– Bom dia, Malú. A Ofélia saiu com a Tininha, parece que elas foram visitar uma amiguinha que ficou doente, o Doutor João Miguel foi ver o amigo dele, Eduardo, e a Rosa foi pra casa do Vicente. — disse ela.

– Como você sabe que eu ia perguntar isso? – perguntei.

– Você sempre pergunta se tem alguém em casa, então, eu já adiantei pra você a resposta! — disse ela.

– Pois é... Aqui minha vida é rotineira, faço sempre as mesmas coisas, nos mesmos horários. — disse pegando um pão.

O telefone tocou, Balbina foi atender, não demorou muito, ela voltou.

– Malú, é um tal de ‘Adriano’, ele quer falar com você. — disse ela.

– Por favor, não comente nada com o Médico de Loucos, está bem? – perguntei.

– Pode deixar, ele não saberá de nada. — disse ela.

– Obrigada, Balbina. Você é um amor. — disse beijando-a na bochecha.

Fui até a sala e peguei o telefone.

– Adriano! — disse eufórica.

– Malúzinha, que saudades! — disse ele.

– Eu também, Adriano, estou tão feliz em falar com você, tem um mês que eu não falo com mais ninguém, a não ser o pessoal desta casa. Eu fico boa parte do meu dia num tédio só, queria tanto poder te ver, ver a Candinha... Queria tanto poder sair um pouco, me divertir! – disse.

– Por isso que eu te liguei: Vai rolar uma festa hoje, eu quero que você vá comigo. Chamei a Rosa também, mas ela não sabe se o Vicente vai e ela disse que só vai se o Vicente for... Então eu quero muito que você vá. Eu mencionei com ela em te chamar, mas ela me disse que você está proibida de sair de casa, isto é verdade? – perguntou.

– É sim, mas eu posso dar um jeito de sair pra ir contigo à essa festa. Daí, eu aproveito e fujo daqui pra ficar com a Candinha. – disse.

– Você só está aí há um mês e já quer fugir?! O irmão da Rosa é tão ruim assim? – perguntou.

– No começo, nós brigávamos muito, mas agora não estamos brigando mais. Adriano, meu lugar não é aqui, presa sem poder sair, meu lugar é aí fora... Indo para as festas, me divertindo. Eu sentirei falta daqui, mas eu preciso ir embora, ficar com a Candinha, sair com você para as festas, como sempre fazemos. — disse.

– Olha, fique calma, relaxe, vai dar tudo certo, confie em mim. Umas 16h00, eu passo aí pra te buscar. — disse ele.

– Mas não vai ser tão fácil assim. Aqui tem os empregados que são super leais ao Médico de Loucos, e ainda nem temos um plano. – disse.

– Fique tranquila, quando eu for pra aí, eu te digo o meu plano e te tiro daí. Agora, não demonstre nada e finja que eu não te liguei, porque se descobrirem que eu te liguei, vão acabar com o nosso plano. — disse ele.

– Adriano, é melhor agora porque não tem ninguém em casa, de tarde, acho que o pessoal já vai estar aqui. – disse.

– Você já está pronta? — perguntou ele.

–Sim, estou. – disse.

– Então já estou indo te encontrar. — disse ele.

– Estou te esperando! — disse desligando o telefone.

Fui até o meu quarto. Peguei a mala que eu tinha arrumado há um mês e coloquei em cima da cama. Peguei uma foto minha e escrevi pra Tininha:

“Meu amor, me perdoe por ter te deixado, eu te amo muito, nunca se esqueça disso! Sempre guardarei os momentos que estive com você, nunca se esqueça de mim!

Obs: Isso não tem nada a ver com seu pai, não fique com raiva dele, ele te ama.

Te amo muito.

Malú.”

Pela primeira vez, eu tive dúvidas se o que eu estava fazendo era o correto, pela primeira vez eu me perguntei se eu estava realmente certa. Fiquei pensando no que a Tininha sentiria, no que a Rosa acharia, o que a Ofélia pensaria de mim, e a raiva que o Médico de Loucos sentiria, porque eu sei que ele vai ficar com muita raiva de mim.

Meus pensamentos foram interrompidos por alguém batendo na porta, coloquei a mala embaixo da cama e abri a porta.

– Malú, um amigo seu... Um tal de ‘Adriano’ está aqui. — disse Balbina.

– Pode deixar ele subir. – disse.

– Malú, não fica bem você receber um homem em seu quarto. — disse ela.

– Fique tranquila, Balbina, ele é como se fosse um irmão, e se você não contar, ninguém saberá! — disse sorrindo.

– Como você desejar, Malú. — disse ela saindo.

“Malú isso não é hora pra você ter crise de consciência, pense na Candinha. Você poderá ficar com ela o tempo que quiser, pense na Candinha.” Falei pra mim mesma.

– Malú! — disse o Adriano me abraçando.

– Adriano! Que saudades de você. — disse retribuindo o abraço.

– Já está pronta? — perguntou ele.

– Sim, estou. – disse.

– Vamos fazer assim, eu pego sua mala e levo pro meu carro, enquanto isso você vai até a cozinha e pede pra fazerem um suco pra nós. Enquanto eles fazem, você vem pro meu carro e se esconde no banco traseiro e ,assim, saímos dessa prisão! — disse ele batendo palmas como se ele fosse a pessoa mais inteligente do mundo.

– Tudo bem. – disse.

Eu peguei minha mala e entreguei pra ele. Assim que eu entreguei, ele saiu correndo e eu fui no quarto da Tininha deixar minha foto em cima da escrivaninha dela.

– Me perdoe, Tininha. — disse saindo do quarto.

Fui pra cozinha e pedi para que a Balbina fizesse os sucos e levasse no meu quarto. Fui me escondendo até o carro do Adriano, ele já estava lá, abri a porta e me escondi no banco traseiro, ele deu a partida e saímos da casa dos ‘São Romão’.