Cupcake

2 Capítulo 2


Notas iniciais
E chegamos ao último capítulo. Só aviso que ele não é tão suave como o primeiro.

A festa estava animada, mas Iago não. Estava sentado, sozinho, no banco mais perto do portão e, embora soubesse que era melhor não ter seus amigos por perto nesse momento, era horrível ficar sem ninguém para trocar uma palavrinha sequer.

Pegou o celular e procurou algo que nem sabia se existia para distrair a cabeça enquanto ela não voltava. Antes, ele tinha certeza que ela voltaria, mas começou a ter dúvidas quando o tempo foi passando e nada acontecia. Levantou-se, prestes a desistir, quando pôde ver quem queria. Viu-a passar por ele, mas não parecia tê-lo ignorado, apenas lhe passou desapercebido, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Odiava que as pessoas não o vissem.

Sem pensar muito, caminhou atrás da menina e, com toda a sua maldade, puxou seu cabelo, que estava em um penteado, em sua opinião, bem esquisito.

— Me larga! — Lorena gritou, conseguindo se soltar com dificuldade, pois os dedos da pessoa com espírito de porco tinham agarrado seu cabelo com bastante força. Seu penteado certamente tinha sido arruinado — Qual é seu proble…

Ao virar-se, não imaginou que daria de cara com Iago. O susto fez com que desse alguns passos para trás antes de, em tom quase inaudível, perguntar:

— Por quê…?

— Ah, nenhum motivo importante. — Iago respondeu, dando um sorrisinho de escanteio, meio debochado — Queria só saber se esse aqui — segurou uma mecha do cabelo da garota novamente e logo a soltou — é peruca também. Pelo visto não.

Eita, foi a única coisa que se passou na cabeça de Lorena no momento. Precisava respondê-lo, mas não sabia como.

— Do que você está falando, seu maluco? — decidiu se fazer de desentendida, tentando conter a adrenalina inexplicável em seu corpo que a implorava para correr e fugir de novo. Não estava acreditando, se recusava a acreditar que ele sabia da verdade.

— Ah, Lorena, Laura, Luana, Larissa, sei lá quem você é, — ele revirou os olhos e, em seguida, a olhou novamente, erguendo uma sobrancelha — vai fingir que não sabe de nada? Ou será que já tem uma personalidade nova? Uma burra agora?

Lorena estava em um misto de ansiedade, medo e todos os sentimentos ruins que possam ser imaginados. Seu coração estava acelerado de medo, o suor já estava começando a escorrer pelas mãos, pelo rosto… não conseguia articular uma palavrinha sequer, nem um xingamento barato para tentar ofendê-lo. Parecia tão surreal que ele tivesse descoberto! Não lembrava de nada disso ocorrer nem nos livros e filmes mais clichês.

Ou melhor, quando ocorria, tudo sempre dava certo, não acontecia o que lhe estava acontecendo agora.

Assim como Lorena, Iago estava tenso, o estômago embrulhado de nervoso e as mãos trêmulas, embora estivesse tentando manter a postura de pessoa fria. Seria realmente uma boa ideia confrontá-la? Independente de a resposta ser sim ou não, faria do mesmo jeito. Ela merecia saber o que ele sentiu durante todo esse tempo, e ele dizia merecia porque sabia que, com certeza, isso a deixaria mal.

E ele não ligava mais tanto pra isso, pois ela não era inocente na história.

— Você tem belos olhos, sabia? — o rapaz disse, os cabelos platinados caindo na frente de sua vista — São de cores iguais, mas são bonitos desse jeito. Que bom que parou de usar aquelas lentes, dava pra ver de longe que não eram naturais. Pagou quanto naquela porcaria?

A menina permaneceu em silêncio, evitando qualquer contato visual. Entre dizer algo que podia piorar a situação e dizer nada, preferiu continuar calada, deixando o rapaz lhe dizer o resto.

E, nossa, Iago tinha muita coisa a dizer. Mas não gostava do quão silenciosa a menina estava. Ela não fazia sequer questão de se defender, parecia aceitar sua sentença.

— O gato comeu sua língua? — questionou, cerrando os punhos e sentindo suas unhas cravando na palma da mão. Estava começando a perder a paciência — Engraçado, atitude pra me enganar você tem. Achou que eu nunca vi você entrando no almoxarifado pra colocar a peruca e a lente? Sua ideia era muito boa, mas pra escrever um livro com ela, não pra colocar em prática.

— Só me diz o porquê… — ela retrucou, o tom de voz baixo, mas se podia perceber um pouco de agressividade na maneira com que falava — de você estar me falando isso tudo agora?! Custa muito para você e seus amiguinhos me deixarem em paz? Quer arruinar a festa pra mim de novo?

