marcellus. –Se seu plano for afastar as garotas da capital deveria pensar em uma desculpa melhor.

—Sei disso muito bem. –Respondia Joseph em um tom mais hostil, não estava de verdade bravo com o mordomo por dizer aquelas palavras, apenas estava bravo por si mesmo. Nunca conseguiria tirar Harriette de Londres sem dizer o verdadeiro motivo, às vezes desejava que a mais velha fosse boba e tola como sua Kathryn.

—Chegamos. –anunciava Marcellus em um tom calmo e mantinha seu sorriso. –Deseja que o acompanhe?

—Não será necessário. Pegue essa pequena lista preciso que consiga tudo. –Joseph retirava um pequeno pedaço de papel do bolso de sua blusa e o entregava ao mordomo.

Marcellus deu uma rápida olhada ao redor, o bairro que o necrotério se localizava não era um dos bairros mais seguros para ficar vagando seu rumo. Diversas prostitutas já estavam rondando a área assim como alcoólatras, deveria ter alguns assassinos rondando a região, porém pensar em tal coisa não era de muito agrado. Marcellus apenas abaixou sua cabeça e concordou.

—Nos encontramos mais tarde, meu amigo. –dizia Joseph que caminhava na direção do grande portão daquela área do hospital.

Um calafrio percorreu o corpo de Joseph, entrar em um necrotério nunca foi alguma coisa agradável para ninguém e continuaria assim. Atravessou a porta um pouco hesitante, mas tentando manter sua postura aristocrata. O local estava com um forte cheiro de formol.

—Olha só quem resolveu fazer uma visita. –Comentava um homem de jaleco branco, com algumas pequenas manchas que provavelmente teriam respingado de seus ''pacientes''. O homem tinha uma aparência jovem e sempre parecia muito agitado e isso devido a grande quantidade de cafeína que o mesmo consumia durante seus turnos. Não era muito alto e para um legista era completamente diferente do que poderia se imaginar. Não tinha nem de longe aquele jeito macabro, porém era preciso admitir que o homem possuísse gostos macabros. Como ficar o dia todo enfornado em um local pequeno com dezena de mortos.

—Olá Winston. –cumprimentava Joseph que retirava sua cartola e paletó, assim dos deixando sobre uma pequena bancada, que nunca tinha ninguém para atender. — Vejo que continua se ajuda.

Um riso baixo e nasal veio do homem que de fato achava tal comentário hilário.

—As pessoas acham que trabalhar com mortos é assustador. –Comentava o homem que começava a descer os lances de escada que estavam logo a sua frente. –O que elas não sabem é que mortos não tem o poder de te machucar. Agora pessoas vivas. Metades dos meus pacientes estão aqui por conta de vivos, nunca ouvi nenhum deles reclamar de um morto.

Joseph seguia o velho amigo, nunca se sentiu muito a vontade com o humor de Winston, mas não tinha muito que se fazer apenas continuar o seguindo em silencio e seguir para o porão.

Conforme chegava aos últimos lances de escada podia escutar uma melodia que em outra situação seria relaxante e agradável, mas naquela dava um tom mais macabro. Os olhos de Joseph vagavam pelo extenso corredor, via algumas macas vazias soltas pelo corredor, todas estavam bem limpas, mas só de pensar que um cadáver estivera ali.

—Bem-vindo aos meus domínios. –Brincava Winston que abria a porta metálica que revelava seu laboratório. O local não era muito grande, mas era o suficiente para Winston trabalhar. Havia cinco gavetas na parede à esquerda e ao centro uma mesa de metal com um pequeno ralo em uma das extremidades, havia um corpo sobre a mesma, mas estava totalmente coberto por uma coberta branca. Alguns instrumentos médicos como bisturi e cerras estavam sobre uma pequena pia onde também se podia ver o criado daquela musica macabra. Um pequeno fonógrafo se mantinha ligado ali. Winston percebeu que os olhos de Joseph estavam voltados para seu pequeno toca-discos e se permitiu ri de novo. –Acredite, se ficar sem nenhuma musica ficarei louco aqui em baixo. Quer algo para comer?

Os olhos de Joseph voltaram-se para o amigo com uma expressão de repulsão, não podia imaginar que alguém achava normal comer num lugar como aquele e assim outro riso:

—Apenas uma brincadeira, mas voltando ao assunto principal. –Winston puxou a coberta que escondia o cadáver que estava sobre a mesa assim revelando o corpo desnudo e com diversos cortes de Winston. –Seu amigo teve uma semana bem conturbada.

