Notas iniciais
Pretendo colocar histórias isoladas, amarradas ao tema central. Quero que cada capítulo tenha início, meio e fim. Podendo o leitor ler qualquer capítulo sem muitas perdas de entendimento.

Hoje é 23 de outubro de 1974. Eu me chamo Manfred Zimmer. Moro numa pequena cidade no interior da Alemanha, chamada Wiehl. Mas não se apegue ao meu nome, nem ao lugar onde moro. Em breve não farão mais parte de minha história.

Venho mudando de identidade ao longo de muito tempo, isto para preservar minha identidade verdadeira.

Sou portador de uma bênção e (ao mesmo tempo) uma maldição. Mas vou resumir a história da minha vida para que eu seja entendido.

Nasci em algum momento do mês de março do ano 38. Isto mesmo, ano 38 DC, durante o governo de Calígula. Minha terra natal é Roma, na Itália. Nasci numa família genuinamente romana e seguindo a tradição da minha família fiz parte do exército romano durante o império de Cláudio. Logo a seguir o imperador Nero assumiu e aí a minha história realmente acontece.

No ano de 58 fui enviado para uma missão, sob as ordens do chefe da guarda do imperador, a uma terra distante. No caminho, parei numa pequena vila para descansar e fui atacado por uma pessoa muito forte, que me derrubou com um só golpe e resistiu a minha espada perfurando sua barriga. Fiquei sem entender como aquela pessoa ainda estava de pé (e lutando) enquanto qualquer um teria sucumbido. Mas fui atordoado por um golpe certeiro na altura do rosto, estava com a visão turva e senti uma dor intensa no pescoço. Uma mordida de um animal. Senti minha vida escorrendo. Quando ouvi sua voz dizendo que me daria uma chance de viver, mas que nada seria como era antes.

Confesso que não vi o ritual acontecendo, mas ele aconteceu. Caso contrário não estaria aqui relatando esta história.

O nome do meu algoz era Domenico Pellegrino. Não faço ideia de sua origem verdadeira. Mas ele me ensinou tudo o que eu sei e me deu condições de viver minha própria vida. Morreu pelas minhas mãos aproximadamente 35 anos depois do nosso primeiro encontro.

Me tornei um ser que é chamado de vampiro, pelas lendas. Mas não sou como as lendas relatam. Sou imortal, esta é minha bênção e minha maldição ao mesmo tempo.

Troco de cidade e de identidade a cada 40 ou 50 anos. Mas tenho de ter cuidado, pois minha aparência é de uma pessoa com menos de 30 anos de idade. Quando as pessoas começam estranhar minha aparência em relação a minha idade, é o sinal claro que tenho de começar um novo ciclo, uma nova era na minha vida.

Mas vamos a algumas curiosidades a respeito da vida de um vampiro. Algumas condizem com as crenças populares e outras são bem diferentes.

A conversão de um humano para um vampiro é feita através de um ritual, onde o vampiro conversor prova um pouco do sangue do convertido, deixa que o convertido prove um pouco do sangue de seu conversor. A seguir o conversor regurgita um pouco do sangue que bebeu de seu convertido e faz com que o mesmo o beba. Estudando um pouco a respeito deste processo, pude ver que o sangue regurgitado está misturado com várias substâncias do conversor. A tarefa de conversão tem de ser única e dedicada para esta finalidade. Se o conversor bebe sangue de mais de uma pessoa, a conversão não será bem sucedida e o candidato a conversão vai morrer. Mas se tudo correr bem, o convertido irá desmaiar e acordar no início da próxima noite.

A alimentação que nos satisfaz de verdade é, realmente, sangue. Mas não precisa ser sangue humano. Pode ser sangue de animal que satisfaz do mesmo jeito. E não precisamos de muito para nos sentir satisfeito. Algo em torno de um ou dois litros por semana é mais do que suficiente. Quanto maior for o animal, melhor nos sentimos. Podemos comer de tudo, não temos restrições em nossa dieta. Nosso sistema digestivo funciona normalmente. Mas temos de lembrar que barriga cheia não quer dizer que estaremos alimentados. Não sentimos fome quando estamos de barriga cheia, mas se não ingerirmos sangue ficaremos fracos. E se insistirmos em não ingerir sangue iremos ficar num estado similar ao coma.

A morte não nos assombra, apesar de lutarmos pela vida como todo e qualquer ser vivo. Existem algumas formas de se matar um vampiro. A mais clássica e eficaz é a decapitação. Estacas de madeira no coração não nos mata, só nos deixa muito irritados. A outra forma de matar um vampiro é mais complexa: Injeção de uma substância contendo nitrato de prata em nossas veias. Espadas de prata ou armas de prata não nos faz mal algum. Claro que situações drásticas também nos matam, como cair num rio de lava vulcânica ou mesmo um incêndio. Não tenho notícias de morte de vampiros por queda de qualquer altura. Eu mesmo já pulei de alturas superiores a 50 metros sem nenhum dano.

Sentimos dor, como todo ser vivo. Mas podemos ser tolerantes a ela em situações que estamos com raiva.

Cruzes, água benta, símbolos religiosos, templos religiosos não nos faz nenhum mal. Aliás, eu sou religioso, frequento uma igreja como qualquer pessoa.

