Notas iniciais
Primeiramente: FELIZ ANO NOVO E FELIZ NATAL PRA TODO MUNDO, SEUS DIVOS!!! Segundamente: Não me matem! Assassinato ainda é crime, okay? Eu sei que to atrasada pra caramba, peço mil perdões por isso. Esse cap está pronto a quase um mês, mas sem internet fica impossível de postar, e final de ano pra mim é sempre uma correria. Espero que tenha valido a espera. -q

Ela aspirou o ar, sentindo os olhos sobre si. Imediatamente, puxou uma flecha e colocou-a no arco, mantendo-a apontada para o chão, enquanto vigiava tudo ao seu redor.

Selene sempre sabia quando estavam observando-a. Estava na estrada a tantos anos que era-lhe fácil perceber quando era seguida. Achava incrível como essa gente fazia questão de ignorar o quanto ela podia ser letal.

Suas orelhas pontudas captaram um ruído a alguma distância e girou instantaneamente em tal direção, nem fazendo questão de ver quem estava por lá. A flecha silvou, cortando o ar, e em seguida o barulho dela raspando as folhagens foi ouvido.

Havia errado

— Maldição! — xingou baixo, os olhos violetas piscando com descrença. Só faltava-lhe essa, ter que lidar com caçadores enquanto ia visitá-lo. Fazia quantos anos mesmo que buscara-o pela última vez? Bem antes de tornar-se a Rainha de Copas, sem sombra de dúvidas. Não fosse pelo desejo concedido por Lidrin, que mexera com sua energia vital e afetara sua alma, nem ao menos lembraria daquela pessoa.

Ela podia ter usado seu único desejo com tanta coisa, mas a primeira ideia que passara-lhe pela cabeça, após o fracasso em curar Anne, fora referente a uma certa vítima de suas chamas. Não queria assumir para tal pessoa – nem mesmo para sua filha – o que fizera, mas quando fora à sua presença pedir desculpas, ela sentira o cheiro da magia djinn à distância.

Gravor havia feito um ótimo trabalho escoltando-a até os aposentos privados da Grã-duquesa Oliver, mesmo depois das ameaças de meia dúzia de serviçais e do próprio Grão-duque. Selene pensara que o homem ia picá-la em um milhão de pedaços só com o olhar. Naturalmente, isso seria o bastante para ela incinerá-lo pela ousadia, mas estava ali para resolver as coisas, não para piorá-las.

Quando ficou frente a frente com a mulher, no entanto, Selene desabou.

A parte queimada de seu rosto estava muito menor, é claro, cicatrizada. Ainda assim, o que restara da ferida maculava o belo rosto a sua frente. Foi impossível não encará-la, e por consequência, o tapa que viera em direção ao seu rosto não pôde ser evitado. Selene engoliu o orgulho, trincando os dentes, forçando-se a não revidar, algo que para ela era um hábito. Um segundo tapa estalou do outro lado do rosto, e ela não moveu um músculo sequer.

Gravor parecia chocado, pobrezinho. Ele deu um passo a frente pensando em parar aquela agressão, sem saber do lado de quem ficar. Sabia que a duquesa tinha todas as razões do mundo para continuar, mas também tinha noção do quanto estava sendo humilhante – e doloroso – para a sua contraparte manter-se em tal situação.

Selene meneou a cabeça, em negativa, esperava que ele tivesse o bom-senso de permanecer onde estava. Seu rosto estava em brasa nos lugares estapeados. Suspirou profundamente e ergueu-o, encontrando os olhos marejados da mulher a sua frente. Era tão bonita… a culpa corroeu mais um pouco, sufocou-a por um segundo.

— Skylar contou-me o que está acontecendo. — a voz da mãe de Trixia saiu controlada, embora seu corpo treme-se involuntariamente. — Eu sei… sei que não foi proposital.

Ela não respondeu. Não conseguia pensar em nada para dizer, então apenas silenciou-se, esperando que a outra prossegui-se.

Viu quando a grã-duquesa trocou um olhar com Gravor e aproximou-se mais alguns passos. — Não pense que ignoro o que está em jogo aqui. Não devo colocar meu ego na frente do mundo… não o farei… mas percebes o que fez a mim?

