Cupid's Kiss

4 Parte quatro - Prioridades


Notas iniciais
Olha só quem apareceu outra vez! Sim! Euzinha! -q Tenham uma boa leitura, amorecos. ;)

O som de uma frigideira em uso preenchia o ar juntamente com o aroma dos condimentos usados para preparar a refeição matutina. Com uma expressão concentrada Sanji despejava a mistura de ingredientes para omelete que ele havia preparado, conferindo vez ou outra o caderninho de anotações que estava sobre a mesa.

— Por quanto tempo você irá ficar nessa brincadeira de casinha e ignorar o que está acontecendo, hein? – inquiriu o anjo que flutuava ao lado do garoto que cozinhava.

Já era o terceiro dia desde que assumira o corpo humano e mesmo sabendo que seu tempo disponível se esgotava, Sanji não demonstrava estar muito preocupado em cumprir os requisitos para sua missão, por assim dizer. Na verdade, ele estava fazendo o máximo que podia para esquecer sobre a contagem regressiva dos dias.

Decidido a ignorar o outro loiro, Sanji mantinha sua atenção voltada para as omeletes que preparava com esmero. O anjo cruzou os braços, levemente chateado, ao perceber que estava sendo ignorado pelo amigo e companheiro de longa data. Bufando ele pousou no chão e aproximou da lateral do outro, passando a observar o que estava sendo feito em cima do fogão.

— A essa altura do campeonato você já deve ter percebido seus próprios sentimentos, não é? – insistiu, querendo que o outro desse a devida atenção ao assunto. – Também vai ignorar o que sente, fingindo que nunca existiu? Essa é realmente uma atitude covarde, meu caro.

Essa foi a gota d’água para Sanji, que não suportando mais aquele monólogo no seu ouvido, virou-se para encarar o anjo de olhos negros.

— E o que espera que eu faça, Sabo? Que conte a ele que me apaixonei e é por isso que não consigo cumprir meu trabalho eficientemente? – retorquiu irritado com a testa vincada. – Isso é um tabu, você devia saber disso mais do que ninguém. Anjos não podem se apaixonar. – concluiu pesaroso, fitando o chão sem realmente o enxergar. Era visível a mescla de frustração e tristeza no rosto dele.

Diante tal posicionamento Sabo não soube o que responder. Era verdade que apesar dos cupidos poderem auxiliar nos relacionamentos amorosos, era inaceitável que eles amassem. Parecia hipocrisia, mas era a dura realidade. Apesar disso, Sabo desejava do fundo de sua essência que tudo desse certo para seu amigo. Simplesmente lhe parecia errada a ideia do outro sofrer por causa de um sentimento tão genuíno.

E então o cheiro de algo começando a queimar alcançou os narizes de ambos quase no mesmo instante. Alarmado, Sanji voltou-se depressa para o fogão e o desligou.

— Argh, que droga. Queimou uma parte. – resmungou para si mesmo e em seguida mirou o anjo que ainda estava parado na mesma posição. – Olha, eu sei que você só está preocupado comigo, mas eu sei me cuidar. Já que está com tanto tempo disponível porque não me ajuda um pouco e procura descobrir o motivo que o faz ter a capacidade de nos enxergar? Isso tem me deixado curioso há um bom tempo.

Sabo inclinou a cabeça parecendo pensativo.

— Realmente isso é um tanto intrigante, mas se não me engano acho que já ouvi alguém mencionar humanos com esse tipo de habilidade antes. Fiquei curioso também agora.

— Que bom. Isso vai te distrair um pouco... – rezingou baixo, sem deixar que que Sabo percebesse.

O som conjunto de três ou mais despertadores começou a ressoar alto pelo apartamento fazendo Sanji arregalar um tanto os olhos antes de pegar uma espátula e começar a tentar descolar a omelete da frigideira.

— Já está na hora dele levantar. – informou apressado. – Se não for muito incomodo poderia ir embora? Se ficar aqui ele vai acabar te vendo.

Sabo revirou os olhos, claramente descontente.

— Certo, certo. Já entendi que estou sendo expulso. Pode deixar que eu não irei atrapalhar o seu café-da-manhã romântico... – debochou, enquanto movia o dedo como se fizesse o desenho de uma estrela sobre o peito, bem acima do coração. – Ah, e por sinal esse avental de babados ficou realmente ótimo em você.

Um forte rubor coloriu as bochechas do garoto de avental que tentou jogar a espátula em mãos no outro anjo em vingança pelo comentário audacioso, mas este desapareceu em uma pequena explosão de luzes douradas antes que o objeto sequer o alcançasse. Em contrapartida, por Sabo ter desaparecido bem na hora, Zoro – que surgiu saindo do corredor bem no momento com a maior cara de sono – foi acertado bem na testa pelo utensílio de cozinha. O de cabelos esverdeados gemeu de dor pelo choque e piscou os olhos, subitamente desperto.

