– Acalme-se Sanada! Assim, desse jeito, você não vai conseguir falar com ela! É melhor dar um tempo e quando ela estiver melhor você liga pra ela.

– Tá doido?! E se ela faz uma besteira?!

– Se você for lá agora, a besteira será maior ainda.

Eu nunca acreditei muito nas coisas que Date costuma falar, mas aquela ideia me deixou assustado. Meu peito estava despedaçado. Minha cabeça doía. Queria chorar, mas era macho demais pra isso. O que eu iria fazer? Saika, desgraçada! E pior ainda: ruivo desgraçado! Agora era mais do que pessoal.

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Oichi me acalmou. Nouhime me aconselhou a conversar com ele no dia seguinte. Eu não queria saber de nada: o dia seguinte iria servir para ir buscar minhas coisas naquela casa horrenda!

Chorei a noite inteira. E de madrugada também quando acordei de um pesadelo e descobri pela primeira vez que não era apenas sonho. Pela manhã acordei, tomei um longo banho, agradeci as meninas e entrei no by CouponDropDown\">carro.

Pensava demais. Dirigia no automático. O celular tocou e eu acionei o autofalante do carro:

– Kasuga? Oi, é a Cuddy. Adivinha quem sai do hospital hoje? A Sarah está doida pra te ver.

Eu sorri fracamente. Como podia ter esquecido? Sarah era minha paciente preferida. Uma garotinha de sete anos que vivia em tratamentos profundos para lidar com uma doença Hemolítica do Recém-nascido.

– Estou indo para vê-la – avisei minha superiora. Eu amava Sarah. Se meu filho fosse uma menina, iria querer que fosse como ela. Da mesma forma essa garotinha também me adorava. Éramos melhores amigas. Taí. Sarah poderia me ajudar a lidar com tudo isso na minha vida! Se alguém de 7 anos aguenta tantos tratamentos, eu poderia aguentar isso fácil.


– Ah! Kasuga! – Sarah abriu um largo sorriso de dentes de leite. Entrei no quarto carregando balões e doces.

– Oh minha querida! Que saudade eu senti! – e a abracei fortemente.

– Ela perguntou muito de você ultimamente – a mãe dela me contou. Assim como Sarah, a mulher tinha longos cabelos pretos.

– Ficou com medo de que você não fosse vir hoje – o pai disse.

– E perder o dia mais importante na vida da minha princesa?! Quero dizer: o segundo, porque o primeiro é o dia do seu casamento!

Ela sorriu e os pais riram:

– Então mãe – Cuddy sorriu carinhosamente – É só a senhora assinar aqui e Sarah estará liberada pra sempre.


Sarah veio em meu carro enquanto eu seguia o carro de seus pais. Ouvíamos Alanis Morissete enquanto ela devorava um pote de Danoninho, sua comida predileta. Paramos num sobrado branco com um lindo jardim na frente.

– Vou deixa-la em casa enquanto passo no mecânico. Preciso fazer uma revisão no carro.

– Viu Sarah – o pai dela a abraçou – Carros também precisam de médicos.

Todos rimos:

– Voltarei o mais rápido possível para ficarmos juntas – sorri para a menina. Mas novamente meu sorriso estava fraco e forçado.

– Filha, por que não vai procurar suas bonecas pra mostrar a Kasuga? – a menina abriu um largo sorriso e saiu correndo. Deu meia volta e me abraçou que eu retribuí quase chorando e voltou a correr para dentro de casa.

– Ela é linda...

– Kasuga... Desculpe perguntar, mas você está com grandes problemas, não é?

– Eu? Magina...

– Não se engana o olhar...

– Ai, Rose... Problemas em casa... Coisas normais... É melhor eu ir... Ainda tenho que passar no consultório.


Deixei o carro no conserto que ficava a duas quadras do Hospital. A fila em meu consultório já estava longa. Por sorte a maioria eram pacientes já conhecidos que gostavam de sempre passar por mim. Atendi a todos o dia inteiro e foi excelente: com a mente ocupada, praticamente me esqueci de tudo.

Já eram seis da tarde quando fechei meu horário e passei na sala de Cuddy que me recebeu sorridente para que eu assinasse alguns prontuários.