A elfa assentiu com a cabeça, deixando o corpo cair sobre o piso gelado, ajoelhada. As mãos apoiaram-se no chão e ela abaixou a cabeça, erguendo finalmente a voz. — Não posso pedir perdão. Não tenho esse direito… o que eu fiz não tem retorno. As pessoas que feri… você, a quem causei tanto sofrimento… jamais aceitariam minhas desculpas. Eu lamento… eu realmente lamento tanto, tanto… — uma lágrima teimou em rolar pelo seu rosto, e mais algumas, e droga! Ela já não conseguia mais impedir que caíssem. — Eu nunca quis feri-la. Peço desculpas, mesmo que eu não mereça…

— Eu não sou tão cruel a ponto de ignorar sua culpa. Infelizmente, também não sou suficientemente boa para desculpá-la completamente. Essas marcas… — e ela tocou o rosto mutilado, com a ponta dos dedos. — Estarão aqui pelo resto da minha vida, e não poderei jamais esquecer. — abaixou a outra mão para que Selene segura-se, e quando esta o fez, ainda com o rosto marcado e sem entender muito bem o que viria a seguir, ajudou-a a levantar-se. — Eu sinto seu arrependimento. Eu tenho um palpite sobre o que tentou fazer para me compensar, e agradeço pela tentativa, ainda que não tenha sido totalmente eficaz.

Selene piscou os olhos, passando a mão livre por eles para tentar secar as lágrimas, julgando que estava patética o bastante. A grande Rainha de Copas, fria e desagradável, chegando àquele ponto? Céus… a mudança era assustadora. Outrora, antes que encontrasse a Justice Blade, mesmo que seu íntimo fosse devastado pela culpa, ela jamais faria o que acabara de fazer. — Eu…

— Poupe-me. Está difícil o bastante para nós duas continuarmos com essa discussão. — a dama fez um sinal para que ela se cala-se, respirando profundamente. Seus olhos também estavam avermelhados de choro, e a única coisa que a mantinha tão nobre era uma extrema força de vontade. Selene sabia que, quando se separassem, a mulher desabaria nos braços do marido e as lágrimas não parariam até a próxima manhã. — Ainda quer me compensar?

— Nada que eu faça poderia compensá-la totalmente.

— De fato, não. — a duquesa soltou a mão da elfa, agora cruzando os braços, como quem afasta o frio. — Ainda assim… — seus olhos foram em direção a Gravor novamente. — Minha menina… ela cresceu e se envolveu em algo muito maior que ela. E sei que não posso ajudá-la, que essa jornada Trixia precisará trilhar apenas convosco.

Selene fechou momentaneamente os olhos, já sabendo o que ela pediria em seguida.

— Cuide de minha filha enquanto estiver com ela. Proteja-a enquanto essa missão durar, e minha gratidão será eterna.

A elfa reabriu os olhos, encarando a Grã-duquesa Oliver por algum tempo, antes de concordar com a cabeça. — Isso eu posso fazer.

É claro que ela não pensara nas milhares de coisas que poderiam dar errado com ambas, ao aceitar aquela tarefa. Duvidava que conseguisse dizer não àquela mulher naquele instante, contudo. E, bem… até que bancar a guardiã de uma shifter pantera não soava algo ruim. Ela poderia estar presa a alguma criatura medíocre que mal saberia usar uma adaga. Ao menos Trixia sabia se defender, e muito bem por sinal.

Forçou-se a dispensar seus pensamentos aleatórios. Estava sendo seguida, e se continuasse tão distraída…

Algo foi lançado contra ela, causando um talho em sua face. Com o canto dos olhos, vislumbrou uma flecha enterrada no solo atrás de si.

Ah… eles tinham mesmo a ousadia de querer entrar em uma competição de tiro ao alvo com ela? A ideia a fez sorrir maliciosamente. Já fazia algum tempo que suas linhas não arrancavam fora a cabeça de um engraçadinho.

Retirou outra flecha da aljava e soprou sobre a sua ponta. Uma pequena chama acendeu-se, e Selene ficou absolutamente parada, sem mexer um músculo sequer. Mais barulhos chegaram a sua audição, e então ela captou um ruído diferente, vindo de um local oposto. Atirou pela segunda vez, a flecha deixando um rastro fervente em sua passagem, caindo em um certo ponto da mata e instantaneamente explodindo em um escarcéu de chamas. Só então, ela viu eu inimigo: um caçador solitário, usando-se de capuz e túnica de cores neutras. Os dois se encararam por um segundo, e ela viu quando ele endireitou a besta que carregava para alvejá-la. Suas mãos eram cobertas por grossas luvas, com símbolos estranhos circundando-as, possivelmente runas antigas.

