Cupid's Kiss

8 Parte oito - Eu te amo


Notas iniciais
Preparados para um último capítulo lindão? Espero que sim, viu! B)

Sanji despertou de súbito com o coração batendo acelerado no peito. Sua pele estava um tanto úmida de suor, principalmente em seu rosto e pescoço, e ele expirou pela boca tentando se acalmar. Um sentimento de angústia espalhava-se por todo seu ser, prolongando a sensação ruim que tivera no pesadelo; embora nem se lembrasse de coisa alguma do sonho. Anjos não dormiam, muito menos sonhavam; contudo, ao adotar um corpo humano era meio impossível não ser subjugado por tais necessidades básicas.

Piscou os olhos demoradamente até reconhecer que não estava no quarto que usara nos últimos dias. O ambiente estava com quase nada de luz, mas ele logo reconheceu o pôster de banda colado numa parede. Tentou se mover, mas ao sentir um braço envolvendo sua cintura ele se viu tomado pela curiosidade. Somente então percebendo que em suas costas sentia o calor de um corpo próximo. E em um turbilhão compulsivo as imagens da noite passada rechearam sua cabeça, fazendo seu coração acelerar novamente, sendo desta vez por motivos nem um pouco puritanos.

Um grunhido lhe escapou a medida que prensava as mãos no rosto como se isso fosse fazer a vergonha que sentia desaparecer. Lembrar-se de como se sentira extremamente bem ao ser tocado pelo jovem de cabelos verdes ou de como sua voz lhe parecera tão estranha aos próprios ouvidos ao experimentar o orgasmo pela primeira vez, não estava o fazendo se sentir minimamente melhor.

Ele suspirou.

Com cuidado retirou o braço de cima de si e virou-se para observar a face adormecida do Roronoa. Ele parecia tão sereno e despreocupado que Sanji invejou-o um pouco, além de ficar com um pouco de vontade de bater nele por ser o causador de todo seu conflito interno.

Um sorriso triste desenhou seus lábios ao ter o rosto envergonhado de Kuina surgir dentre suas memórias, a culpa vindo maior e mais forte do que qualquer outra vez. Nem ele mesmo estava acreditando no que tinha feito.

As vezes chegava a pensar que teria sido melhor nem ter aceitado aquela missão se fosse para sofrer daquele jeito, mas a quem ele estava tentando enganar? Se tivesse que repetir tudo aquilo só pra aproveitar um pouco mais da companhia de Zoro, ele o faria. Estava tão perdidamente apaixonado pelo jovem carrancudo que ele não se importaria de sofrer um pouco mais.

Estaria o anjo se tornando masoquista?

Levou uma das mãos para o rosto desacordado fazendo uma carícia circular na bochecha. Nem se preocupou de acordar o outro sem querer, pois sabia que o sono dele era digno de um urso hibernando. Aproximou as testas, encostando-as de leve, e fechou os olhos por um momento, deixando todos os seus sentimentos se revirarem em uma confusão tumultuosa dentro de si.

— Desculpe... – murmurou sofrido, antes de se afastar e ir rumo ao banheiro, trajando uma simples cueca.

Nesse momento ele não percebeu, mas deixou um Zoro que fingia dormir bem confuso sobre a cama. Entrando no banheiro, Sanji jogou a única peça que usava na cesta de roupa suja e entrou debaixo da água fria do chuveiro. Esfregou-se com força como se isso fosse apagar a culpa pelo que fizera. Tão brusco com a própria pele, deixando-a bem vermelha em algumas partes. Ele mesmo incentivara Kuina a se declarar e depois agiu covardemente ao deixar-se levar pela atração que sentia. Porque tudo tinha que ser tão difícil?

Lágrimas silenciosas deslizavam pelo seu rosto antes que se desse conta. Era ridículo demais sentir pena de si mesmo, ele sabia, mas estava além do seu controle impedir isso. Ficou ali por tempo suficiente para a água do chuveiro lavar boa parte de suas lágrimas. Claro que se pudesse passaria o resto do dia perdido em sua própria infelicidade, mas não tinha tempo pra isso. Precisava fazer o Roronoa acordar a tempo da sessão as três da tarde. Principalmente por ele ter um sono especialmente mais pesado nos fins de semana.

Relutante desligou a água e secou-se da melhor maneira que conseguiu, saindo do banheiro envolvido na toalha. Passou pela cama averiguando se o outro se mexera, mas ele estava na mesma posição de antes, com a mudança de que agora roncava. Sanji riu baixo e foi pro quarto buscar algo para vestir.