Joseph virou seu rosto ao ver que o cadáver que estava a sua frente era de seu falecido amigo, não esperava que fosse ver o mesmo naquele momento.

—Bem, além do pescoço quebrado vai ficar surpreso com tudo que descobri. –Winston falava em um tom calmo e aproximava-se mais do corpo. –Seus ligamentos do tarso encontravam-se destruídos, como se alguém quisesse impedir sua fugar, mas essa não é nem de longe a parte mais estranha nesse corpo.

Winston colocou um par de luvas para poder tocar no cadáver e assim abrir seu peito que se encontrava cortado ao meio.

—Todos os órgãos de seu amigo estão com marcas, como cicatrizes. Se fosse falar o que aconteceu diria que pegaram um gato e prenderam dentro de Wilburn. -Winston deixava o coração de Wilburn a mostra e de fato haviam alguns arranhões, mas a pior parte é que todos já estavam cicatrizados.

Joseph não atuava naquela área de medicina por isso seu conhecimento não era assim tão vasto, mas tinha noção do quão difícil era aparecer cicatrizes nos órgãos de uma pessoa.

—Joseph, esse foi o primeiro corpo que vi dessa forma. – Winston afastava-se do corpo, parecia um pouco perturbado de ficar ao lado daquele cadáver, o que nunca aconteceu. – Seu amigo dá sinais que já está morto a vários dias.... É como se ele tivesse morrido naquele acidente. Todo o interior dele está em um estágio mais avançado de decomposição. Mas todos viram ele sair da mina e o viram circulando pela sua mansão. Não faz o menor sentido. O pescoço quebrado teria sido a última coisa que o matará.

Era difícil associar aquelas palavras a realidade, Winston dizia que Willburn já estava morto todo esse tempo, mas Joseph havia interagido com aquele homem, assim como os jornais e diversas outras pessoas que queriam descobrir um o que ocorrerá na mina. Joseph balançou sua cabeça negativamente, tudo naquele momento estava errado.

Winston sabia que aquelas informações eram complicadas de se digerir e apenas se manteve em silencio para Joseph associar tudo aos fatos. Os olhos castanhos do legista se voltaram na direção de Willburn, lembrou-se dos fios de cabelo que encontraram nas roupas do homem, mas não se faziam assim tão importante. Um suspiro deixou a boca de Joseph que mantinha-se perturbado com tudo aquilo que estava acontecendo.

—Olha, se não fosse me basear pela lógica... Posso afirmar que tem alguma coisa sobrenatural correndo pelas ruas de Londres. Receio dizer que alguma coisa poderosa que utiliza cadáveres como marionetes. -Essas foram as ultimas palavras de Winston antes de escutar alguns passos vindos da escadaria.

Ambos os homens se calaram e direcionaram seu olhar em direção da unica porta. Joseph estava com seus batimentos acelerados e seus olhos arregalados, quem poderia está se aproximando e por que?

Com um gesto lento a porta foi se abrindo revelando uma figura jovem. Um homem que deveria ter em torno de seus vinte anos, seus cabelos eram negros com a noite e seus olhos dourados. O rosto parecia esculpido de tão perfeito e sua pele não possuía imperfeições, era como olhar para marfim de tão perfeito. O rapaz pareceu assustado ao perceber que Winston não se encontrava sozinho, lançou um olhar confuso para Joseph antes de sorri de forma amigável.

—Oh... Eu sinto muito, não costumo encontrar muita gente por aqui. -Comentava o garoto em meio uma risada contida.

—Não se preocupe com ele. Joseph já está de saída.

Joseph olhou o garoto de cima a baixo e pode ver suas inicias costuradas em um lenço que o mesmo guardava em seu bolso. Abriu um sorriso de canto antes de estender sua mão.

—É um prazer conhece-lo, senhor Gray. Só não esperava encontra-lo em um lugar como este. -dizia Joseph rindo um pouco.

O jovem riu de volta e apertou a mão do mesmo.

—Joseph Halpine, o prazer é todo meu conhece-lo. Espero que possamos nos ver outra vez... Num ambiente mais adequando eu espero.

—Eu também espero isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.