Uma vozinha irritante despertou em seu cérebro, criticando-a por não conseguir se lembrar do porquê aquilo era-lhe familiar. Era algo importante, sem dúvida, mas a elfa estava mais preocupada em fugir dos disparos, recuando e respondendo com uma sequência de flechas, atirada em alta velocidade.

Ela teria progredido assim, caso sua mão não tivesse tocado a aljava vazia. — Merda.

Rolou pelo chão, preparando-se para levar a luta ao corpo a corpo. Ela tinha o fogo ao seu favor, é claro, mas tão distante como estava de Gravor, preferia não contar cem por cento com ele. Sua Chave também estava em segurança, mas precaução nunca era demais. Felizmente para ela, os dardos dele também tinham findado, e chegar até o desconhecido seria bem mais simples desse jeito.

Guardou o arco, prendendo-o às costas e calçou suas próprias luvas, mantendo o carretel com a sua infame linha bem atado a cintura, de forma que pudesse alcançá-lo facilmente a qualquer momento. Seu rival não moveu-se. Ela poderia não saber de quem se tratava, mas sem sombra de dúvida ele a conhecia. Deveria ter noção de que não podia chegar muito perto, ou correria perigo.

Aproveitando-se da hesitação dele, partiu para cima atacando-o com chutes e socos. O desgraçado era, contudo, igualmente rápido para desviar. Ele recuou o bastante para que conseguisse um tempo para puxar a própria luva e…

Selene viu as mãos cobertas de outro tipo de runa, como tatuagens que lembravam veias sob a pele, muito mais escuras que o normal. E lembrou-se quem tinha aquelas características, o que fez com que ela joga-se o corpo para trás antes que aquelas extremidades tocassem nela. Ainda assim, a manobra evasiva causou-lhe mais problemas do que uma solução, afinal seu pé escorregou pela camada de matéria morta sobre o chão, fazendo-a perder o equilíbrio.

Conseguira evitar o primeiro golpe, mirando sua garganta, que com toda certeza a mataria, mas o segundo acertou superficialmente seu flanco direito, enquanto ainda lutava para por-se de pé novamente. A dor de milhares de bactérias comendo sua pele despontou do local, e ela grunhiu, chutando o peito de seu agressor, lançando-o longe. Ergueu-se rapidamente, visualizando o estrago. Uma marca de mão era visível no local atingido, como num agarrão. A pele estava necrosada, começando a decompor-se, uma visão desagradável. Uma dormência tão alarmante quanto a ferida espalhava-se daquele local, e a elfa teve a certeza de que, se não enfia-se uma lâmina ali e cortasse fora aquele pedaço de pele, logo se alastraria para a carne, tecidos e afins… e ai seria muito tarde para fazer alguma coisa.

Por um momento abençoou todo o seu sangue frio. Com velocidade surpreendente para ela mesma, agarrou uma faca que mantinha guardada em meio às suas vestes e enfiou-a com precisão um centímetro acima do local doente. A pontada de dor fez com que estremecesse, e com o canto dos olhos vislumbrou seu inimigo aproximando-se rapidamente.

Forçou-se a esquecer o ferimento por hora. Quanto antes acabasse com aquela pedra no sapato, melhor… assim poderia ao menos medicar-se em paz. Retirando a adaga, deu um passo para trás e girou o corpo, escapando por pouco de outro toque. A perna direita levantou e ela girou o tronco para desferir-lhe outro chute. Ele desviou, atacando com a mão novamente. Selene ignorou a pontada de dor que surgiu por causa de seus movimentos impetuosos e ergueu a mão que estava vazia para aparar a dele. Era-lhe uma sorte que usasse luvas especiais quando manipulava suas linhas, ou teria perdido o membro.

— Você é bem durona. Não é a toa que sobreviveu por tantas décadas.

— Pessoas como eu tem de ser. — ela sibilou, estreitando os olhos. O flanco latejava acima do ponto dormente, o que era muito desconfortável. — Não imaginava encontrá-lo pessoalmente, Toque Mortífero.

