A manhã seguinte começou de uma forma um tanto quanto agitada devido aos últimos preparativos do baile. Harriette fazia questão de deixar todas as janelas abertas para assim a mansão poder ''respirar'' um pouco. Todos estavam tão atarefados para deixar tudo perfeito que mal se teve tempo de almoçar, claro que as tarefas pesadas eram distribuídas para os empregados, os Halpine apenas tinham deveres pequenos como escolher o cardápio da noite e tecidos para decoração. E essa agitação dos toques finais se seguiu até o sol se pôr.

Os primeiros convidados já chegavam e aos poucos iam tomando seus lugares no salão de baile, era realmente um tanto quanto estranho ver aquela mansão, que vivia vazia, repleta de vida. Harriette já desfilava com seu belo vestido dourado por entre os convidados, cumprimentava a todos da forma mais amigável e educada. Seu marido, Rorick, por sua vez olhava para os lados de uma forma ansiosa como se estivesse a espera de um trem, mas seu foco principal era identificar a família Stewart, o que até então não tinha sucesso.

Joseph tinha percebido o comportamento de gero, tomou a liberdade para se aproximar e comentar próximo a sua orelha:

—Eles ainda não chegaram. Confie em mim, todos saberão quando eles chegarem.

Kathryn se mantinha sozinha na varada, ficar no meio de diversas pessoas não era algo divertido, se sentia presa e sem ar, nunca teve um bom relacionamento com lugares cheiros e todos de sua família sabiam muito bem disso por isso não a obrigavam a ficar naquele salão cheio.

Rorick atravessava o salão sem presa, com cuidado para não esbarrar em ninguém. Ao chegar do outro lado acabou tendo a sorte ao ver um garçom passar ao seu lado com uma bandeja de vinho, pegou uma das taças e começou a tomar o conteúdo da mesma lentamente, seus olhos ainda vagavam pelo salão de uma forma impaciente. O homem ainda não acreditava que uma família tão importante quanto aquela poderia tratar seus futuros sócios de tal forma. Era algo irritante. Ele se perguntava se os Stewart faziam aquilo de proposito apenas para verem até onde um empresário se arrastaria para convence-los. Mas Rorick tinha a certeza que a sorte estava do seu lado, estava de verdade, quantas pessoas em Londres podem dizer que seu sogro é um grande amigo do patriarca daquela coleção de esnobes? De fato, eram poucos que tinham tal oportunidade.

Uma música mais era tocada e com o canto dos olhos Rorick percebeu que sua cunhada saia da varanda, a garota ainda tinha aquela expressão de desconforto devido a quantidade de pessoas que existiam ali. Deixou sua taça de vinho sobre uma mesa e seguiu atrás da garota. No jantar da noite anterior a jovem também demostrará ter conhecimento dos membros daquela família tão misterioso, o primeiro pensamento do homem foi que seria bom ficar ao seu lado.

—Kathryn, espere! -Chamava Rorick que parava ao lado da jovem com um largo sorriso. – Me considera essa dança?

Os olhos da garota foram tomados por confusão, ela e Rorick nunca tiveram um relacionamento muito amigável, o homem se mantinha e seu canto e a jovem no dela, não trocavam muitas palavras e tudo que Kathryn sabia ao seu respeito era as coisas que eram ditas por sua irmã.

—Sua esposa não pode dançar com você? -Contornava Kathryn que fazia seu melhor para não disparar um ''não''.

Rorick deu uma risada baixa e assim apontou para sua esposa, Harriette se encontrava do outro lado do salão, em sua canhota uma taça de vinho e estampado em sua face um sorriso adorável, estava a conversar com algumas pessoas e parecia não se preocupar com nada naquele momento.

—Oh! As vezes esqueço que minha irmã é o centro das atenções. — O comentário de Kathryn foi baixo, mas mesmo assim alto o suficiente para Rorick escuta-lo.

—Está com inveja? -Questionava o homem que teve com resposta um aceno negativo da parte da cunhada.