Ainda tinha muito o que ser feito.

*

Mais tarde naquele mesmo dia o anjo finalmente conseguira acordar Zoro com sua melhor técnica: O recipiente com cubos de gelo. Sorriu vitorioso diante o misto de sonolência, irritação e surpresa que o outro demonstrou a si, mas nem ficou para ouvir os desaforos gratuitos que com certeza lhe seriam dirigidos. Fingindo bem até demais estar com o ânimo dos outros dias, sentou-se no sofá e ficou zapeando sem realmente assistir nada como aqueles típicos adolescentes que tinha muito tempo livre.

Pouco tempo depois um carrancudo Roronoa surgiu na sala bocejando e coçando a barriga de um jeito bem preguiçoso. Ah, e é claro, ele estava só de cueca.

Sanji só faltou morrer engasgado com a própria saliva.

— Por acaso se esqueceu de como usar roupas?! – ralhou corado até as orelhas por ser novamente assolado pelas memórias da noite anterior.

Zoro deu um meio sorriso se divertindo com a timidez do seu cupido particular.

— Achei que tivéssemos cruzado essa barreira de intimidade na noite passada... – respondeu ostentando uma expressão presunçosa na face. – Mas por que me tão cedo?

O rubor foi gradualmente desaparecendo a medida que um ar de descrença foi adornando seu rosto.

— Achei que sua sessão era as três.

Zoro ergueu a sobrancelha, querendo entender aonde o outro queria chegar.

— Sim, e...

— Já são duas e quinze.

O de cabelos verdes arregalou os olhos.

— O QUÊ? – correu para a cozinha para conferir no relógio que havia lá, mal acreditando nos ponteiros que indicavam a hora dita pelo anjo. – Porra, vou me atrasar! – rezingou agora correndo para o quarto procurando qualquer roupa para vestir.

— Olha a língua! – o loiro censurou, permanecendo sentado no sofá aparentando uma sublime tranquilidade. Bem diferente de seu reboliço interno, mas disso ninguém precisava saber, em sua opinião.

Questão de minutos depois Zoro retornava a sala já devidamente vestido com uma calça jeans, camisa escura de ilustração neutra e um tênis confortável, além de um casaco não tão pesado apenas por prevenção. Afinal o dia parecia estar se preparando para um clima mais frio, então era melhor prevenir. Engoliu alguma coisa que havia na geladeira – pois não tinha nada pior do que andar de estômago vazio por aí – e depois de caçar a carteira e as chaves pelo cômodo, dirigiu-se a porta. Mas antes de sair, virou-se para o anjo com olhar indagativo.

— Não quer ir com a gente? Posso ver se arranjo um ingresso a mais por lá, às vezes as pessoas desistem e tentam revender na entrada.

Sanji, que assistia a tv, desviou o olhar para a figura próxima a porta mal acreditando no que ouvira. Será que ele ainda não havia percebido que era um encontro? Qual seria o nível de idiotice daquele ser?

— Quero não, nem se preocupe. Ainda não sei o que tanto você vê nesses filmes futuristas... São tão esquisitos... – objetou com o corpo deitado desleixadamente pelo sofá, a cabeça inclinada para poder fita-lo.

Zoro rolou os olhos, não havia muito o que pudesse fazer para que o anjo entendesse todo o incrível mundo do Samurai do Futuro agora. Talvez em alguma oportunidade mais a frente, mas não naquele sábado. Afinal, já estava atrasado por sinal.

— Se você diz... – resmungou levemente chateado pelo outro ter menosprezado sua saga preferida, mas não era do tipo de pessoa que se deixava levar por uma coisa tão pequena quanto aquela. – Até mais tarde.

Contudo, antes que saísse de fato, Sanji projetou-se atrás de si como uma assombração e segurou seu braço, interrompendo seus passos. Girou o corpo para ver o que ele queria.

— Sabe, eu acho que não disse antes, mas eu adorei te conhecer. Mesmo você sendo um idiota cabeça-dura, às vezes tem até uns lados positivos... – comentou em tom de riso, ocultando a tristeza pungente que parecia perfura-lo internamente.

— Hã? O que há com você? – perguntou estranhando toda a situação. É claro que ele achou curioso aquele peculiar comentário avulso. Primeiro foi o misterioso pedido de desculpas quando estava fingindo dormir, agora vinha ele com um meio elogio? Ficou com uma pulga na orelha mesmo sem saber exatamente o porquê.

