Cupcake

22 Fracasso



Yoongi se levantou de repente, a cadeira arrastando no chão com um som seco, e saiu do consultório sem dizer mais nada.

— Yoon? — Taehyung chamou, levantando-se às pressas, mas ele não respondeu. Nem sequer olhou para trás.

O médico franziu a testa, confuso.

— Desculpe… não entendi a reação dele. Pelo que entendi, achei que a não gravidez fosse uma boa notícia.

Taehyung engoliu em seco.

— Nós estamos tentando agora… acho que ele só… criou expectativas demais. — Passou a mão pelos cabelos, visivelmente abalado. — Desculpe, doutor. Eu preciso ir atrás dele.

Pegou a receita com as mãos levemente trêmulas e saiu do consultório quase correndo.

No estacionamento, encontrou Yoongi no carro já sentado no banco do passageiro, com o cinto afivelado. A cabeça estava apoiada no encosto, virada para a janela. O olhar perdido no nada.

Taehyung entrou no carro devagar e fechou a porta com cuidado. O silêncio entre eles era pesado. Com delicadeza, colocou a mão sobre a coxa do marido, fazendo um carinho lento, tentando alcançar algum tipo de resposta.

— Yoon… amor…

Yoongi respirou fundo antes de falar, a voz baixa e quebrada:

— Por favor… não fala comigo agora. Só me deixa na casa do Hobi.

Aquelas palavras doeram mais do que Taehyung gostaria de admitir. Ele suspirou, sentindo a própria cabeça fervilhar de perguntas, mas escolheu respeitar o espaço que Yoongi estava pedindo.

— Tá bom — respondeu suavemente. — Mas só saiba que eu te amo muito. — Inclinou-se e beijou sua testa com carinho.

Yoongi não reagiu. Não se moveu. Apenas permaneceu imóvel, olhando pela janela. Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto, mesmo com todo o esforço para se manter firme. E Taehyung, dirigindo em silêncio, sentia o coração apertar a cada soluço contido que ecoava no carro.

…

Taehyung dirigiu até a casa de Hoseok em silêncio. Assim que o carro parou, Yoongi abriu a porta apressado, sem esperar ajuda, e caminhou em direção ao elevador com passos rápidos.

— Yoon, espera… — Taehyung saiu do carro e correu atrás dele.

As portas do elevador quase se fecharam, mas Taehyung conseguiu entrar no último segundo. O espaço pequeno ficou sufocante. O silêncio entre os dois era pesado demais. Taehyung sabia que não tinha feito nada errado. Mesmo assim, sentia como se tivesse falhado em proteger o marido de alguma forma. Queria tocar sua mão, abraçá-lo, dizer que estava tudo bem… mas Yoongi mantinha os braços cruzados, o olhar fixo no visor luminoso, distante. Não queria nem mesmo que ele se aproximasse.

Quando chegaram ao andar, Yoongi saiu primeiro. Tocou a campainha e, assim que Hoseok abriu a porta, ele passou por ele sem dizer sequer um “oi”.

— Vou dormir aqui hoje — anunciou, já caminhando pelo corredor.

Entrou no quarto do filho do casal e fechou a porta atrás de si. Hoseok ficou parado na sala, olhando para Taehyung, completamente perdido.

— O que aconteceu?

Taehyung passou a mão pelo rosto, exausto.

— Ele… não tá grávido — disse, com a voz baixa. — Foi só uma infecção alimentar. — Seu olhar caiu com tristeza. — Eu preciso falar com ele.

Hoseok segurou seu braço antes que ele desse um passo.

— Não, senhor. Agora não.

Taehyung o encarou, aflito.

— Ele precisa de um tempo. — continuou Hoseok — Ele não tá fugindo de você porque tá com raiva… tá fugindo porque tá com vergonha. Conhecendo Yoongi como eu conheço, ele deve estar se sentindo insuficiente. Talvez até culpado por não ter conseguido te dar um filho.

Taehyung engoliu em seco.

— Ele estava tão empolgado… — Hoseok continuou, mais suave. — Comprou roupinhas. Ficou andando pelo shopping sorrindo. Ele já tinha imaginado tudo. Então, pra ele, não foi só uma notícia ruim. Foi como perder algo que já existia no coração dele.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Taehyung fechou os olhos por um instante.

