Crônicas de um Agente Secreto
2 Capítulo 2
Capítulo 2
Dirigi, dobrei a esquina, acelerei, parei no farol vermelho, acelerei mais ainda no amarelo pra evitar o farol vermelho, mudei a marcha. Resumindo: cheguei ao prédio da SiSe. Bem, era uma Agência Secreta, mas de secreta não tinha nada: o prédio tinha cerca de trinta andares; era todo espelhado por fora, e por dentro era gigante. Já me perdi várias vezes lá, tendo que acessar o Google Maps pra me achar. Enfim...
Estacionei o Audi e entrei no prédio. A recepção estava praticamente vazia, com exceção da recepcionista, Tsuruhime – uma garotinha que não bate bem das ideia – e um maninho aí, um tal de Tokugawa Ieyasu, que é um baita puxa saco de todo mundo. Os dois estavam batendo o maior papo. Tentei andar o mais rápido possível para que os dois não viessem encher o saco, maslogo um sujeito com cara de bat-mordomo veio em minha direção:
- Olá, senhor Yukimura – ele tinha cara de quem peidou e finge que não foi ele – o senhor Oyakata...
- Sim, sim... Eu já sei Astolfo. Já estou indo, obrigado.
- Meu nome não é Astolfo, senhor. Creio que saiba disso...
- Sim, sim... Eu já sei Teobaldo – ignorei o pobre coitado que ficou pra trás gritando "Meu nome também não é esse" e cheguei na enorme porta de carvalho, toda detalhada e trabalhada em ouro e prata, e que fazia qualquer marceneiro morrer de inveja de quem fez esse serviço. Provavelmente o próprio autor do serviço deve sentir inveja de si mesmo.
Girei a maçaneta de ouro e entrei pela imponente sala: era gigante! Espaçosa! Com uma vista panorâmica na cidade inteira, através de uma janela de vidro que ia do chão ao teto. Havia várias estantes repletas de livros e documentos que pareciam ser importantes (eles eram mesmo importantes, só que eu era idiota demais pra ligar pra isso).
O Grande (e ele era grande mesmo, de largura, altura e conta no banco) Oyakata-sama estava parado em pé, olhando por sua janela/teladecinema e virou-se para mim com cara de preocupado. Aquilo foi estranho...
Em geral, quando eu entrava na sala dele, era algo mais ou menos assim:
- Grande Oyakata-sama!
- Yukimuraaa! E aê garotão! Tá bunito, óh! Como anda a vida, rapaz?
- Ah... sacomé, né? Tô levando numa boa...
- É! Eu sei bem! E a esposa?
- Doida, doida, tadinha...
- Ah garotão! Você pegou peixe bão eim! Quem é o garotão? Quem é o funcionário favorito do chefe?
- Posso responder isso não, chefe. Minha muié fica brava.
- Ah muleque!
E bem, hoje foi um pouco diferente.
- Yukimura! Está atrasado!
- Malz chefe. Trânsito, sabe?
- Trânsito? Às onze e meia? Num sábado?
- Que absurdo, né? – eu fui me sentando e cruzando as pernas pra fazer charme – Eu falo que esse povo dessa cidade é doido, doido...
- Não interessa! Vamos ao que realmente importa! Algo terrível aconteceu!
- Brigou com a mulher?
- Não! Pior! – e o grandão arregalou os olhos pra mim – Toyotomi Hideyoshi foi assassinado!
Pausa. Silêncio.
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Fiquei mudo, paralisei, arregalei os olhos e minha garganta secou. Quando me recuperei, a única coisa que consegui dizer foi:
- Como é que é? – e pisquei duas vezes para ter certeza que estava acordado.
- Isso mesmo que você ouviu, Yukimura.
- Não... Peraí chefe – e eu ri com a garganta seca – Isso só pode ser pegadinha, né? Cadê a câmera? Onde tá?
- Não seja ridículo! Acha que eu brincaria com uma coisa dessas?
E dessa vez eu me belisquei para ter certeza que não tinha dormido no carro. Meu braço doeu e ficou roxo.