— Meus amigos não te deixariam em paz se eu não tivesse descoberto, Lorena. Você realmente acha que o almoxarifado era um… espera, deixa eu pensar… — ele pausou, pensando em uma maneira debochada de se dizer o que queria — um lugar mágico que ninguém ia te ver entrando e saindo? Quantos anos você acha que tem, garota? Ainda é uma menininha de 10?

Iago não conseguia parar de humilhá-la. Como ela pôde abrir mão de si mesma assim tão fácil? Como ela pôde ser assim tão cega por nunca ter visto ele por perto, evitando o grupo de chegar até ela e descobrir a verdade?

Como ela pôde ser tão cega em não saber que era incrível do jeitinho que era e que não precisava ter mudado nada para obter atenção?

— Olha, garota, eu vou falar isso só uma vez. E espero que seja suficiente. — Iago disse, aproveitando o silêncio de Lorena, e respirou fundo, obtendo coragem para dizer tudo (ou quase tudo) de uma vez só — Se eu nunca tivesse ligado pra você, tinha ficado rindo com meus amigos de você e da sua amiga em vez de ir lá colocar a cara a tapa pra te ajudar.

Lorena o encarou, os olhos arregalados pela surpresa. Sabia que aquele podia ser um “eu gosto de você” mal dito, mas, vindo dele, ela não acreditava. Não queria acreditar. Seu coração acelerou, mas o estômago embrulhou também.

— É tão difícil pra você aceitar quem você é? — ele questionou, o rosto começando a avermelhar de vez — Você era tão igual as demais e, ao mesmo tempo, diferente, exatamente por, mesmo com todas as provocações que você passava, não ter mudado. Eu… gostava disso em você.

— Por que… você nunca me disse isso antes? — a garota perguntou, em um quase sussurro, os olhos ardendo e vermelhos de tanto segurar o choro.

— Porque, quando me dei conta, você tinha mudado. — ele disse, dando um sorriso falso, que não durou por muito tempo. Sua expressão completa mostrava o quão decepcionado estava com ela — Mas isso aí é com você, eu não quero mais te ver se limitando pra agradar mais ninguém. Quando liguei os pontos, eu me senti tão mal… você nunca parou pra pensar em como eu ficaria nessa história? Você fez isso tudo por mim e eu… eu…

Se Iago estava mal, Lorena estava despedaçada. Não tinha nada para dizer, se sentia decepcionada consigo mesma, mas sabia que não era adivinha. Ambos tinham uma parcela de culpa nessa história: ela se transformou para agradá-lo, o que foi errado, mas hora nenhuma ele disse que gostava de como ela era antes, na verdade, parecia ter nojo, como seus amigos, mas, ao contrário deles, ele sabia a verdade! Ele podia tê-la pedido para parar! Tudo isso não fazia sentido.

Sua cabeça estava um emaranhado de pensamentos que não conseguia controlar. As lágrimas acabaram descendo, borrando o lápis de olho que tinha usado. Se secasse de qualquer jeito, ia piorar tudo, assim que apenas cobriu o rosto, tentando camuflar a vergonha que sentia de si mesma.

Iago sabia bem que tinha mentido para ela e para si mesmo, assim como ela mentiu para ele e para si mesma. Ambos eram culpados.

— Céus… para de chorar, vão achar que eu tô fazendo alguma coisa errada.

— Eu sou muito burra! — ela exclamou, a voz abafada pela mão que cobria a boca — Burra! Eu não passo de uma burra!

— Queria poder discordar, Lorena. — ele disse, baixinho, sem camuflar seus sentimentos — Você podia ser um pouco mais forte, como você era antes. Mas tá o.k. cair de vez em quando…

— Cala a sua boca! — ela berrou, apertando seu bolinho em uma mão e passando a outra pelo rosto, borrando toda a maquiagem, embora isso não importasse mais para ela — Para de se fazer de bom moço! Eu já entendi o que você quis dizer. — ela disse, contendo o choro, e logo afinou a voz, imitando Iago, embora a dele fosse milhões de vezes mais grave do que a que ela fez — “Oh, Lorena, você era uma menina tão valente! Você aguentou meus amigos te enchendo a porcaria da paciência por tanto tempo, eu sempre admirei de longe o quão forte você era! Eu nunca cheguei perto de você pra te dizer nada, fiquei só com os meus amigos, dando risadinhas e…”

— E fingindo que não sabia quem era você, e trocando de assunto quando eles começavam a falar de você, e ficando perto do almoxarifado pra tomar conta de você, e fazendo tudo isso pelas sombras pra você não ser magoada. — ele emendou a frase de Lorena, um pouco estressado, mas a voz um pouco embargada por um choro que não queria sair — Mas tá o.k., eu já disse, tanto por você cair de vez em quando como por eu desistir de tentar falar com você. Acho que a Lorena de verdade morreu, mas, se eu estiver errado, por favor… pede pra ela voltar.

