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3 Capitulo 3


Dois longos dias se passaram e eu ainda não compreendia o motivo da Lise estar tão estranha comigo. Ciúmes? Poderia ser, mas não achava um motivo cabível para me ignorar por dois dias. Mandei mensagens, liguei e a chamei para vir na minha casa, para sair, para conversar. Fui recusada.

Apesar disso sabia que ela não poderia me ignorar muito mais, hoje é o dia da viagem. E ela era o real motivo de eu estar indo.

Meus pensamentos são interrompidos com a chegada do meu pai em meu quarto.

—Conseguiu fechar sua mala? –perguntou

—Como se eu fosse o tipo de garota que leva tanta coisa a ponto de não conseguir fechar a mala. -brinquei

Ele riu como se já soubesse daquele fato.

—Se arrume logo e desça para comer alguma coisa, sairemos em duas horas e sua mãe irá conosco.

Senti como um aviso: Se você se atrasar, ela te mata.

—Avise a Lise que passaremos lá para pegar ela –continuou- os pais dela não vão querer ir né? –fez uma careta esperando que a resposta fosse não

—Não pai –ri

Os pais da Lise sempre foram muito reclusos, mas uma coisa que eu sabia deles era que odiavam pegar estrada. E odiavam a mini van do meu pai também, eles eram o tipo de pessoa que andavam de carros chiques.

Ele saiu do quarto e eu me levantei da cama, encarei minha única mala encostada na parede e repensei se aquela viagem era uma boa ideia, já que eu iria para acompanhar a Lise e bom, não estávamos bem uma com a outra.

Fui até o banheiro, escovei meus dentes e arrumei meu cabelo, o famoso rabo de cavalo com a franjinha caída, marca registrada de Rebecca Wills. Como estava um sol não muito forte coloquei um short e uma blusinha meia estação, e para mim estava bom.

Peguei o notebook e meus carregadores, fone de ouvido, alguns livros e uma foto do Ronnie Radke –meu amor por falling in reverse jamais acabaria, melhor banda- coloquei-os na mala e fui para a cozinha.

—Bom dia mãe -a abracei-

—Para ir viajar a mocinha não se atrasa né –brincou

—A senhora fala como se eu quisesse muito ir –disse sentando na cadeira

—E não quer? –meu pai questionou

—É, talvez –peguei um pedaço de bolo e mordi

Os dois ficaram me encarando como se quisessem decifrar o que se passava na minha cabeça.

Apesar de saber que meus pais me amavam, nunca fui muito compreendida por nenhum dos dois, talvez nem por mim mesma. Ainda assim achava que meu pai sabia dos sacrifícios que eu fazia pela Lise e entendia, diferente da minha mãe, jamais consegui ter uma convivência apaziguada com ela, apesar de querer.

(...)

Depois que todos estávamos prontos, e minha mala acomodada no carro, mandei uma mensagem para Lise avisando que logo chegaríamos, não obtive resposta.

Quando chegamos na porta de sua casa, com meu pai no volante e minha mãe no passageiro –eu obviamente no banco traseiro- ela e seus pais já nos esperavam na porta, acompanhados de duas malas gigantes, o que me fez pensar que ela carregava dois cadáveres ali. Meu pai os ajudou a colocar tudo no porta-malas e assim que ela se sentou ao meu lado foi a vez dos acenos e beijos tomarem conta da cena.

—Se cuida filhinha, manda mensagem quando chegar –disse o pai dela

—Mando sim, amo vocês –respondeu

Eles ficaram encarando o carro sair, e então partimos.

—ANIMAÇÃO CRIANÇAS! –meu pai gritou como se estivéssemos indo para uma excursão do primário

Ele colocou Girls Just Want to Have Fun para tocar no rádio e esperou que vibrássemos com aquilo. Quase funcionou, eu amava aquela música, mas o clima não estava bom.

—Você está bem? –perguntei baixo o suficiente para meus pais não ouvirem, a música colaborou

—Sim e você? –Lise olhou para mim

—Eu sim. Porque não falou comigo esses dias?

—Você sabe o porquê. –disse seca

—Sei, mas isso não quer dizer que eu entenda. –retruquei

Ela ficou em silêncio, eu já estava cansada do silêncio dela.

—Lise, foi uma brincadeira. O que eu disse para a Brunna foi uma forma de apagar a minha imagem de virjona –expliquei- eu gosto de homens.

—Eu não! –ela me olhou irritada

A convicção com que aquelas palavras vieram me deixou mais surpreendida do que deveria, sabendo que ela já havia beijado garotas, mas em momento de loucura alcoólica.

—Então, você é lésbica? E gosta da Brunna? –questionei

—Não Becs –ela parecia mais calma- eu gosto de homens sim, só que também gosto de garotas. E quando você fez aquela gracinha com a Brunna eu imaginei vocês duas juntas e –parou-

—E?

—Nada, eu só estava afim dela, e me pareceu que ela estava de você –abaixou a cabeça

—Tem muitas coisas erradas nisso, a primeira é você não me contar que gosta de garotas, a segunda é achar que eu ficaria com quem você tenha vontade de pegar, e a terceira é cogitar que alguém como a Brunna ficaria com alguém como eu.

—Você é linda Rebecca! Vai se danar -me deu um tapa- mas eu fui idiota. Me desculpa. Pelo menos agora você sabe tudo. –sorriu

—Porque não me falou antes que era bissexual? –questionei

—Nem eu sabia do que realmente gostava, não queria encher sua cabeça. Mas você é a primeira pessoa a saber, como sempre –apoiou sua mão em minha perna

Eu queria aceitar que ela estava me falando a verdade, mas sentia que tinha algo a mais que ela não queria contar. Poderia ter questionado ali mas minha mãe começou a fazer perguntas do tipo “como estão seus pais” “animada para a formatura?”, então achei melhor deixar esse assunto para depois, tínhamos um mês inteiro para falar sobre.

Pensei sobre tudo que ela havia me dito, sexualidade, sua quedinha pela Brunna. Aquelas férias pareciam cada vez mais longas.