Estava sentada na minha cama. O sol brilhava tímido para uma tarde de novembro, com uma brisa fresca que empurrava as folhas das árvores da calçada para a minha janela.

Tinha um livro aberto no colo, mas já tinha parado de lê-lo a pelo menos duas horas. Estiquei as pernas, procurando uma posição mais confortável. Costas escoradas na parede, cabeça baixa. Fixando o celular.

“As pessoas não costumam gostar de mim” enviei. Minhas estrelas nunca agradavam o suficiente as outras constelações do universo para mantê-las por perto. “Por isso, eu acabo gostando de quem gosta de mim”. Na verdade, eu considerava isso uma falha de caráter, mas eu não tinha paciência para gastar meu tempo tentando ser amiga nem nada mais sério de uma pessoa se ela não quisesse passar nenhum tempo comigo. Então, deixava que viessem até mim primeiro.

O sinal de ‘online’ debaixo do nome dele me dizia que estava lendo as minhas mensagens. Esperei, fixando a imagem de fundo do aplicativo, uma das fotos que tínhamos tirado juntos no passeio ao parque de diversões. Algum tempo depois, chegou uma resposta:

“Não acho que isso seja bom” ele disse, e em seguida “eu não quero que tu goste de mim só porque eu gosto de ti”.

O sentido não era claro, mas dentro de mim eu sabia que aquilo tinha sido uma espécie de declaração. A primeira vez que ele dizia com todas as letras que gostava de mim. Eu sorri, enquanto me balançava para a frente e para trás na cama, abraçada ao celular branco e velho.

Depois que consegui processar a maior maravilha das maravilhas, percebi que era a minha vez de, pela primeira vez, jogar as cartas na mesa com a maior clareza possível. Não me sentia mais como se estivesse dando um tiro no escuro. Dentro de alguns meses, o sentimento de euforia, tontura e confusão exagerada, colorida e ofuscante tinha sido substituído por uma sensação de paz de um calor crescente e que me mantinha amada e em segurança, como o abraço dele.

“Guapo” digitei, sorrindo para a tela. “Eu não gosto de ti porque tu gosta de mim. Eu gosto de ti porque eu gosto de ti”.

Assim que enviei, joguei o celular nos pés da cama e abracei o travesseiro. Sentia-me corajosa e ousada, quase oferecida. Não era do meu feitio fazer ou falar esse tipo de coisa. Mas mesmo assim, pra ele eu não me importava. Não me importava de ser eu mesma, ou falar o que eu sentia.

O celular, lá do outro lado da imensidão quase infinita da cama, vibrou. Quando consegui desbloquear a tela, um tempo depois, senti meu coração completamente aquecido e irremediavelmente apaixonado.

E assim se passou mais uma semana. Como uma boa adolescente no século XXI, eu era mais propensa a falar verdades via internet do que pessoalmente. Além do mais, eu era propensa a não falar absolutamente nada pessoalmente. Nem uma palavra. Falar não era comigo. Escrever, sim. Por muito tempo, só conseguia falar dos meus sentimentos por escrito.

“Acho que estou enjoada” enviei pra ele.

“Mesmo?” ele perguntou, segundos depois. Passei os olhos pela sala, me certificando de que o professor estava ocupado e a uma distância segura.

“Claro que não. Mas essa aula está uma desgraça. O professor está contando da vida dele, e eu já fiz as atividades” mandei. Sabia que ele não me tiraria da sala se eu não tivesse feito tudo. Às vezes achava que ele prezava mais pela minha educação do que eu mesma.

“Okay”.

Minutos depois, ele abriu a porta.

— Desculpa professor, posso tirar a Luísa da sala por um momento? Preciso dela na secretaria.

Mais uma vez, o professor fez pouco caso da minha presença, e saí da sala.

— Força uma cara de doente aí, só pra não levantar suspeita. – Eu ri, mas em seguida abracei o estômago e fingi passar mal, enquanto ele me guiava pelo cotovelo até a sala dos sofás. – Quer chá? – Ele perguntou, se sentando ao meu lado no sofá. Fiz que não com a cabeça. – Bom, eu quero. – E saiu. Nunca tinha conhecido uma pessoa que tomasse tanto chá.

Deitei-me no sofá, esperando que ele voltasse. A porta se abriu, e ouvi o som de uma xícara sendo posta no chão. Quando abri os olhos, recebi uma almofadada na cara.

— Ei! – Me sentei, pegando a almofada dos meus pés. Mas, quando me levantei, ele já havia arremessado outra almofada na minha direção, que me acertou em cheio. – Ah, é guerra, é?

Peguei as almofadas que ele tinha jogado, e as atirei contra ele. Ficamos assim, arremessando almofadas e rindo, até que ele se levantou e veio na minha direção. Continuei atirando almofadas, até que ele interceptou uma das que eu havia atirado, e a forçou contra o meu rosto. Não forte o bastante para me sufocar, mas o bastante pra me fazer rir enlouquecidamente e gritar que não conseguia respirar.

