Haviam momentos que fazer parte da família Stewart era um grande infortúnio e para Rosemond não era algo diferente já que a todo momento as pessoas faziam questão de lembra-la daquela velha maldição que caia sobre todos aqueles que possuíam tal nome.

Desde os primórdios dos Stewart nunca houvera um registro de morte por causas naturais, todos dessa família sempre tiveram seus destinos interrompidos de uma forma trágica. Tentar eliminar botos desse gênero tinha sido o principal motivo para a jovem Rose abafar a morte dos pais, essa era sua forma de dizer '' É apenas uma coincidência infeliz, não existe essa maldição. '', mas lá no fundo seu medo de ter um destino trágico só aumentava a cada dia.

Seus pais haviam falecido em um terrível acidente na carruagem da família, que acabou desabando em uma estrada, sua mãe foi empalada enquanto seu pai ficou sofrendo antes de falecer devido à perda de sangue. Mas o que deixara a jovem com mais medo de seu destino tinha ocorrido anos atrás com seu irmão mais novo. O garoto se chamava Richard e tinha apenas seus sete anos. No silencio e escuro de seu quarto o jovem acabou ingerindo uma frutinha avermelhada que encontrara próximo ao jardim. Na manhã seguinte foi declarado morto por envenenamento e com isso a jovem Rose teve certeza de que a maldição se seguia em sua geração.

—Rose. -Chamava Kathryn que se encontrava poucos metrôs a frente. -Você parece tão distraída hoje.

—Sinto muito, mas são tantas coisas em minha cabeça agora. -Um longo suspiro deixou os lábios da jovem que passou sua canhota sobre seus longos cabelos para joga-los um pouco para trás. -São tantas coisas que devo fazer agora.

Kathryn olhava para sua amiga um tanto quanto triste, era injusto com Rosemond ser tão jovem e mesmo assim ter que assumir todas as responsabilidades de sua família. Ela tinha apenas seus treze anos e tinha tantos problemas quanto Joseph.

—Eu sinto muito. -murmurou Kathryn

Rose disparou um olhar confuso na direção da menor e esperou que a mesma terminasse o que tinha para falar.

—Acho que nunca tive a oportunidade de expressar meu luto. -Dizia a menor que a todo momento permanecia com sua cabeça abaixada. -Quando meu pai me contou do ocorrido.... Bem, acreditei que se tratava de um pesadelo horrível, mas se foi doloroso para mim, nem posso imaginar o que você passou todo esse tempo.

—Não precisa se preocupar com isso. -Rosemond podia parecer uma pessoa fria a maior parte do tempo, mas bem lá no fundo tinha sua parte humana, mas essa parte só transparecia para algumas pessoas e felizmente Kathryn era uma delas. Apenas se aproximou da amiga e a tomou em um forte abraço.

Rose e Kathryn havia passado uma boa parte de sua vida juntas, na verdade, era o intuito das famílias, já que um casamento não poderia ser feito devido o nascimento de duas meninas o plano se tornou outro, criar um elo de amizade forte que poderia preservar todas as alianças que as duas famílias haviam criado ao decorre dos anos.

—Não precisa se preocupar com isso. Já faz tanto tempo.

—Apenas me sinto mal, não deveria ter tantas tarefas para sua idade.

—Sabe que não compareço em quase nenhuma. -Respondia a jovem em um tom travesso e assim seguia a caminhar pelo jardim e tomando a dianteira.

—Falando nisso. -Kathryn acelerou seus passos para assim se aproximar da amiga. -Eu sei que não gostou de Rorick.

—Nenhum pouco, aquele homem é um legitimo porco.

—Sei disso...

—Viu a forma que ele me tratou. Aposto que teria me batido se não estivéssemos em público.

—Sei muito bem, as vezes tenho essa mesma sensação quando estou próxima dele, mas Rose ele é marido de Harriette. -Kathryn foi brevemente interrompida por Rose.

—Coitada.

—Você deveria rever o que falou. Sei que não o quer em seus negócios, mas é de muita importância para minha irmã.

Os olhos de Rose se estreitaram até fitarem os de Kathryn, por um momento ela pensou que aquelas palavras fossem algum tipo de piada sem graça, mas ao ver que a expressão da mais jovem não se alterava que caiu a ficha.

—Quer mesmo que aceite aquele porco?

Os olhos da mais nova estavam voltados para o chão, era algo um tanto quanto humilhante para si ter que defender aquele homem, aquele mesmo homem que sempre fazia questão de dizer o quão louca era, mas virar as costas para ele seria o mesmo de esquecer sua irmã e não podia fazer isso.