O loiro crispou os lábios, cruzando os braços não muito satisfeito com o tom usado pelo maior.

— Não posso simplesmente dizer o que penso? – revirou os olhos e iniciou seu trajeto de volta para o não tão confortável sofá. – Agora se me der licença irei voltar pro meu programa de culinária. Bom filme! – desejou, já largado na mesma posição de antes.

Zoro ficou sem entender, mas não se demorou mais e partiu. Se continuasse enrolando acabaria perdendo a tão desejada sessão da pré-estreia e ele estava muito ansioso por aquele filme que finalizaria a trilogia. Sua sorte mostrou-se em alta quando chegou a estação e o metrô que o levaria ao centro estava lá, como se estivesse esperando pelo Roronoa para poder partir. E o vagão nem estava tão cheio, o que o permitiu ir sentado por todo o trajeto.

Entretanto a calmaria da viagem fez com que ele voltasse a pensar nas palavras proferidas pelo outro. Por que tinha a sensação de que estava deixando passar algo importante? Ficou tão imerso em suposições que quase perdeu a parada correta. Desceu do trem quase aos tropeços quando percebeu que o trem já estava prestes a se locomover outra vez e praticamente correu pelas ruas movimentadas do centro da cidade até chegar ao grande cinema da região. Logo avistou Kuina bem em frente a bilheteria, olhando ao redor como se procurasse algo.

— Finalmente chegou! Achei que ia me dar o bolo! – deu um sorrisinho nervoso, arrastando-o pelo braço para dentro do estabelecimento mal o garoto se aproximou. –Vamos logo que a sessão já começou!

E realmente já havia começado, mas quando encontraram suas poltronas ainda estava passando o último trailer antes de iniciar verdadeiramente o filme. Ainda compraram um enorme saco de pipoca amanteigadas para dividirem e dois copos de refrigerante para acompanhar. Tudo parecia estar mais do que perfeito com a exceção de uma coisa: Zoro não conseguiu prestar atenção em nada.

Sabe as quase duas horas de filme? Se o Roronoa assistiu cinco minutos dele foi muito. Tudo porque uma sensação incômoda se alojou dentro de si, deixando-o muito inquieto. Por algum motivo a cena de Sanji se desculpando pela manhã não lhe saia da cabeça. Afinal, porque o loiro pediu desculpas? Somente despertou quando viu uma mão agitando-se freneticamente na frente de rosto enquanto uma voz chamava seu nome repetidas vezes.

— O que houve? – perguntou ao se deparar com a expressão confusa da garota.

Kuina franziu o cenho.

— O filme já acabou e precisamos sair. – respondeu ao indicar a sala já completamente vazia e um auxiliar do cinema os encarando feio por estar esperando-os sair para fazer a manutenção.

— Oh.

Depois que foram praticamente expulsos do local, caminharam devagar até que decidiram sentar numa mesinha externa de uma cafeteria ali perto. Conversavam aleatoriedades sobre o clube quando a garota cortou o assunto.

— Zoro, eu te chamei aqui com um propósito hoje. – afirmou, descendo o olhar para seu copo de milk-shake roxo.

Zoro arqueou uma sobrancelha, começando a olhar ao redor estreitando os olhos quase achando que Sanji apareceria do nada trazendo uma pretendente para si.

— O que está procurando? – a menina mirou seu rosto curiosa.

— Uh, nada. – encostou os cotovelos na mesa, apoiando a bochecha na mão aberta. – O que você estava falando mesmo?

— Bem, vou ser direta, pois alguém me disse que se eu não fosse direta você não perceberia nunca... Eu gosto de você. E no sentido romântico. – jogou as palavras, fazendo questão de mira-lo fixamente mesmo que estivesse num nível de constrangimento enorme. Essa era sua hora e ela não iria desperdiça-la. – E antes que pergunte não é nenhuma pegadinha.

O garoto arregalou os olhos, endireitando-se na cadeira sem saber como reagir. Esse tempo todo achando que era apenas mais uma saída amigável como tantas outras que tiveram, quando na verdade era um encontro. Teve vontade de pedir pra que alguém o beliscasse só para conferir se realmente não estava sonhando, mas ao notar o rosto que pedia seriedade ficou calado. Passou a mão de um jeito nervoso na cabeleira verde procurando algo que pudesse dizer sem soar como o bruto que era, entretanto nada lhe veio a mente. Não queria magoar a amiga de longa data que às vezes até esquecia que era uma garota.