—Rorick, não me sinto muito bem, preciso ir no jardim tomar um pouco de ar. -Disse Kathryn por fim, não esperou que seu cunhado respondesse, apenas virou-se de costas e saiu do salão sem dar mais nenhuma justificativa.

Rorick ficava abismado com os modos de Kathryn, mesmo tendo apenas seus doze anos era uma jovem cheia de ideias bobas em sua cabeça, além de se portar de uma forma rude na frente dos homens. Onde já se viu uma dama recusar um convite? Uma certeza que Rorick possuía eram de que sua cunhada acabaria velha e sozinha, como qualquer mendiga de Londres, se aquele comportamento continuasse. Talvez fosse mais tarde falar com Joseph sobre os atos de sua filha, mas agora não era o momento.

Passara um pouco das oitos quando finalmente as atenções saíram de cima de Harriette. Rorick depois de passar por aquela cena desagradável com a Halpine mais nova tinha se conformado em ficar ao lado de sua esposa a ajudando com os cumprimentos e conversas desnecessária.

Era a quinta vez na noite que o homem retirava seu relógio do bolso do paletó, esse ato incomodava Harriette, mas a jovem demostrava isso de uma forma sutil com simples tossidas e toques no braço de seu parceiro, porém havia passado do limite.

—Pare com isso, por favor. -Pediu a jovem em um tom discreto. -Está passando uma impressão horrível. Todos pensam que desejava estar em outro lugar.

—Como quer que me acalme? – Questionava o homem que também mantinha aquele tom discreto. – Nenhum membro da família Stewart apareceu, parece que não entende que toda a empresa depende de fechar o contrato com eles.

Harriette sabia que não teria como criar um diálogo com seu marido naquele momento, seria a mesma coisa de falar com o cão da família durante o jantar, estava apenas focado em um ponto e não se importava com mais nada.

—Vou pegar algo para beber. -Dizia a jovem que soltava o braço do parceiro e tomava a liberdade para cruzar o salão sozinha. Harriette não tinha sede e nem vontade de beber naquele momento, apenas desejava se afastar um pouco daquele seu marido.

Claro que esse ato da jovem não foi muito bem aceito, mas Rorick resolveu não falar nada pois todos ao seu redor saberiam que não tinha controle de sua própria mulher. Uma coisa que passava na cabeça do homem era a forma semelhante das irmãs Halpine, ambas tentavam ser mais que os homens e isso era inaceitável, como uma simples mulher poderia tentar ou pensar que tinha essa capacidade.

—Não acredito que vimos a herdeira Stewart. -comentava uma mulher de vestido vermelho ao lado esquerdo de Rorick. Escutar aquele cochicho fora o suficiente para atiça-lo. Ergueu sua cabeça e deu uma olhada ao redor a procurar da família Stewart, mas eram tantas pessoas e nunca tinha visto a face de nenhum dos seus membros.

Se virou na direção da dama de vermelho e assim a tocou delicadamente no ombro, chamando sua atenção.

—Com licença. A senhorita poderia me dizer aonde se encontra a família Stewart ? – Pedia o homem no tom mais educado que conseguia naquele momento. -Tenho negócios a tratar com eles.

—Eles estão logo ali. -apontava a mulher para o canto esquerdo do salão.

Rorick pode ver uma garota não muito alta com um longo vestido rosada, seus cabelos eram negros como a noite e estava de costas, o patriarca da família deveria estar próximo a mesma. O homem foi se aproximando sutilmente, a música que tocava era ficara um pouco mais alto já que o homem passava ao lado da orquestra e da cantora da família. Quando já estava perto o suficiente da jovem de vestido rosado tocou gentilmente seu braço e fez uma breve reverencia a mesma.

Uma surpresa para Rorick veio quando a jovem se virou, deveria ter a idade de Kathryn, talvez fosse apenas um ano mais velha, mas sua beleza era assustadora para sua idade, seus olhos eram do mais puro tom de verde e sua pele era tão branca e delicada quanto uma fina porcelana, as mechas negras de seu cabelo só ajudavam a realçar o brilho de seus olhos.

