Se dentro de casa minha vida já é algo predominantemente perigoso, imagine ao ar livre, onde estamos cercados de coisas mais perigosas ainda? Não precisa de muita idade para admitir que seres humanos morrem com uma extrema facilidade. Alguns morrem engasgados com a própria saliva, outros simplesmente inventam de fazer algo sem noção com os amigos e dá completamente errado.

E tudo só piora quando você tem três anos, mal sabe andar sem cair e ainda tem dois pais que riem na cara do perigo. Um deles pode até ser bonzinho, mas basta um segundo de descuido para cair no chão e pegar fogo, e o outro... bom, o outro é o Doflamingo. Querem um conselho? Não sejam filhos do Doflamingo.

Como eu ia dizendo, o mundo exterior é mais arriscado e, mesmo sabendo disso, meu pais tiveram a brilhante ideia de me levar até a praia, onde tem um sol do inferno que pode te dar um câncer, pessoas irritantes que podem atirar bolas na sua cara e te fazer ter um traumatismo craniano, um salva-vidas meia boca que só tá lá pelas mulheres e, por último mas não menos importante, um mar com ondas imensas. Muito seguro, não?

Mesmo assim, cá estou eu, sentado no chão quase queimando minha bunda graças a maldita areia, construindo castelinhos utilizando um balde que me entregaram e disseram: se vira aí pra fazer algo que preste. Até que estava agradável, eu me sentia um Rei todo poderoso já que tinha vários castelos ao meu comando.

– Agora a gente coloca uma bandeira no ponto mais alto e... tá pronto! – Rosinante disse, colocando um treco vermelho em cima do meu castelo.

– Oh, ficou muito bom. – Doflamingo se aproximou, observando minha obra de arte. – Já pode virar arquiteto.

Se até o Doflamingo que não tem amor no coração, empatia pelos outros ou qualquer sentimento bonito dentro de si gostou do meu trabalho, é porque realmente eu era um bebê superior. Meu castelo tinha cinco torres e todo um exército de areia preparado para atacar caso sofrêssemos algum dano, além de um rio que eu mesmo construí utilizando água do mar. Ficou o trabalho mais perfeito da minha vida, acho que eu tenho um dom natural pra arte.

– Papai, papai! – Segurei na bermuda do Rosinante, puxando-o veemente. – Vamos tirar uma foto pra mostrar pra tia Robin e os meus amigos! – Leia-se: vamos tirar uma foto pra provar que eu sou muito melhor que todos eles.

– Hey, Law. – Mas antes de tirar a foto o Doflamingo me chamou. – Quer saber o que é melhor do que construir castelos de areia?

– O quê? – Perguntei, inocentemente.

– Destruí-los!

Vi meus olhos esperançosos se estilhaçarem em mil pedaços quando o meu pai cruel começou a pisotear os meus castelos como se fosse lixo, sorrindo diabolicamente e apreciando minha cara de completo desespero em ver meus queridos soldados, os quais mal conhecia e já considerava, morrendo em míseros segundos. Minha vida estava... acabada.

– DOFFY. – Meu salvador deu um tapão na cabeça dele. – POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM O CASTELO DO LAW?!

– Fufufu, porque ele precisa aprender desde cedo que não se pode construir laços emocionais, criar expectativas ou confiar em adultos.

– Você não pode ensinar esse tipo de absurdo à uma criança! – Mais outro tapa. – Ele precisa saber que o mundo é bom e ter esperanças!

– Vai iludir o garoto? Tão tá.

– Meu... castelo... – Me agachei no chão, segurando a areia em modo depressivo e deixando-a escorrer por meus dedos, tendo lembranças memoráveis dos curtos segundos de sua existência.

– E-Então... – Rosinante tentou mudar de assunto já que ele sabe que bebês tem uma memória extremamente curta. – Quer ir nadar, Law?

– Quero meu castelo...

– Ahn...

O pobre papai bonzinho ficou tentando realizar ações engraçadas para tentar me fazer esquecer o castelo, mas nada dava certo. O Doflamingo ficou só pegando sol e ignorando nossa presença, eis que três pessoas se aproximam de nós e eram eles, Vergo, Dellinger e uma mulher chamada Jora que eu julgara ser a mãe do garoto loiro.

