Cuidados
1 cuidados
A única coisa que verdadeiramente eu quero, é que alguém cuide de mim de todas as formas e com todo amor.
Dor.
Dor era a única coisa que Remus Lupin era capaz de sentir nos primeiros momentos em que a lua cheia dava espaço para o sol no céu.
Com um grito agoniado, ainda bestial, ele se transforma de volta em garoto.
Garoto com ossos quebrados, pele arranhada e coração partido.
Logo os outros garotos — Remus jura que nesse momento pode chorar de felicidade ao vê-los se a dor fosse menor — também se transmutam, Peter precisando de algum auxílio, mas em questão de poucos minutos estão todos a sua volta.
Ajudando-o, dando algo que ele nunca pediu, mas sempre ansiou.
Logo ele está vestido, com James e Sirius segurando seu corpo magro e debilitado até a enfermaria da escola onde Madame Ponfrey já espera sem questionar mais.
Ela tem olhado para essa cena por tempo o suficiente.
Remus não consegue se lembrar muito bem do caminho até ali, seu corpo debilitado, dolorido e machucado precisando dos cuidados da mulher experiente. Ele não reclama quando ela o faz tomar poções de gosto ruim, muito menos quando remenda cada osso partido do seu corpo.
Mais uma vez ele deseja que ela possa remendar seu coração também, mas logo deixa o pensamento de lado.
Quando percebe, seus amigos — ele pode chorar e gritar de alegria cada vez que pensa nos três assim — já foram, cansados e com olheiras embaixo dos olhos, mas o brilho maroto ali, deixando claro para quem passar por eles pelos corredores da escola que foi por uma noite divertida e de aventura.
Se sente sozinho, mas suas pálpebras pesam e ele se vê obrigado a fechá-las, caindo em um mundo de sonhos e tranquilidade.
Remus não sabe por quanto tempo ele dorme, mas durante seu sono ele ouve a porta da enfermaria se abrindo, se mexe em seu lugar, mas não ousa acordar com seu corpo precisando desse descanso.
Logo o colchão ao seu lado afunda, e por um segundo, ele abre os olhos apenas para se deparar com um corpo canino coberto por pelos sedosos e negros.
Sirius.
Ele sorri, ainda bêbado pelo sono, se vira para o corpo menor e o abraça sentindo o animal praticamente ronronando pelo ato. Em meio a pensamentos sonolentos Remus se permite sorrir, lembrando das palavras do outro.
"Eu nunca vou te abandonar, ouviu, Moony?" Sirius fala olhando em seus olhos, mostrando toda a sua coragem gryffindor quando se transmuta mais uma vez de um cachorro preto, grande e com pelo sedoso, para um garoto bonito. "Vai precisar mais que um probleminha peludo pra te afastar da gente."
E Remus quase ouve um 'de mim'. Seu coração está batendo como louco no peito, ele quer beijar cada pedaço desse homem. Ele não consegue falar nada, mas James também está olhando para ele, olhos brilhantes por trás da lente grossa do óculos.
"Nós estaremos com você sempre. Até depois do fim." James completa, olhando nos seus olhos agora marejados. E ele só sente gratidão por ter esses três garotos em sua vida, por sua mãe o obrigar a vir para Hogwarts e por Dumbledore o aceitar.
E então ele está chorando no ombro de Sirius que o abraça, sentindo a pele esquentar pelo contato, e tem Peter e James nesse abraço também, ele consegue se sentir amado como jamais se sentiu na vida.
Outro momento vem junto desse, em uma torrente de sentimentos.
Por algum milagre Remus está fazendo seu trabalho de Astronomia com Sirius. Ele se sente inquieto, o céu está lindo essa noite, e Sirius fazendo comentários sobre as estrelas o fazem fantasiar uma cena um tanto como diferente.
Ele já apresenta sinais de cansaço, a semana de lua cheia está chegando e ele sente como se estivesse prestes a morrer, é assim toda vez.
"Sirius." Remus o chama baixo, envergonhado e se encolhendo da mesma forma que ele sempre faz quando falam do assunto de forma séria. O outro o olha confuso. "James me contou."
Agora quem tem o coração acelerado é Sirius. Será que...
