O céu começava a mudar sua coloração para anunciar a chegada de uma nova manhã quando ele mais trançava as pernas do que caminhava pela rua para chegar em casa. Antes que caísse de cara no chão batido, encontrou uma parede na qual apoiou seu antebraço direito, a fim de estabilizar a sua tontura, que não queria cessar tão cedo.

O mundo sob seus pés girava tanto que Gintoki não conseguia mais dar um passo sem receio de beijar o chão na próxima vez que trançasse as pernas. Não só seu mundo rodava, como seu estômago revirava tão furiosamente, que sentia como se no lugar dele estivesse um liquidificador rodando na velocidade máxima e transbordasse.

E inevitavelmente transbordou.

Já era provavelmente a terceira vez que vomitava pelo caminho que, quando sóbrio, percorria em cerca de vinte minutos a pé e agora, bêbado, não fazia a mínima ideia de quanto tempo estava gastando pra cambalear de volta para casa. A única noção que tinha era de que estava levando muito mais tempo do que deveria. Assim que terminou de botar tudo para fora, certificou-se de que não despejara as tripas também e limpou a boca com a manga esquerda de seu yukata branco vestido costumeiramente pela metade por sobre sua roupa preta.

Seguiu em sua caminhada trôpega até parar em frente à escada. Apertou os olhos para poder deixar de ver dobrado e sentiu a cabeça latejar ainda mais forte de tanta dor. Na situação em que estava, subir aqueles degraus até o andar de cima seria – e foi – um desafio. Outro desafio foi parar de enxergar dobrado e conseguir enfiar a chave na fechadura da porta corrediça principal. Assim que conseguiu entrar, caiu de cara no assoalho da entrada, totalmente tonto.

― Nunca mais eu bebo desse jeito... – murmurou com a voz pastosa enquanto esfregava o nariz dolorido. – Ainda vou morrer com outro porre desses...!

Com os pés, teve trabalho de tirar as botas de cano longo enquanto reclamava e se dizia arrependido do porre que tomara como sempre fazia após uma noite de intensa bebedeira. Assim que sentiu que passara a tontura, arriscou a se levantar, só para ver seu mundo girando novamente e o obrigando a correr até o banheiro, onde despejaria mais uma parte do que quer que ainda existisse dentro de seu estômago.

Lá permaneceu por vários minutos, com seu estômago tentando jogar fora mais algum resíduo do que mais bebera do que comera. Quando não havia mais nada a vomitar, tudo o que fez foi, mesmo com roupa, abrir o chuveiro e deixar cair água gelada sobre si, encharcando tudo. Além de sentir o gelado da água despertar seu corpo entorpecido pelo álcool, sentiu sua mente voltando a remoer os pensamentos da véspera.

Sentado no chão, sentia que a água fria da ducha encharcava tudo de tal modo que seu cabelo pesava e mechas prateadas iam até os olhos. O que ele tentara esquecer enquanto jogava pachinko e enchia a cara de álcool voltara à sua mente como antes. Sentiu novamente aquela sensação de desamparo e solidão, ao mesmo tempo que se formava um nó ardido e dolorido em sua garganta, fazendo com que instintivamente comprimisse seus lábios.

Não tardou que sentisse também, em meio à água fria, algo quente escorrer por sua face.

*

O sol já brilhava forte quando Gintoki acordara após um sono sem sonhos gerado pelo resto de torpor alcoólico que ainda residia em seu corpo. Após aquela ducha fria, ele havia se trocado e ido dormir em seu futon pelo tempo que conseguisse... E até que conseguiu dormir por um tempo razoável, umas quatro horas e meia.

Mesmo assim, acordara sem vontade de acordar. A cabeça doía intensamente e se sentia só o bagaço. Repetia a si mesmo que precisava parar de beber daquela maneira, mas não aprendia nunca a lição. Encher a cara com álcool nunca era a solução para seus problemas, sabia disso, mas sua cabeça-dura nunca aprendia. Só voltava a pensar nesse arrependimento quando a ressaca vinha com força total – como agora.

Levantou-se sem sentir aquela tontura que sentira ao chegar em casa, mas a cabeça estourava de dor. Esfregando os olhos, foi até o banheiro, onde se trocou e tirou um pouco da cara de sono. Abriu o armário e pegou um analgésico para tentar amenizar aquela ressaca maldita. Ao fechá-lo, deu de cara com seu reflexo no espelho, mostrando sua típica cara de acabado.