– Vergo! Você por aqui, que raridade.

– Doffy! Bom te ver.

Meu pai malvado e o tio Vergo se davam bem, então eles ficaram conversando entre si enquanto eu encarava o filho esquisito dele. O Dellinger por si só já era estranho, mas quando estava junto com a mãe ficava pior ainda, já que ela era uma mulher extremamente animada que, por algum motivo muito obscuro, enfiou um biquíni rosa cheio de bolinhas brancas no garoto.

– Dellin, Dellin, mostra pra essa gentinha sem gosto como é que se arrasa! – Ela é uma mulher alta, gorda, com um cabelo estranho dividido em loiro e ruivo, que usava um maiô meio escroto.

– Kyah! – E ele um garotinho loiro de olhos castanhos que parecia não se importar em usar biquíni rosa choque, pelo contrário, começou a dançar junto com a mãe como se fosse uma Hannah Montanna da vida.

– Pai, por que o Dellinger tá de biquini? – Perguntei ao Rosinante.

– Vai saber...

– Ora, Rossy, quanto tempo! – Jora chegou cumprimentando-o. – Meu filho usa biquíni porque ele é uma rainha!

– Eu quero ser igual à mamãe quando crescer! – Dellinger sorriu.

– Ohh, você deve ser o famoso Law! – A mulher assustadoramente grande veio até mim e ficou me encarando como se eu fosse um biscoito super delicioso.

– O-Oi... – Fiquei com medo porque ela era muito grande e dava muito medo, ainda bem que ela não é minha mãe. Já pensou, Jora e Doflamingo? Não daria certo...

– VOCÊ É MUITO BUNITINHO. – Jora me pegou no colo e me levou até o rosto dela, me dando uma série de beijos com aquele batom roxo e lábios gosmentos, apertando minha barriga e minhas bochechas como se eu fosse um ursinho de pelúcia.

– P-Papai... – Fiquei com medo e me escondi atrás de Rosinante, que entendeu o recado.

– B-Bom, vamos nadar?!

Ao mesmo tempo em que os outros adultos ficaram na areia conversando, eu, Dellinger e meu pai desastrado fomos até a água do mar. O jovem loiro ficou correndo com as mãos levantadas em câmera lenta, como nesses filmes antigos super chatos e entediantes, querendo dramatizar ou algo parecido, até chegar, de fato, na água, onde ficou encarando sem realizar mais movimentos.

– A água... é suja? – Ele perguntou, com uma cara de nojinho.

– Sim, muitas pessoas mijam aqui. – E eu respondi, sinceramente.

– Ecaa!! – Aí ele foi até uma distância considerável, não ousando sequer tocar um dedo na água.

– Não precisa ficar assim, Dellin! – Exclama Rosinante. – É só a gente ir até um local com menos gente.

Daí o papai nos levou até um local bem mais fundo, onde não havia muitas ondas para não ter nenhum risco de afogamento e ficou conosco no colo, mas ao mesmo tempo o próprio Rosinante não conseguia ficar em pé. Mesmo assim até que deu tudo certo, o Dellinger se acostumou com a água e nós ficamos nadando.

Eu joguei água na cara do loiro que ficou reclamando do cabelo, mas logo retribuiu o ataque e nós iniciamos uma briga aquática, onde até mesmo Rosinante participou. Ele deixava a gente nadar, mas ficava tomando conta para não nos afogarmos como um adulto responsável faria.

– A gente não tá muito longe da borda? – Perguntei, de onde eu estava nem dava pra ver o outro papai.

– Lá no começo as ondas batem, aí é ruim pra vocês.

– Toma essa! – Antes que eu pudesse falar outra coisa, Dellinger achou que seria uma boa ideia empurrar minha cabeça para dentro d'água e me afogar.

– Seu..! – Mas logo me levantei, fazendo a mesma ação contra ele e seguindo, jogando mais água em cima do loiro que também jogava em mim.

– N-Não briguem, crianças! – Rosinante tentava nos deter.

– Toma essa você também! – Mas nós nos unimos contra ele e empurramos sua cabeça dentro d'água com toda força que dois bebês de três anos conseguiriam.