"Que foi você. Você deu a ideia sobre ser animago, que você disse que seria nem que seja sozinho." O coração do moreno acelerou mais ainda, alívio correndo solto pelo sangue.
"Eu falei que faço tudo que precisar por aqueles que amo." O coração de Lupin acelerou no peito. Sirius Black havia dito que o amava, mesmo que não da mesma forma, com a mesma intensidade. Ter aquilo era muito mais do que um dia Remus imaginou, ele se sentiu grato.
Mesmo com a dor, ele sorriu, e os dois garotos ficaram olhando o céu — que um carregava o nome de uma estrela presente ali e que para o outro carregava uma maldição — com os corações acelerados, mas batendo no mesmo ritmo.
Logo que este se foi, veio outro, mais intenso, ao mesmo que doloroso.
Remus está tenso, ele está com raiva, seu corpo dói, mas não tanto quanto seu coração. Ele os machucou, ele fez o que disse que iria fazer.
Ele não queria, mas fez.
A porta se abre e Remus — como se fosse possível — se encolhe mais ainda, ele sempre avisou que não iria dar certo, que era errado, que uma hora iria dar merda.
Agora ele tinha transformado o amigo — James que era bom, James que tinha estudado mais que qualquer outro para se tornar animago, que muitas vezes pagava por comida, vestes e até mesmos livros para ele e Peter — em um monstro.
Ele deveria se matar, Remus sabia que sim, acabar com aquilo de uma vez, mas talvez o chapéu seletor não tenha escolhido sua casa direito, pois sua coragem gryffindor sumia sempre que ele tinha tais pensamentos.
Sirius estava ali, devidamente vestido, olhando com nada mais que amor e cuidado para o outro garoto que tinha a face lavada com lágrimas.
O que Sirius ainda fazia ali?
"Você não teve culpa. Pare, por favor." A voz do Black está baixa, cansada e desgastada. Antes que Lupin abrisse a boca ele continua. "James está bem, nada sério."
"Eu o transformei em um monstro. Um igual a mim" O sussurro paira pelo cômodo, tão baixo que Sirius quase não escuta.
"Animagos não podem ser transformados, não quando em sua forma animaga. Ele sabia que isso poderia acontecer desde o início, ele sabia e foi culpa dele." Remus nega e então Sirius está ao seu lado. os braços musculosos ao seu redor, o confortando, dando amor, ele está sendo segurado com tanto carinho que isso só o faz soluçar mais alto.
Sirius continua ali, aquecendo-o em seu abraço. Dando-lhe tudo que ele nunca teve coragem de pedir, mas ansiou.
E então, em um rompante de coragem ele gruda seus lábios banhados por lágrimas aos de Sirius, não é mais que um selinho, e parece tão certo, e tem tanto sentimento ali que ambos se esquecem de respirar.
Quando se separaram não tocam no assunto, nunca. Mas Sirius sussurra de como nunca mais o deixará sozinho, que irá sempre cuidar para isso não acontecer nunca mais, e que irá cuidar do lobisomem.
A lembrança vai embora, e mesmo bêbado de sono Remus se sente mal.
Mas Sirius nunca quebrou sua promessa, nenhum deles nunca mais se machucou, e depois de cada lua cheia o rapaz cuidava de si, e muitas vezes se transformando em animago para poder ficar ali com ele. Garantindo que o garoto estava descansando e se curando.
E então Remus se sente feliz, genuinamente feliz pois tem as melhores pessoas do seu lado, pessoas que o amam. Cuidam dele e o protegem de si mesmo.
Ele tem o que nunca teve coragem o suficiente para pedir e sempre ansiou: amor e pessoas que cuidam dele.
Notas finais
então, eu tinha essa ideia a mais de um ano, e ela estava lá e esses dias eu simplesmente abri o docs e escrevi novamente.
eu amei escrever essa shot, os sentimentos do remus... e eu amo escrever sobre ele, remus é um personagem tão complexo, e eu acho que ele merece todo amor. a amizade que ele construiu com os outros garotos é algo que me inspira muito.
[malfeito, feito!]
espero que vocês tenham gostado e obrigado por ler!
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