Uma verdade sobre a chamada Era dos Caçadores: Não eram apenas os grupos de mercenários que faziam fortuna. Eventualmente, quando a recompensa sobre uma cabeça era deveras lucrativa, pessoas comuns e até mesmo outros criminosos tendiam a tentar consegui-la. Aquele homem era o exemplo de um desses últimos. Ele próprio estava com a cabeça a prêmio, isso porquê especializara-se – ou fora amaldiçoado, ninguém sabia ao certo – em decompor suas vítimas até não restar quase nada. Seu toque era letal, e como ninguém sabia seu nome, foi apelidado com a habilidade que tanto prezava.

Se eram as pessoas que não tinham muita criatividade ou se o termo “mãos que matam” não podia ser usado como nome, o fato era que aquele Nome era mencionado a tempo suficiente para chamar a atenção da Justice Blade. Ainda assim, o caso Red Eyes ganhou prioridade, e Selene, com tantas coisas mais importantes em sua cabeça para pensar, simplesmente esquecera-se dele.

— Eu deveria ficar ofendido ou aliviado com isso, Rainha de Copas?

— Não vai fazer diferença. Se continuar a me atrapalhar, você não vai viver por muito mais tempo. — ela soltou a mão ganhando distância novamente. Luta corpo a corpo uma ova! Se encostasse sem pensar em qualquer parte da pele mortífera daquele cara, estava perdida. A área do flanco ficava cada vez mais dormente… não tinha tempo para caçá-lo devidamente.

— Não me leve a mal, elfa. Por mais que sua fama seja merecida, estou disposto a levar sua bela cabeça para algum lugar que esteja disposto a trocar um salvo-conduto por ela. Quanto ao resto do seu corpo… ainda estou pensando no que fazer com ele. Talvez eu não precise decompô-lo totalmente para matá-la, o que seria muito, muito bom… — um sorriso malicioso surgiu nos lábios dele. O capuz ainda cobria boa parte de suas feições, mas a boca… ela ficava bem a mostra, e aquele sorriso pervertido inflamou aquela parte de Selene que jamais deveria ser acordada. — Estou curioso… ouvi falar que seus amiguinhos de time controlam elementos, que você é uma mestra do fogo… mas bem, uma flechinha incendiária não me parece um bom motivo de orgulho.

— Não vou gastar minhas chamas com um verme como você. — Selene assumiu sua expressão fria, aquela que tornara-se habitual para ela. A mesma que fazia as suas presas congelarem no lugar. — Se sabe tanto sobre mim, imagino que entenda porque sou chamada de Rainha de Copas.

— Por causa das cabeças decepadas. — a malícia desapareceu, os lábios franzindo-se em sinal de descrença. — Se acha que usar essa faquinha contra mim vai fazer alguma diferença, pode tentar! Mas, veja bem… da próxima vez que se aproximar, será o fim para você.

— Quem foi que disse que preciso me aproximar? — Selene ergueu uma sobrancelha, com desdém, a adaga que usara para tentar arrancar a própria pele girando entre seus dedos. — E quem foi que disse que eu degolo minhas presas com esta lâmina?

O homem não teve tempo nem de compreender as implicações do que fora dito. Viu a rival movimentar suavemente a mão que antes segurava a dele, e no segundo seguinte seu membro havia deslocado-se do braço e caído ao chão. A dor explodiu, e ele automaticamente levou o toco para perto do peito, passando o outro braço por ele, pressionando para deter a hemorragia. Seu sangue era de um vermelho muito escuro, quase marrom, estranho. Seus olhos captaram alguns brilhos fracos ao seu redor, como quando a luz encontra uma teia de aranha… Aquelas eram linhas?

Um chute vindo de cima fez com que ajoelha-se e caísse para frente. Seu pescoço ficou muito próximo de um daqueles fios de aparência bela, mas que causavam-lhe nervoso. Como ela arrancara fora sua mão, como…?

Um pé pressionou-o mais para baixo, a linha pressionada contra sua garganta, deixando escorrer um filete de sangue. Eram as linhas…

Eram aquelas malditas linhas!