— Já que você foi direta comigo, me sinto no dever de responder da mesma maneira. Desculpe, mas não posso retribuir seus sentimentos, Kuina. – respondeu tentando ser sincero num nível que não chegasse a ser ofensivo. Achou que a garota choraria, mas ela apenas abaixou o rosto, deixando um sorriso triste contornar seus lábios. Passou a mão outra vez pelo cabelo se sentindo péssimo com o clima na mesa. – Sinceramente não sei o que a levou ter esse tipo de sentimentos por mim, não sou um bom partido nem de longe. Sei bem disso.

Kuina percorreu a ponta do dedo indicador pela borda do copo de plástico deixando o silencio se prologar um pouco, enquanto procurava reencontrar a própria voz. Era um pouco estranho, mas ela não ficou surpresa ao ser rejeitada. De algum modo ela sabia que terminaria daquele jeito, contudo não custava nada deixar uma faísca de esperança brilhar enquanto podia. Infelizmente o dia que essa faísca se apagaria havia chegado e não podia fazer mais nada para impedir isso.

Respirando fundo Kuina ergueu novamente o olhar para o seu amigo de infância.

— Você não é um partido ruim, Zoro, embora nem eu saiba dizer quando foi que isso começou. – a garota deu uma risada curta, em seguida suspirou com certo pesar. – Sabe, eu meio que sabia como terminaria isso, mas mesmo assim quis tentar. Estou me sentindo até um pouco má depois disso, pois já havia percebido que era de Sanji que você gostava. Seus olhos sempre pareciam brilhar quando olhavam pra ele, mesmo que não se conhecessem a tanto tempo assim. Ele te cativou.

O Roronoa arregalou de leve os olhos, sentindo o coração descompassar uma batida. A surpresa do companheiro de mesa não passou despercebida pela garota de cabelos curtos.

— O quê? Ainda não tinha percebido? Sua lerdeza é algo que sempre vai me surpreender... Estava pensando em desistir de você quando, numa conversa com Sanji, ele acabou me incentivando a me declarar. – ajeitou uma mecha atrás da orelha. – Achei meio estranho o ar triste que ele adquiriu ao me aconselhar isso, mas só antes de ontem percebi o porquê dele ter parecido meio... Confuso. Sanji também gosta de você, Zoro. Agora só resta você deixar de ser cabeça dura e reconhecer isso.

O garoto estava sem palavras. Como é que uma confissão virava um incentivo para ir atrás de outra pessoa? E o pior era saber que Kuina estava certa. Somente agora, com ela falando de maneira tão explícita, é que ele se deu conta dos próprios sentimentos. Imagens variadas do anjo preencheu sua mente a medida que o coração acelerava e ele arregalava ainda mais os olhos.

Sim, ele amava Sanji. Como demorara tanto a perceber algo tão óbvio? Era por isso que suas crises de ciúmes eram tão constantes e a vontade de monopoliza-lo sempre surgia quando lembrava que o anjo estava só de passagem por ali.

— Sério, Zoro. Tente ser um pouco mais perceptível, é para seu próprio bem. – a garota complementou, censurando-o.

Não que o garoto tenha ouvido uma só palavra dessa última frase. O por quê? Uma garota com asas, trajando uma peculiar roupa branca justa ao corpo, apareceu flutuando logo atrás de Kuina atraindo sua atenção.

— Sei que pode me ver, mas não me responda. Se não quiser perder algo muito importante, se apresse e vá para aquele parquinho onde você conversou com Sanji alguns dias atrás agora. Tudo depende de você agora. – alertou-o. – Ah, e aconselho a pegar um táxi.

Zoro não soube explicar, mas automaticamente sua mente associou o aviso a algo envolvendo Sanji e sem explicar nada a Kuina, lançou-se na chuva que acabara de começar.

*

Algumas horas mais cedo, no apartamento do Roronoa, Sanji tentava convencer a si mesmo que não seria correto espionar o encontro dos outros. Entretanto em questão de minutos lembrou-se de que ele era um cupido e uma de suas funções era confirmar que seus alvos estivessem obtivendo sucesso no caminho do amor. Só precisou disso para ir se arrumar e procurar as chaves reservas para sair. Pelos seus cálculos em cerca de meia hora a sessão do filme estaria acabando e se ele saísse logo, chegaria a tempo de encontra-los na saída para descobrir como eles estavam indo.

