Crônicas de Yuta: a sucessão do mago
1 Prólogo
A fuga era intensa. Cada vez mais se embrenhava floresta adentro e se sentia fatigado, com uma sensação claustrofóbica. O suor escorria pelo seu rosto. Seus dentes rangiam enquanto ele percorria o longo caminho em busca de alguma salvação. O ar estava quente e a sensação térmica estava dilacerando sua consciência. Ele contava com a vantagem de conhecer o terreno, entretanto isso não o salvaria para sempre. Em seu encalce vinha esquadrilha da cavalaria e os arqueiros do rei, aproximadamente vinte dos fiéis e temíveis seguidores do monarca de Äuledrin.
— Corra Veng, corra! — disse o arqueiro, para seu lobo de pelagem cinza-azulada, no qual montava.
O silvar das flechas ficava cada vez mais perto, rente a sua orelha. Veng desviava-se muito custosamente das flechas e as raízes das árvores faziam-no ter que diminuir sua velocidade, um tropeço, uma queda em meio àquela perseguição poderia ser fatal. O desespero começava a tomar conta de sua consciência, ele estava quase sem flechas e havia muitos cavaleiros. Ele não conseguiria contê-los e em breve acabariam chegando ao grande Desfiladeiro de Galiza, algo deveria ser feito e rapidamente. Já conseguia ouvir o forte retumbar das corredeiras na fenda da grande falha.
Estava perdido, contudo ainda poderia haver alguma salvação para seu lobo se algo fizesse. Veng sempre tinha sido um amigo, um parceiro leal e inestimável. Não conseguia imaginar como seria sua vida se algo de errado acontecesse àquele animal. Não o considerava meramente isso, ele era mais. Valia mais do que muita gente, era um irmão.
O arqueiro então se debruçou sobre seu lobo, seu companheiro, e sussurrou ao pé de seu ouvido:
— Vá direto a Guilean, o peregrino prateado, ele é o único que poderá nos ajudar agora. Eu vou atrasá-los.
Dizendo isso, o arqueiro ergueu seus braços, e agarrou-se a um galho duma antiqüíssima Sequoia. Com a velocidade que estava o lobo, mais o devido impulso, ele deu uma pirueta no ar, escalando alguns outros galhos da árvore, posicionou-se em pé, ereto, com seu arco já apontado e duas flechas em riste.
Os cavaleiros pareceram um tanto receosos, momentaneamente, ao verem a figura alta do arqueiro virar-se para eles. Com sua capa verde musgo sobre suas costas e um capuz que lhe tapava o rosto, mostrando apenas uma breve silhueta e uns poucos cachos de seus cabelos loiros.
As duas flechas foram disparadas, atingindo certeiramente a clavícula de dois dos cavaleiros, fazendo-os cair de seus cavalos, feridos. Abatidos. Prontamente as flechas que antes lhe caçavam e uivavam rente a seu ouvido voltaram a ter um alvo. Contudo, nenhuma o acertava. Esquivava-se com perícia. Veng já não mais estava no seu campo de visão.
A cavalaria se aproximava. Em sua frente, vinha uma figura imponente, grisalha, aparentando já sua meia idade, cabelos ondulados que se misturavam com sua barba escura. Mais visível era seu bigode farto que entrava em contraste direto com sua armadura prateada. Aquela armadura era o símbolo de uma patente elevada, adquirida apenas por aqueles que já provaram seu valor. O capitão tinha seus méritos. Era extremamente disciplinado, um mordaz guerreiro, inteligência aguçada e ávido em batalhas. As cicatrizes em seu rosto, os profundos arranhões e amassados em suas proteções eram a prova disso.
Seu nome era Wilfried Hubastank. Ou, como era mais conhecido, Capitão Hubastank.
-Infantaria, cessar ataque! – Ordenou o capitão para seus homens que imediatamente pararam de atacar e retomaram a posição.
A frenética cavalgada chegara ao fim. Os homens do rei alinharam-se, com seus arcos já preparados, em torno da árvore onde o arqueiro estava, mesmo que nenhuma das partes estivesse hostil. Hubastank desceu de seu cavalo e deu alguns poucos passos em direção ao elfo.
O arqueiro, percebendo que não seria alvo fácil onde estava caso a chuva de flechas voltasse a ocorrer, desvia levente seu olhar ao redor. Avaliava as expectativas: poderia tentar combate a todos eles, mas não poderia fugir. Não havia nenhum tipo de apoio que lhe proporcionasse algum tipo de fuga.
O melhor seria se entregar.
-Se entregue Gueffion – Retumbou forte e autoritária a voz de Hubastank – Se entregue e sua pena poderá ser negociada.
