Crônicas de um Bebê
11 Dia de Parque

Quem disse que rico não se fode? Não é só porque eu tenho uma Mansão que eu necessariamente vou me dar bem, muito pelo contrário. Ricos são pessoas malvadas que acham que só porque tem dinheiro e são mais velhos podem nos tratar como quiser, e na verdade podem mesmo, porque né, no caso ele é o meu pai.
Obviamente estou falando de Doflamingo, esse monstro encapetado o qual eu chamo de pai. Ele constantemente usa seu dinheiro para adquirir armas de torturas contra mim, tais como: escola, vegetais, legumes, um berço escroto com grades pra eu não fugir e um cadeado para o quarto depois da noite anterior. Dinheiro só serve pra comprar coisas inúteis e horríveis feito essas.
Mas enfim, falando em dinheiro, hoje meus pais enfiaram na cabeça que iriam fazer alguma coisa divertida comigo (medo) e me jogaram no carro, naquela maldita cadeira com um cinto horrível pra eu não pular pela janela e cometer suicídio, indo em direção a um lugar que eu não faço ideia de onde é.
– Pra onde nós vamos? – Perguntei, mordendo alguma coisa que eu havia encontrado.
– Pela milésima vez, a gente vai pra porra do parque, mas que saco! – Doflamingo exclama com seu bom humor diário. – Para de perguntar isso!
– Mas pra onde nós vamos? – Voltei a perguntar.
– Aaaaaargh! – Ele se irritou e calou a boca, dirigindo com raiva.
– A gente vai ao parque, Law. – Rosinante me explicou com mais paciência.
– E a gente tá chegando?
– Não, ainda não. Nós acabamos de sair de casa.
– E agora?
– Não.
– E agora?
– Não...
– E agora?
– Não, ainda não.
– E agora?
– Não, Law.
– E agora?
– Nop.
– E agora?
– Não.
– E agora?
– Não...
– E agora?
– Nã–
– QUE SACO, CALA A PORRA DO INFERNO DO CARALHO DA BOCA! – Doflamingo berrou, não sei porque ele estava tão impaciente. Tudo bem que ele é malvado na maioria das vezes, mas sei lá, hoje parecia pior.
– E agora?
– Aaaaaaaaargh... – Ele bateu a cabeça no volante e o carro começou a fazer um som estranho, parecia que tava gritando. Será que o papai malvado também tá sendo mau com o carro?
– D-Doffy, dirige direito! – Rosinante o fez voltar ao normal.
– Tsc, eu quero mais é que o carro exploda pra eu não precisar mais ouvir esse moleque repetitivo.
Como eu percebi que o papai preferia morrer a ouvir minha voz linda e majestosa, fiz o que qualquer criança faria numa situação dessas e continuei a perguntar se já estávamos perto durante todo o percurso, porque por algum motivo eu tinha esperanças de chegar mais rápido se ficasse falando isso. Bom, enfim, chegamos.
O Doflamingo estava com fumaça saindo pelos ouvidos, mas eu decidi o ignorar e ficar apenas com Rosinante. O lugar onde nós estávamos era enorme e mesmo sendo de dia, bem iluminado. Aliás, o que mais tinham eram cores diversas e extremamente chamativas e coloridas, além de um círculo imenso e pessoas gritando em uma espécie de triângulo com um carro que eu não sei o que é.
– Papai, papai! – Fiquei puxando as calças de Rosinante até obter sua atenção. – O que é isso?
– É um parque, aqui tem vários brinquedos grandes pra crianças e adultos! Tem a roda gigante, carrossel, montanha-russa...
– E a gente pode ir nos brinquedões?
– Claro! Qual você quer ir primeiro?
– Qual eu quero...
Fui tomado por uma súbita dúvida. Não sabia qual escolher por ser minha primeira vez nesse lugar, mas eu tenho o poder da escolha então é isso que importa, já que na maioria das vezes eu sou deixado pra trás. Bom, se eu escolher os maiores, é capaz deles serem mais perigosos e o Doflamingo me jogar lá de cima, realizando seu sonho de se livrar de mim. Entretanto, se eu escolher os brinquedos pequenos, ele vai rir de mim e me chamar de covarde. O que fazer?
– É sério que você vai deixar esse troço escolher? – Doflamingo diz. – Vamos na montanha-russa, é o melhor brinquedo daqui.
