Crônicas de Um Cadáver

6 1001 Maneiras de se Pintar um Morto


E eu estava certo. Naquela manhã Mona me acordou cedo e me levou ao quarto dela, trancando a porta em seguida. Me perguntava francamente o que se passava pela cabeça daquela mulher pra me conduzir àquela situação, ainda mais se considerarmos que ainda usávamos roupa de dormir, ou pelo menos eu usava.

- Certo Dimitri, — Ela ia me dizendo — Lembra-se do que Karl nos disse sobre maquiar os mortos para o funeral? Bem, eu andei pesquisando na internet e descobri que eles usam um tipo de maquiagem específica muito cara e difícil de achar. — Ela prosseguiu: — No entanto acho que podemos recriar este efeito usando isto: — Ela mexeu em algo dentro do armário e tirou várias latas de tinta spray.

— Tinta? — Perguntei — Você quer me pintar como se eu fosse uma parede?

- Bem, essa é a ideia geral. Mas eu fiz curso de maquiagem, então não se preocupe. — Mais uma vez ela não era capaz de esconder a empolgação da voz.

E foi assim que aquela louca semana começou. Com uma visita da própria Morte e eu, mais uma vez nu, deitado no chão da sala coberto de jornais sendo borrifado com tinta spray numa tentativa desesperada de cobrir o tom esverdeado da minha pele. Depois de cinco dias de aplicação, muita paciência e umas lentes de contato \"emprestadas\" eu começava a me parecer com um ser vivo. O cheiro já havia sido resolvido com uma boa quantidade de alvejante, uma vez que um simples perfume não bastava.

- O que acha Bob? — Mona perguntava ao irmão como quem pede opinião sobre uma obra de arte, não que minhas nádegas não sejam uma. — Eu não ache que precise de mais uma mão, ninguém vai olhar aí mesmo. — Ela sentou-se no chão soltando uma exclamação de cansaço. — É isso Dimitri, agora a tinta é bem resistente mas tome cuidado viu? Não quero ter esse serviço denovo.

- Jura Mona? Achei que estava gostando! — disse enquanto me levantava do chão. — Agora se me dá licença, eu vou esperar a tinta secar. — E saí em direção ao meu quarto.

Mas a tinta não era o problema. O fato é que desde então a Morte não aparecia. Ela prometeu manter contato e me manter informado caso descobrisse algo sobre \"o caso dos mortos-vivos\", ou pelo menos era assim que ela chamava a bizarra situação em que eu e muitas outras pessoas nos encontrávamos.

Naquela noite, ao chegar do serviço Mona nos disse que havia recebido outra ligação de seus pais. Eles viriam no dia segunte, domingo, de manhã. E eu não parecia o único incomodado com a visita. Peguei-a desprevenida naquela noite e fui direto ao assunto:

-Seja sincera Mona, eu sou a única causa de não querer seus pais por aqui? — perguntei.

- Você não os conheçe Dim. E francamente nem eu sei se os conheço. — disse. — Eles sempre me trataram como uma esquisita. Tudo bem, eu sei que não sou muito normal, mas esperava que ao menos minha mãe e meu pai me compreendessem. E foi exatamente ao contrário, sempre me criticaram, sempre me trataram com desleixo. Não foi à toa que eu saí de casa tão cedo! — As lágrimas começavam a surgir em seu rosto. Achei melhor interromper a conversa.

- Eu entendo. Mas não se preocupe! Vai dar tudo certo, são apenas 7 dias, nada vai dar errado. — disse — agora está tarde, é melhor irmos dormir.

Mas eu não consegui sequer ficar deitado. Era a primeira vez que encontrava alguém, fora é claro os bizarros irmãos Willians, e desde a minha morte.