Sanji arregalou os orbes cerúleos.

— Que recepção maravilhosa. – ironizou, passando a mão na área atingida. Já não bastava ter que acordar cedo todos os dias e pra piorar ainda mais seu humor ainda levava espatulada na cabeça. – E como desliga essa porcaria? – indagou mostrando um despertador quadrado que por mais que apertasse o botão no topo, o objeto não parava de alarmar estridentemente.

— Ah, é por que esse só desliga com senha. – o loiro se aproximou e depois de tomar o despertador em mãos, digitou a senha para desativá-lo. Zoro suspirou sonoramente de alívio quando o barulho se findou. – Sinto muito pela espátula. Está doendo muito?

Zoro o mirou com a sobrancelha arqueada, analisando-o de cima a baixo. E não é que aquele avental ficava bem nele, além de ser a cara do loirinho! Por outro lado aquela peça também despertava pensamentos nada puritanos no esverdeado.

— Vou sobreviver, não se preocupe. Mas porque você jogou ela daquela forma?

O loiro engoliu em seco, sentindo uma gota deslizar em seu pescoço.

— Bem... Err, é que tinha uma barata ali e me surpreendeu. – deu de ombros, tentando mostrar que não fora nada demais.

Zoro achou estranho, mas quando viu que já havia comida na mesa se aproximou desta, já se sentando para comer.

— E com que você estava falando? Achei ter ouvido vozes lá do quarto.

— Anh... Era a barata. Digo, não que ela estivesse falando. Eu é que falei com ela, sabe. – aquilo não parecia ter convencido muito bem o outro, então o loiro apontou pra mesa. – Bem, de qualquer modo porque não come logo? Já já temos que ir para a escola. Vou me arrumar.

E dito isso, Sanji saiu da cozinha praticamente correndo e foi pro quarto vestir seu uniforme. Zoro achou ainda mais estranho o comportamento dele, mas já estava meio que acostumado aquelas estranhices. Afinal nada superava a estranhice dele ser um cupido e estar tentando ajuda-lo no campo amoroso. O que poderia deixa-lo mais surpreso? Talvez se surgisse um demônio no meio do seu quarto dizendo que o faria se tornar o senhor dos demônios... Nah, isso era viajar demais.

Sacudiu a cabeça algumas vezes, espantando aqueles pensamentos loucos, e passou a comer o que tinha disponível na mesa. E como sempre, o gosto de tudo estava divino. Até os tamagoyaki parcialmente queimados estavam bons. Era incrível como tudo que era cozinhado por Sanji ficava gostoso, enquanto que se ele mesmo se arriscasse a preparar algo sempre ficava com o gosto intragável.

É. Algumas pessoas não nasciam para fazer certas coisas.

Depois de algum tempo Sanji apareceu de novo na cozinha já devidamente vestido para sair.

— Ainda está comendo? Anda logo e vá se arrumar, senão vamos chegar atrasados! – reclamou o loiro ao ver que Zoro ainda estava sentando de forma despojada na cadeira como se não fosse fazer mais nada naquele dia.

Zoro grunhiu em resposta, levantando preguiçosamente e coçando o olho. Sanji o encarou com reprovação.

— Argh, tá bom. Estou indo, não está vendo? – revirou os olhos. Às vezes ele se comportava como uma mãe chata que pegava no pé do filho. – Ah, só uma perguntinha. Como você aprendeu a cozinhar tão bem?

Sanji sentiu as bochechas esquentarem um pouco.

— Bem, quando eu não te acompanhava na escola eu ficava vendo programas aleatórios na TV. Um dos meus preferidos era um sobre culinária com um tal de Zeff. Acabei aprendendo algumas coisas depois de alguns programas. Nada demais.

Zoro riu.

— Sorte sua não precisar experimentar minha comida. Acho que te traumatizaria.

*

As aulas transcorreram normalmente. Para os demais alunos daquela escola poderia até ser chato todo dia ser a mesma coisa, mas para Sanji estava sendo uma incrível experiência. Para alguém que sempre estava apenas observando como os humanos viviam sem poder saber como era, de fato, estar entre eles, era recompensador. Participou ativamente de todas as aulas que tivera durante a semana e procurava aproveitar o máximo, pois sabia que isso tudo logo se findaria.

Depois das aulas – por volta das quatro horas da tarde — Sanji e a tal garota que dera em cima dele no primeiro dia ficaram responsáveis por organizar e limpar a sala. Arrumaram as mesas e cadeiras com relativa rapidez e silêncio, mas quando faltava apenas apagar o quadro a garota se manifestou.

— Hm, Sanji, faz um tempinho que eu queria conversar com você. – ela falou enrolando uma mecha de fios negros no dedo.