– Eu não acho que deixariam o Law entrar na montanha-russa, ele só tem três anos. – Rosinante fala. – Que tal nós irmos no carrossel primeiro?
– Ah não, esse negócio é ridículo, coisa de criança.
– Nós estamos com uma criança...
– Beleza, vamos nas xícaras!
Meus pais me levaram até o primeiro brinquedo, que eu não entendi muito bem o que era. Quer dizer, tudo o que eu via era diversas xícaras gigantes com pessoas dentro, girando e girando sem parar e com luzes muito alucinógenas. Qual era a graça de ficar girando naquele troço? Bom, mas mesmo assim nós fomos.
Estávamos nós três sentados em uma das xícaras quando um homem estranho fechou a portinha da mesma, nos trancando lá. O que será que ele pretendia fazer com isso? Mas que seja, logo depois esse mesmo homem disse que ligaria o brinquedo, então a grande xícara começo.. u.. a... GIRAAAAAAAR!
– WAAAAAAH! – Comecei a gritar desesperadamente. – AAAAAAAAAA! – O troço tava girando em uma velocidade infernal. – AAAAAAAH! – Tudo que eu via à minha volta também tava girando, eu tava morrendo de tontura. Socorro, eu acho que eu vou moRREEEEEEEEEEERR!
– A-Aaah, isso tá indo muito rápido! – O papai bonzinho achava o mesmo que eu. – E-Eu vou vomitar!
– Hiahiahiahia, isso é muito bom, fufufufu! – Mas o papai sádico tava se divertindo como nunca. – Vai mais rápido, vai mais rápido!
– M-Mais rápido? Esse negócio tem é que parar antes que eu vomite!
– Uh, já sei, se a gente girar o volante acho que a xícara vai mais rápido!
Foi aí que o capeta agiu. Não sei direito o que ele fez, mas o papai começou a girar uma espécie de volante que estava no meio da xícara e isso fez com que o brinquedo rodasse e rodasse com o dobro, triplo, com o quintriplo da velocidade! S-Se antes eu achava que minha vida corria riscos, agora é que eu tenho mesmo certeza.
– P-P-Paaraaa! – Ficava gritando pra parar, mas era subitamente ignorado.
– Fufufufu, mais rápido! – O papai malvado foi girando o volante mais ainda.
– D-D-Doffy, tenha piedade! – Rosinante tentou impedí-lo, sem êxito.
Pouco depois, a ida ao inferno tinha finalmente acabado e nós pudemos sair do brinquedo maligno. Eu nunca estive tão tonto na minha vida, sério, nem quando eu aprendi o que era “licor” da pior maneira. Nada se comparava à tortura de uma xícara, mas como crianças tem memória curta, eu voltei a importunar meus pais.
– Aonde nós vamos agora? – Perguntei, com os olhos brilhantes.
– Ah, nós podíam–
– Doffy, não! – O meu papai malvado ia sugerir um outro brinquedo, mas Rosinante o impediu. – Você não vai escolher!
– Tsc, por quê? – Ele não gostou nada.
– Porque você só escolhe coisas perigosas.
– Então escolhe alguma coisa aí.
– Hm... – Rosinante começou a pensar. – Nós poderíamos ir à roda-gigante!
Nós fomos andando até um grande círculo no céu, que eu logo notei que não se tratava de uma bola gigante como eu havia pensado, mas sim, da tal roda-gigante. Espera, “roda”? Será que é outro brinquedo assassino que surgiu com a finalidade única e exclusiva de me deixar tonto?
Mas pelo que parece esse não era tão ruim assim, afinal, o Rosinante não tem intenções de me matar (eu acho, vai saber). Nós entramos em uma espécie de carrinho que também era fechado para que ninguém cometesse suicídio ali. Logo em seguida, um moço ligou o brinquedo.
O nosso carrinho começou a subir na roda e eu enfiei minha cara no vidro, olhando a paisagem que ficava cada vez mais distante. Todas as pessoas pareciam formigas e eu era o Rei do mundo, nossa, aquilo sim era vida. Imagina todos curvados perante o todo e poderoso eu?
– Caramba... – ficava assistindo todas aquelas pessoas pequenininhas, era muito emocionante.
– Viu só como não precisamos correr risco de vida pra nos divertirmos? – Rosinante lançou uma indireta ao outro.
– Tsc, eu prefiro a monta-russa. – Doflamingo reclama. – Oh, tive uma ideia!
