Crônicas de um assassino
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Já haviam se passado dois anos.
Eu a encarei dormindo naquele dia por tanto tempo que meus pés formigaram quando finalmente resolvi me mover. Cheguei mais perto e arrisquei tocar seu cabelo com as pontas dos dedos. Era macio e exalava um forte cheiro de condicionador.
Sua expressão parecia sofrer tanto quanto acontecia quando estava acordada, e foi aí que a culpa me atingiu.
Não posso descrever o sentimento; tudo o que sei é que foi tão forte que me obrigou a ficar de joelhos. Ali, com o rosto à altura do seu, pude enxergar suas sardas castanho-escuras. Elas pareceram se agrupar, dançar e formar desenhos diante de meus olhos.
Eu não conseguia mais suportar aquilo. Puxei o travesseiro do outro lado da cama e cogitei cobrir seu rosto com ele, mas algo me segurava...
Culpa, amarga, dolorosa e desenfreada. Eu tomara dois anos da sua vida e só agora tinha noção disso. Olhei para minhas mãos e me senti sujo.
Num impulso, joguei sobre o colchão a chave da casa — a chave para sua liberdade.
Prometi a mim mesmo que encontraria uma forma de me redimir. Evitei olhar para trás quando deixei o local, apressado. Grande mentira, eu sabia.
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