Quando saiu do prédio a primeira coisa que percebeu foi o céu completamente nublado, indicando que em algum momento a chuva viria. A segunda, essa lhe chamou bem mais atenção, foi os dois anjos conversando aos sussurros, flutuando bem próximo da pequena escadaria que tinha ali.

— Sabo, Sadi-chan? O que fazem aqui? – indagou surpreendendo-os um pouco.

Ambos se viraram depois de um sobressalto.

— Oh. Olá, Sanji! Lembre-se que agora que esta num corpo humano as pessoas apenas estão te vendo falar sozinho. – a garota respondeu rápido ao tomar a frente de um Sabo que gaguejava.

Sanji virou pro lado tendo sua confirmação ao encontrar um velhinho o olhando torto. Contudo ao ver que era encarado o velhinho saiu resmungando um "esses jovens loucos nas drogas".

O cupido rolou os olhos e rumou em direção a estação, sendo seguido de perto pelos anjos. Não falou com eles também para não parecer louco para as pessoas no caminho. Fez todo o trajeto que o Roronoa havia feito mais cedo – com a diferença de ter se atrasado um pouco por ter perdido o trem – e quando chegou ao cinema no exato momento que as pessoas da sessão de Samurai do Futuro 3 estavam saindo. Escondeu-se atrás de um letreiro de propaganda, observando todos que saiam sem encontrar a dupla que viera investigar. (Os anjos se esconderam atrás de um carro, pois Zoro podia enxerga-los.) Já estava achando que havia se desencontrado quando, depois de um tempo considerável, Kuina e Zoro saíram do cinema.

Seguiu-os discretamente, sempre do outro lado da rua, e ao vê-los parar numa cafeteria, se abaixou atrás de uns arbustos bem podados que havia na frente de uma floricultura. Um anjo de cada lado seu.

Dali tinham uma visão boa do casal, mas infelizmente não dava para ouvir nada.

— Você falou para ele como se sente? – inquiriu Sabo depois de um tempo que estavam abaixados. Sanji agitou a cabeça em negação. – E não pretende falar?

Agora o garoto encarou-o descrente.

— Não, não irei. – respondeu em um sussurro cortante e se virou para a garota de cabelo cheio ao seu lado. – Aliás, Sadi-chan, porque você também esta aqui? Já não bastava um enxerido, ele ainda foi chamar mais uma?

A garota rolou os olhos, enquanto que Sabo fez um biquinho contrariado.

— Só estamos preocupados com você, Sanji.

Sanji bufou, decidindo ignora-los e voltou sua atenção a Zoro, percebendo que este estava agora com o corpo rígido. Será que Kuina já havia se declarado? Pela linguagem corporal desconfortável do outro parecia que sim. Agora só restava esperar e... Sanji sentiu. Sua habilidade especial de pressentir quando alguém ia se apaixonar finalmente mostrava resultados, mesmo que isso também tivesse trazido uma imensa dor para o loiro. O Roronoa havia reconhecido que estava apaixonado.

— O que aconteceu, Sanji?! – Sabo indagou coberto de preocupação ao ver o rosto do amigo torcido em sofrimento.

Sadi-chan também virou-se para analisa-lo com o cenho franzido.

— E-ele se apaixonou... O meu trabalho está terminado. – concluiu com tanto pesar que os outros dois ficaram ainda mais preocupados. Algo parecia estar ruindo de modo irreversível dentro do anjo no corpo humano.

— Tem certeza de que é isso mesmo? – a garota insistiu parecendo não muito crédula com a informação. Simplesmente se recusava a aceitar que o anjo não era correspondido depois de tudo o que presenciou. Algo devia estar errado, tinha que estar.

— Claro que tenho! – falou ao se erguer e apertar os punhos tentando não chorar.

Sabo fazia caras e bocas sem saber como consolar o amigo. Como poderia ajudar, afinal?

— E o que pretende fazer agora? – perguntou por fim.

Sanji o mirou com os olhos azuis divididos em tristeza e decisão.

— Minha missão está terminada, irei embora. – sua voz soou resoluta demais para aceitar contrariedade.

Sim, estava fugindo. Não queria prolongar seu sofrimento.

Em seguida refez o caminho para a estação – nem percebendo que a garota havia ficado para trás –, tendo a sorte agora de chegar no momento certo para pegar o trem. Quando chegou ao bairro onde morava ao invés de seguir para o apartamento, foi em direção ao parquinho abandonado nas proximidades. Em nenhum momento se preocupando com a chuva que o encharcava por completo ou com o anjo que o seguia implorando para que repensasse sua escolha.

