Cubra os pés

1 Capítulo Único


Camila se encontrava já totalmente adormecida em sua cama, na pequena casa que residia com seu pai, Lúcio. Desde o falecimento de sua mãe por causa de um incidente de carro a menina de nove anos passou a morar com o pai.

Era um pouco mais de uma e meia da madrugada e ambos estavam em seus respectivos quartos, entregues ao sono profundo.

Durante a noite, a garota muito se agitou em sua casa, girou de um lado para o outro. Seus pés estavam descobertos, apenas o par de meias listrada os aquecia da baixa temperatura daquela madrugada. Mergulhada em seu sono mal notou quando a meia do pé esquerdo foi retirada, a garota nem mesmo deu-se conta do que houve. Continuou dormindo muito tranquila. O pé direito também teve sua meia retirada, estavam ambos descobertos e expostos.

— Cubra os pés Camila! — A voz alta e medonha seguida por um forte puxão em suas pernas fez com que ela acordasse de imediato.

Despertada pelo surto a menina levantou-se num único pulo, os olhinhos esbugalhados deixando claro seu medo pelo que acabara de lhe acontecer. Tateou a parede até tocar no interruptor de luz e a acendeu, encontrando seu quarto do mesmo jeito de antes. Seus tantos brinquedos localizados no canto de sempre e suas Barbies juntas numa caixa rosa, separada apenas para elas.

Coçou os olhos sentindo-os pesar por causa do sono, apagou a luz de seu quarto e deitou-se outra vez. Fechando os olhos para que assim pudesse voltar a dormir.

Encolheu-se debaixo do grosso edredom e relaxou, aos poucos sentindo que o sono estava vindo. Já estava quase sonhando novamente quando suas pernas foram puxadas mais uma vez, o segundo puxão sendo bem mais forte que o anterior. Praticamente quase a tirando de sua cama.

— Cubra os pés Camila! — A voz gritou pela segunda vez, num tom mais alto. Mais medonho que antes.

Tomada pelo medo, Camila apenas encolheu-se novamente. Levando o edredom para cima para que sua cabeça fosse coberta por completo. O coração então acelerou e todo seu corpo tremeu; reações que foram causadas por seu medo.

Pensou em chamar pelo pai, ele viria para lhe ajudar e assim espantaria o monstro que estava a assombrando e puxando suas pernas. Mas como iria fazer isso quando estava com medo?

Ficou daquele mesmo jeito, encolhida como um tatu por debaixo de seu edredom florido por um bom tempo. Não teve as pernas puxadas de novo e também não ouviu a voz do monstro falar para que cobrisse os pés.

Talvez ele tenha ido embora.

Ainda que estivesse com medo, ela conseguiu reunir o pouco de coragem que poderia existir dentro de si para descobrir a cabeça. Deixou apenas os olhos assustados para fora e assim poderia olhar para o corpo. Não viu ninguém ali. Poderia então voltar a dormir.

Deitou de maneira que ficasse de frente para a porta do quarto e se manteve encolhida. Assustada demais para deixar as pernas esticadas. Ficou a fitar a porta de seu quarto esperando que o sono aparecesse e, ao fazer menção de fechar os olhos sentiu quando um peso em seu ombro.

Os olhos se arregalaram mais uma vez e seu coraçãozinho disparou de uma maneira sem igual. Os pelos de sua nuca se arrepiaram quando notou ser uma mão estranha, com garras longas e feias, o monstro estava bem atrás dela.

— Eu falei para cobrir seus pés, Camila.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!