Notas iniciais
1º, espero que gostem.

Inspiro. Sinto a brisa do mar se entrelaçando entre meus cabelos.
Expiro. Ouço o burburinho das pessoas se divertindo na parte de baixo do navio, misturado aos passos rápidos de minha avó paterna,vindo do meu lado direito.
—Acabei de ganhar dez pratas!-Ela diz, se encostando ao meu lado na porta de vidro que dá para uma varanda, de vista para o mar.
—Ah é, vovó?-Digo fechando meu caderno de desenhos.-Como?
—Há exatos três dias,antes de virmos pra essa maldita lata velha em alto mar, apostei com seu avô que você ficaria desenhando ao invés de se divertir, como as moças da sua idade.
Eu ri, de fato, minha avó me conhece mais do que eu a mim mesma.
—Está quase na hora do jantar,Ashley.-Ela recomeça.
—Tudo bem, já estou indo.
Assisto minha avó se afastar e sair pela porta da cabine. Dou uma última olhadela para o horizonte, onde o sol acaba de se pôr e o céu ainda possui alguns vestígios roxos misturados ao azul escuro da noite se aproximando. Vendo o mar desse jeito, é como se este fosse um universo na terra.
Depois de tomar um banho rápido, faço uma careta ao olhar pro vestido decotado brilhante,estirado em minha cama.
Visto-o e retoco um pouco da minha maquiagem, calço meus sapatos de plataforma cor-de-rosa e abro a porta, com um susto.
—Ah! Pai! Qual é?!-Digo rindo.—Estava me esperando parado aí na porta há quanto tempo?
—Tempo suficiente pra saber que, em matéria de se arrumar, você é igual a sua mãe.
—Você obrigava minha mãe a vir em viajens científicas no Triângulo das Bermudas?
Meu pai revira os olhos e suspira.
—Dá pra fingir que tem interesse, pelo menos?
—Tudo bem. Mas na próxima,eu escolho o destino.
Meu pai ri e minha avó aparece por trás dele com a testa franzida.
—Vamos logo vocês dois! São mais lentos do que a idosa aqui!
Nós todos rimos e andamos pelo corredor, dobramos a direita, que dava para a recepção luxuosa e com lustres no teto,descemos as escadas de tapete vermelho vivo que davam para o convés, as piscinas, a proa e tudo mais.
Por fim, adentramos o restaurante. Exala um forte cheiro de perfumaria cara e maresia, observo meu pai se enturmar com os amigos cientistas e biólogos e logo o perco em meio a tantos ternos preto e de colarinho branco.
Olho pro lado e tomo meu segundo susto, ao ver novamente alguém de terno olhando pra mim. Desta vez, um rapaz com um terno branco, combinando com o cabelo extremamente claro e os olhos azuis cintilando com a luz dourada do navio. Sinto um ímpeto de pegar meu caderno e desenhar aqueles olhos, bem aqui, agora mesmo.
—Srtas. Frangipane?-Ele pergunta. Assinto com a cabeça.—Vocês têm uma mesa reservada, poderiam me seguir?
—Claro!-Minha avó diz, antes de mais nada.
O rapaz nos conduz até uma mesa próxima ao palco e ao buffet de queijos, ele puxa a cadeira para que minha avó se sentasse e faz o mesmo comigo.
—Devo anotar algo como pedido?-Ele pergunta, retirando um pequeno bloco e uma caneta do bolso.
—O que se pede em eventos chiques como esse?-Eu digo, esboçando um sorriso.
Ele sorri pra mim de volta.
—Sério? Então, quero um unicórnio de arroz, com o chifre de batata frita. E pra beber, champagne de arco-íris, por favor.
E então, vejo seu sorriso completo e o adoro,captando cada curva, cada pequena imperfeição que o faz ser perfeito.
—Desculpe-me, srta. Frangipane, mas hoje só temos lagosta. É um animal sem-graça, eu admito, mas prometo trazê-la com toda a magia possível.
Sorrio de volta e olho pra minha avó, que presta toda a atenção em nossa conversa. Imagino que ela esteja pensando que fiquei com algum parafuso a menos.