Sanji só parou quando chegou ao centro do parque, num lugar coberto de gramíneas e flores pequenas. Olhou para o céu escuro o achando bem similar a como se sentia no momento. Caótico e nebuloso.

— Tem certeza que vai fazer isso? Você ainda tem um dia antes de acabar seu tempo nessa forma humana... – perguntou outra vez tentando descobrir se o outro chorava, mas com a chuva forte não dava pra saber. Parecia até que o céu estava chorando junto com ele.

Sanji o ignorou, levando o dedo para tracejar uma estrela imaginária sobre o coração do mesmo modo como Sabo tinha feito alguns dias atrás. Em seguida ergueu uma das mãos para o céu de jeito solene.

— Renuncio a esta forma mortal e ao último dia que me resta, pois a tarefa que me foi dada já foi completada. Para meu retorno imediato, peço de volta as minhas asas temporariamente seladas para retomar minha forma astral.

A chuva ao seu redor parou a medida que um círculo brilhante começou a surgir no chão, fazendo com que uma luz forte o envolvesse. Quando a luz diminuiu com o passar dos segundos um Sanji já com asas e sua roupa habitual de cupido podia ser visto. Sabo suspirou pesaroso. Agora era tarde demais.

— Você irá comigo, Sabo? – perguntou o cupido que permanecia dentro do círculo, embora ele agora não passasse de uma linha amarela discreta no chão. Partes de sua pele começavam a se desfazer em uma poeira clarinha, como se estivesse sendo levado aos poucos para outro lugar. – E onde está Sadi-chan?

Sabo olhou ao redor percebendo pela primeira vez a falta da companheira de planos. Não fazia ideia de onde ela poderia estar. Dando outro suspiro ele entrou dentro do círculo também, segurando uma das mãos do loiro ligeiramente menor para acalenta-lo.

— Desculpe pela preocupação desnecessária... – Sanji murmurou, abatido.

Sabo ia responder quando o som de passos chapinhando na água que a chuva deixava no chão alcançou seus ouvidos. Ambos viraram na direção do som para ver Zoro chegando ofegante sendo acompanhado por uma chocada Sadi-chan.

— Sanji, o que você fez! – a loira arregalou os olhos quando reconheceu o círculo no chão. Uma vez começada a transferência não havia como parar, sabia bem disso.

Zoro intercalou o olhar entre a loira e a dupla de mãos dadas no círculo luminoso sem entender o que estava acontecendo.

— Por que você está na sua forma de anjo?

Sorrindo triste, Sanji esfregou os olhos rapidamente para afastar as lágrimas que queriam sair. Queria poder ter ido embora sem precisar vê-lo uma última vez, pois isso tornaria tudo mais difícil. Seu estomago revirava nervoso pelo estresse.

— Sinto muito por não ter me despedido direito de você, mas estou indo embora, Zoro. Desde o começo eu tinha um limite de dias que poderia permanecer aqui e agora que você já se apaixonou por Kuina, minha função está terminada. – encerrou triste percebendo Sadi-chan se unir aos dois dentro do círculo, passando a desaparecer lentamente também.

Zoro olhou exasperado para o menor. Como assim ele estava indo embora? Isso era definitivo? Não, não podia ser. Sentia como se o chão estivesse sumindo sob seus pés.

— O quê? Do que está falando? Eu não gosto de Kuina dessa forma! – apressou-se em acrescentar ao perceber que eles estavam desaparecendo em uma sutil luz azul.

Essa fala surpreendeu o loiro, que levantou os orbes cerúleos para o outro.

— Mas eu tenho certeza que você está apaixonado. Eu posso sentir.

— E estou. – aproximou-se da região iluminada, mas sem ousar atravessa-la. Algo lhe dizia que se fizesse isso não acabaria bem para ele. – Mas não é por Kuina, é por você, Sanji.

O anjo arregalou os olhos em um misto de surpresa e alegria que rapidamente foram substituídas pelo ar triste ao lembrar que não poderiam ficar juntos. O processo de transferência já estava quase completo, apenas o vislumbre transparente dos anjos podia ser visto.

— Sinto muito, Zoro. Adeus. – despediu-se antes de sumir por completo, sem deixar o menor vestígio par trás.

Notas finais
Gostaram? Lindo, neah? UHAUshuaHSUHAsuhuas Bem cabuloso! Hoje acordei especialmente maligna. c: Oh, e antes que me matem, esse não é o último não! Sim, eu menti na cara dura pq sou dessas, licença. UAHuashuhasuhuasH