— Normalmente eu faria com que sofresse por cada pessoa que matou, por cada ofensa que me fez e por cada vez que se orgulhou de ter veneno correndo nas veias, mas não tenho tempo para isso agora. Fique feliz… sua morte será mais rápida do que merece.

— Sua vagabunda filha da…

E a linha subiu ainda mais.

Dor, seguida de escuridão…

Mais nada.

Algum tempo depois, Selene caminhava por uma campina ensolarada. Mexia-se de maneira lenta, para não abrir novamente a ferida em seu flanco, cuja pele tinha sido retirada na base da ignorância. Aquilo estava doendo desgraçadamente, e ela teve a plena certeza de que rumaria para o ponto de encontro tão logo resolvesse o que precisava. E que aquela dor a acompanharia por todo o longo caminho.

Praguejou.

Havia roubado o manto com capuz do infeliz que tinha cruzado seu caminho, o que escondia muito bem suas peculiaridades, mantendo-a protegida dos olhos curiosos, das pessoas que gostariam também de caçá-la. Como adicional à mochila surrada, sua aljava e seu arco, levava debaixo do braço um recipiente cilíndrico e transparente, onde boiava o par de olhos mais estranho que já vira. A esclera era negra, a retina tinha a forma de um losango vermelho e a íris possuía uma coloração bizarra, sendo preenchida por uma cor diferente em cada canto limitado pelas bordas do losango: dourada, prateada, cobre e cinza.

Deveria ser por causa daqueles olhos que Toque Mortífero fazia tanta questão de usar capuz. Eram reconhecíveis até pela criatura mais desinformada de Meroé. Mais tarde pesquisaria sobre o assunto… aqueles definitivamente não eram olhos de um ser “normal”.

Ela pisava sobre o tapete de dentes-de-leão que crescera ali, ocasionalmente levantando nuvens brancas. Apesar da dor e do cansaço, seus pés só detiveram-se quando uma colina coroada com um túmulo entrou em seu campo de visão. Arfou como se tivesse levado um golpe no peito, uma facada. Pelo tempo, não deveria ter muito mais que ossos enterrados ali embaixo, então por que suas pernas tremiam tanto?

Ditou mentalmente aos seus membros inferiores o que deveriam fazer, e viu-se subindo a colina. Um passo após o outro, e encontrou-se no topo. As pernas cederam, os joelhos tocaram o solo e ela ficou assim, ajoelhada, à distância de um braço da pedra polida. Ergueu-o, tateando-a com a ponta dos dedos, como se fosse um rosto. Flashes dançaram pela sua memória, cenas de sangue, gritos e agonia.

— Eu lamento…

Achou que estava lamentando muito nos últimos tempos. Não se preocupou com isso, contudo.

— Lamento não me lembrar de seu nome. Lamento não ter chegado a tempo. Lamento não ter sido tudo o que prometi ser, feito tudo o que jurei fazer. Lamento, mas terei de seguir em frente. — sua mão livre buscou uma das flores abaixo dela. Selene segurou o cabo do dente-de-leão entre os dedos, observando suas sementes, pensando como lembravam flocos de neve. Quando soprou as partículas pálidas em direção à sepultura, descobriu-se sorrindo.

— E é chegada a hora… para o fim dos jogos e das mentiras. — proclamou, num tom mais baixo, enquanto esforçava-se para por-se de pé novamente. Os olhos lilases fitaram a pedra. — É o momento de ser mais que uma arma. Deseje-me sorte, meu antigo amor…

Pois meu coração ainda hesita…

oOo

Skylar passara muito tempo observando a vila onde morara, nos tempos de outrora, com seus pais e irmãs. Não sabia realmente o que o levara até ali. Deveria ter ido em busca dos pais adotivos, mas seu corpo tomara outro rumo. E isso era perigoso, porque com a raiva que tinha daquela gente, poderia muito bem ter um banquete farto até o final do dia.

Respirou lentamente por alguns minutos, trincando os dentes. Seu olho inexistente coçava, e ele levantou a mão para tocar o tapa-olho. Ele era uma fera que não fazia prisoneiros. Se descesse até lá, as consequências seriam imprevisíveis.

Contudo… por causa daquele povoado, ele ficara órfão. E perdera um olho. E eventualmente tinha pesadelos ruins envolvendo fogo e pedaços de pau.