—Ótimo, é o que nós duas vamos querer. Certo, vovó?
Ela dá de ombros. O garçom sorri e sai em direção a cozinha.
Parece que essa viagem não está perdida, de todo.

LUCKY'S POV
Coloco o papel com o pedido anotado em cima do balcão do cheff e, como de costume, sinto sua mão pesada sobre meu ombro.
—Smith!-Ele grita. Viro-me para ver seu rosto rechonchudo contorcido de raiva.—Quantas vezes eu tenho que lhe dizer que não podemos ficar rindo e conversando com os hóspedes?!
—Muitas, senhor.-Respondo, fingindo que me importo.
—É tão complicado? Só anotar o pedido e retornar?
—Não, senhor.
—Então por que não o faz?-Eu abaixo a cabeça e não respondo. Ele me empurra pro outro lado da cozinha e continuo andando, sem olhar pra trás.
Lembro-me de que foi e provavelmente sempre será desse jeito. Eu trabalho como um cavalo em troca de quase nada, enquanto um homem gigantescamente gordo me diz o que fazer. Mas não o julgo. Se o mar está agitado, nós estamos também e se está calmo, nós dormimos em paz.
O que seria aquela garota de cabelos azuis arroxeados que me fez rir no meio do trabalho? Uma sereia que subiu à bordo? Não acho que sereias sejam gentis ou tenham avós.
Espere, o que está pensando agora, Lucky? Deve esquecê-la, não é pra caras como você.
—Ei, Lucky!-Ouço a voz de James, um dos cozinheiros e, nas horas vagas, meu melhor amigo.—Não se chateie, sabe como ele é.-James diz a última frase num sussurro.
—Estou bem. É só que...Hoje, em especial, acordei com um pressentimento ruim.
—Você e seus pressentimentos ruins.-Ele responde, colocando temperos numa frigideira.—Relaxe, estamos em território de alienígenas, navios afundados e aviões caídos mas não acho que os fantasmas não apreciem uma boa comida!
Eu sorrio, novamente e, consequentemente, o cheff grita meu sobrenome.

ASHLEY'S POV
—Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao primeiro navio com revestimento capaz de suportar um nocaute de uma baleia azul, o único com armadura, sistema impenetrável e flutuamento estável, o primeiro a atravessar o Triângulo das Bermudas sem nenhum balanço, o indestrutível, S.S. Titã!
Ouço um homem de quepe na cabeça anunciar ao microfone, logo depois, os aplausos.
—Sei que nomes renomados do mundo científico estão aqui nessa noite, para tirar a prova de que faremos a travessia do triângulo totalmente vivos e...Se me permitem dizer, meus caros companheiros: Vocês estão dentro da prova!
Aplausos novamente.
—Começaremos a contagem regressiva da hora em que estaremos no centro do triângulo, às seis horas da manhã, e é claro, para esperarmos esse evento colossal...Música, maestro.-O homem aponta para seu lado direito e um holofote vai direto para um outro homem de terno e uma orquestra. No mesmo instante, a música reverbera por todo o local.
Depois de ter certeza de que minha avó ficaria bem sozinha, eu acabo de comer a lagosta, me levanto e saio do restaurante, desviando de algumas pessoas, ando até a proa e me encosto na sacada.
Inspiro. Vejo a lua ainda no alto, as estrelas brilhando ao seu redor, como súditas.
Expiro. Me lembro daqueles olhos.


Acordo e vejo as horas no celular. Cinco minutos para estarmos no centro do triângulo.
Sento-me com as pernas para fora na cama de solteiro da cabine, olho para a cama maior a minha frente e escuto minha avó roncando tranquilamente. Me seguro para não rir.
Fico em pé cautelosamente e ando até o pequeno banheiro. Olho-me no espelho e vejo minhas sardas espalhadas sobre o nariz e a bochecha. Jogo um pouco de água no rosto e lembro-me de que meu pai ainda está no restaurante.