- Porr*! Eu não tô dormindo...
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Toyotomi Hideyoshi, Ministro da Inteligência e Segurança Nacional. Ele é ex-militar, que consolidou-se como Marechal durante a ditadura de Oda Nabunaga. Quarenta anos atrás, nosso país vivia uma ditadura proclamada pelo General Oda Nabunaga, que procurou manter-se no poder por sete anos seguidos alimentados por quatro golpes de estado. Sua queda deveu-se ao Coronel Toyotomi, que bravamente lutou contra tamanha corrupção aliado a diversas organizações secretas, dentre elas, a SiSe. Após a destituição de Oda, Hideyoshi foi promovido a Marechal e há três anos ele é Ministro da Inteligência e Segurança Nacional.
Ou pelo menos era, pelo que vejo agora. Conheci Toyotomi em um jantar beneficente que ele organizou poucos meses atrás; Kasuga estava comigo na ocasião e concordou comigo que ele era excelente pessoa. Sim, porque o cara era quase um Oyakata-sama da vida! Tinha estilo, piadas boas e um coração gigante. Era sábio e experiente. Sentia-se isso só de olhar em seus minúsculos olhos. Um pouco depois desse jantar tive o prazer de participar, com minha equipe de agentes, de uma investigação a respeito de possíveis ameaças a vida do homem. É claro que deduzimos por fim que seria um falso alerta. Ainda sim não baixamos a guarda: avisei as tropas da agência que deveriam manter a máxima guarda possível sobre aquele homem e sua família. Na época cheguei a me sentir mal por chegar a pensar que estava preocupado com seu segurança apenas por ser um homem bacana e estando assim, desperdiçando tempo e vida dos guardas. Mas hoje vejo que tudo aquilo ainda foi insuficiente.
Toyotomi Hideyoshi estava sob a segurança mais segura deste planeta; e ainda assim, fora assassinado. O pior de tudo era que Maeda Keiji, um dos meus melhores amigos e parceiro na Companhia, era tutelado do tal Marechal.
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- Sente-se Yukimura – ordenou o Grande Oya-e-num-sei-mais-o-que. Percebi que estava em pé e obedeci a ordem, engolindo seco, com os olhos cheios d'água e as pernas bambas. Meu primeiro pensamento foi: "Como Keiji estaria neste momento?". Mas este não foi o primeiro pensamento de meu chefe.
- Me intriga saber, Yukimura, que você me assegurou de que Toyotomi Hideyoshi estava sob a guarda dos melhores equipamentos e soldados deste planeta. Então... COMO DIABOS VOCÊ EXPLICA ISSO?
Pronto! Taí! Minha demissão! Nessa hora eu percebi o quanto eu estava longe de me aposentar.
- Pois eu torno a repetir, senhor: definitivamente eu ordenei que os melhores soldados deste planeta se encarregassem da segurança de Hideyoshi.
- Então vejo que nossos conceitos a respeito de "melhores soldados" estão em patamares extremamente distantes, meu caro.
Eu me senti a pior pessoa do mundo: sujo, ignorante, podre... uma barata no esgoto. Nunca em toda minha vida havia recebido alguma crítica tão repugnante de um superior. Tentei prometer a mim mesmo de que seria a primeira e única, mas não consegui dirigir palavras ao cara lá de cima. Ao invés disso, fiz o que uma pessoa sensata faria em frente a uma pessoa prestes a explodir: mantive a calma, me desculpei e simplesmente concordei.
- Peço desculpas, senhor. Mas talvez o problema não esteja em minhas ordens, mas sim, na capacitação desses funcionários.
- O que? Ousa dizer que não treino devidamente meus soldados? Esses caras são considerados os melhores do mundo pela Avaliação Mundial de 2010!
- Exatamente, senhor. Veja bem o que o senhor acabou de dizer: 2010! Estamos em 2012, e tal Avaliação não foi refeita.
Bingo! Aquilo pareceu acalmar o Tigre e fazê-lo rever suas hipóteses.