Sky acocorou-se, jogando o peso do corpo nas pernas e tocando o chão com a ponta dos dedos. Vingança era um prato que se comia frio, não é mesmo? E aquela, em especial, teria um gosto agridoce.

— Se eu fosse você, não faria isso.

A voz vinda de trás dele fez com que todos os seus instintos entrassem em alerta. Um cheiro ligeiramente familiar preencheu seu olfato, e o shifter fungou, colocando-se de pé agilmente e puxando o bastão das costas, apontando para o indivíduo que o encarava. Alguém que usava um casaco longo e escuro para cobrir boa parte do corpo, uma cartola que escondia muito de seu rosto e uma bengala para apoiar o próprio peso.

Quem, por todos os deuses, era aquele cara?

— O que raios você quer?

— Jurava que ia perguntar quem sou primeiro, suas prioridades são estranhas. — Um sorriso de raposa surgiu, enquanto o homem tirava a cartola. Aquele rosto… não, não fazia sentido. O cheiro era muito parecido, mas não igual. Fedia a maldições divinas e servos de Hildin. Mas Sky não se enganava com seu olfato, e aquele não era o cheiro da pessoa que veio-lhe imediatamente a cabeça.

— Não importa. Com um cheiro desses, deve ser outro traidorzinho miserável.

— Desse jeito você me ofende. — ele fixou os olhos de cor indefinida na cartola, fazendo-a girar entre seus dois dedos indicadores. — Eu não sou muito adepto a brigas, prefiro evitá-las. Estou aqui apenas para dialogar.

— Não vou dialogar com alguém como você.

— Alguém como eu? Nem sabe minha verdadeira identidade, eu poderia ser qualquer um.

— É exatamente por essa razão que prefiro não dar ouvidos a essa sua lábia… seja quem for.

A cartola interrompeu seu giro, e o sorriso naquele rosto estranhamente familiar vacilou. — É o que eu ganho por simpatizar com a causa alheia. Chegou a questionar aos dois jovenzinhos quem ajudou-os a escapar do esconderijo?

Era uma frase um tanto aleatória, mas Sky percebeu seu significado. Com jovenzinhos, o homem referia-se a…

— Ryan e Anne… mencionaram que foram ajudados por algumas pessoas. Inclusive um desconhecido portando cartola e bengala… — ele estreitou seu único olho. Mesmo sabendo daquilo, não parecia confiar nele. — Quem afinal de contas é você?

— Até que enfim! — ele recolocou seu adereço de cabeça e bateu as palmas das mãos, sem soltar a bengala. — Sou apenas um bem feitor de passagem!

— Isso soa irritantemente mentiroso!

— Uma lástima, afinal em parte é uma verdade indiscutível. — agora ele segurava o pedaço de madeira em que se apoiava no meio, e apontou-o para a frente para dar uma breve batida contra o bastão de Skylar. — É sério, não vai abaixar isso? Posso garantir que sou muito confiável.

O shifter voltou a fungar, rosnando em seguida. O outro pareceu aceitar a ameaça, dando um passo para trás. — Vai precisar de mais do que seu carisma para que eu abaixe a guarda perto de uma Cria de Hildin.

— Justo. Aposto que já teve problemas com uma, antes.

— Obviamente. Vou perguntar mais uma vez, e espero que me responda com sinceridade: Quem é você, afinal?

— Quem? — o sorriso voltou. — Acho que o mais relevante aqui é… o que eu sou. Diga-me, o que aquela manipuladora da Nyele disse a você sobre os Guardiões das Chaves Principado?

A fúria no olhar de Skylar suavizou-se, e ele baixou o bastão, absolutamente surpreso. — Não pode ser. Não me diga que você é…

— O desertor. Oficialmente conhecido como Guardião da Chave Principado da Terra. Extraoficialmente, pai do rapaz que lhes causa tanta dor de cabeça.

O ruivo deixou seu queixo cair, encarando-o com perplexidade, seu único olho arregalado. Sacudiu violentamente a cabeça, tentando com muito custo achar algo que pudesse responder àquilo, sem sucesso.

— É… não sei a quem que ele puxou. Diria que foi à mãe, mas ela é uma humana adorável…

— É uma piada?

— De forma alguma. Veja, eu nem estou rindo.