Óbvio que ficaria com aquela cara. Sempre ficava daquele jeito após cada bebedeira e quando a ressaca o atingia com força.

Sentia que aquele seria um dia terrível, pelo menos até a hora de ir trabalhar no bar de Otose. Não havia nada para fazer, a não ser reler a sua Jump e ficar zapeando os canais de TV que só exibiriam, naquele dia, uma programação maçante. A única coisa interessante a ver seria apenas a previsão do tempo e o horóscopo apresentados por Ketsuno Ana.

Aliás, todo dia pós-bebedeira era uma verdadeira merda. Não tinha o que fazer até o início do expediente no bar e, se tivesse, não conseguiria arranjar ânimo ou coragem pra fazer qualquer coisa. Não bastassem o desânimo e os reflexos físicos após encher a cara na véspera, Gintoki era obrigado a lidar com as cicatrizes de sua vida pregressa... Cicatrizes essas que eram físicas e principalmente emocionais.

Era sempre assim. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de relembrar sua trajetória até seu atual estado. Uma trajetória dolorosa e solitária em vários momentos.

Lembrava-se de quando era um garotinho solitário que tinha que sobreviver por conta própria, conhecendo apenas a morte e a crueldade. Sua única forma de seguir vivo era empunhando uma velha katana para se defender de quem tentasse atacá-lo enquanto ele saqueava cadáveres nos campos de batalha abandonados. Sua vida começara a mudar quando um homem aparecera à procura do já famoso “demônio devorador de corpos”. Aquele homem não se intimidara com o garotinho de corpo franzino e cabelos prateados, com olhar assustado e postura ameaçadora. Antes o acolhera, como acolhia a um filho recém-adotado. Por algum tempo tivera um período que considerava de fato ter tido infância, mas não durara muito. A guerra chegara efetivamente até ele, aquele homem que se tornara seu mestre fora preso pelos invasores alienígenas e a escola onde morava e estudava fora reduzida a cinzas e restos encarvoados.

Algum tempo depois, já um adolescente, Gintoki, junto com seus amigos e companheiros da escola Shouka Sonjuku, mergulharam de cabeça na guerra. Buscariam libertar Yoshida Shouyou, seu mestre, mas a cada batalha o grupo de jovens sofria com várias baixas. Restaram pouquíssimos sobreviventes, dentre eles o jovem de dezessete anos que passara a ser conhecido como o temido e lendário Shiroyasha. Entretanto, tudo deu errado e ele foi capturado junto com dois companheiros, com os quais crescera.

E foi quando houve o reencontro e aquela decisão terrível teve de ser tomada. Para salvar seus companheiros remanescentes, fora obrigado a ser o carrasco de seu próprio mestre. Essa era a pior lembrança de toda a sua breve vida, e desde então revivia essa cena em grande parte de seus pesadelos.

Após isso, encarara um bom período na prisão, sofrendo torturas e toda sorte de privações. E, quando tivera sua liberdade, passara a viver sozinho nas ruas, tal como um rato insignificante... Até ir àquele cemitério e acontecer aquele encontro com aquela viúva do andar de baixo.

O dia passou de forma lenta e torturante, com Gintoki começando a pensar que, para fazer a sua cabeça parar de voltar ao passado e reviver aqueles momentos terríveis, deveria arranjar um jeito de ocupar a sua mente. Precisava de uma distração para poder preencher o espaço entre a hora de acordar e a hora de ir trabalhar no bar da velha.

Até por isso que muitas vezes aceitava fazer pequenos serviços para Otose fora do horário de funcionamento do bar e ela lhe dava alguns trocados extras.

Pensativo, o albino enfiou o dedo mindinho no ouvido, a fim de tirar algum cerume. E se ele começasse a fazer pequenos trabalhos durante seu tempo livre antes de trabalhar com a velha? Assentiu afirmativamente com a cabeça para si mesmo, julgando a ideia boa.

Mais valiam uns ienes a mais na carteira para comprar seu parfait favorito do que ficar chorando embaixo do chuveiro após encher a cara.

Mas... Que tipo de pequeno serviço ele poderia começar a fazer para ser pago?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.