Cultismo
1 Único
Notas iniciais
Ele sorriu pra mim. Uma grande tira de dentes pontudos na sua carinha doce e malvada. Um gato sorriu pra mim me convidando a segui-lo. Ele se dissolveu junto com o cenário de meu sonho. Uma passarela, luzes, eu chamo a atenção. Outro sonho desaparece. Um abismo, eu não tenho onde segurar, já acordei caindo, pedras pontudas no fim, me bifurcando, fazendo o sangue jorrar de minha pele. Eu não grito, as pedras transformam-se em fumaça.
Acordo com o lençol de minha cama molhado de suor. O quarto está escuro e a mancha que apareceu na parede a treze dias parece se aumentar. Sangue, parece sangue. Levanto-me, a cama muito alta, eu fraca desabo no chão. Agarro-me ao criado mudo. Caminho até o banheiro, acendendo a luz fraca. Olho-me no espelho quebrado no dia anterior, minha imagem distorcida. Meus olhos não tem brilho e minha face está cansada. Minhas pálpebras pesadas quase não me impedem de cair novamente. Movo minha mão até a torneira, de onde não sai água. Saio do chalé onde estou hospedada, passando pela rua de paralelepípedos, caindo gradativamente, mas não paro de andar. Enxergo os postes de luz adiantes na estrada, mas não enxergo o fim. Um barulho no arbusto ao lado, ali perto. A piscina a minha direita parece bem convidativa, fria, naquele inverno sem neve. Deitada no chão arrasto-me até a beira e as pontas de meus dedos tocam a superfície gélida.
Venha, meu subconsciente me convida a cair na imensidão molhada. Venha, alguém me chama das profundezas. Venha, eu convido a mim mesma. Venha, alguém grita as minhas costas, alertando do que faço. Passos em minha direção. Fico de pé, agarram meu pulso, eu me solto. Sinto que cairei na água, mas meu corpo continua seco, agora com braços agarrando a minha cintura. Eu desmaio.
Acordo em uma cama, não a minha, a luz me cegando. Ouço vozes ao fechar os olhos. Sento-me lentamente. Minha cama, a única coisa que tem chão. Por toda a volta um abismo. Pedras pontudas. Como eu cheguei ali? Sinto-me tonta. Uma pessoa me chama.
Venha, dizem a mim novamente, mas dessa vez eu não vou cair. É triste, eu sei. Eu não sei. Porque tão triste, porque tão longe da morte? Se virão me buscar, venham me buscar. As pessoas sempre tentam salvar as outras. As outras sempre terão uma história pra contar, mas não eu. Não mais. Lembranças percorrem minha cabeça como ratos em um esgoto, correndo, com medo de que eu me lembre de algo. Desmaio.
Eu estava desacordada. Estava frio, estava molhado. Eu acordo. Estou navegando em um rio de chocolate. As árvores a minha volta são alcaçuz, suas folhas, algodão doce, seu frutos, marshmellow. Meu barco é feito de waffles. o céu rosa como groselha, chove groselha. Estou encharcada de groselha. Nada muda, nunca, o rio não termina, o céu não para de derramar-se, o caminho é o mesmo, longo, longo, tão perto. Eu começo a girar. Não eu, meu corpo, como se estivesse se deslocando.
Zonza, com âncias, recobro os sentidos, abro os olhos. Não estou no barco, não está chovendo. Estou em uma campina, o verde segue ao longe para se encontrar com o dourado do trigo plantado desorganizadamente. Um lago atrás de mim, azul, ou cristalino, transparente. Com carpas. Vermelhas e brancas, coloridas, alegres e sofisticadas. Cascalhos coloridos no fundo, um arco-íris de pedrinhas. Não sinto necessidade de cair lá dentro. É tão raso, brilhante, colorido, alegre. Caminhei até o campo de trigo, caminhei pelo labirinto dourado. Encostando as pontas dos dedos nas plantas, sentindo o vento em meu rosto. Fecho os olhos e jogo a cabeça para trás. percebo por um momento que estou nua, mas não me importo. Porque se importar se não é real, se ninguém me vê? Estou sozinha, mas isso não é uma certeza. O vento para, abro os olhos e caio. Desmaio, como de costume. Comum.
Um choro ao longe e eu abro os olhos. Um quarto de um hospital, nada tão comum como a terra. Enfermeiros cuidando de gente doente, alguém me ajudando a levantar. Alguém perguntando se tem algo de errado comigo, com a minha mente, com o quarto. Não. Não está nada de errado que uma pessoa em consciência normal consideraria. O choro. Eu sigo o choro. Há algo estranho e errado dentro de um berço. Uma criança roxa chora com um punhal atravessado em seu peito, jorrando sangue azul. Levo a mão na boca tampando o oh que se estampou em meus lábios. Pego a criança no colo a aninho em meus braços, começo a cantar. Uma enfermeira me alerta da criança, mas eu não escuto. Só a minha voz ecoa em meus ouvidos. A criança se acalma e se torna fria. Fria, branca. Congelada. Seus lábios da boca pequena roxos de frio. Coloco-a em seu pequeno berço onde ela repousa tranquilamente como um anjo. Cubro-a, para que durma quentinha, até acordar.
A enfermeira me leva até minha cama e deixo que ela me deite e me cubra como eu fiz com o bebê. Meu bebê. Não meu filho, nunca nascido de mim. é possesso, é meu. Viro-me de lado e me deixo envolver pelo sono sem sonhos. Sem sonhos, engano. Uma rua típica, com casas, postes de luz. Há neve e não há neve. Faz frio, e não faz. Não sinto o chão, mas consigo ficar de pé, caminhar. E vou caminhando por aí, sentindo frio, calor, não tendo chão, caindo, escorregando, tropeçando. Indo por aí. Seguindo. Como na minha vida. Andando sem me importar com o que acontece, vendo as coisas que as pessoas consideram normais, comuns. Inserindo nesse mundo banal minhas fantasias, as aventuras de uma mente vazia, vaga. Precisando consertá-lo com minha imaginação. E continuo seguindo. Pode ser um sonho, pode ser desse que não vou acordar. Minha criança ficará triste, mas eu continuo seguindo. Não importa. Não mais.
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