E então, a porta se abriu. Eu não a vi abrir, só ouvi o som. Em alguns segundos, Marco tinha se sentado ao meu lado com a almofada no colo, e me pedia polidamente que alcançasse a sua xícara. Eu ainda estava arrumando meu cabelo e tentando normalizar a respiração. Minha professora de Geografia se sentou no sofá ao nosso lado, tirou um livro da mochila, se virou para nós e nos cumprimentou:

— Oi Luísa, Oi Marco. – Com um sorrisinho no rosto, antes de mergulhar na sua leitura.

— Bem... – Marco começou – Acho que tu já estás melhor, pode ir para tua sala agora. – Ele se levantou e eu o acompanhei, concordando com a cabeça.

Andamos em silêncio pelo corredor, mas quando chegamos ao pátio eu explodi em uma risada bastante estranha, enquanto ele me acompanhava mais discretamente. Tinha sido constrangedor, mas bastante hilário.

“Foi divertido hoje. Acho que vou te incomodar mais vezes” enviei para ele, em casa, algumas horas depois.

“Sabe que não me incomoda Guapa” ele respondeu. Sorri.

“Sabe” escrevi “Por mais que eu queira não pensar, daqui um mês e pouco eu já vou voltar pra onde morava”. Só pensar nisso já fazia meus olhos encherem de água. Pisquei algumas vezes, tentando me concentrar.

Meus pais tinham chego à conclusão de que não era tão bom assim para a empresa permanecer onde morávamos, e decidiram voltar.

“Se te animar, podemos pensar que não é o final do livro, é só o final do capítulo.” Ele respondeu.

“Eu fico me perguntado: qual a história do nosso livro?”

“Essa é a melhor parte. Pode ser a história que nós quisermos. Nós a construímos”.

“Eu queria saber o final, só pra saber se vai dar tudo certo.”

Enviei e bloqueei a tela do celular por um momento, fitando o teto e esperando minhas lágrimas secarem. Nós não tínhamos nada realmente sério, mas a possibilidade de perdê-lo já me fazia muito mal. Quando o aparelho vibrou na minha mão, desbloqueei a tela novamente.

“Spoiler então: tudo dará certo. Os finais sempre são felizes, e eu tenho fé em nós”.

“Marco” enviei. Nem lembrava mais quanto tempo fazia desde que eu o chamara pelo nome pela última vez. Digitei, e ficando encarando a frase que se seguia ao nome da constelação mais linda do mundo. Era agora ou nunca. Fechei os olhos e apertei ‘enviar’.

“O que nós queremos pra nós?”

Não levou mais do que alguns segundos para a resposta chegar:

“Se eu entendi o que tu quer dizer” ele escreveu “Tu sabe o que eu quero pra nós. A pergunta é: ‘tu também quer’?”.

“Tenho medo” disse. E antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, continuei escrevendo sem me importar com os erros. “Tenho medo de te prejudicar. Medo de que a sociedade nos importune e te incomode mais ainda por termos cinco anos de diferença e tu ser maior de idade. Medo de a distância fazer com que não demos certo.”

“Vem só da tua fé em nós, eu acho que vamos conseguir dar certo”.

“Da minha fé em nós ninguém tem o direito de duvidar” respondi num lampejo de raiva, que passou quase que instantaneamente.

“Bem. Eu sei que nós vamos conseguir. Sei que a distância não vai nos impedir, e sei que minha idade não vai interferir. Não é mais raro que pessoas estejam nas condições que nós estamos. Vai ficar tudo bem”.

Sempre que ele dizia que tudo ia ficar bem, minhas estrelas paravam. Eu sentia que todo o universo voltava a girar mais lentamente, e que tudo se acalmava, e todos estavam em paz. Dentro do vácuo em que eu me encontrava, a mais fascinante das constelações me garantia que tudo ficaria bem. E eu só sabia acreditar nela.

“Sabe que eu me preocupo com qualquer coisinha quando tem a ver contigo”. Mandei, sorrindo.

“Eu sei, mas não precisa se preocupar” ele enviou. “Eu estou bem. Nós estamos bem”.

Eu praticamente o via na minha frente, com o sorriso mais lindo do mundo.

“Me convenceu, idiota. ” Mandei para ele, antes de abraçar sonhadoramente o travesseiro e abrir a galeria do celular, olhando as fotos dele e tendo a certeza de que ia tudo bem no mundo.

A partir daquela conversa, nós estávamos namorando. Não foi um pedido, foi uma conversa. E eu adorava isso. Adorava o modo como nós dois decidíamos tudo juntos. Como aceitávamos as opiniões do outro, e a considerávamos mesmo que fossem contrárias as minhas – não que isso acontecesse muito, ele tinha a maravilhosa capacidade de pensar igual a mim. Adorava o jeito como nos espelhávamos e completávamos.

Com certeza não foi como eu imaginei que seria pedida em namoro, mas foi perfeito. Meu primeiro e último pedido de namoro.

Notas finais
(Nunca mais programo capítulo I)