—O sucesso dele determina a vida de minha irmã. – O tom de Kathryn era baixa, além de ser possível escutar uma ponta de confusão.

Rose revirou seus olhos um tanto quanto descontente com aquela resposta, manteve seus braços cruzados por um breve período de tempo antes de dar as costas para amiga e seguir na direção da mansão. A mais nova olhou confusa para mais velha e assim começou a segui-la fazendo perguntas simples.

—Não se preocupe com isso, vou fazer o que deseja. -Respondia Rose em um tom determinado, mesmo sendo só uma criança sabia muito bem o que era melhor e começar uma briga entre os Halpine e Stewart por conta de um único desentendimento não seria a melhor escolha a se tomar.

Kathryn tentava entender o que a mais velha faria, mas não teve sucesso em suas perguntas era simplesmente ignorada e continuava a seguir a outra, agora mantendo o silêncio.

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Rose havia convocado uma reunião às pressas com Joseph e Rorick, claro que Harriette e Kathryn foram mantidas de fora, já que eram assuntos sérios demais para uma dama. Desde a morte dos pais de Rosemond a garota havia adotado Joseph como seu pai, como uma pequena voz razão, era muito raro a mesma tomar uma decisão sem a opinião do mesmo.

—Eu revi os ocorridos dessa noite. -Começava Rose. A garota estava sentada em uma poltrona a frente da lareira.

A sala que utilizavam para tratar tal assunto não era a maior da mansão, era um cômodo meio pequeno apenas duas poltronas próximas a grande lareira, uma mesinha de centro estava sendo utilizada para deixar o corpo de Joseph. Haviam algumas prateleiras com diversos livros dos mais variados assuntos, aquela era a sala favorita de Joseph, mesmo não tendo quase nada.

—As famílias Hapline e Stewart tem mantido uma aliança comercial por anos, além de uma convivência agradável. Seria egoísmos de minha parte destruir isso. -Continuava Rose que mantinha seus olhos focados nas chamas que pareciam dançar na lareira. – Infelizmente você agora faz parte da família Halpine e não posso fazer nada. -Rose deu uma pausa e voltou seu olhar na direção de Joseph, o homem já havia sido informado do que estava prestes a fazer e sua única ação foi um simples movimento positivo com sua cabeça.

Rorick deveria ter se mantido calado, mas acabou tomando uma atitude mais inapropriada de todos que poderia ter tomado.

—Eu não me transformei em um Halpine e sim o contrario, Harriette que virou uma Daphné.

Os olhos de Rose se estreitaram na direção do homem, mas uma vez ela o encarava daquela forma gélida. Rorick não se sentia nenhum pouco mal com aquilo, pois estava completamente certo, um homem não adotava o nome de sua esposa e sim o contrario, mas para aquela criança a sua frente parecia ser algo de fato complicado de se entender.

—Como estava dizendo. –prosseguiu a garota. –Rorick faz parte da família, querendo ou não. De fato não tenho nenhum interesse em suas empresas, mas Joseph nunca apostaria no cavalo errado.

Rose fazia questão de utilizar palavras ríspidas para provocar Rorick, deixando bem clara sua inferioridade naquela sala. Porém o golpe mais cruel da jovem ainda estava por vir. Fechar um negócio graças a influencia de seu sogro era uma coisa normal, talvez o principal motivo para ter se casado com a jovem Harriette, mas o que foi dito pela herdeira Stewart fora o suficiente para fazer o ódio subir a cabeça do homem.

—Assunto encerrado. –Rosemond fez um gesto para que seu novo sócio deixasse a sala e assim fez, mas antes de sair pode escutar a voz doce e travessa da jovem. –Deveria ir direto ao encontro de Kathryn, ela foi a responsável pelo seu sucesso.

As mãos do homem se fechavam em punhos, ser aceito em um negócio por conta da influencia de sua cunhada, uma garota de doze anos que não possuía nenhum conhecimento ecônomo e mesmo assim tinha mais influência, como podia aceitar isso?

—O que houve Rorick? –provocava a mais jovem.

O homem se manteve em silêncio e se dirigiu para fora da sala desaparecendo ao entrar no corredor.

—Realmente sente prazer provocando os outros. –comentava Joseph que levantava de sua poltrona indo em direção da lareira.

Rose mantinha seu corpo meio solto e seu olhar fixo no fogo, um suspiro deixou seus lábios antes de responder:

—Sinto prazer humilhando, mas não posso fazer isso com seu gero.