- Acha mesmo que pode ter surgido em tão pouco tempo, uma organização melhor do que a nossa? – O gigante perguntou-me. Repentinamente, toda aquela fúria foi substituída por, me ajude Senhor, MEDO. Pela primeira vez na história deste mundo, o Grande Oyakata-sama estava com medo, perdido, sem ações, sem saber o que fazer.
- Não só acho como tenho como provar. Há registros de possíveis Atividades Ilegais a oeste do país. Isso não foi levado tão a sério porque não era nada comprovado e parecia ser algo pequeno. Mas após esse terrível incidente, começo a crer que tudo esteja relacionado.
- Sim! Mas é claro! – ele fez que sim e foi sentando-se, apoiando o enorme peso na enorme mesa – Isso faz sentido! Yukimura: reúna a equipe tradicional. Reunião em uma hora!
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Saí da sala já mais tranquilo por estar são e ter meu cerebelo sob controle, e comecei a andar pelo prédio para encontrar meus colegas de trabalho. O lugar estava realmente vazio e logo percebi que seria difícil encontrar alguém ali sem um telefone. Voltei para procurar o bat-mordomo e encontrei Ieyasu no caminho.
- Yo, Sanada! – ele acenou de longe e veio ao meu encontro – Que surpresa vê-lo aqui hoje! Pensei que estava de folga...
- E estava, mas aconteceram alguns incidentes e o Oyakata-sama me pediu que viesse.
Ieyasu logo se assustou.
- O que aconteceu?
- Nam cara, melhor não te contar agora. O chefe quer todo mundo do time na sala de reuniões em uma hora. Você sabe como posso encontrar o resto do pessoal?
- Bom, a Saika e Motonari são os únicos que estão aqui hoje, além de nós dois. Chosokabe deve estar na praia. Tenta ligar pro celular dele... Date e Sasuke, bom, aí é com você, já que são seus melhores amigos. E Keiji deve estar dormindo em casa.
- É bom, vou tentar falar com Date e Sasuke. Tenta localizar Chosokabe e Keiji.
- Pra já! – Ieyasu sorriu e saiu com determinação, como um cachorrinho treinado. Ele era um novato puxa saco que estava sempre pronto para obedecer a ordens como um cachorrinho treinado. Conversar com ele era um verdadeiro tédio: ele sempre falava de assuntos estranhos nunca antes documentados. Mas ele tinha lá suas qualidades, como: ser eficiente, rápido, flexível e de mente aberta. Ele era novo e bastante antenado no mundo jovem, e sempre nos ajudava com atualidades.
Após a saída de Yeyasu, aproximei-me de Tsuruhime, a garota da recepção.
- Ô menina! – chamei-a. Ela estava debruçada sobre a mesa, entediada e batendo com a caneta na beirada da mesa. Assim que me ouviu, levantou a cabeça.
- Senhor Yukimura?
- Quero que contate Saika e Motonari e diga-os para irem pra sala de reuniões em uma hora.
- Senhor, eles estão na Companhia. Por que não os procura?
- Porque quero evitar a fadiga! Anda menina! Faz logo isso e não reclama! Você é paga pra isso, mulher...
Saí impaciente e comecei a andar depressa em direção a saída.
- Yukimura!
Meu pesadelo finalmente chegara. Estava até agora tentando de tudo para evita-la, mas Saika Magoichi estava atrás de mim. Virei-me: ela estava me encarando confusa – como se eu estivesse louco – e com as mãos na cintura. Não me entenda mal, não é que eu não goste dela, ela é bem maneira até. Mas desde que contei pra Kasuga que tenho uma queda por ruivas (sacomé, né? Elas só são 7% da população... meio raro. Acho diferente... sei lá) e que nunca achei loiras muito atraentes ela surtou e não pode nem sonhar que estou falando com uma. Ela morre de raiva da Saika. Também tenho uma quedinha por japonesas, sabe como é né? Elas são... como é que se fala mesmo? Kawaii.
- Yukimura! Falei com você!
- Perdão Saika, não tinha escutado. Deseja alguma coisa?