— Eu não preciso de um filho pra amar ele — murmurou, com a voz falhando. — Eu só preciso dele.

Hoseok apertou de leve o ombro do amigo.

— Então deixa ele sentir. Depois você mostra isso pra ele.

Taehyung ficou ali, parado na sala, olhando para a porta fechada do quarto. E pela primeira vez desde que saíram do hospital, ele se sentiu completamente impotente.

— Eu não estou chateado com isso… — Taehyung murmurou, passando a mão pelos olhos já vermelhos. — Eu amo ele.

Hoseok assentiu, com o olhar compreensivo.

— Ele sabe disso. Só precisa de um tempo pra organizar o que tá sentindo. Deixa ele dormir aqui essa noite. Amanhã ele vai estar mais calmo.

Taehyung fez um bico involuntário, claramente abatido.

— Mas eu vou sentir falta dele essa noite…

Hoseok cruzou os braços, tentando não rir da carência evidente do amigo.

— É só uma noite, Sr. Dramático. Você sobrevive. Até porque… — ele olhou discretamente em direção à cozinha — eu também preciso ficar a sós com o Yoonie hoje… Amor? — chamou, elevando um pouco a voz.

— Oi? — respondeu Mingi da cozinha. — Me chamou, paixão? — Ele apareceu na sala enxugando as mãos num pano de prato, o cabelo levemente bagunçado.

— Deixa o jantar aí que eu termino depois. Preciso que você durma na casa do Tae hoje.

Mingi piscou algumas vezes.

— Hum? Por quê?

— Yoongi precisa de mim. Vou ficar com ele essa noite e precisamos conversar. Sozinhos. Pode ser?

Mingi analisou o clima pesado da sala, o rosto abatido de Taehyung, e imediatamente suavizou a expressão.

— Claro que pode, meu ruivinho.

Ele deu meia-volta, foi até a cozinha e voltou segundos depois com um pack de cerveja na mão.

— Pronto. Vamos encher a cara e afogar as mágoas. Você tá com uma cara que tá precisando — disse Mingi para Taehyung.

Taehyung tentou sorrir, mas o sorriso saiu fraco.

— Você que me aguente. Eu vou chorar a noite inteira porque já estou com saudade do meu Yoon — Taehyung resmungou, com a voz embargada.

Mingi soltou um suspiro divertido, mas carinhoso.

— Tudo bem, eu aguento. Vou pegar uns petiscos também, porque sofrimento sem comida é desumano — disse, voltando para a cozinha.

Antes de sair, Taehyung se virou para Hoseok uma última vez.

— Só… cuida dele, por favor.

Hoseok assentiu, sério.

— Não se preocupe, Tae. Eu vou cuidar dele.

Quando a porta se fechou e o apartamento ficou mais silencioso, Hoseok foi até a cozinha e preparou um chá de morango bem docinho, do jeitinho que Yoongi gostava. Colocou na xícara favorita dele, ajeitou numa bandejinha e caminhou até o quarto.

Ao abrir a porta devagar, a cena o fez sorrir. Yoongi estava deitado dentro do berço do filho, encolhido de lado, abraçando o pequeno com cuidado. O bebê dormia tranquilo contra o peito dele, e Yoongi mantinha o rosto escondido no cabelinho macio da criança.

Hoseok precisou segurar uma risada emocionada.

“Taehyung teria um colapso de fofura se visse o Yoongi deitado dentro de um berço.”

Aproximou-se devagar, para não acordar o bebê.

— Yoon? — chamou em voz baixa. — Trouxe seu chá favorito.

Yoongi ergueu o rosto lentamente. Os olhos estavam vermelhos e inchados.

— Hobi… — a voz saiu quebrada, e no segundo seguinte ele desabou.

Saiu do berço com cuidado para não acordar o bebê e se jogou nos braços de Hoseok, chorando de verdade agora, sem tentar segurar.

— Tá tudo bem… pode chorar o quanto quiser — Hoseok o envolveu com força, apoiando o queixo no topo de sua cabeça.

