Caminhei apreensiva até a rodoviária, sem saber ao certo o que esperar. Sem saber como reagir. E, quando cheguei lá, não o encontrei de imediato. Dei algumas voltas pelo prédio antes de descobri-lo, sentado num banco afastado.

— Oi. – Murmurei, parada a sua frente. Cabeça baixa, mãos nos bolsos.

— Oi. – Ele me respondeu, ficando de pé. Continuei olhando para o chão, apreensiva e chateada.

— Me desculpa. – Disse. E diria muitas vezes mais, ao longo dos meses que se seguiriam. Nunca iria superar tudo que tinha acontecido naquela semana.

— Eu que peço desculpa. – Ele continuou, me surpreendendo. Passou um dos braços pela minha cintura, e caminhamos lentamente até a minha casa. Rimos um pouco, e eu sentia que estávamos bem de novo.

— Eu moro ali. – Apontei. – Na casa verde do lado do terreno baldio. — O vi concordar com a cabeça, e depois de uns minutos cruzamos o portão de ferro.

Respirei fundo antes de girar a chave na fechadura e abrir a porta, mas não encontrei ninguém em casa. Dei algumas voltas pelos cômodos escuros, mas não consegui localizar ninguém.

— Tem alguém aí? – Falei para as paredes. – Pai? Mãe?

— O pai foi levar a mãe no hospital. – Meu irmão apareceu, passando pela porta da cozinha. – Ela estava com dor. Pediu pra gente esperar aqui. Oi Marco. – Ele disse, o cumprimentando e se sentando no sofá.

Mais uma vez, imprevistos. Achei melhor não ligar para eles para saber o que tinha acontecido, e nos sentamos todos no sofá. Enquanto assistíamos a uma nova versão de João & Maria relativamente recente, ouvimos o barulho do portão se abrindo, e pouco depois meu pai saiu pela porta da garagem.

No mesmo instante, Marco se levantou ao meu lado e lhe estendeu a mão. Eles se cumprimentaram, frios. Suspirei antes de perguntar se a mãe estava bem. Ouvi um relato médico quase completo e descobri que o que ela tinha era mais sério do que parecia, e que iria ficar internada por uns dias. Ajudei meu pai a fazer uma pequena mala, e ele foi embora mais uma vez.

Nos sentamos no sofá novamente, minha cabeça encostada em seu ombro, um dos braços dele pelas minhas costas. Estar tão perto dele, aconchegada e confortável, era a melhor coisa do mundo. Eu observava de perto suas mãos, enquanto ele brincava distraidamente com a minha. E seus olhos, e tudo nele. Mesmo meses depois, eu ainda adorava ficar o observando. Não lembro mais de que filme assistimos, mas quando percebi, os minutos já tinham corrido e o momento derradeiro se aproximava.

Me levantei sonolenta, penteando o cabelo com os dedos. Corri até o quarto e peguei meu moletom, antes de voltar e sairmos de casa em direção à rodoviária.

Eu segurava sua mão como se segurá-la fosse o manter mais tempo perto de mim. Como se pudesse prolongar o momento, como se pudesse fazer com que ele ficasse.

E, pela segunda vez no ano, compramos sua passagem e nos sentamos em um banco. E nos beijamos. E, mais uma vez, eu sentia como se o que me mantinha viva fosse arrancado de mim a força. Acariciei seus cabelos, que sutilmente tinha começado a se tornar cacheados – por mais bizarro que isso fosse -, e o abracei. Aquele abraço significava casa. Não consegui o deixar partir, mas fui obrigada.

E, mais uma vez, o ônibus se fora e minhas lágrimas caíram junto com o crepúsculo.