Culpa e Redenção
1 Antes que me matem
Notas iniciais
Desculpe.
Eu decidi que deveria começar a escrever com essa palavra. Porque é o que eu sinto, mesmo que ainda esteja indecisa se devo sentir ou não. Se isso é um bom sinal.
Hoje chegou mais uma carta para mim. Em uma era cheia de tecnologia, de celulares e computadores, por que alguém me mandaria uma carta, lacrada e com símbolos enfeitados? Eu tremi no momento em que abri a caixa de correio. Quem dera antes ali só estivesse as contas a pagar.
Quando atravessei meu quintal até a sala de estar, estava suando frio. É uma sensação muito estranha. Estava muito calor e o sol estava deixando seu rastro em todos os lugares, mas eu sabia sobre o que se tratava a carta, reconhecia a letra. Imediatamente todo meu corpo ficou vazio, como se estivesse se afundando em um buraco no meu estômago. O suor que escorria pelo meu corpo ficou gelado. Eu tremi.
Sentei no sofá e abri com todo o cuidado possível aquele envelope. No começo, eu tentei. Mas meus olhos tremiam e escorria suor sem parar pelas minhas têmporas, meus dedos estavam desordenados e se não terminasse com aquilo logo, sentia que minha cabeça não iria aguentar. Rasguei rápido com o máximo de cautela que consegui.
O papel escorregou para fora e quase me arrependi de ter feito aquilo. Quase. Sabia que não dava para fugir. Então eu li. Simplesmente li.
Assim como minha vida foi feita de quases, aquela carta também foi parte dela. Uma quase sentença de morte.
Nunca fiquei tão feliz pelos quases.
Porém, ao mesmo tempo, pensei em quem não queria pensar. Na minha falecida prima. Que morrera enforcada em praça pública mês passado. Trinta dias, setecentos e vinte horas.
Queria dizer que foi assassinato, mas não sei dizer se foi ou não. Ela escolheu o caminho, foi avisada, então tudo não passa de uma consequência, não? Por mais que uma parcela de mim pense isto, outra parte ainda diz que não se deve questionar algo tão simples quanto morrer ou matar. Alguém puxou o gatilho? Assassino.
Quem dera fosse tão simples. Se fosse assim, a justiça não teria tantos artigos, tantas advogados e tantos problemas. Há diversos casos, andei pensando bastante ultimamente. Há legítima defesa, onde a pessoa não teve opção além de atacar ou matar. Como se julga uma situação assim? Como avaliar todas as possibilidades, saídas e dizer quem é culpado e quem não foi, sabendo que um está morto, e se não está morto, quem sabe se irá dizer a verdade?
Mas estou fugindo do assunto. Este não é o caso, não é?
Prenderam minha prima. Mandaram uma carta igual esta que está ao meu lado. Mas ela não escutou. Ela tinha certeza do que estava fazendo, do que queria fazer e do futuro que a aguardava.
Mas ela morreu, eu me pergunto se isso ainda conta.
Porque as pessoas contam como ela foi corajosa, como encarou a morte, mas quem sabe de fato, o que se passou na cabeça dela nos momentos finais?! Ela se arrependeu e teve que se segurar para não mijar nas calças? Ela estava certa do que fez? Ela não pensou no que tudo resultaria?
Eu não entendo mesmo, não entendo MESMO, porque as pessoas falam que ela foi uma heroína.
Agora, ela parece uma entidade. Não um ser humano. Por que, que tipo de outra explicação teria, de que um ser humano lutou, deixando tudo para trás, sabendo que estava indo para a forca? Que tipo de pessoa teria feito isto, lutado contra o mundo, com chances mínimas de vencer?
Ela é um alien. É assim que me sinto. Talvez ela sempre tenha sido, mesmo enquanto nós brincávamos de bonecas no jardim de casa.
Mas eu sou uma humana. Uma pessoa com medo. Por mais que no começo eu tivesse uma faisquinha de animação ao ouvir seus planos, isso não conta mais.
Você entende, não entende? Poderia ter sido eu no lugar dela. Ou ao lado dela, sendo mandada para a morte. Eu quase a segui em seus planos loucos e quase fui presa. Quase.
Por isso, dessa vez, eu tenho certeza. Certeza de que não vou seguir esse caminho. Já me mandaram um aviso. Não vou chamar mais atenção, vou fingir que não existo. Vou fingir que não conheço mais minha prima. Você entende também, não é?
Eu escolhi viver. Quem poderia me condenar por ter isto, em vez de lutar bravamente? Eu não sou um alien.
Mas me sinto acusada, uma falsa, uma egoísta. Por ter um instinto de sobrevivência.
Hoje eu achei uma caixa de coisas dela. Cheio de cartas, planos, mapas, esboços. Todos recheados de sentenças de morte certa. Todos com a letra caprichosa que minha prima fazia quando era algo que importava tanto para ela. Estava perfumado e dobrado, com elásticos separando cada qual por categoria.
Eu queimei tudo. Quis gritar, mas não queria ser ouvida. Não quando tinha a morte bem em frente a mim. Então respirei fundo e levei ao quintal. Botei fogo e observei até tudo virar cinzas e nada me incriminar.