Os soluços vinham descontrolados, quase infantis. O bebê dormia profundamente, alheio à tempestade emocional ali ao lado. Hoseok apenas acariciava os cabelos de Yoongi, fazendo movimentos lentos, esperando ele recuperar o fôlego.

— Vocês podem tentar de novo… — disse baixinho. — Não acaba aqui, Yoon.

— Mas eu queria muito… — Yoongi soluçava — Eu já tinha imaginado tudo… eu já o amava…

Hoseok fechou os olhos por um segundo.

— Eu sei. E é justamente por isso que dói tanto.

Yoongi respirava com dificuldade, agarrado à camisa do amigo.

— Você conseguiu de primeira… — murmurou, quase acusando o destino.

— Yoon — Hoseok segurou o rosto dele com firmeza. — Cada corpo é um corpo. Cada história é uma história. Não tem comparação. Não transforma isso numa competição que só vai te machucar.

Yoongi desviou o olhar, mas as lágrimas continuavam escorrendo.

— O Tae deve me odiar… — sussurrou, e então enterrou o rosto no peito de Hoseok, chorando ainda mais.

Hoseok o afastou de repente e segurou seus ombros.

— Ei! Para de falar besteira!

Yoongi se assustou com o tom firme.

— Taehyung te ama mais do que qualquer coisa nesse mundo. Aquele homem é completamente obcecado por você.

Yoongi ficou em silêncio, tremendo.

— Se você disser mais uma vez que ele te odeia, eu te dou um soco e te interno de verdade — Hoseok completou. — Ele não tá com raiva. Ele tá sofrendo porque você tá sofrendo.

Os olhos de Yoongi voltaram a encher d’água, mas agora eram lágrimas mais silenciosas.

— Tá bom… você tem razão — murmurou baixinho.

Hoseok puxou ele de volta para o abraço, dessa vez mais suave.

— Você não falhou. Não precisa de um filho pra merecer ser amado. Muito menos pro Tae.

Yoongi fechou os olhos, respirando fundo, tentando acreditar naquilo. E, pela primeira vez desde o hospital, o choro começou a diminuir.

Ficaram horas conversando.

Hoseok, como sempre, conseguia transformar dor em algo mais leve. Entre lembranças, histórias antigas e pequenas piadas, ele foi desmontando aos poucos o peso que esmagava o peito de Yoongi. Quando a noite chegou, acabaram dormindo juntos. Hoseok o manteve abraçado, fazendo carinho lento em seus cabelos até que o choro virasse apenas respirações profundas.

Yoongi adormeceu rápido. O corpo estava exausto e os olhos ardendo de tanto chorar.

…

Na manhã seguinte, Taehyung já estava lá. Tinha ensaiado várias falas no caminho. Pedidos de desculpa que não precisava fazer. Declarações dramáticas e promessas. Mas acima de tudo, estava preparado para ser ignorado de novo.

Sentado no sofá, mexia nervosamente as mãos enquanto Hoseok foi acordar Yoongi. Vinte minutos depois, passos arrastados ecoaram pelo corredor. Taehyung ergueu o olhar. Yoongi apareceu na sala vestindo apenas uma camiseta enorme, claramente de Mingi, que lhe caía até as coxas. Os cabelos estavam bagunçados, o rosto inchado devido ao choro.

Ele não disse nada. Apenas caminhou até Taehyung e se sentou em suas coxas. Enroscou os braços ao redor do pescoço do marido e escondeu o rosto na curva quente do seu pescoço, respirando fundo como se finalmente estivesse em casa.

Por um segundo, Taehyung congelou. Não esperava aquilo. Mas no instante seguinte, seus braços envolveram Yoongi com força, como se tivesse medo de que ele desaparecesse. Precisou morder o próprio lábio para não chorar.

— Yoon… amor, eu…

— Taehy…

— Eu fiquei preocupado… você tá bem?

Yoongi soltou um choramingo baixo, manhoso, se ajustando melhor no colo dele e apertando o abraço.

— Tô… — murmurou. — Me leva pra casa.

Taehyung fez carinho em suas costas, sentindo o corpo dele quente e frágil contra o seu.

— Claro que levo.

Yoongi respirou fundo mais uma vez.

— Vamos tentar ter um bebê.