— Ela voltou. Mas pode deixar que ela também desistiu de você. Pode voltar pra sua namorada estranha que nem você e me deixar em paz.

— O importante é que ela esteja aí. — ele virou-se, sorrindo, um sorriso triste. As lágrimas escorreram, várias de uma vez. Iago sabia que, depois de dizer tudo o que disse, ela nunca mais falaria com ele. E perder o contato com ela era o que ele menos queria — Mas tudo bem! Demorou um pouco pra eu desencanar de você, mas, pelo menos, a Karen me ajudou um pouco. Ela é um doce de pessoa, ela gosta das mesmas coisas que você, além das histórias de terror e do rock. Vocês podiam ser amigas.

— Não, não acho que podemos ser amigas. — Lorena respondeu, o tom de voz seco, sem muita emoção, embora sua expressão estivesse carregada de tristeza e ódio — Não é por ela, é só que não quero nada vindo de você.

— Nossa, que bruta. — ele disse, forçando um tom debochado — Vai, continua comendo esse cupcake ruim aí, nunca gostei desse troço.

Na verdade ele gostava sim, inclusive era seu favorito, mas pra ofendê-la, tudo estava valendo.

— E me dava dinheiro todo dia, né, lindo? — ela gritou, debochando de volta, o nariz querendo escorrer — Tudo isso foi masoquismo? Ou fome?

— Você tinha que me agradecer por ter ajudado a causar ciúmes no cara da padaria. — ele também gritou, secando as lágrimas, embora não tenha sido a coisa mais inteligente a se fazer. Seu rosto corou em seguida quando notou que tinha se entregado e que os olhos da garota se arregalaram.

— Ciúmes? — ela questionou, colocando a mão na cintura, dando mais uma mordida no cupcake. De todas as coisas que ele havia falado, essa foi, certamente, a mais engraçada para ela — Você ficava me vigiando na padaria? — ela disse, ainda de boca cheia.

— Paga aí de detetive e descobre, sua porca. — ele respondeu, tentando soar grosseiro, mas a vergonha fez sua voz sair trêmula e perder todo o impacto — Eu vou embora.

E saiu, sem mais nem menos, tentando se manter firme em sua decisão. Ele quis tanto discutir isso e não deu em praticamente nada, mas o que esperava? Que ela fosse se jogar em seus braços quando dissesse que gostava dela? O estresse não o deixava pensar direito, por que ele mentiu tanto? Ele podia ter assumido seus erros, podia ter reconhecido que ele forçou a barra para que Michael também a evitasse… podia ter assumido que ele não era o anjo da história, nenhum dos dois era.

Respirou fundo, iria apenas se despedir de seus amigos e ir embora. Não estava com paciência para lidar com Karen, afinal, tudo aquilo tinha sido apenas uma ficada para causar ciúmes na “Laura”, o que deu certo, mas não do jeito que ele queria.

E, para ser sincero consigo mesmo, a única coisa que Karen e Lorena tinham em comum era a capacidade de mentir. Se bem que, agora que tinha parado pra pensar… Karen mentia menos, ela só disse que tinha ido no show de uma banda que nunca se apresentou no Brasil, entre outras coisas bobas do gênero e, bem, Lorena estava em um patamar maior.

Assim que se despediu de seus amigos, foi embora, caminhando pelas ruas cheias de pessoas felizes e realizadas, diferentes dele. A festa, para ele, havia acabado.

Enquanto isso, Lorena estava tentando controlar as lágrimas, mas com um pouquinho de felicidade por ter conseguido desencanar de Iago antes do próximo ano letivo iniciar. Sentou-se perto do portão, pois era o único lugar mais tranquilo da festa, e terminou de comer seu bolinho, que estava bem amassado agora, mas acabou engasgando no último pedaço, tendo uma crise de tosse intensa. Antes que a coisa ficasse pior, alguém a ajudou: Gabriela.

Lorena quase engasgou de novo quando a viu. Não imaginava que ela faria algo para ajudá-la depois da discussão que tiveram. Assim que conseguiu voltar ao normal, abriu a boca procurando alguma maneira de questionar o motivo de ela estar ali sem soar grosseira, mas a outra menina lhe passou a frente.