Minha prima escolheu uma vida, e não posso ser culpada por ter escolhida outra.
É isso. Nada aconteceu. Nada vai ser visto. Nada precisa ser dito.
Eu sei que a união do qual ela pertencia ficaria bem feliz com todos aqueles papéis. Evoluiria bem mais rápido. Mas é como disse: não conheço ninguém, não mais. Que todos me perdoem, não me julguem, mesmo estando mais próximos da morte do que mim. Me pergunto se as pessoas que já encaram a morte vivem mais intensamente. Seus olhos sempre são afiados, enquanto os meus são normais. Minha prima disse que quase fiquei com um olhar desses. Quase. Minha prima tinha.
Agora sou apenas a vendedora da lojinha de artesanatos, que vende caixinhas de madeira e pinta quadros nas horas vagas. Nada de revolução ou algo perigoso. Tenho medo de fogo e armas. Minhas tesouras não tem ponta e varro minha casa todos os dias.
Não tem nada de errado nisso.
Eu vou deitar de noite mas meus olhos se mantém abertos. Como se a qualquer momento seria eu culpada de algo, mesmo tendo quase sido culpada. Mas não fui. Esse limiar de quase ter feito algo mas não ter feito nada me faz chorar com impotência e injustiça.
Pois foi quase.
Como podem culpar alguém por quase?
Mas estou certa agora. Não vou morrer daquele jeito. Isso é certeza e espero do fundo do meu coração, que isso não seja uma quase certeza. Mas estou tremendo.
Mesmo não tendo feito nada.
Guardo a carta em cima da minha gaveta. É um quase que quero guardar na minha memória para não ser mais um quase. Para não me meter mais nisto. Para não ter uma certeza na minha mente.
Mesmo que eu não saiba como irei viver minha vida sem quases ou certezas.
Tudo ficou tão confuso. Não sei qual escolher, porque as duas matam. Não sei o que fazer para viver, mas escolhi o nada.
Não faça nada, não conheça ninguém, não questione nada. Isso vai me fazer viva, ou pelo menos quase.
Esse "quase" quase me mata por dentro.
E eu me pergunto qual é a pior forma de morrer. Por dentro ou por fora.
Talvez eu estivesse enganada. Mataram minha prima. Por fora. Por dentro, mataram a mim.
E por mais que eu esteja sofrendo agora, não desejaria ter morrido com minha prima. Mas também não quero esse sofrimento de indecisão em mim. Não consigo decidir qual escolher e fico presa, apenas chorando sem saber o que fazer, enquanto sinto um pêndulo em minhas costas, fazendo pressão.
Me sinto fraca. Mais fraca do que qualquer coisa, mas me sinto humana. Sei que tudo que sinto é algo normal do ser humano, mas sinto que é tudo tão difícil e como todos conseguem superar isso e continuar vivendo, como se eu fosse uma exceção, alguém mais fraco.
Imagino se minha prima sugou a força de mim. Costumam pensar assim de familiares. Ah, você tem o que sua prima não tem. Ah, você puxou seu tio. Você percebeu que eu gostava muito de ti? Eu suguei algo de ti? Você sentiu falta desta coisa?
Mas eu não gostaria de ser minha prima, não mesmo. Mas também não sei quem eu gostaria de ser, nem se quero ser outra pessoa. Porque sou incapaz de abandonar a mim mesma.
Me pergunto se em alguma vez você se perguntou do que estava fazendo. Se hesitou. Se pensou na sua morte, e mesmo assim avançou. Em quantas noites você deve ter chorado de arrependimento. Você fez isso? Isso aconteceu com você? Você era uma humana, sentia medo? Eu queria entender. Como é se sentir invencível a ponto de acabar assim. Me pergunto se eu gostaria. Se eu fosse um pouquinho mais parecida com você, se eu teria ajudado você no que fez. E se eu fosse capturada, como eu iria encarar a morte. Será que uma morte honrada faz você ficar orgulhoso e satisfeito mesmo diante das armas? Você ficou assim, prima? Eu não sei. Eu fechei os olhos. Não abri. Sai correndo e nem sei como desceram seu corpo. Não vi sua expressão final. Você buscou por mim? Se decepcionou ao me ver fugindo? Ou já esperava isso de mim? Ou foi um quase?
Tenho tantas perguntas que não serão respondidas. Isso é uma certeza, não é? Pois você está morta. E eu viva.
Mesmo que eu concorde contigo, ainda sou um quase.
Acene, bom dia, Olá, deseja alguma coisa? Sim, vou tomar cuidado. Ela? Não, não a conhecia tão bem. Ela era minha prima, sim, brincavamos juntas, mas nos distanciamos quando crescemos. Se eu sabia do grupo? Não, não tinha certeza. Só achava estranho minha prima nos últimos tempos. Ela era louca. Sim, louca. Eu avisei para ela parar, mas ela não me ouviu. Até me arrastou junto, eu não queria, mas estava muito preocupada com ela. Sim, sim, da próxima vez aviso as autoridades. Sim, desculpe. Isso não vai se repetir. Ah, já vai embora? Não vai comprar nada?… ah, bom dia.
Desculpe prima, mas não me culpe. Por favor.
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