Não nos transformamos em animais ou morcegos. Isto é pura lenda que quer nos associar com figuras demoníacas.

Somos estéreis. Não temos como nos reproduzir. Nosso sistema reprodutor não funciona. Temos vida sexual ativa, mas não há reprodução. Existem algumas histórias contadas por alguns de nossa espécie que relatam filhos de vampiros masculinos com mulheres humanas, e o filho é puramente humano, sem nenhuma característica de vampiro. A única coisa do pai que fica é a aparência física, proporcionada pela genética. Mas, como eu disse, são para mim, lendas. Nunca vi nenhum caso de perto. Apenas histórias que um contou ao outro.

Não somos alérgicos ao alho, como as lendas dizem. Não temos habilidades matemáticas como são divulgadas.

A luz do sol nos incomoda, mas não nos mata. Incomoda a ponto de nos deixar fracos e aí precisamos ingerir sangue para a devida recuperação. Então o melhor mesmo é não sair ao sol. Não conheço relatos de vampiros se dissolvendo ou queimando sob a luz do sol. Mas já ouvi relatos de vampiros em estado catatônico depois de uma tarde no sol de uma praia. Mas se recuperaram e passam bem.

Sim, existem vampiros que adoram beber sangue humano. São, na minha opinião, assassinos como qualquer outro.

Somos fortes, mas não tanto quanto relatam. Podemos dizer que temos a força de uns 10 homens.

Nossos dentes não crescem como é mostrado nos relatos. Não temos presas pontudas para morder. Quando fui mordido, foi uma mordida mesmo, do jeito que qualquer um sabe fazer. E não fui mordido na minha artéria, quando isto acontece a pessoa fatalmente morre e não é convertida. Convenhamos, existem formas bem mais elegantes de beber sangue do que mordendo.

Eu nunca converti ninguém. Eu acho que é muita responsabilidade. É entregar um poder grande na mão de alguém que não sabemos se vai utilizar bem. Mas já bebi sangue humano várias vezes.

Cerca de um ano ou dois após minha conversão, fiz o que a maioria dos convertidos faz: Procurei um acerto de contas com pesosas que me fizeram mal. Hoje em dia não me incomodo com situações assim e não procuro vingança. Mas não deixo passar em branco quem me quer mal, embora não mate ninguém. Assaltantes recebem de mim uma boa lição.

Não dormimos em caixão. Precisamos de oxigênio para viver (assim como todo e qualquer ser vivo). Somos capazes de sobreviver muito tempo sem respirar. Em algumas brincadeiras eu consegui ficar algo em torno de 8 ou 9 horas. Fiquei imerso num lago junto com alguns amigos. Não fui o primeiro a sair, mas não fui o último.

Não sentimos sono como os humanos. Nossa necessidade de dormir diminui muito. Duas ou três horas de sono são suficientes. Eu procuro fazer isto durante o dia. A noite fico acordado.

Nós não envelhecemos na nossa aparência. Por isto não tenho relacionamentos afetivos. Não acho interessante me relacionar com mulheres que irão envelhecer e me ver ficando do mesmo jeito. Aí quando ela tiver aproximadamente 40 anos eu vou ter deixa-la para iniciar uma nova vida, com outra identidade em outro lugar. Isto é um transtorno. Já encontrei com uma mulher que tinha mais de 70 anos que teve uma crise histérica ao me ver. Claro que tive de negar que a conhecia. Ela acreditou que eu era filho (ou neto) de seu antigo amor. Então é melhor nem me relacionar.

Hoje eu aproveito o tempo para estudar o que puder. Cada identidade é a oportunidade para estudar alguma coisa nova ou continuar algo que já havia iniciado. Tentei ser médico ou profissional da área da saúde. Mas o cheiro do sangue me incomoda muito. Imaginem-se manuseando um alimento que você gosta muito. Não é muito fácil ou agradável. Então eu prefiro não ficar por perto. Para todos eu digo que tenho fobia de sangue.

Álcool nos embebeda, drogas nos deixam fora de nossa realidade (tal como acontece com qualquer ser humano). Hoje eu prefiro me manter sóbrio, mas nem sempre foi assim.

Com o passar dos anos, confesso que a troca de identidade tem ficado cada vez mais complicada. Antigamente bastava a palavra para gerar uma nova identidade. Mas isto foi mudando.

Participei de muitas guerras. Matei muito soldado nazista. Muitos tentaram me matar e não me canso de achar engraçada a cara que fazem quando insisto em não morrer. Hoje, se houver uma guerra, eu prefiro me manter longe.

Atualmente nenhum humano sabe de minha condição. Os que sabiam já morreram. Já tive situações complicadas com pessoas dizendo que eu tinha pacto com o Demônio. Já tive de fugir de alguns lugares por causa disto.

Eu não fico doente. Nenhuma doença me atinge, nem mesmo um simples resfriado. De igual forma eu não transmito nenhuma doença. Imagino que nenhuma doença consiga sobreviver no meu corpo.

A história está recheada de pessoas da minha espécie que, acreditem, ainda estão vivos. Apenas em outros lugares e com identidades diferentes.

Notas finais
Não sei quando vou poder postar mais, mas vou postar. Incentivos, críticas, sugestões e ideias são sempre bem vindas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.