Sanji pegou o apagador e olhou-a rapidamente de esguelha, antes de começar a esfregar a lousa.

— Pode falar, Keiko. – incentivou-a.

A garota ruborizou um pouco por ter seu nome pronunciado pelo garoto que tanto cobiçava. Jurava que ele nem sabia seu nome pelo modo com o qual era ignorada na sala. Nenhum garoto que virava seu alvo e ela começava a investir para conquista-lo agia como Sanji estava agindo. Era até como se ele não a enxergasse e isso a deixou um tanto frustrada. Aproveitando que o loiro estava de costas, Keiko sentou-se em cima da mesa do professor e cruzou as pernas de modo que a saia subisse alguns centímetros, revelando mais da sua pele clara. Também puxou mais o decote ao ponto de permitir que parte do seu sutiã rendando fosse exposto. Por fim, ela pigarreou chamando-lhe a situação.

O loiro se virou com uma interrogação clara no olhar. E logo o olhar dele desceu para o decote, fazendo ela dar um pequeno sorriso vitorioso, feliz por finalmente a sua investida ter surtido efeito no garoto. Sanji depositou o apagador no lugar próprio e se aproximou da garota encarando o decote. Quando ficou de frente pra ela, esticou a mão e pegou o tecido próximo ao vale dos seios.

— Olha Keiko, tá faltando um botão aqui. Deve ser por isso que sua camisa sempre fica meio aberta nesse local. Se você botar outro botão o problema é resolvido. – sugeriu sorrindo sem mostrar os dentes. – Bem, a gente conversa depois, viu. De qualquer forma já terminamos por aqui. Até depois.

Sanji acenou e após pegar sua mochila, saiu da sala. Keiko ainda ficou uns segundinhos completamente estática sobre a mesa. Depois ela se curvou pondo as mãos sobre a barriga e começou a rir desvairadamente. Riu tanto, mais tanto, que lágrimas se formaram no canto dos seus olhos.

— Ai, ai. Ele só pode ser gay mesmo. – concluiu, ajeitando sua roupa. Pelo visto suas insistências no loirinho não dariam fruto algum. Bufou chateada e também saiu da sala. – Que desperdício.

*

Saindo do prédio principal Sanji foi em direção ao ginásio onde sabia que encontraria Zoro. Chegando lá apoiou os cotovelos no peitoril da grande janela que tinha ali e ficou observando do lado de fora mesmo. Dentro do ginásio avistou o esverdeado gritando algumas palavras para os companheiros de equipe, enquanto os mesmos faziam alguns movimentos repetidos usando as espadas de bambu.

Estava distraído observando as expressões austeras do jovem que dominava seus pensamentos quando foi surpreendido por uma voz feminina lhe chamando. Logo seus olhos focalizaram a fisionomia de Kuina na sua lateral, só que dentro do ginásio.

— Oh, desculpe se te assustei.

O loiro fez um meneio leve com a mão.

— Sem problemas. Você falou alguma coisa? Eu estava um pouco distraído...

Kuina apoiou as costas na parede e deslizou até ficar sentada no chão. Os olhos castanhos fitando o amigo de infância que ditava outra sessão de exercícios para os novatos do kendo.

— Seu nome é Sanji, não é? O novato da turma de Zoro? – indagou dando um suspiro pesado. O calor estava grande, principalmente por estar usando a roupa típica do esporte. Aqueles kimonos tinha um tecido grosso demais em sua opinião.

— Sim, sou eu. – o anjo a mirou de soslaio, achando estranha aquela aproximação. Fazia três dias que estava frequentando a escola e essa era a primeira vez que ela vinha procura-lo. E seu sexto sentido lhe dizia que não gostaria do que estava por vir.

Kuina sorriu.

— É incrível como você conseguiu virar amigo dele em tão pouco tempo. Desde pequeno ele sempre foi muito antissocial, digo isso por experiência própria, hein. – ela riu baixo. – Às vezes até sinto um pouco de inveja de você, sabe... O modo como ele fica tranquilo ao seu lado, acho que nem comigo ele age assim.

Uns segundos de silêncio se passaram entre eles, enquanto observavam uns garotos fazendo flexões no centro da quadra. Poucas meninas eram encontradas dentre a predominância de cabeças masculinas, mas as que eram percebidas treinavam tanto quanto os garotos.

— Você gosta dele, não é? – perguntou de repente, ignorando o lado de sua mente que dizia para não iniciar o assunto. No fim, seu lado anjo sobrepôs sua necessidade egoísta de manter Zoro apenas para si. Precisava encontrar a alma gêmea daquele ser cabeça dura para que ele pudesse encontrar a felicidade.

A garota virou-se de súbito para ele com o rosto tão vermelho quanto um tomate maduro.