- É, desejo sim. Quero saber o que diabos você pensa que tá fazendo com essa história de reunião? – ela me perguntou com seu jeito mandão de líder. Ela é meio assustadora as vezes por ser meio "macho". Sempre quer dar uma de líder, mas a verdade é que... sempre deixamos ela mandar em todos nós. Sério mesmo! Ela dá medo...
- Olha, não vem tirar satisfação comigo porque quem tá ordenando isso é o chefe. Então resolva isso com ele.
- O que tá acontecendo? – Mori Motonori aparecera nos encarando confuso, como se Saika e eu estivéssemos loucos. Ele é outro que me dá nos nervos: o senhor certinho. Se você quer guardar um segredo, nunca conte a ele! Se for algo antiético, ele vai te dedurar na hora para algum superior, ou no mínimo vai te encher de sermão até mudar de ideia. Também não conte ao Ieyasu... ele é fofoqueiro demais. Sabe como os jovens são...
- Olha – comecei já impaciente. Estava decidido a me livrar de todos ali e correr o mais rápido possível para ligar pra Kasuga – Eu só estou repassando as ordens do Oyakata-sama. Então, se querem alguma explicação, estejam na sala de reuniões em uma hora e vão ter todas as respostas que querem.
- Aonde você vai? – Motonari me perguntou curioso.
- ligar pra Kasuga. Deixei-a em casa as pressas quando o chefe me ordenou que viesse – reparei que Saika erguera uma sobrancelha para mim, como se estivesse curiosa para saber o que eu iria fazer.
- Ah sim... – concordou Mori. Motonari estava noivo de alguma coitada que nasceu com a bunda virada pro breu, pobrezinha, não sei como aguenta esse cara. Mas uma coisa eu admirava em Motonari: ele a valorizava demais; sempre que podia estava em sua companhia, enchendo-a de mimos e lhe ensinando coisas da vida. Acredito que ela tenha vivido muito presa, por ser filha de burocratas. Sua inocência fora preservada como se faziam as antigas famílias tradicionais, quando a sociedade era comandada por patriarcas. Motonari então, desde que a conhecera, passara a ensinar-lhe tudo sobre este mundo cruel e repugnante.
Os dois se retiraram. Saika continuou me encarando e me secando, até que eu comecei a me sentir desconfortável e vire-me. Dei uma olhadinha discreta de lado para vê-la e consegui enxergar que estava saindo atrás de Motonari. Suspirei de alívio. Algumas vezes no passado eu chegara a acreditar que a ruiva tinha uma queda por mim, e usei deste artifício para provocar a Kasuga. No entanto, isso estava começando a me preocupar demais ultimamente. O que aliviava minha tensão era saber dos rolos entre ela e Keiji; mas isso nunca me convencera totalmente.
Finalmente eu consegui chegar numa área vazia: o local para fumantes. Liguei para casa e enquanto chamava, comecei a pensar num zilhão de explicações para dar a minha mulher. Antes que pudesse escolher uma, ela atendeu. Decidi ir por extinto mesmo:
- Alô? Mô? Oi, sou eu.
- Oi, você demorou pra ligar... Está tudo bem?
- Ah, mais ou menos. Realmente meu chefe está com problemas e vou ter que ficar para resolver isso. O resto do meu time está chegando e vamos verificar isso. Liguei pra avisar que vou chegar tarde em casa.
- Ah... poxa! E Nosso dia juntos?
- Eu sei amor... Eu também estou muito bravo com tudo isso. Mas vou tentar resolver o mais rápido possível pra terminar meu dia bem com você... Prometo que brinco com você quando chegar em casa... – e eu sorri.
- Sanada!
- Brincadeira mô. Não vou mais falar essas coisas... Sou um menino de Deus – fiquei mais tranquilo ao ouvi-la rir – Bom, então vou indo amor. Te ligo mais tarde de novo. Beijão. Te amo. Tchau...
Desliguei o aparelho, estiquei as costas e suspirei. Seria realmente um dia longo...
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