Notas iniciais
Boa leitura!

Levanto-me, ainda com lágrimas nos olhos, e puxo o capuz para que cubra meu rosto. Começo a andar em direção à floresta.

Atravesso o rio e adentro a mata fechada. Somente alguns raios de lua se atrevem a entrar nesta região.

Vou ao grande pé de amora que fica entre as rochas e encho a bolsa que trouxe justamente para isso, afinal prometi ao meu irmão. Em seguida, caminho em direção ao lago em que Abigail e eu sempre vínhamos.

Ao chegar, me lembro de como aqui é belo e também de como ela gostava daqui, era quase nosso santuário. Grandes pinheiros emolduram o enorme espelho d’água que reflete com perfeição a lua cheia e as estrelas, uma pequena cachoeira vem completar a linda paisagem. A água é transparente e, durante o verão, é quente.

Não faz sentido nenhum o pedido dela. Estamos no começo do outono, e a água está fria. Além disso, é horrível estar aqui depois que acabei de vê-la morrer, porém eu a conhecia como a palma da minha mão. Abigail nunca faria qualquer coisa sem ter um bom motivo, ela nunca deu nenhum ponto sem nó.

Tiro minhas roupas, ficando apenas com as peças íntimas. Escondo minhas coisas entre as árvores e pulo o lago. Assim que entro, sinto a água gelada em meu corpo, fazendo-me arrepiar. A trança em meu cabelo se desfaz. Mergulho e subo algumas vezes, até que um brilho no fundo chama a minha atenção. Pego todo o ar que posso e desço para o fim do lago. Pego a pedra oval que há aqui e subo novamente. Com a pedra embaixo do braço, nado até a borda e me sento na relva.

Do nada, a pedra começa a brilhar. Um brilho de várias cores, lembrando um arco-íris, parece iluminar a noite como se fosse o próprio sol. A pedra é grande e completamente lisa, ela emite o que parece ser um ronronar baixo. Nesse ronronar, pareço escutar meu nome. Eu estendo meus dedos para a pedra e a toco.

Um calor delicioso e extremamente familiar toma conta de mim. A pedra começa a partir, retiro a mão instintivamente. Em minha palma, há uma tatuagem preta gravada na carne: uma espiral meio deformada que tem pontas no exterior e uma cabeça no meio do círculo. Não consigo descobrir mais detalhes, pois do mesmo modo que apareceu, some.

Olho novamente para a pedra, mas ela sumiu. Em seu lugar, há um monte de pedaços e um lagarto com asas, de um branco magnífico que parece refletir a luz da lua. Eu pisco algumas vezes sem conseguir entender que criatura é esta minha frente. E, então, a ficha cai.

Na minha frente, está um dos três dragões perdidos, e ele me escolheu como sua ligação, a outra parte que o completaria. Entendo o motivo de Abigail ter me mandado nadar, e o que o tenente quis dizer com ela tramando contra o rei. A lei diz que quem achar um dragão, deve ir diretamente ao rei, prestar o Juramento de Sangue. As lágrimas saem sem que eu possa fazer nada. Abigail era um dos rebeldes, e ela pagou com sua vida para fazer com que esse dragão fosse achado por mim e escondido do rei.

O dragãozinho faz um barulho que chama minha atenção e vejo-o se aproximando timidamente de mim.

Estendo minha mão, e ele abaixa a cabeça para receber o carinho. Quando o toco, outra onda de calor passa pelo meu corpo.

― Você é um menino... Acho que sou eu que devo te ajudar com o nome... O que você acha de Dracco? ― O dragãozinho faz uma careta. ― Dragoshi? ― Ele solta uma fumaça preta. ― Tudo bem, entendi. Sem nomes com “D”... Chad? ― Ele bate as asas. ― É Chad, então... Boa esc...

― O ovo está por aqui! ― Escuto uma voz masculina gritar.

― A gente conversa mais tarde.

Coloco minhas roupas o mais rápido possível. Pego a bolsa com amoras e aponto para ele entrar. O dragão não entende e começa a rolar na relva, fazendo um barulho alto.

― Eles estão vindo ― digo entredentes.

O dragão para e me encara. Sua língua está para fora, como se fosse um cachorrinho. Eu o pego no colo e o coloco dentro da sacola. Corro de volta para o palácio, escutando o barulho dos soldados atrás de mim.

Sei que eles são mais numerosos, mas eu tenho a vantagem de ser mais leve e conhecer o terreno muito melhor do que eles. Passo pelas pedras e cruzo o rio sempre deixando a sacola próxima ao meu peito.

Subo em cima da árvore que dá para a corda improvisada e a subo com uma velocidade impressionante.

Ao voltar ao meu quarto, olho de volta para a bolsa. Chad está dormindo profundamente, com o focinho pintado de roxo. Ele comeu todas as amoras do saco.