Skylar reparou em duas coisas: Primeira, aquele cara era irritantemente parecido com Nyx e Loke, com aquelas frases prontas que sempre zombavam dele. Segunda, seja lá o que ele tinha para dizer, não queria saber.

— Você está gastando meu pouco tempo, não pode simplesmente ir embora, já que diz ser um bem feitor?

— Não. Até porquê, se eu não tivesse impedido-o, daqui a algumas horas estaria arrependendo-se pelo resto da vida. — a boca dele crispou-se em melancolia. Ou parecia-se muito com melancolia, pelo menos.

— Você só pode estar brincando! Por que você não vai tentar resolver os problemas que seu filho causa em vez de cuidar da minha vida?

— Por pior que aquela mentezinha criminosa tenha florescido, continua sendo meu filho. Se eu brigar com ele, posso acabar matando-o ou aleijando-o sem ter essa intenção, e sou imortal… não quero ter que conviver com essa culpa. — estranhamente, o homem parecia bem sincero. Ele deu alguns passos para frente, diminuindo a distância entre os dois. — Você, por outro lado, persegue algo como vingança… que não vai trazer-lhe satisfação alguma, assim como mergulhar Meroé no caos não trará satisfação total a Loke.

— Não me compare com aquela cobra!

— Não estou comparando. Perceba, é por causa de trapaceiros como ele, dos inocentes que são envolvidos em suas tramoias e acabam sofrendo, que você está lutando agora. Eu imagino, pelo menos… ou talvez seja apenas para se ver livre da preocupação que Pesadelo causa. — Sky abriu a boca para protestar, mas o homem não deixou. — O que quero dizer é que há inocentes lá em baixo. Inocentes como sua família era, desprotegidos contra a fúria da fera que você guarda dentro de si. Boa parte daqueles que o feriram já envelheceram ou foram levados por Surm. Se você atacar uma vila assim, sem pesar as consequências, não se sentirá culpado mais tarde?

Aquele rosnado baixo explodiu mais uma vez no peito de Skylar, mas ele não conseguiu responder. Parecia que tinham dado um nó em sua garganta. Ele não pensara nisso… sua sede por vingança as vezes tornava-o cego, como se tivesse perdido ambos os olhos.

— É claro — o desertor prosseguiu — que você pode buscar, um por um, seus algozes. Sobre isso, não darei nenhuma opinião.

— Não te pedi opiniões, para começo de conversa.

— Mas isso levaria muito tempo. — e lá ia ele, ignorando-o novamente. — E como você afirmou tão categoricamente mais cedo, não tem tanto tempo assim sobrando. Enfim, aproveite sua liberdade de escolha e faça como quiser!

— Não tem isso de “liberdade de escolha”, homem. Certas coisas não devem ser feitas.

— E você entende muito bem disso, não é mesmo, Skylar? — e, pela primeira vez, ele disse seu nome. E a compreensão de que aquele ser sabia demais sobre ele, atingiu o shifter como um raio. — Bom… não vim para julgar nem para ser julgado. Só estou de passagem por essas paragens, não faz muito tempo que deixei Hathea depois de incendiar a mansão de uma certa… dama. Apenas achei que poupar a vida de crianças inocentes poderia fazer valer meu dia, quem sabe?

O rosnado voltou, mais insistente do que antes. — Está começando a me irritar, deveria ir em frente antes que eu decida jantar você.

— Seria muito divertido, mas infelizmente para nós, sou imortal. — o sorriso murchou de vez, e o ex-guardião olhou para o céu do entardecer. — Não tenho essa liberdade que vocês partilham, de poder morrer quando bem entender.

Sky pensou em alegar que “não se morria quando queria” como o homem sugerira, mas desistiu de insistir no assunto. Já estava farto dele. Poderia agradecê-lo por impedi-lo de fazer uma bobagem, mas o desertor era irritante demais para isso. — Você parece ter uma fixação pela ideia de “liberdade”.

— Sabe… talvez seja meio tarde para dizer isso, nessa altura do jogo… mas tudo gira em torno da questão “liberdade”. Pesadelo tenta obtê-la. Os habitantes de Ragadash negociaram a prisão do criminoso por ela, mas foram ludibriados. Os Guardiões anseiam por ela. Eu fui o único… aliás, o primeiro dos Seis que conseguiu fugir, e em troca da minha “liberdade” uma Chave Principado foi perdida… e arrisco dizer que boa parte desse problema começou. No fim, é por ela que vocês, Relicários, estão envolvidos nisso tudo.