— C-como você sabe? – gaguejou depois de abrir e fechar a boca um par de vezes, sentindo a sua mente girar em confusão.

O loiro deu de ombros, tentando disfarçar sua tensão.

— É meio que uma habilidade especial. – e de fato era. Mas ele não precisava explicar a veracidade daquele fato para uma humana normal.

O comentário causou o riso da menina mesmo que essa não fosse a intenção do anjo. Pelo menos o clima ficou mais leve e ele agradeceu mentalmente por isso.

— Vamos, pode dizer. É meio óbvio, não é?

— Bem... É um pouco também.

Kuina passou a mão pelos curtos fios negros lembrando-se vagamente da vez que o Roronoa elogiou seu corte. Não o mudara desde então. Ela se sentia meio tola por fazer isso, mas não podia evitar. Era uma tola apaixonada, afinal.

— Acho que só ele não percebe isso... – ela deixou a frase no ar, passando a mirar os próprios dedos com tristeza.

Sanji engoliu em seco, mudando o peso de um pé para o outro com certo nervosismo. Podia ter ignorado aquela situação até agora, mas Kuina ter ido lhe procurar foi como se recebesse uma mensagem divina dizendo para que realizasse o trabalho para qual fora designado. E isso definitivamente não podia ser ignorado. Fechou os olhos por um tempinho, franzindo o cenho. Depois abriu os olhos com convicção brilhando neles.

Havia feito sua escolha.

— Quer um conselho? – a menina levantou o olhar para ele, permanecendo quieta. Ele aceitou aquilo como um “sim” implícito. – Talvez não devesse ficar apenas esperando que ele perceba seus sentimentos. Do jeito que ele é avoado é mais provável que ele continue sem perceber nada mesmo que isso esteja estampado em seus olhos, Kuina. Você precisa ser o mais direta possível para que aquela cabeça de alga entenda sobre o que está falando.

Kuina voltou a fitar o esverdeado, pensativa.

— É, tem razão. Não adianta eu ficar sentada esperando que a resposta desça do céu. Precisarei agir se quiser resultados. – riu baixo e voltou-se para o loiro sorridente. – Obrigada por me ouvir, Sanji. Acho que entendo um pouco o porquê de Zoro relaxar tanto ao seu lado. Você possui uma aura que tranquiliza as pessoas por perto. É quase como se fosse uma presença angelical.

Sanji deu um sorriso em resposta, torcendo para que não parecesse muito forçado. Podia ter feito Kuina se sentir melhor com os seus conselhos, em contrapartida em seu peito uma dor imensurável começou a lhe corroer. Continuou com o sorriso ensaiado nos lábios até ela se levantar e acenar, indo em direção as pessoas que treinavam. Quando a garota já estava longe o suficiente, ele retirou os braços da janela e ficando de costas, se abaixou do outro lado da parede. Uma expressão de consternação torceu sua face, enquanto apertava a mão em cima da região do coração.

Nunca imaginara que realizar uma de suas missões poderia lhe doer tanto, quem dirá sentir remorso por fazer algo que sabia ser o correto. Talvez estar em um corpo humano intensificasse ainda mais os sentimentos que tinha e isso poderia ser um enorme lado negativo desse método. Sentido que logo mais lágrimas acabariam por vir, achou melhor ir para casa sem esperar por Zoro. Não queria que ele lhe visse nesse estado frágil e errático. Sem falar nas perguntas que sabia que despertaria no Roronoa.

Sendo assim, cerrou os lábios e correu em direção ao apartamento do outro. Precisava extravasar para poder conseguir encara-lo mais tarde sem cair aos prantos e assim evitar acabar com todo o seu esforçado trabalho que tivera ao longo daqueles meses.

Ele não percebeu, mas ao longe era observado por uma dupla de anjos no alto do prédio da escola. E ambos sentiram pesar ao descobrir o estado sofrido do amigo.

— Isso não pode acabar assim. Deve haver algum outro modo... – Sabo trazia uma expressão triste no rosto.

— E talvez realmente tenha. – respondeu a garota de longos fios dourados com tom enigmático na voz. – Talvez tenha, querido Sabo.

Notas finais
Tcham, tcham! Acho que Sanji gosta de sofrer, hein. -q Obrigada pelos comentários e fico feliz que ainda tenha gente acompanhando essa história. ⌒(o^▽^o)ノ A história se encaminha para o fim que vai ser bem lindinho e dramático por sinal. (ou n) Se bem que ainda tem uns 4 caps pra vir. E ainda nem terminei essa aqui, mas já estou pensando em um spin-off da coisa. Vê se pode. Zosan não seria o casal principal, mas eles apareceriam até porque seria no mesmo universo. Maaaas... Isso é assunto para outro dia. Espero que tenham curtido o capítulo e até maix~