Abro um sorriso, ele é realmente um bebê. Eu o limpo e, ainda adormecido, eu o coloco em uma cama improvisada dentro do meu armário. Troco-me, destranco a porta e vou para cama.

Porém, embora meu corpo clame para descansar, minha mente não permite: toda vez que fecho os olhos, na escuridão, o par de olhos castanhos me encara de volta. Eles me dizem para fazer a coisa certa. O problema é que eu não sei o que é essa “coisa certa”.

Puxo meus joelhos contra meu peito e sinto as lágrimas rolarem. Escuto a porta do armário se abrir e, depois de alguns segundos, sinto o corpo quente do dragão contra as minhas costas. Giro-me para abraçá-lo. Seu calor é reconfortante.

***

― Luna, acorda, já é de manhã.

Abro meus olhos devagar. Assim que consigo me acostumar com a claridade, vejo o rosto de Marge. Seus olhos estão vermelhos, e seu rosto, completamente inchado. Seu nariz está escorrendo e também vermelho.

― Marge, se quiser, pode tirar o resto do dia de folga.

Ela me encara.

― Sabe o que aconteceu com Abby? ― Ela volta a chorar. Levanto-me da cama com rapidez e a abraço. Ela está tão absorta no próprio luto, que está alheia às minhas reações ou à falta delas. ― Minha pobre Abby, ela era tão nova... ― As lágrimas voltam.

Ela treme tanto, que tenho receio que ela se quebre. Suas lágrimas vão morrendo até ela se acalmar.

― Sinto muito por isso. Esse não é o tipo de comportamento que seus pais esperam de mim.

Seguro suas mãos.

― Marge, ela era sua filha. Tire o dia de folga.

Ela sorri para mim, um sorriso fraco e triste.

― Tudo bem, mas antes, irei te vestir. Seus pais estão recebendo visitas, e você já deveria estar lá embaixo toda linda.

Ela vai em direção ao armário. Uma sirene se acende em minha cabeça. Se o dragãozinho não estava na cama, ele voltou para o armário.

― Não precisa pegar minhas roupas, eu mesma farei isso ― grito enquanto me levanto e corro para perto dela.

Ela balança a cabeça, achando que eu perdi o pouco juízo que ainda me restava, e me tira do caminho.

― Se eu o fizer, sua mãe me mata. Você vai escolher ficar com calças e uma daquelas blusas que sua ela odeia.

Ela abre as portas, e meu coração acelera. Quando as portas se escancaram, solto o ar que estava prendendo. As roupas continuam fazendo como em uma cama improvisada, mas o dragão branco não está ali. Vejo a mulher fazendo uma careta com a bagunça das minhas roupas, mas passa por cima disso e pega um dos vestidos elegantes que ainda está pendurado.

― Aqui está, use este vestido. Precisa de ajuda? ― Nego com a cabeça. ― Se precisar, me chame.

Assinto e a guio porta afora.

― Tire uma folga, Marge, por favor.

― Mas...

― Isso é uma ordem ― digo.

Ela assente com um sorriso, e eu a beijo na testa. Entro no quarto novamente e tranco a porta. Chamo pelo dragão. Não escuto nenhuma resposta.

Porém, acima de mim, sinto um tipo de chamado. Olho para cima e vejo que o dragão branco está me olhando com seus olhos azul gelo, são da mesma cor que os meus. Ele duplicou de tamanho.

― Como você subiu aí? Desça já! ― sussurro, fazendo gestos.

Ele desce e fica no meu braço. Embora suas garras sejam mortais, eu não as sinto, ele tomou o cuidado de recolhê-las.

Sua cabeça roça em meu ombro e em minhas bochechas. Levanto meus dedos e acaricio sua cabeça.

Suas escamas são quentes ao toque e não são ásperas nem enrugadas.

Coloco-o na cama e começo a me vestir. O vestido que Marge me deu é de um azul-celeste, com o desenho da flor copo-de-leite, símbolo da família Areaes, bordado com pérolas.

Escondo a adaga na bota direita e arrumo o cabelo em uma trança única. Chad me observa fazer tudo isso em silêncio.

Quando eu termino, me aproximo dele e digo para esperar no quarto.

Viro as costas e escuto-o descer da cama. Olho para baixo, e ele está entre minhas pernas, me seguindo.

Abro um sorriso e o pego novamente, colocando-o de novo na cama. Aponto para o colchão.

― Você vai ficar aqui ― digo, brava, ou tentando me passar por brava.

Ele me encara por alguns segundos, então tira a língua para fora e se deita com a barriga para cima.

― Chad, fique.

Vou para a porta e a tranco.

Desço as escadas devagar, demorando-me o máximo possível para chegar até a sala de banquetes.

Assim que chego à porta, percebo que não estamos sozinhos. Gabriel Skins assim como seus pais e suas irmãs partilham da mesa conosco.