— Tudo bem agora? — Gabriela perguntou, fitando-a com seus olhos castanhos como se lhe estivesse lendo a alma, o que seria bem útil nessa ocasião.

— S-Sim, mas… — Lorena disse, assim que parou de ofegar — o que você está fazendo aqui? Assim, eu não imaginei que você viria aqui, nem que você me veria na verdade.

— Então… é uma longa história.

Gabriela sentou-se ao lado de Lorena, começando a narrar o que aconteceu enquanto ela e Iago discutiam. Ela estava sentada com sua nova amiga, Larissa, quando Karen chegou, com suas mil e uma invenções para tentar entrar na conversa das duas. Nesse vai e vem de mentiras malfeitas, Karen notou Iago junto de Lorena ao longe e começou a berrar que seu “namorado” a estava traindo e que ia bater na “vagabunda que estava com ele”. Larissa logo se meteu para tentar acalmá-la e pediu para Gabriela ir ver Lorena para tirá-la de lá enquanto colocava a histérica em seu lugar.

Lorena absorvia cada palavra que a morena dizia, não tendo certeza se ficava horrorizada com o comportamento de Karen, tanto por mentir quanto pela agressividade, ou se ficava triste com o fato de Gabriela ter conseguido alguém com uma personalidade forte e incrível para lhe fazer companhia enquanto ela estava ocupada sendo trouxa. Saber que sua antiga melhor amiga tinha alguém melhor que ela a deixava arrasada.

Gabriela, por sua vez, aproveitou a deixa para, ainda que repudiasse esse tipo de coisa, ouvir o resto da discussão dos dois para conseguir, pelo menos, uma pista do que realmente tinha acontecido durante todo esse tempo que elas ficaram afastadas. Não queria ser inflexível e não perdoá-la, mas só passaria por cima de seus erros se ela tivesse superado Iago. Doía saber que Lorena a havia trocado por um cara que não ligava pra ela, mas lhe aliviaria a dor se ela, pelo menos, se arrependesse do que fez.

— Lorena, eu vi você chorando, o ouvi dizendo todas aquelas coisas de — engrossou a voz de um jeito cômico, embora não fosse essa a intenção — “Eu gostava de você antes porque você tinha personalidade e blablablá”… ainda bem que você não se deixou levar por esse textinho dele.

— É… — Lorena apenas concordou, com um sorrisinho triste e evitando contato visual ao olhar para o chão como se tivesse algo muito, mas muito interessante nele. Parecia que nada em sua vida dava certo — A discussão não deu em praticamente nada.

— E saber como vocês dois se sentiam e como foram bobos não é algo bom? — Gabriela disse, erguendo uma sobrancelha enquanto olhava a garota com um sorriso. A de cabelos castanhos a fitou, sem entender, mas logo a morena continuou — Ele pode não ser a melhor pessoa do mundo, mas ele teve a iniciativa de te chamar pra conversar e dizer o que sentia. Coisa que você deixaria passar em silêncio. Ninguém é cem por cento inocente nessa história, mas cada um fez sua parte e você foi bem.

— Voz da razão. — Lorena disse, sorrindo, embora as lágrimas quisessem escorrer de novo.

— Ah, chorona… — Gabriela revirou os olhos, mas estava feliz por ver que Lorena não havia mudado tanto, mesmo depois de ter vivido uma vida que não era a sua — Vamos pro banheiro para você ajeitar seu cabelo e a maquiagem. Depois vai querer passar no refeitório? Tinha cachorro quente lá, não sei se já acabou.

— Não sei, essa engasgada me tirou um pouco da fome.

— Qualquer coisa você me dá a metade, eu não me incomodo. — a de olhos escuros respondeu, brincando, mas com uma ponta de verdade no que disse — E então, vamos? Quer conhecer a Larissa?

Lorena assentiu, sabendo que a outra só queria que ela não chorasse mais. As duas foram para o banheiro, onde Gabriela arrumou o cabelo e a maquiagem da garota, e saíram para aproveitar o resto da comemoração, se juntando à Larissa e outras meninas que Gabriela teve contato quando se afastou de Lorena.

Uma coisa Lorena tinha certeza: para ela, a verdadeira festa estava apenas começando.

Notas finais
Espero que tenham gostado da fic. ♥ Espero que tenham gostado de alguns twists e compreendido eles. Foi uma espécie de crítica ao que vemos sempre de que podemos construir e reconstruir laços ignorando erros e outras coisinhas que vemos em histórias de romance clichês onde tudo dá certo. No fim das contas isso não acontece tão facilmente na vida real. Obrigada, de coração, por lerem ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!