Bubgfuhuhufbu – E por incrível que pareça, ele se afogou.

O problema é que nós dois só estávamos fingindo, mas o papai realmente parecia ter se afogado de verdade! Ele começou a se debater na água e nos empurrou para longe, tentando voltar à superfície, mas sem êxito. Eu e Dellinger ficamos olhando sem ter reações aparentes, só sei que eu estava preocupado por conhecer seu lado desastrado e saber que realmente aquilo seria possível.

– Socorro! – Gritei, com todas as forças. – O papai tá se afogando!

Porém naquele momento eu era um mísero bebê que estava bem longe de tudo e de todos, tendo ainda todo o barulho da praia contra mim. Mesmo se eu gritasse, tinha certeza de que ninguém me ouviria e já estava ficando desesperado, uma vez que eu não estava conseguindo tirar Rosinante de dentro da água, mas foi aí que o capeta resolveu agir.

Caralho, o Rosinante tá sozinho na água, agora que eu me dei conta! – Doflamingo, mesmo com toda aquela distância, conseguiu ver nós três em perigo e aquilo foi o bastante para alertar os salva-vidas.

Ele e um outro homem com camisa vermelha vieram nadando em nossa direção e ambos pareciam tubarões com tanta velocidade, até finalmente chegarem. Meu pai pegou a mim e ao Dellinger e nos arrastou até a beira da praia, enquanto o salva-vidas fez o mesmo com o Rosinante, jogando o pobre homem desacordado na areia.

Eu e todas as pessoas ao nosso redor ficamos apreensivos, preocupados se o coitado estava morto ou algo assim. O papai tava deitado na areia, dormindo profundamente e não dando um sinal sequer de vida, então o salva-vidas começou a agir, fazendo umas paradas meio loucas.

Primeiro ele se ajoelhou, olhando bem para o rosto de Rosinante, abaixando seu queixo e segurando seu nariz. Achei aquilo muito estranho, na minha concepção "tampar o nariz" de alguém significa que você não quer que a pessoa respire, então estaria o salva-vidas querendo terminar de matar meu pai?! E tudo ficou mais estranho quando o homem foi se aproximando, parecendo querer beijar o pobre homem desmaiado, que coisa mais estranha...

– Ei, sai pra lá! – E parece que o Doflamingo estranhava aquela atitude tanto quanto eu, já que ele empurrou o salva-vidas e não deixou o beijo acontecer. Será que era tipo Branca de Neve ou Bela Adormecida?

– N-Não me empurre, eu preciso salvá-lo! – O salva-vidas estranho estava disposto a fazer de tudo pra beijar o meu pai, seja lá o que isso significasse.

– Salvar o caralho, não é assim que se salva alguém!

– M-Mas é a respiração boca-a-boca... e-ele corre risco de vida!

– Porra nenhuma, deixa que eu te mostro como se salva alguém.

Foi aí que o Doflamingo tomou as rédeas da situação. Ele, assim como eu, parecia não querer ver o salva-vidas invocando o príncipe encantado interior e dando um beijo para acordar a princesa, então ele tomou atitudes que eu também considero mais racionais e fez o que qualquer pessoa inteligente faria numa situação como essas.

– ACORDA, FILHO DA MÃE! – Deu o chute mais forte que conseguia bem no meio das pernas do Rosinante, que acordou imediatamente.

– PFFFFFFFFT! – E assim que ele acordou, cuspiu toda a água que estava presa em seu corpo e voltou à raciocinar, sentindo o impacto logo após. Ficou agachado no chão, com a bunda empinada e segurando suas calças veemente, gritando e rolando de dor.

– Viu só? É assim que se acorda alguém. – Doflamingo ensinou ao salva-vidas. – Aproveitador de merda.

– E-Eu vou... morrer... – Rosinante se contorcia no chão e parecia até pior de quando estava dormindo. – Doffy... tá doendo...

– Se não quisesse levar chute no saco, bastava não ter se afogado, idiota.

– A-Alguém chama... o Samu...

Fim

Dia de WTF

Notas finais
Bah, esse capítulo foi mais desastroso do que engraçado, q. Mas o próximo será focado em... outras coisas rerer.... ( ͡° ͜ʖ ͡°)