Já passei muito tempo tentando entender como eu poderia me definir. Muitas pessoas são quietas, ou tímidas, ou extrovertidas, ou simpáticas, bonitas, estranhas, bizarras e etc. E cada uma dessas pessoas é na verdade muitas outras coisas ao mesmo tempo, todas essas coisas girando num turbilhão e funcionando como a engrenagem de um relógio antigo, como estrelas em constelações.

Então cheguei à poética conclusão de que somos todos constelações. E é um pensamento bonito, me agrada muito. Somos todos constelações em um mesmo universo, interligados. Cada um com sua própria beleza, luz, órbita e campo gravitacional. E cada beleza, luz, órbita e campo gravitacional afetando outras luzes, órbitas e campos gravitacionais. Algumas constelações podem ser vistas a olho nu, e são conhecidas e admiradas. Pessoas voltam seus telescópios para elas todos os dias, pais ensinam seus nomes aos filhos.

E também existem constelações que ninguém nunca se deu ao trabalho de checar. Essas constelações são igualmente fascinantes, mas singulares e distantes demais de todo o resto para que recebam a merecida atenção.

E mesmo chegando a essa conclusão, eu ainda não sei ao certo que tipo de constelação eu sou. Conheço minhas estrelas, são bastante incomuns. Gosto do brilho suave que elas tem juntas, e da forma como giram. Elas me agradam de uma forma que nunca agradou mais ninguém. Acho que sou uma constelação bem distante, quase invisível. Mas eu gosto disso. Daqui, posso observar todo o universo, e tentar entender como ele funciona. Eu gosto de entender coisas.

Sou uma constelação lotada de estrelas, e elas não são como a maioria das estrelas, mas volta e meia acho outras pessoas que tem algumas semelhantes às minhas, e então viramos uma pequena galáxia. Mas essas outras constelações logo se vão, e eu sigo observando os cometas passarem.

Sempre quis achar alguém que formasse uma galáxia comigo. Digo, de verdade. Uma galáxia que formasse novas estrelas, e fosse um brilho radiante e ponto de referência no céu de todos. Uma galáxia linda, colorida e gigantesca.

Não que eu acreditasse que seria possível, ou que um dia aconteceria. Sempre achei que seria uma constelação solitária no vácuo, brilhando singela e observando novas constelações se formarem, virarem galáxias e, pouco a pouco, formarem gigantescas supernovas de lembranças e memórias, até virarem pó.

Minhas estrelas e eu tínhamos o costume de vagar pela vida. Nós estávamos sempre em movimento. Distante de tudo, mas presente. Uma constelação nas coxias do universo, sem realmente fazer parte do show.

O destino quis que eu e as minhas estrelas nos mudássemos para outro canto no espaço escuro e infinito e, em julho deste ano, nós fomos.

Eu não estava realmente nervosa. Depois de anos, você aceita que suas estrelas não serão as estrelas mais bonitas e queridas do lugar, mas você as ama mesmo assim. Decidimos – eu e as minhas estrelas – nos acomodarmos no nosso novo canto no vácuo, e observar o novo fluxo de constelações e suas órbitas, tentando entender como cada uma das estrelas havia se formado.

Enquanto eu esperava nas coxias, o universo preparava todo um show para mim. Um show maravilhoso e estarrecedor. E eu, para o resto da minha vida, seria grata ao universo por isso.