Muitas vezes Joseph tentava entender o que se passava na cabeça daquela garota, havia fortes traços sociopatas em sua personalidade, mas apenas com aqueles que não conheciam, com sua família mudava por completo. Talvez toda aquela mudança de humor se devia a perda dos familiares e ainda o ganho de responsabilidades absurdas para sua idade.

Joseph se manteve tão distante em seus pensamentos que nem reparou quando sua pequena sócia se colocou de pé, disse algumas palavras baixa e retirou-se da sala.

Rosemond sabia que todos torciam por seu fracasso, talvez esse fosse o principal motivo para sua mudança drástica de personalidade e ainda existiam aqueles que torciam para ver se a maldição da família cairia sobre si. Era tão sufocante ser a única de sua família. E com esses pensamentos melancólicos a jovem seguia pelos corredores da mansão, seu intuito era voltar para perto de Kathyn, mas no escuro se tornava tão difícil se encontrar naquele ''labirinto''.

—Olha só que está perdida. –dizia uma voz masculina, seu dono estava completamente escuro pelas sombras.

—Não sabia que porcos tinham permissão de entrar na mansão. –respondia a garota que não se dava o trabalho de virar para descobrir o dono da voz.

—Palavras pesadas para uma dama. –a gargalhada abafava um pouco a voz de Anna Wilburn. –Não esperava encontra-la sozinha, onde estão seus parentes?

—Não devo me esconder e sim você. –o tom de Rose era calmo e doce. –Até se mudou para a zona mais suja de Londres apenas para me manter longe, nem um porco deve agir dessa forma.

Outra gargalhada da parte de Willburn, claro que Rose havia percebido que algo estava muito errado aquele homem, ele parecia completamente insano com aquelas gargalhadas e sua aproximação não era algo normal. Rose por sua vez desceu um degrau da escadaria que estava a sua frente.

—Pare de se aproximar, seu porco! –ordenava a mesma. –Não desejo ficar suja como você. E o que aconteceu com você? O acidente o deixou mais louco?

Nenhuma resposta veio de Willburn, apenas se manteve encarando a garota a sua frente e assim avançou um pouco mais.

—Está surdo? –Rose estava muito perto de gritar, mas se fizesse isso poderia alarmar aos outros e ter seu nome associado à Willburn era algo que não desejava de forma alguma.

—Parece assustada, minha dama. –mesmo com as ordens de Rose, o homem parecia ignora-la completamente e assim seguia se aproximando.

—Primeiro não me chame dessa forma sabe que é tão inferior que não tem direito a isso. –dessa vez a garota havia perdido a paciência. Levou suas mãos até o corpo do homem para empurra-lo, mas uma coisa que havia se esquecido de que não tinha força suficiente para movê-lo e foi isso que ocorreu. A única coisa que provocou foi uma nova gargalhada. Os olhos de Rosemond estavam tomados por uma expressão assustada, não estava acostumada com revoltas vindas de seus lacaios e ainda mais Willburn, não era o mais ameaçador, fisicamente, mas a garota sabia muito bem seu histórico psicopático.

—Sua juventude será de grande ajuda. –dizia o homem e assim criando mais confusão para a jovem que não compreendia nada aquele assunto que tomava um rumo tão surreal.

Tentou de novo afasta-lo, mas dessa vez teve suas mãos agarradas, um gemido de dor deixou os lábios da jovem que puxava seus braços de uma forma perigosa. Claro que Willburn sentia os puxões e entendia a finalidade de tais, mas bastava um único movimento do homem para uma grande tragédia.

—Não deveria puxar seu corpo assim. –advertia o homem que mantinha aquele olhar assustador e penetrante.

—Já ordenei que me soltasse! –Rose agora ignorava as pessoas que poderia escuta-la, gritava em alto e bom som.

—Como desejar. –Willburn soltou as mãos da garota sem aviso prévio no exato momento que Rose as puxava, devido ao impulso que a garota exercia perdeu seu equilíbrio e sentiu seu corpo despencando para trás. Suas costas e nuca foram as primeiras a se chocar contra os degraus de madeira. O corpo da garota rolava escadas a baixa de uma forma violenta deixando uma pequena trilha de sangue, em poucos segundos o corpo de Rosemond chegou ao fim das escadas, seu pescoço estava virado em um ângulo assustador e seus olhos esverdeados, que antes hipnotizavam as pessoas devidas seus brilhos estavam com um olhar vazio, aquele olhar que apenas a morte poderia deixar.