Viro-me para voltar pra cama mas, com um solavanco pro lado, eu caio de costas para o vaso sanitário.
Mas o que diabos é isso? Não só eu caí, como tudo começou a pender para o lado esquerdo.
Não demora muito e ouço o vidro sendo estilhaçado, a cama com minha avó começa a ir pro lado onde tudo deve estar caindo e minha avó está apenas acordando.
Sem pensar duas vezes, lanço meu corpo pra frente, me seguro na pia e no batente da porta e escalo o carpete do banheiro até a cabine.
Logo que saio do banheiro, sinto o vento bagunçando meus cabelos, olho rapidamente pro lado e vejo o mar se aproximando pelo vidro quebrado e a varanda sendo alagada.
O navio está afundando.
Solto um grito agudo e me jogo pro lado da cama que está caindo pro lado, alcanço o braço flácido de minha avó e a puxo pra mim.
A cama passa a toda velocidade do meu lado e então é arremessada pra fora do navio.
Minha avó olha pra mim com espanto. Eu passo meu braço ao redor do corpo dela e começo a escalar a cabine em direção a porta, o mais rápido que posso.
Mordo o lábio, é preciso fazer força por duas pessoas no momento. Finco minhas mãos no carpete e logo vejo os filetes de sangue se esvaindo das minhas unhas.
Empurro minha avó pra cima e finco minha mão livre novamente no carpete, urro de dor e tento ingnorar os gritos vindos das outras partes do navio.
Finalmente, com a mão machucada, empurro a porta da cabine e jogo minha avó pro corredor. Ela se levanta e me ajuda a levantar.
Quando me vejo em pé, corro com uma das pernas mais alta que a outra, quando chego na recepção, o que vejo é o cáos.
Pessoas se pendurando nos corrimões das escadas, caem como formigas na água, as luzes piscam e há fios de energia caídos por toda parte.
De repente, sou empurrada por alguém em desespero e logo depois, empurrada novamente.
—MULHERES E CRIANÇAS NOS BOTES, MULHERES E CRIANÇAS NOS BOTES!-Alguém diz. Passo o braço de minha avó sobre meu pescoço e corro com ela, seguindo quem dissera isso.
Pouco depois, o homem com quepe fica entre uma escotilha e o navio sendo afundado.
—O QUE ACONTECEU?-Eu grito pra ele.
—NÃO SABEMOS DE ABSOLUTAMENTE NADA, NINGUÉM SABE!
Dito isso, ouço um baque surdo e eu e minha avó somos arremessadas pra baixo. Olho pra trás e a água começa a se aproximar.
—VAMOS, VAMOS!-O homem grita, estendendo a mão.
Empurro minha avó na direção dele e me seguro em qualquer falha que encontro no chão. Passar minha avó pela escotilha parece levar a eternidade.
Olho pra trás novamente, estou literalementre entre a vida e a morte. A água chega quase a meus pés e a escotilha vai se tornando mais próxima. Fecho os olhos.
Sou puxada pelos braços, num segundo, me vejo pra fora do navio. Em pé na carapuça de verro pintada de branco, olho bra baixo e vejo um bote com minha avó e outras mulheres. alguém coloca um colete sobre meu peito.
—PULE!
Eu obedeço. Não há chuva e o mar não está em fúria. Está tudo uma calmaria e isso é o mais assustador.
Dentro do bote, aperto a mão de minha avó e ela aperta de volta.
Outra pessoa pula pra dentro do bote e quando me dou conta, estou totalmente submersa, no mar escuro.
Eu vejo a luz se afastanto, não consigo respirar.
Não consigo nadar pra cima e tudo o que vejo a meu lado são corpos de pessoas que não conseguiram.
Eu não quero ser uma delas, não quero.
Vejo minhas mãos a minha frente, tentando alcançar a luz. O sal marinho faz com que meus machucados ardam, mordo o lábio fortemente e logo minha boca é inundada pelo meu próprio sangue.
Sou consumida pela água congelante, algo aperta minhas pernas e sou arrastada pra baixo por uma força que não compreendo.