– Ela deve estar feliz, não é? – ela perguntou lembrando-se de Sarah.

– Demais... Só queria poder estar melhor nesse dia.

– Não vou nem perguntar porque sei que não irá me contar.

É, eu nunca fui de me abrir com as pessoas. Sanada era meu único confidente... Sanada... Esse nome... Me dói tanto. Quem sabe se não desabafasse com Cuddy também, a dor poderia diminuir mais um pouquinho? É como um remédio: constante, e sempre mais um pouquinho até o tratamento final.

– Pra falar a verdade... – estava para contar quando meu celular tocou. Atendi já sabendo quem seria. Não queria falar com ele... Mas atendi sem pensar – Rose? Pera! Acalme-se! O que houve? – Cuddy me olhou apreensiva – Estou indo o mais rápido possível!

– O que houve?

– Sarah desmaiou enquanto brincava no quarto.

– Meu Deus... Pobrezinha...


Saí do hospital às pressas. A tarde terminava. Estava garoando e o céu havia fechado como se o mundo estivesse para desabar: é, um ótimo cenário para combinar com meu humor. Cheguei no mecânico já descabelada e ensopada, meu coração disparado. Sarah era muito fraquinha... Desmaios geralmente lhe significavam UTI. Além disso, ela confiava em mim mais do que em qualquer pessoa. Precisava ajuda-la.

– Hum, desculpe senhora Yukimura... Mas seu carro não poderá ser retirado hoje.

Primeiro pensei em reclamar sobre o nome, mas me preocupei com a segunda parte:

– O que está dizendo?!

– Há um grande problema com os freios e pela Lei nós teremos que repará-lo antes de lhe devolver.

– Mas que isso! Eu estou pagando! A vida é minha e se eu quiser correr perigo a escolha é minha!

– Desculpe, mas é a Lei.

Cerrei os dentes e me preparei para espernear. Foi quando avistei um casal de japoneses sair de um Corolla bege na rua:

– Ah, certo então. Eu... volto amanhã.

Dei meia volta como quem não quer nada. Não sabia o que estava dando em mim naquele momento. Minha vida já tinha acabado fazia horas! Que se dane tudo!

Esperei eles se afastarem e enquanto o senhor japonês entregava a chave a um funcionário eu corri e a peguei. Entrei com tudo no carro, enfiei a chave tremula e dei a partida. Saí sem nem por o cinto.


A chuva virara um temporal. Já havia anoitecido e eu não conseguia enxergar nada. Comecei a me desesperar. Já estava no alto de um viaduto quando o carro foi parando de funcionar: como sou inteligente. Deveria pensar antes de pegar emprestado um carro que está no conserto.

A chuva continuava a castigar o asfalto. Peguei o celular e pensei em pedir ajudar. Não era necessário pelo que eu via na tela do aparelho. Um vulto se aproximou do veículo e entrou ensopado. Sentou no carona:

– Oi...

– Oi – eu respondi.

– Antes que pergunte, eu... bem... Faz um tempo que instalei um bagulhozinho em você que me deixa ver sempre onde você está.

– Eu sei disso.

– Sabe é?

– É... Fiz o mesmo com você.

E eu enterrei a cabeça no volante.

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– Dia difícil? – perguntei a ela como quem não quer nada.

– É... Mais ou menos.

Dei uma olhada ao redor:

– Hum... Poçante maneiro. Esse é daqueles que deixa uma poça onde passa.

Por incrível que pareça, ela riu. Senti meu rosto queimar e ficar vermelho.

– Mô... Eu...

– Não precisa falar nada sobre ontem, Sanada. Sei que não foi nada.

WHAT?!

– C-como assim?

– Ué, teve ou não teve?

– Claro que não! A Saika é uma bexiguenta!

– Então...

– Mas como você... sabe?

– Você estava fedendo.

Eu a encarei surpreso. Ela deitou a cabeça no volante e me olhou. Estava sorrindo. Meu corpo tremeu. Eu peguei sua mão e apertei. Ela se encostou no banco e encarou a chuva que caía no vidro. Eu fiz o mesmo. Ficamos assim por vários segundos.

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Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.