Culpa dos sentidos

1 Culpa dos sentidos


Notas iniciais
Conto erótico e reflexivo. Dos meus escritos mais antigos que encontrei arquivados no e-mail haha

A culpa é toda dos sentidos. A culpa principal é a da visão.

Visão que me embala em desejos, visão que não perdoa os detalhes e, mesmo que eu feche os olhos, suas fotografias e filmagens continuam nítidas em minha mente, mesclando prazer e tortura. Tento escapar, direcionar o foco em pontos preto e branco, mas não é simples, não se tem como escapar do fluorescente. Ardem os olhos, eu pisco, mas não consigo deixar de admirar. É triste, é belo, é loucura, é preciso! A pupila dilata, eu recebo um choque e então prossigo alimentando meus desejos. E o corpo todo estremece, numa confusão deliciosa, é irresistível. E eu quero olhar! Olhar e olhar! Não vende meus olhos, não mude meu foco! Sendo horrível, sendo cruel, sendo sensual, sendo divertido, quero ver todas as formas de expressão que existem. Mas sinto doer ao imaginar... Sinto uma dor gostosa, uma dor que eu respeito. Todas as noites ela me visita, ela me é fiel, sempre me lembrando das coisas que eu vi, desejei e que... Simplesmente passaram. E eu choro... Choro e continuo permitindo.

A segunda culpa é a do toque. Quando deslizo os dedos na pele, quando encosto suavemente o mindinho nos lábios. E eu quero me apertar, apertar e sentir todo o meu eu encolhido, aquecido. Quero colocar em prática a culpa do primeiro. Quero tocar o verde, quero tocar tudo o que vi e é doce, feroz, proibido. A palma coça, sinto ansiedade. Desejo tocar as feras por trás das grades, mesmo com o risco de perder os dedos. Desejo sentir o pelo, o toque macio. Excitação, juntamente com o medo. E eu quero tocar aquele corpo! Por falta dele, toco o meu intensamente, toco cada ponto sensível que eu tão bem conheço e sinto o arrepio. Porém ainda não toquei tudo o que mais quis tocar, nem mesmo a superfície de um lago espelhado que se exibiu tão sossegado e distante... Distante. Senti a maior parte das vezes o toque no nada. E em outras partes toquei o que não queria realmente tocar. É, culpa das mãos. Tornando mais palpável minha solidão. E ainda assim consigo apreciar leves contatos, os mais sutis, como o encontrar de dedos em uma parada de ônibus, quando o estranho se apoiou onde eu ao mesmo tempo me apoiei.

Meus ouvidos são o milagre e a maldição entre os culpados. Ora escuto belas notas, ora escuto palavras terríveis. A audição me faz sensível, eu odeio e amo isso. Amo perder horas apreciando os ritmos mais agressivos e profundos, amo escutar um sussurro de uma pessoa querida. E eu sinto cada parte do meu ser vibrar! E eu atento as orelhas à maior invenção do homem: a música. Se a vida é um erro, não é um completo erro, pois existem belas melodias. Melodias que se encaixam em qualquer momento, tornando poética a situação mais trágica. Mas há tanta porcaria a se ouvir! Há tantos gritos, tantas lástimas! Há as futilidades murmuradas, há as ofensas impensadas. E eis a maldição, suja e cínica, fazendo soar mesmo nas canções sua podridão.

Ah! Os aromas! Aromas que instigam pensamentos impróprios e irresistíveis, aromas confundindo todos os demais sentidos. O perfume é o impulso, um petisco para o erotismo, que só aumenta o desejo por um banquete. E eu começo a me contorcer, a virar os olhos quando sinto certos perfumes, é assustador, é delicioso! Quando foi que me permitir ser seduzida tão facilmente? A verdade é: sempre. Como pode a boa fragrância ser tão enganadora? Faz a mente imaginar que aquilo só pode ser algo bom, quando é o caminho do abismo! Oh, quantas vezes um bom aroma me levou ao caminho errado! Já os cheiros terríveis que tanto ignorei e repudiei só tentavam me manter alerta. Idiota, sou uma idiota. Todos são. Olfato traiçoeiro, criança perversa.

Quantas vezes tentei esquecer um sabor? Quantas vezes tentei impedir o paladar de despertar memórias!... Memórias gravadas juntamente com os temperos, memórias de tempos doentes em que algo suculento, no futuro, acaba por amargar a boca. E adoeço novamente, só com a ideia. Já os sabores das ocasiões quentes sempre descem bem. Sabor presente em um homem, prazer irrecusável. E é com este sentido que minha mente mais divaga. Certas vezes não sei o que pensar do paladar, eu apenas sinto.

Todos eles são caminhos para os supostos pecados, são atrevidos. São santos! São demônios! Sempre afagando, sempre cutucando. E o que posso fazer se não me deliciar? E sofrer? E culpá-los? É tudo culpa deles, sou guiada instintivamente, permito que ajam. Não é minha culpa. Não é culpa de ninguém. Deus os criou pra nos confortar, nos satisfazer e, principalmente, nos torturar. É bom saber que a carne irá se desmanchar um dia, por tudo o que nos fez passar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!