O arqueiro olhava friamente ao semblante do homem no chão. Incrivelmente o conhecia há tempos, tempos tão remotos e quase esquecidos que sequer as cicatrizes daquele rosto maltratado podiam memorar.
-Não se aproxime Hubastank... Capitão Hubastank – Replicou o arqueiro, fazendo questão de frisar desdenhosamente aquela patente.
Os cavaleiros olhavam inquietos aos dois, era claro o desconforto deles em meio àquelas duas imponentes figuras.
A caminhada de Hubastank avançava bastante lentamente, entretanto sem parar de rumar, desrespeitando assim os limites que lhe foram impostos. Agora, a pouquíssimos metros de distância da árvore, era possível que ele encarasse ao arqueiro bem no fundo de seus olhos.
-Não dê mais nenhum passo, capitão – Advertiu novamente – Não hesitarei em atacar.
O capitão desta vez, realmente, pareceu ponderar sobre o que lhe fora mandado, contudo, desobedeceu-a. Talvez temente de que alguma flechada lhe acertasse. Andou mais alguns passos em direção ao arqueiro.
Um ruído. Uma flecha disparada em direção ao capitão acertou-o diretamente em seu ombro, fazendo um furo quase imperceptível em sua armadura. Um furo em seu ego. Hubastank necessitou de muito autocontrole para não revidar àquela petulância. Apesar da segurança infundada do elfo, não seria problema para os arqueiros do rei lhe abaterem daquela distância.
Olhou desdenhosamente para a flecha. Um pequeno filete de sangue escorria em seu braço. A infantaria imediatamente recobrou-se em posição, não aceitariam uma agressão a seu superior de forma tão gratuita. O capitão apenas levantou o braço ileso, em sinal de que continuassem fora de hostilidades.
-Não relatarei isso aos meus superiores – Murmurou friamente o capitão, enquanto quebrava o corpo da flecha, deixando apenas a ponto cravada em seu ombro.
-Superiores? É assim que agora os chama? Clérigos demagógicos e corruptos. – havia um sinal de desapontamento na voz do elfo, como se este desacreditasse no que acabara de ouvir
— Meu velho amigo... Não faça nada... Imprudente. – O capitão fez questão de enfatizar essa última palavra.
– Há muito passaram a não se importar com causas cíveis, mas apenas com causas monetárias! Abastados eles em conhecimento e demagogia, contudo pobres de coração e de espírito! – ignorou o elfo.
Uma pequena feição de pena transpassou o rosto do militar, visivelmente renegado.
-Você não tem escolha, Gueffion. Entregue-se e prometo que terá um julgamento justo e não faremos nada contra você.
— Que garantia teria eu disso, Capitão?
Negocie sua entrega, elfo burro, não há escapatória.
Hubastank estava visivelmente irritado com a demora e com o prolongamento da situação toda, como todo militar, é de sua praxe a disciplina e o acatamento de suas ordens.
— A única garantia é minha palavra, elfo – coçou de leve sua barba – confie em mim como confiava antes. Submeta-se à corte e garantirei um julgamento justo.
Após ponderar por alguns segundos o elfo baixou seu arco, guardou suas flechas. Levou as mãos ao capuz, descobriu seu rosto e com um leve suspiro saltou, pousando lentamente ao lado do Capitão, com seus punhos já a mostra a espera de algemas.
— Prendam-no.
Os cavaleiros avançaram contra o elfo. Ataram-lhe as mãos e os pés, retiraram suas armas, vendaram-lhe os olhos e prenderam-lhe em um dos cavalos. Nenhuma objeção.
O arqueiro escutava a tudo que se passava ao seu lado. Uma vez privado de sua visão, apuravam-se, em puro instinto de sobrevivência, seus outros sentidos. O galope recomeçou, mas havia algo errado. Estavam indo na direção contrária ao reino, rumavam para o desfiladeiro!
Merda. Foi tudo o que teve tempo de pensar antes de levar uma coronhada de clava na cabeça e perder os sentidos.
Ao chegarem a alguns metros do Desfiladeiro de Galiza estocaram. Husbastank desceu de seu cavalo e aproximou-se do corpo inerte sobre o cavalo, devidamente amarrado e sussurou ao ouvido:
-No mundo em que vivemos, caro amigo, eu sou a lei. Eu sou o juíz e o algoz, você está pagando por sua insolência apenas.
Virou-se e deu um forte tapa no dorso do cavalo que disparou em direção ao desfiladeiro. Toda a cavalaria observava, impassível, disciplinada, domada.
Olhou para o encarregado:
— Reporte apenas que o elfo foi abatido em combate e vitimou um de nossos cavalos. – cuspiu no chão e montou novamente.
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