—E quem seria você? -questionou a garota que simplesmente arqueava sua sobrancelha esquerda e cruzava os braços a frente do corpo. Foi um espanto para o homem ver que a jovem agia de uma forma superior e nem se quer tinha pensado em retribuir o cumprimento.

Voltou a sua postura, tentando se mostrar mais poderoso que aquela jovem, mas naqueles olhos esverdeados existia um brilho diferente, uma confiança absoluta. A garota sabia quem era, sabia o quão sua família era respeitada e por sua vez desejava ser tratada como tal.

—Bem, me chamo Rorick Daphné. -Apresentava-se o homem, mas antes de terminar a jovem deu uma olhada par ao lado como se conhecesse tal nome.

—Daphné? -Repetiu a mesma como se tentasse puxar em sua memória de onde escutara. -Oh! Agora me lembrei, você deve ser o empresário que deseja investimento de minha família. Tínhamos uma reunião ontem. -A jovem usava um tom dissimulado que conseguia irritar profundamente o homem, mas ele sabia que se tratava de uma criança mimada, as coisas mudariam quando o pai da mesma aparecesse para discutir sobre aqueles assuntos.

—Exatamente. -Resumiu-se Rorick que abriu um sorriso de canto antes de olhar ao redor. -Poderia saber onde o líder da família se encontra? Acho que devo tratar sobre esse assunto com ele.

A jovem a sua frente riu como se Rorick tivesse contado a piada mais engraçada de todo o mundo, as pessoas a sua volta olharam de canto tentando entender o motivo da graça, mas apenas se depararam com um homem um tanto quanto confuso e uma garota de treze anos a gargalhar.

—Não entendo o motivo da graça. -Dizia o homem que agora se encontrava profundamente irritado com aquela criança.

—Rorick, vejo que já conheceu a herdeira da família Stewart. -Interrompeu Joseph, talvez por pena.

—O conhece? -Questionou a garota que voltava a sua postura.

—Ele é marido de Harriette. -respondia Joseph em seu tom tranquilo

Os olhos da garota analisaram o homem da cabeça aos pés para então um suspiro sair de seus lábios.

—Não acredito que casou sua filha com um homem desse nível. -Dessa vez a jovem havia passado do limite.

—Como ousa falar isso? -Rorick quase gritou, mas uma vez atraindo olhares para sua pessoa. -Es apenas uma mulher! Deveria pôr-se em seu lugar antes de falar dessa forma com um homem!

Os olhos esverdeados da garota de voltaram lentamente para o maior, Rorick sentia que a mesma olhava através de si, podia ver sua alma, sentia que ela podia ver todo seu passado e com isso todos seus pecados. Se fuzilado por aquele par de olhos foi uma das piores experiencias de sua vida.

—Como ouso? -Repetia a jovem em um tom calmo. -Como você se atreve a falar dessa forma com a matriarca da família Stewart?

—Matriarca? -Repetia Rorick em um tom confuso e sem acreditar no que ouvira.

—Acho que esqueci de mencionar. -Interrompia Joseph com um sorriso em seu rosto. -Os pais e Rosemond morreram a um pouco mais de um ano, a morte foi acobertada pela própria Rose que não desejava fazer um funeral cheio de curioso. Além de manter o nome de seu pai, assim mantendo o poder de um homem nos negócios da família.

—Rose! -chamou Kathryn que havia acabado de regressar ao salão.

—Kat! – Retribuiu a morena que assim saiu em direção da velha amiga. -Nossa, estava com tanta saudade! Depois que meus pais se foram anda tão difícil ter um tempo para mim.

As jovens riam juntas e assim Rorick permanecia completamente indignado, como uma criança do gênero feminino poderia ser a matriarca da família mais poderosa de Londres e com essa mesma garota, que agora ria ao lado de sua amiga, podia ser um olhar tão penetrante.