Curiosidade de Deus
1 Capítulo 1
As árvores secas e os pássaros, muito magros, contemplaram os gritos que logo se tornaram gemidos silenciados pelas pás de terra. A agonia se emudecia com o vento seco, o suor da mulher de rosto sofrido pingava na terra, e a terra, dura, se negava a assentar-se sobre o corpo magro do filho que ela julgava um enviado do diabo. Era com a visão ruim e a boca abarrotada de terra que ele gritava, tentando mexer, inútil, os membros cujos ossos estavam quebrados. Seu calor, já muito ralo, esmaeceu, e logo o calor da terra cobriu o corpo frio. O silêncio reinou absoluto após a ultima pá de terra; e a terra, remexida, ajeitava-se outra vez, tornando-se imóvel como se seu descanso nunca tivesse sido perturbado. Quanto a mulher, sumiu por entre as árvores secas, certa de que se livrara de uma maldição.
Ah, soubesse ela o erro que cometera! Se soubesse de como os olhos do Deus que ela julgava servir estavam fixos no cadáver sob a terra! Mas não sabia. Na ignorância de camponesa ela julgava servir a um propósito maior, via-se como uma leiga, uma cristã fervorosa que pusera fim aos lamentos de um enviado de Satã. Pois o Deus que ela amava e servia vivia no silêncio e nos cânticos gregorianos entoados na igreja esplendorosa ante a qual se encolhia de vergonha, pequena que era diante dos santos esculpidos em ouro.
Agora, adormecia o filho no silêncio perturbado; carne magra, de vida fraca, cujas palavras entrecortadas, movimentos tortos, olhos que não olhavam as imagens de ouro e lábios que não sabiam orar eram as maiores imperfeições de um mundo perfeito. A criança era possuída por um espírito maligno, nada no mundo podia retirar tal demônio; era preciso matar a criança para se livrar do mal. Assim, o pobre diabo que não conhecia nada do mundo fora arrastado e condenado a viver com os vermes, antes mesmo que seus olhos fechassem e a língua emudecesse. Gritou, o berro de um santo inocente que acreditava ser amado. Gritou, o miserável a implorar, em sua linguagem estranha de quem não tem todas as faculdades mentais, pela vida, pelo amor que seu cérebro retardado jamais poderia entender, mas que no fundo ele sentia. Gritou, em sua língua clamando uma força superior que ele não sabia que chamava; gritava, e Deus sabia que as preces eram para si, que a criança implorava ao divino a justiça que a carne não poderia lhe dar. E morria, debatia-se e o calor se dissipava. A vida se ia. A terra o sufocou, o prendeu, o esmagou. Acabou-se, os gritos mergulharam no silêncio, as pás de terra acabaram e os passos da mãe se foram. O silêncio reinou, para o alívio da leiga. Tudo se foi, o corpo jamais se moveria outra vez. Mergulhou no mais absoluto silêncio.
Até que o silêncio fosse ocupado por um ruído. Mexia-se a terra seca.
A vida, que há pouco deixara aquele corpo, agora pulsava outra vez nas carnes magras; não era, contudo, a mesma vida, a mesma inocente criatura que com olhos molhados e voz embargada clamara a Deus pela vida. Essa vida se dissipara, e todo seu existir apagara-se do plano material e, em breve, do espiritual. O corpo no entanto se erguia da cova num ápice de força que Homo sapiens algum teria. O corpo magro e maltratado ganhava um aspecto que superava a crença humana, a existência toda e a vida: era um corpo no qual brotava a vida de outro ser, mais macabro e imponente que a miserável criança enterrada.
Tal vida pulsava com ardência nas veias fracas, a carne magra num súbito tornava-se cheia, os membros esmagados se punham inteiros e os olhos opacos brilhavam, transbordando um anseio de milênios vividos no anonimato. Era quente, vivo, o sangue, a carne, o calor, o peso, os cheiros, os fluídos, as dormências... ah, até a dor era absurdamente maravilhosa! Ele riu, deliciando-se com o sabor do riso, da falta de ar e da dor que o prolongamento do ato causava. Tudo era vivo, pulsando, gritando a vida.
Por um momento esquecera-se de que era Deus; esquecera-se de que possuíra o cadáver de uma criança; fascinado estava em experimentar o gosto inebriante de sua criação. Sempre soubera as regras, os princípios, os fatos, as leis, as ações e reações, mas, sendo o senhor de todos os universos, sempre contemplara de cima a criação, dominara os homens de seu posto confortável, gozando de uma supremacia absoluta sobre tudo o que era carne e perecível. A curiosidade, no entanto, estivera sempre ali, presente em seu coração de Deus — oco coração que se não é tão vil quanto o dos homens, certamente é tão imperfeito quanto. E naquele dia, diante da tragédia que era a humanidade (e que ele não pretendia, de forma alguma, refrear), vira mais um rosto de menino, clamando a um deus maquiado de virtudes, a justiça. Não lhe dera a justiça, antes tomou seu corpo, para que pudesse sentir aquela carne fraca e as limitações de ser. Que poderia fazer, se as carnes magras do menino fizeram nascer nele a obsessão? Que fazer se aqueles olhos puros e desesperados despertaram nele a volúpia, a curiosidade e, por fim, a irresponsabilidade?
Possuíra a carne, o corpo de um menino, e por meio desse corpo experimentava o fervor de sua obra, linda e igualmente brutal. Era evidente, é claro, que não estava todo no menino; apenas um fragmento de existência possuíra a carne podre, e esse fragmento experimentava, de forma quase isolada, a vida material. Porque um Deus não poderia caber inteiro em um recipiente perecível; não só o recipiente não suportaria tal grandiosidade como todo o universo sucumbiria mediante tamanha existência. Por isso, com a sensatez de quem não aposta tudo em um jogo infantil, colocara a mísera parcela de si no corpo. E assim experimentava, parcialmente, as fraquezas da carne.
Era certo, como o sol que nasce, que o corpo de que dispunha tivera muitas limitações e ele, em seu experimento da própria obra, não permitiria que tais limitações absurdas o impedissem do absoluto deleite de que gozava: concertou-as todas e, como o mais saudáveis e forte dos seres, caminhou no solo estéril até o casebre da camponesa que enterrara o dono original do corpo. Não se ressentia contra ela, nem pensava que cometera algum crime terrível: cometera o erro dos humanos, que era o de se obcecar por uma crença sem fundamento inventada pelos poderosos. Mas dos poderosos também não se ressentia: a morte assolaria todos eles, e mesmo os mais finos trajes estragariam sob a terra fértil de seus sepulcros. Seguia o casebre da camponesa pela mesma razão que possuíra o corpo do menino: curiosidade. Sabia bem a reação da mulher, seus sentimentos, medos e anseios. O que, então, o movia até ela? Ora, era nada senão o interesse de interação. Alvo fácil, que se espantaria e que, entre um grito e uma reza desesperada, ele a privaria da vida, junto com todos os filhos que ela pouco se importava.
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