— É por isso que está se metendo conosco? Essa é sua razão para ter simpatia?

— A primordial, eu diria. Sim. Eu sou alguém que conhece a sensação de aprisionamento. Deve ser por isso que sou odiado pelos outros Guardiões.

— Você de certa forma traiu os seus, de um jeito ou de outro. — Skylar permitiu-se sorrir malignamente. — Como esperado de um Filho de Hildin.

— Como esperado. — ele repetiu, refletindo o mesmo sorriso. — Outra coisa me intriga em vocês.

— Hum… que ótimo, mais um obcecado! Eu não mereço. Que tipo de coisa?

Imediatamente, o shifter pôde assistir enquanto os pés do homem se desfaziam em sombras, e então suas canelas, suas mãos e braços. — Monstros que negam sua monstruosidade. Pessoas que nasceram para destruir, mas que decidiram lutar pelo que chamam de “bem”. Simpatizo com isso… é como rever meus próprios passos.

Sky ficou tentado a praguejar ainda mais, mas algo lhe disse que aquela frase não tinha sido referente a ele, nem aos Relicários como um todo. Mesmo assim, soou-lhe como um mal presságio. — Suponho que chegou a hora de nos despedirmos…

— Perspicaz de sua parte mencionar isso. — agora apenas a cabeça dele flutuava, desaparecendo lentamente.

— Até nunca mais!

— Adeus.

O que o homem sabia e que Skylar ignorava era que, se Nyele conseguisse levá-los para o melhor final possível, de fato não se reencontrariam nunca mais. Mas, como não achou o assunto pertinente, simplesmente contentou-se com a palavra fatalista e desapareceu.

O ruivo ficou um bom tempo observando o local onde o corpo estivera, torcendo para que este não voltasse a aparecer novamente. Com aquela personalidade detestável e inclinada a piadas de mal gosto, não duvidava que o desertor poderia aprontar mais alguma gracinha. Depois de garantir que não seria pego desprevenido – outra vez – voltou seus olhos para a vila.

As primeiras estrelas já despontavam no céu.

Sua raiva amainara um pouco. Não o suficiente, mas um pouco.

A vingança perfeita teria de esperar mais um tanto.

Aceitando a sugestão improvável que viera a sua mente, acertou a rota e rumou na direção contrária. E, quando encontrasse seus pais adotivos, os abraçaria bem forte e os agradeceria pela enésima vez por terem educado-o do jeito que fizeram, por terem mostrado-lhe que aquele mundo não era apenas sangue, dor e perda.

Que algumas pessoas, definitivamente, mereciam ser salvas.

Notas finais
Yeii! Já abaixaram as tochas? Já né? Não corro mais perigo? Espero que não. o.O Enfim... sem imagem outra vez, realmente lamento por isso. Nem me lembro mais que imagem eu ia usar aqui, escolhi quando terminei o cap, mas infelizmente ela ficou na minha pasta com mais cem imagens e não consigo reencontrar (sim, eu preciso arrumar elas... sim, to com preguiça...) . Aqui temos a cena que eu prometi da conversa de Selene com a Lady Oliver. Também temos o "reencontro" com o rapaz desconhecido mencionado nas memórias dela. Não preciso dizer, creio eu, que essa pequena série de capítulos é justamente para mostrar o ponto em que o passado encontra o presente. Em que decisões são tomadas, afinal, apesar de faltar ainda muita coisa, a fic está meio que chegando a etapa final, então tudo o que ocorrer daqui para frente vai gerar consequências no fim. . E temos a resposta para a identidade do homem misterioso que salvou Anne e Ryan. Imaginavam que era o pai do Loke? Ou nem sequer tinham chegado a cogitá-lo? Como podem perceber, ele tem uma personalidade tão irritante quanto a do filho (uma que todos vocês amam, podem admitir. Sobre Skylar... deixarei que pensem por si mesmos se ele vai arquitetar sua vingança algum dia ou a esquecerá... hehe. . Espero que tenham gostado e nos vemos no próximo capítulo (juro que tentarei não demorar). Ele focará em Trixia, Lidrin e Gravor. Kisses kisses para todos vocês. ♥