Curiosidade de criança
1 Capítulo único
Em silêncio de expectativa, o filho contempla a mãe. Em breve entenderia tudo. Há um aperto de garganta, um balançar de pernas ansiosas, mãos inquietas passeavam, olhos esqueciam que piscavam. Não estava atendo aos sintomas físicos, contudo percebia ligeiramente: a resposta que aguardava mudaria irreversivelmente sua vida.
Sabemos que crianças são curiosas. Pedro não era propriamente uma criança, interrogado responderia com veemência se tratar de um pré-adolescente, direito seu que foi adquirido na semana anterior quando fez onze anos. Apesar de não ser criança, Pedro era tanto mais curioso que uma. Na realidade, sempre fora e provavelmente sempre seria. E, quanto a isso, estava tudo bem. Ser curioso nunca lhe foi um mal, longe de um vício, não arruinou seu caráter. Há mais de um gênero de gente curiosa, há aqueles que diante de algo inusitado salta a sua curiosidade, que logo é ignorada e o indivíduo segue em frente, já se esquecendo quase que instantaneamente da questão, enterrando-a eternamente num cemitério repleto de túmulos. Pedro não se encontrava nesse grupo banal, era de uma outra qualidade; se dando com uma questão, não conseguia a esquecer até que saciasse a sede provocada. Assim, sua curiosidade lhe fez inteligente. Pesquisava. Estava quase sempre lendo sobre os objetos dela, o que gerava novos. Desde que me lembro, esteve perguntando. Parecia que se encontrava naquela fase fundamental da infância, aquela em que perguntas dos mais variados temas são dirigidas aos adultos, como se portadores de todo conhecimento, fase de muitos porquês, parecia que essa nunca passaria. Mãe, por que gira o girassol? Por que respiram os peixes fora d’água? Por que vivem uns mais que outros? Sua mãe, embora uma enciclopédia pouco valorosa e muito mais reduzida, esforçava-se para satisfazer o menino. Respondia suas perguntas sempre que detinha conhecimento, como quando não detinha. Satisfazia suas dúvidas a força de imaginação. Se Pedro era curioso, sua mãe imaginativa. Havia uma única pergunta que sua mãe nunca responderia. Uma algo tanto mais razoável, a mesma estaria presente em qualquer outra criança em sua condição, salientando sua curiosidade, tornando-a insuportável. Se seria insuportável a outros, muito mais a Pedro. Nele era uma larva que crescia, conquistando território em seu consciente. — Mãe, quem é o meu pai? Indagava sempre. A esse respeito, a mãe primeiro ignorara preocupada, depois não contaria revelara dolorosa, e por fim passara a agir rudemente. Esse remédio, a grosseria, teve seu efeito, como não deixa de ter, impediu temporariamente as perguntas do filho que já receava. Pois também não deixou de ter seu efeito colateral, a curiosidade instigante. Passados tempo, se desenvolvendo, tornou-se imune. Assim, passou a perguntar como nunca, a todo instante. Sua mãe nunca teria paz. Nesse dia, a mãe lhe mandara sentar. Instintivamente percebeu o que sucederia, pairava no ar e ele respirava. Sentava mudo e fitava. Sua mãe se sentou ao seu lado, olhava seu rosto pensativa. Demorou-se e demorou-se. E demorando, a paciência se esgotava, sentia ímpetos de lhe saltar a garganta, faze-la falar. Notou, nos olhos da mãe, a dor. Nesse ínterim, seu coração se possuiu de um outro sentimento. A culpa lhe doía. Era ele o responsável por essa dor que sofria a mãe, ela que tanto o cuidou. Dolorido, teria rogado que não contasse, de joelhos até, provado que não importava se abraçariam e tudo ficaria bem, mas importava. Sua curiosidade tornava-o incapaz de qualquer ação, tomava por ele a de espera. E acabou esperando o mais pacientemente que pode enquanto séculos corriam. A mãe olhou para as paredes, para um quadro, um relógio, de um canto a outro, para o teto vazio, para o nada. Quando seus olhos voltaram ao filho, estava resoluta. Achou que melhor seria falar tudo de uma vez só e assim fez. — Me apaixonei por seu pai, era jovem e tola, ele jurava amor, mas nunca me amara. Quando fiquei gravida, partiu e nunca mais o vi. O menino abre a boca, som nenhum sai dela, nenhuma frase articulada. Não podia acreditar que essa fosse a resposta, não queria acreditar. Algo tão banal. Só podia ser mais um dos frutos da imaginação de sua mãe, um podre, antes verde, pois muito menos desenvolvido. Percebera, assim como sempre tinha feito. Pedro sabia reconhecer uma mentira. Levantou-se aborrecido, afastou-se e continuou pisando forte enquanto ouvia seu nome sendo chamado em tom de suplica. Uma mentira idiota. Nunca deixou de imaginar o real acontecimento. Em sua mente pairavam as mais diversas tramas, seu encanto as tornava muito bem aceitas. Deixou de perguntar à mãe, temoroso de sua resposta, da nota de realidade da mesma. Enamorado da fantasia, rejeitava a realidade, elaborava historias muito mais interessantes do que essa escrita.
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