– Q-Qual ideia? – Rosinante ficou preocupado e eu também, principalmente com o sorriso diabólico que estava estampado na face do demônio.
– Olha só!
O diabo que eu carinhosamente chamo de pai, não sei porquê cargas d'água, achou que seria uma boa ideia começar a BALANÇAR, repito, BALANÇAR a porra do carrinho que estava há milhões de quilômetros de altura do chão! Um terremoto se iniciou ali com o único intuito de fazer nós três morrermos.
– D-D-D-Doffy, p-pelo amor de tudo que há de mais sagrado, PARA! – Rosinante tentava detê-lo. Eu, já muito acostumado com o sabor da morte, só chorava.
– Hiahihaihiahia! – E o belzebu continuava, rindo cada vez mais e balançando o carrinho. – Vamos todos cair!
– P-P-Pai... – Eu ficava chorando. – F-Faz o papai parar...
– E-Eu não quero morrer! – Rosinante começou a segurar o outro a fim de tentar impedí-lo. – D-Doffy, só para!
– Vocês são muito frescos, isso só aumenta a emoção.
Depois de mim e o papai bonzinho ficarmos chorando e implorando piedade por nossas vidas, Satã finalmente parou de balançar o carrinho. Quando o moço que cuidava do brinquedo voltou a nos colocar no chão, eu e Rosinante estávamos muito, mas muito tontos. Doflamingo nem se importava muito.
Em seguida, decidimos ir em um brinquedo muito grande que tinham várias cadeiras presas bem no alto e ficava girando com as pessoas sentadas, em uma velocidade muito grande. Os gritos que davam eram enormes e até me assustavam, mas como toda boa criança, eu estava pouco me fudendo pra minha segurança.
– Vamos lá, naquele ali! – Fiquei apontando pro brinquedo enquanto meus pais me levavam.
– Não é muito perigoso pra uma criança? – Rosinante pergunta. – Ele parece girar tão rápido...
– Que se dane a segurança, vamos logo! – Doflamingo exclamou e nós finalmente chegamos ao nosso destino. Após ficarmos parados em uma fila de três quilômetros por horas, o moço que cuidava do brinquedo apareceu.
– Os três vão entrar? – Ele disse, prestes a nos deixar passar.
– Sim, nós três. – Meus pais responderam.
– Ah, o garoto é muito pequeno, ele não pode ir nesse aqui.
– Como é que é? – Doflamingo disse emputecido, vendo todas as horas que passara na fila sendo desperdiçadas. – Tá de sacanagem, né?
– Tem uma régua na entrada da fila, ele é muito pequeno. – O moço malvado explica.
– Papai... – Fiquei puxando a calça de Rosinante e olhava para ele com pesar. – Eu não posso ir?
– É, parece que só quando você ficar mais velho. – Ele me respondeu.
– Mas... por quê? – E eu não acreditava que estava sofrendo tamanho preconceito graças a minha altura, meus olhos iriam se encher de lágrimas a qualquer instante. Só espero que isso amoleça o coração de pedra do moço do brinquedo.
– Tsc, que absurdo! – Doflamingo exclamou, segurando a camisa do cara. – Qual é o teu problema com o filho dos outros, hein? Agora ele vai ficar chorando, é um porre!
– D-Desculpa, mas são as regras. – O moço disse, acuado. – S-Se ele entrar pode acabar voando daquela altura!
– Voar?! – Logo minha cara de choro havia cessado e meus olhos brilharam, além de um enorme sorriso que abriu-se em meu rosto. – Eu quero voar! Papai, deixa eu voar, deixa, por favor! – Fiquei perturbando os dois.
– N-N-Não, Law, voar não é uma coisa legal. – Rosinante ficou assustado. Será que ele tem medo de altura?
– Hm, não seria uma má ideia ver ele voando. – Doflamingo disse, pensativo. Foi aí que eu percebi que se o Rosinante não quer me ver voar, e o papai malvado quer, talvez “voar” não seja tão legal quanto eu esteja imaginando.
– É melhor nós irmos em outro, esse não dá.
Eu confesso que fiquei decepcionado por não poder sair voando por aí, mas o papai bonzinho nos convenceu a ir embora e procurar um brinquedo mais acessível. Fomos ao carrossel contra a vontade de Doflamingo, que reclamou por não conseguir sentar direito no cavalo e ficou puto por ficarmos rindo da situação deplorável dele.