Minha mãe percebe que eu não avanço mais e me fuzila com os olhos.

― Querido... ― Minha mãe toca o braço do meu pai. ― Nossa filha chegou.

Meu pai, que está sentado de costas para mim, gira a cabeça para me encarar. Ele abre um sorriso e faz sinal para que eu avance. Caminho devagar, respirando fundo e tentando acalmar a vontade louca que estou de bater até deformar o rosto do primogênito dos Skins.

Durante o baile do ano passado, esse infeliz tentou me agarrar à força. Só não aconteceu algo pior, pois eu lhe dei um soco no rosto. Minha mãe continua brigando comigo até hoje por isso.

― Luna, este é o lorde Draken Skins. ― O homem alto, de cabelos ralos e olhos castanhos fundos, se levanta e beija minha mão.

Ele deve ter sido um bom cavaleiro em seus anos dourados, porém, agora, seus ombros estão curvados e as roupas, justas demais na barriga.

― É um prazer, senhorita.

― Digo o mesmo senhor ― repito as cortesias vazias.

― Acredito que conheça meu filho mais velho, Gabriel.

O rapaz se levanta. Seu cabelo loiro e os olhos castanhos amendoados, junto dos traços bem desenhados, do sorriso perfeito e do corpo musculoso, seriam qualidades para deixar qualquer menina caidinha, mas o nariz torto e o motivo de estar assim me deixam completamente enjoada. Ele é cortês e beija minha mão. Troco as formalidades.

Eles ainda me apresentam às filhas mais novas, Cordélia e Freya, e à mãe, uma mulher pequena com olhos pequenos e um nariz comprido. Seu cabelo é liso e completamente desprovido de volume. Suas roupas são de tons escuros, e o falcão dourado da família está bordado em cima do peito.

Do outro lado da mesa, senta-se outra família. Os Riverblack se levantam para me cumprimentar. Eu já os conheço faz tempo, o patriarca, lorde Joel Riverblack, é um dos poucos lordes decentes. Ficamos hospedados em sua casa algumas vezes enquanto viajávamos.

O filho mais velho, Alian, serve como comandante em Insignis, a capital dos Bosques Sussurrantes. Enquanto o filho mais novo, Michel, se encontra em pé na minha frente. Ele abre aquele sorriso típico, seu cabelo cacheado parece uma juba, o pente não é suficiente para domar os fios chocolates. Seus olhos são marrons, mas, dependendo da luz, chegam a ficar verdes. Ele consegue ter mais sardas do que Caleb e eu juntos.

Ele toma minha mão na dele e a beija.

― Senhorita, é um prazer revê-la.

― Obrigada, senhor.

― Ótimo. ― Minha mãe se levanta e bate palmas para chamar a atenção. ― Luna, Gabriel e Michel, uma mesa foi montada lá fora para vocês. Luna, faça o favor de levá-los até lá.

Faço uma reverência dura. Merda, merda e merda! Como fui tão lerda para não entender o jogo dela? Eles estão aqui para me cortejar. Pelos deuses, tenho que controlar cada fibra do meu corpo para não correr até meu quarto e trancar a porta. Um deles é um babaca completo, e o outro não passa de, no máximo, um “amigo”.

Mesmo assim, com toda a minha vontade de desaparecer, abro um sorriso e lhes peço para me acompanhar. Caminho devagar, com graça e postura. Eles caminham atrás de mim.

Não preciso abrir a porta para ver a mesa de três lugares montada ali na sacada. Frutas e bolos, assim como algumas bebidas, ornam a mesa, e devo confessar que o cheiro faz com que eu caminhe um pouco mais rápido.

Sento-me em uma das cadeiras. Michel, a minha direita, enquanto Gabriel senta-se a minha esquerda.

― Cavalheiros, sintam-se à vontade para comer.

Corto um pedaço de bolo.

― Luna, eu quero que saiba que estou muito feliz de estar aqui com você ― fala Michel.

― Obrigada, Mic...

As palavras ficam engasgadas na minha garganta. Sinto uma pontada de medo, e não só medo, mas todos os outros sentimentos que o acompanham. Mas o pior é que esses sentimentos não são meus. Fico em pé.

― Eu já volto ― digo para os dois.

Não espero a resposta deles, corro em direção ao meu quarto. Tenho que achar Chad.

Corro pelos corredores e, quando chego ao meu quarto, abro a porta com mais força do que necessário, porém não vejo o dragão branco ali. O desespero que preenche meu corpo dessa vez é inteiramente meu. Tenho que achá-lo antes que alguém o veja.

Tenho que me acalmar para pensar direito. Fecho os olhos e respiro fundo. Onde um dragão recém-nascido iria e ficaria com medo? A resposta vem rapidamente. Ele foi para a cozinha. Uma série de imagens passa pelos meus olhos fechados, e, quando os abro, sei exatamente onde ele está.