Também fizemos uma pausa pro lanche e eles me deram cachorro-quente; foi divertido também porque a comida estava meio quente e Rosinante conseguiu fazer o impossível: queimar a língua e sair berrando por aí graças ao cachorro-super-quente. Doflamingo ficou apontando pra ele e me obrigou a rir junto consigo.
Ficamos até bem tarde no parque, quando fomos a um último local. Se tratava de uma espécie de trem que adentrava um túnel escuro, parecia ser algo mais assustador que os demais brinquedos e eu não sabia muito bem se gostaria de entrar naquele troço.
– O que tem aí? – Perguntei, escondido atrás das pernas de Rosinante.
– Aqui é–
– Aqui é o lugar onde os monstros comedores-de-crianças, vampiros sanguinários assassinos, zumbis e criaturas do inferno se escondem. – Doflamingo interrompeu meu pai angelical e disse, com uma voz sombria e olhar impactante, além de um sorriso sádico.
– É onde o papai mora? – Disse, me referindo ao próprio.
– É onde você vai morar quando morrer, pirralho inútil.
– Doffy, para com isso! – Rosinante bate na cabeça dele. – Law, aqui é só um túnel com algumas coisas de susto, só isso, nada relacionado a inferno.
– Então vamos entrar logo.
Nos sentamos no trenzinho, um ao lado do outro, e, assim que ele começou a andar, fiquei assustado pois começava a adentrar em um túnel realmente muito escuro. Não dava pra ver nada lá dentro, somente conseguia ouvir uma musiquinha meio estranha, meio encapetada.
– Pai... – Fiquei abraçando Rosinante. – A gente vai morrer?
– Não, Law, vai tudo ficAR BEM,WAAAAAAAAAAH! DE ONDE SURGIU ISSO?
Enquanto nós conversávamos, surgiu um cara com a pele pintada de verde, cheio de sangue, gritando por aí feito um louco! Rosinante levou um susto tão grande que quase pulou no colo de Doflamingo. Confesso que eu fiquei mais assustado com a reação do papai.
– Cê é mais medroso que o pirralho, hein, parabéns. – Doflamingo diz, não se importando com nada daquilo.
– E-E-E-Eu n-não fiquei com m-medo, foi só um sus... – Do nada, uma parada parecida com um fantasma apareceu! – SUSTO! AAAAAAAAHHHHHHHH! – E ele volta a abraçar meu outro pai.
– Hahahaha, olha aquele ali! – Apontei pra alguns animais falsos que estavam ensanguentados. – Aquele é um cachorro ou um lobo?
– Fufufufu, acho que é uma mistura dos dois. Ei, olha lá! – Doflamingo apontou pra uma série de homens que pareciam estar comendo um cadáver. – Eles estão com fome, hein.
– I-Isso é tudo falso... é-é tudo falso... – Rosinante repetia para si mesmo, com os olhos fechados.
De repente, um outro cara gigante que parecia um lobo apareceu, uivando de modo sombrio com um crânio entre os dentes e mais sangue na mão. Era muito sangue!
– Pai, pai, pai, pai, olha! – Fiquei encantado. – O lobo mau de verdade!
– Agora só falta a Chapeuzinho Vermelho. – Doflamingo diz, sorrindo junto comigo. – Será que ela tá aqui também ou já morreu?
– D-De onde veio isso? – Rosinante se assustou com um morcego que passou. – E-E aquele troço?! – Agora várias teias de aranha apareceram. – WAAAAH! O QUE FOI ISSO? – Dessa vez mais um uivado apareceu, bem mais alto.
Mais uma série de bichos estranhos foram surgindo ao longo do trem. Confesso que foi minha atração preferida, simplesmente por eu estar descobrindo um lado macabro meu o qual não tinha conhecimento, mas sei lá, todos esses animais ensanguentados eram tão fofinhos. Talvez eu seja realmente filho do Doflamingo.
Só fiquei com um pouco de pena do papai bonzinho porque ele pareceu um pouco traumatizado depois que nós saímos. Doflamingo nem se preocupou em ajudá-lo, até mesmo riu de sua situação desesperadora. Nós acabamos indo para casa e Rosinante ficou repetindo para si mesmo que iria aumentar as consultas na psicóloga.
Fim
Próximo: Dia de Cinema
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